Abas primárias

obra

Escrito por Margaret Mead (1901-1978), Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), consolidou a antropóloga como autora de sucesso, abrindo caminho para o seu reconhecimento como pioneira nos estudos de relações de gênero. Fruto de trabalho de campo realizado em Papua-Nova Guiné, na companhia do antropólogo Reo Fortune (1903-1979), seu marido na ocasião, o estudo se concentra em três povos da região do rio Sepik: os Arapesh, os Mundugumor e os Tchambuli (Chambri). Mead observou as personalidades atribuídas a homens e mulheres em cada uma dessas sociedades, concluindo que características psicológicas femininas e masculinas (os temperamentos) não são inatas, mas padrões culturais aprendidos e ensinados de uma geração a outra, sustentando, com isso, a ideia de que a cultura molda o comportamento, assim como produz a diferenciação de personalidades entre os sexos, argumento que  irá desenvolver, posteriormente, no livro Male and Female (1949).

Reo Fortune, “Mead conduzindo flautistas". Vila Alitoa, Arapesh, 1932. Impressão em gelatina de prata. Biblioteca do Congresso, EUA.

Entre os Arapesh, a antropóloga encontrou uma sociedade em que homens e mulheres mostravam-se gentis, não agressivos, cooperativos e atentos às necessidades alheias. Não eram guerreiros ou vingativos, embora pudessem ocorrer conflitos em virtude de casamentos, quando estes se davam em razão de fuga ou rapto. Além disso, Mead deparou-se com um povo em que homens e mulheres apresentavam temperamentos semelhantes, inclusive no que dizia respeito ao cuidado dos filhos. Este traço é especialmente destacado no livro, pois se nos EUA as crianças eram consideradas uma incumbência das mulheres, aí também os homens delas se ocupavam. Já entre os Mundugumor, a autora se deparou com um povo violento, implacável e agressivo. Os comportamentos, por sua vez, não diferiam muito em razão do sexo: homens e mulheres assumiam atitudes hostis e havia conflitos por todos os lados. Por fim, entre os Tchambuli, as atitudes masculinas e femininas mostravam-se bastante distintas, tendo as mulheres um protagonismo evidente: elas eram dotadas de poder dentro das aldeias; eram as principais fornecedoras de alimentos, também responsáveis pela pesca, por negociar o excedente em troca de outros víveres e pela produção da riqueza (com a venda de mosquiteiros). Os homens, de seu lado, se dedicavam à arte e à estética, e eram emocionalmente frágeis. Tal padrão chama a sua  atenção por ser o inverso do comportamento tradicionalmente atribuído aos sexos na sociedade estadunidense da época: entre os Tchambuli, as mulheres não desempenhavam funções secundárias ou desvalorizadas porque mais restritas à esfera doméstica; ao contrário, eram provedoras e pouco se dedicavam às atividades ornamentais, consideradas femininas nos Estados Unidos e em outros contextos.

Mead também se detém sobre os “inadaptados” em cada um dos povos estudados, aos quais dedica um capítulo inteiro da obra. Os inadaptados seriam aqueles que não se conformariam aos papéis sociais impostos, não atendendo ao temperamento socialmente determinado. Incapazes de se adequarem à personalidade social exigida por sua cultura, apresentavam atitudes “desajustadas”. Entre os Arapesh, correspondiam às pessoas agressivas, eventualmente obrigadas a deixar a aldeia por algum tempo; para os Mundugumor, eram os indivíduos excessivamente gentis e cooperativos; já entre os Tchambuli, eram aqueles que não possuíam afinidades com o comportamento visto como natural para o seu sexo, aproximando-se das atitudes e temperamentos do sexo oposto.

A despeito da importância do estudo para as reflexões posteriores sobre o gênero na antropologia, nos estudos culturais e nas teorias feministas, assim como o seu caráter de crítica cultural - já que os exemplos não ocidentais funcionam como uma ferramenta de interpelação às normas e convenções norte-americanas - o livro recebeu uma série de críticas. Segundo o antropólogo David Lipset, a primeira veio de Reo Fortune, seu ex-marido e companheiro de trabalho de campo, em 1939. De acordo com Fortune, a inclinação para o cuidado maternal, partilhada entre por homens e mulheres Arapesh, seria uma criação hipotética de Mead. E em relação ao comportamento não-agressivo desse povo, continua, embora eles não tivessem guerreado nos dezessete anos anteriores às pesquisas realizadas pela antropóloga (que começaram em 1931), a guerra era uma presença na vida social e o ato de seduzir uma mulher casada podia desencadear sérios conflitos. Crítica, aliás, rebatida por Lipset que reafirma o argumento de Mead:  a despeito da existência de conflitos, os Arapesh não glorificavam a guerra. Outros especialistas, como Deborah Gewertz e Frederick Errington também refutaram as conclusões de Mead sobre a posição das mulheres entre os Tchambuli. Em um primeiro momento, os autores afirmam que, ao contrário do que dizia a antropóloga, os homens dominavam as mulheres; anos depois, voltam atrás e defendem que homens e mulheres Tchambuli estavam em esferas muito diferentes de atuação e por essa razão as mulheres não poderiam, nem almejavam, ter acesso ao poder dos homens. Para Lipset, que revisita todos esses debates, não seria possível entender homens e mulheres Tchambuli em uma escala de poderes, ou seja, um sexo não dominava o outro, nem procurava fazê-lo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/obra/sexo-e-temperamento-em-tr%C3%AAs-sociedades-primitivas>

Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas

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data de publicação
11/12/2018
autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

palavras chave
Melanésia, sexo, gênero, culturalismo, etnografia
bibliografia

GEWERTZ, Deborah & ERRINGTON, Frederick, “The remarriage of Yebali: a study of dominance and false consciousness in a non-Western society” In: STRATHERN, M. (dir). Dealing with inequality: analyzing gender relations in Melanesia and beyond, Cambridge, Cambridge University Press, 1987

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret. Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)