Abas primárias

obra

Pouco mais de meio século após a sua primeira publicação, em 1958, Le vaudou haïtien, do antropólogo suíço naturalizado estadunidense, Alfred Métraux (1902-1963), se mantém, ainda hoje, como uma das principais referências para aqueles que se dedicam ao tema. Baseado em trabalho etnográfico intensivo, o livro tem como objetivo realizar uma sistematização, até então inédita, do conhecimento sobre o vodu haitiano. Trata-se de uma tentativa de apreender a religião em sua totalidade, começando pela história e pelos contextos econômicos e sociais (temas do primeiro e segundo capítulos do livro); passando por sua cosmologia e rituais (abordados no terceiro e quarto), por suas ligações com a magia e a bruxaria (quinto capítulo), chegando, por fim, à sua profunda relação com o cristianismo (capítulo final). O vodu é considerado por Métraux um sistema religioso, resultado da junção de tradições diversas, especialmente africanas e europeias, que teriam começado a se organizar na antiga colônia francesa de Saint Domingue (atual Haiti) durante o século XVIII. Além disso, estruturado em torno dos problemas e demandas cotidianas de uma população pobre e camponesa, é visto como espaço de sociabilidade, de lazer, de organização da casa, da família e da comunidade, além de possuir uma cosmologia rica e plástica. Essa compreensão ampliada do vodu - ao mesmo tempo religião, modo de conhecimento e expressão estética - talvez seja um dos fatores responsáveis pela atualidade da obra.

Métraux empreende a pesquisa que dá origem ao livro durante toda a década de 1940, momento central tanto para sua carreira quanto para a história do Haiti. No total o autor faz três incursões ao país, ocasiões em que conhece também boa parte da intelectualidade local, como o escritor e político Jacques Roumain (1907-1944) e a antropóloga auto-didata Odette Menesson Rigaud, que seria sua guia pelos hounfò [santuários vodu] de Porto Príncipe. Menesson-Rigaud é quem lhe apresenta também à mambo [sacerdotisa vodu] Lorina Delorge, sua principal interlocutora de pesquisa (Le vaudou haïtien está dedicado a ambas). Ainda da perspectiva de sua trajetória profissional, o período representa uma transição: Métraux deixava um trabalho no Smithsonian Institute, sediado em Washington, nos EUA, onde se dedicara à preparação do Handbook of South American Indians (1941-1946), para ocupar um posto na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Paris, onde permaneceria até o fim de sua vida, trabalhando no setor de ciências sociais. É como funcionário da Unesco que ele passa sua temporada mais longa no Haiti, responsável por uma missão educacional na região rural de Marbial, ao sul de Porto Príncipe, entre 1948 e 1950, quando desenvolve o estudo já iniciado sobre o vodu. Nos 1940, o Haiti vivia um importante movimento de reconhecimento identitário e a valorização da herança africana se convertia em elemento chave na construção da ideia de cultura nacional. Se antes de 1920, o vodu aparece majoritariamente associado, pelas elites haitianas e estrangeiras, à barbárie e ao atraso, nos anos posteriores ele será objeto de enaltecimento da alma do povo e patrimônio nacional, a ser protegido dos constantes ataques que sofria por parte da Igreja católica, no bojo das chamadas “campanhas antisuperstição” (a última delas levada a cabo em 1942). Na medida em que não toma o vodu como superstição, mas como uma religião popular passível de sistematização e interesse científico, o estudo de Métraux soma-se aos esforços de proteção e de dignificação do vodu.

GOYATÁ, Julia Vilaça, 2016, "Assentamento para Legba. Péristyle de Mariani, Haiti", Acervo pessoal. Fotografia digital.

Lembremos que Le vaudou haïtien se insere em um programa de pesquisas mais amplo: o da escola afro-americanista inaugurada pelo antropólogo norte-americano Melville Herskovits (1895-1963), que procurava reconhecer e compreender tradições que tinham suas raízes na África, mas que com o tráfico escravista transatlântico ganhavam novos contornos nas Américas e no Caribe. O caso do vodu no Haiti seria, segundo as formulações de Métraux, capaz de iluminar os estudos sobre outras religiões afro-americanas, como a santería em Cuba e o candomblé no Brasil.

Como citar este verbete:
GOYATÁ, Júlia Vilaça & DALMASO, Flávia Freire. 2018. "Le vaudou haïtien". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/obra/le-vaudou-haïtien>

Le vaudou haïtien

V
data de publicação
11/12/2018
autoria

Júlia Vilaça Goyatá e Flávia Freire Dalmaso

palavras chave
Haiti, vodu, religião
bibliografia

BRUMANA, Fernando, “El Métraux haitiano. La construction de una etnología religiosa”, Journal de la société des américanistes, 102-2, 2016, p. 145-167

BULAMAH, Rodrigo, “Alfred Métraux: between ethnography and applied knowledge”, Oxford research encyclopedia of Latin American history, Oxford University Press, 2017

HURBON, Lannäec, Le barbare imaginaire, Paris, Éditions du Cerf, 1988

LAURIÈRE, Christine, “D’une île à l’autre: Alfred Métraux en Haiti”, Gradhiva, n.1, 2005, p. 181-207

LÉVI-STRAUSS, Claude, TARDITS, Claudie, RIVIÈRE, Georges-Henri, JAMIN, Jean, LEIRIS, Michel & BASTIDE, Roger, “Hommage à Alfred Métraux”, L'Homme, tome 4 n°2, 1964, p. 5-1.

MAGLOIRE, Gérard & YELVINGTON, Kevin, “Haiti and the anthropological imagination”, Gradhiva, n. 1, 2005, p. 127-152

MÉTRAUX, Alfred, Itinéraires I. Carnets de notes et journaux de voyage, Paris, Payot, 1978

MÉTRAUX, Alfred. Haiti, Pictures by Pierre Verger and Alfred Métraux, New York, Universe Books, 1960

PRICE-MARS, Jean, Ainsi parla l’Oncle (1928), Port-au-Prince, Les Éditions Fardin, 2011

TROUILLOT, Michel-Rolph, “The odd and the ordinary: Haiti, the caribbean, and the world”, Cimarro’n, v. 2, n. 3, 1990, p. 3-12

VERGER, Pierre, “Voodoo in Haiti”, Alfred Métraux, Man, v. 60, jul., 1960, p. 111-112