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Jean Price-Mars (1876-1969) foi um antropólogo, professor, diplomata e político haitiano, cujo trabalho antropológico examinou sobretudo a cultura e a religião populares haitianas, suas origens africanas e europeias, e sua relação com o colonialismo e a escravidão. Seus escritos e atuação como intelectual público foram fundamentais para a constituição da antropologia em seu país; para a transformação da imaginação nacional haitiana; para a Négritude – movimento artístico e literário francófono das décadas de 1930 e 1940, que buscava valorizar e desenvolver as tradições culturais africanas e afrodiaspóricas – e para os pensamentos caribenho e pan-africanista.

Jean Price-Mars cresceu em uma família de classe média do norte do Haiti, recebeu uma educação religiosa de seu pai protestante e de sua avó católica (o que influenciaria a sua posterior defesa da tolerância religiosa contra a perseguição que o vudu sofria do Estado e da Igreja católica haitianos) e concluiu seus estudos secundários no Lycée Pétion, a mais antiga e prestigiosa escola secundária de Porto Príncipe. Recebeu em 1899 uma bolsa para estudar medicina em Paris, onde frequentou igualmente aulas de ciências sociais na Sorbonne, no Collège de France e no então chamado Musée d’Ethnographie do Trocadéro. Tendo sua bolsa interrompida em 1901, só retomaria seus estudos de medicina em 1922 e os concluiria em 1923. Ao longo de toda sua vida, Price-Mars alternou períodos atuando como professor e político no Haiti e como diplomata no exterior. Esta última carreira durou de 1903 a 1956, tendo sido representante do Haiti em vários países da Europa e das Américas. Lecionou em escolas de 1918 a  1930, ano em que se candidatou, sem sucesso, à presidência do Haiti. Teve, porém, uma longa carreira em cargos públicos: foi deputado (1904-1908), Inspetor Geral da Instrução Pública (1912-1915), senador (1930-1935 e 1944-1946) e Ministro de Relações Exteriores (1946-1956).

Jean Price-Mars, autoria desconhecida, ca. 1948-50, arquivo CIDIHCA

A trajetória de Price-Mars exemplifica dois traços comuns aos intelectuais antilhanos: um forte compromisso com a vida pública de seus países e uma marcada orientação cosmopolita. Como observou C.L.R. James (1901-1989), ativista e historiador de Trinidad e Tobago, os pensadores caribenhos sempre entenderam e intervieram em suas ilhas a partir de suas vivências nos continentes americano, africano e europeu, e de suas reflexões sobre eles. Price-Mars aproveitou regularmente suas passagens pelo exterior para estudar a formação histórica, social e cultural do Haiti e da África e estabelecer intercâmbios com intelectuais estrangeiros. Particularmente notável, nesse sentido, foi seu envolvimento com outros artistas e intelectuais negros – africanos, caribenhos e estadunidenses – que criaram durante o século XX um novo espaço público e uma nova identidade comum no Atlântico Negro. Nos anos 1930, Price-Mars frequentou em Paris o salão da intelectual martinicana Paulette Nardal (1896-1985), lugar fundamental para a fermentação da Négritude. Embora Price-Mars não tenha feito parte formalmente do grupo que liderou o movimento – o martinicano Aimé Césaire (1913-2008), o franco-guianense Léon Damas (1912-1978) e o senegalês Léopold Senghor (1906-2001) – seu trabalho teve forte influência sobre a Négritude e é reconhecido como uma de suas grandes expressões.

O livro de maior impacto de Price-Mars é Ainsi parla l’oncle, de 1928, que interpreta diversos aspectos da cultura haitiana, especialmente o folclore, a música, o parentesco e o vudu. Esse ensaio se dirige em grande medida à elite haitiana e sustenta que, ao contrário do que ela pretende, os haitianos não são “franceses de cor”, mas portadores de uma cultura que mistura criativamente elementos africanos e europeus. Ao enfatizar o legado africano do Haiti, o trabalho se insere em duas grandes tradições do pensamento latino-americano e caribenho: os ensaios de interpretação nacional – mais comuns nos países de fala ibérica – e as análises clássicas da identidade negra – mais típicas das Antilhas anglófonas e francófonas. Price-Mars desenvolve aí argumentos sobre a relação entre cultura e poder que a antropologia do Norte Global só faria décadas mais tarde, interpretando, por exemplo, o vudu e o folclore como formas de resistência ao colonialismo e à escravidão.

 Alguns dos livros de Price-Mars têm caráter fortemente antropológico – como Formation ethnique, folklore et culture du peuple haïtien (1939) – e outras feitio mais histórico, como De la préhistoire d'Afrique à l'histoire d'Haïti (1962). Dois outros trabalhos que merecem destaque são La vocation de l’élite (1919), que denuncia a persistência de formas de poder coloniais no Haiti pós-colonial, e a biografia Joseph Anténor Firmin (1978, publicada postumamente), sobre o antropólogo físico haitiano  (1850-1911) que atacou o racismo pseudocientífico no ensaio L’égalité des races humaines (1885). Ademais, Price-Mars foi fundamental para a institucionalização da antropologia no Haiti, criando em 1941 o Institut d’Éthnologie, onde lecionou até 1947. Ele foi ainda reitor da mais importante universidade do país, a Université d'État d'Haïti, da qual se aposentou em 1960, quando o ditador François Duvalier aumentou o controle sobre a instituição.

Várias publicações de Jean Price-Mars são baseadas em conferências públicas realizadas em instituições não acadêmicas no Haiti, o que demonstra o seu compromisso como intelectual público e ajuda a entender como ele contribuiu para a reconfiguração da imaginação nacional ao valorizar as origens africanas do país e combater sua persistente herança colonial e racista. Para além do Haiti, Price-Mars deixou um legado amplamente reconhecido na esfera pública afroatlântica. Em 1956, presidiu o Premier Congrès des Écrivains et Artistes Noirs, em Paris, e foi eleito presidente da Sociedade Africana de Cultura, ligada à Unesco. Recebeu vários prêmios internacionais, como a Orden del sol peruana e um doutorado honoris causa da Universidade de Dacar. Seu trabalho influenciou fortemente o pan-africanismo e atualmente é revalorizado como precursor dos pensamentos pós-colonial e decolonial.

Como citar este verbete:
GONÇALVES, João Felipe. 2019. "Jean Price-Mars". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/autor/jean-price-mars>

Jean Price-Mars

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data de publicação
05/12/2019
autoria

João Felipe Gonçalves

palavras chave
Haiti, Négritude, Caribe, Jean-Price Mars
bibliografia

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