Abas primárias

obra

O livro A Invenção do Cotidiano (1980) do historiador e antropólogo francês Michel de Certeau (1924-1986) desdobra-se em dois tomos: Artes de fazer (volume 1) e Habitar, cozinhar (volume 2), este escrito com Luce Giard, historiadora das ciências e da religião, e Pierre Mayol, aluno de Certeau. A obra é fruto de um trabalho coletivo realizado entre 1974 e 1977, a partir de uma encomenda do Ministério da Cultura francês interessado em questões de cultura e de sociedade, e sobre as quais Certeau trabalhara em obras precedentes, por exemplo em La culture au pluriel (1974). À proposição feita, Certeau e equipe respondem pela análise das práticas culturais cotidianas, tema a partir do qual desenvolvem uma abordagem do consumo cultural, pensado como dimensão criadora e inventiva.

No primeiro e mais difundido volume da obra, em função de pesquisa empírica detida, o autor esboça uma reflexão sobre as práticas ordinárias, aproximando-as dos “modos de fazer” das pessoas comuns, atento às diversas maneiras pelas quais fazem uso de regras e convenções impostas por uma ordem social e economicamente dominante. Para isto, escolhe para análise campos corriqueiros de ação: o espaço, a língua, a crença, entre outros. Trata, por exemplo, do caminhar pela cidade como um modo de “praticar o espaço” e apropriar-se do traçado urbano, não previsto pelos planos urbanísticos; examina também relatos de milagres entre os lavradores de Pernambuco que, ao mesmo tempo, que partem de preceitos do catolicismo tradicional, produzem “modos de crer” diversos; ou, ainda, do ato corriqueiro de ler, considerado como uma forma de apropriação do texto pelo leitor, que o realiza segundo seus códigos próprios de percepção e interesses. O segundo volume da obra, por sua vez, visa “traçar as interligações de uma cotidianidade concreta” por meio de vasto material etnográfico, estatístico, cartográfico e de entrevistas, reunido por Pierre Mayol que investiga as práticas do habitar no então bairro operário de Croix-Rousse em Lyon, e por Luce Giard, que se detém sobre as práticas de cozinhar.

A Invenção do cotidiano ancora-se em ideias e procedimentos provenientes de diversos campos de conhecimento: história, teologia, educação, psicanálise, filosofia, antropologia e linguística. Michel de Certeau aponta como suas principais inspirações a psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939); a filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e John Langshaw Austin (1911-1960); a antropologia de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e a filosofia de Immanuel Kant (1724-1804). Ao mesmo tempo, estabelece interlocuções fundamentais com Michel Foucault (1926-1984) e Pierre Bourdieu (1930-2002), a partir das quais delimita o campo das práticas; e com Marcel Detienne (1935) e Jean-Pierre Vernant (1914-2007) com quem dialoga para definir sua noção de tática. Duas obras de Foucault e Bourdieu são especialmente importantes nesses diálogos: Vigiar e Punir (1975), na qual Foucault relata a emergência de um novo tipo de controle sobre os sujeitos e seus corpos, sintetizada pelo modelo do panóptico e Esboço de uma teoria da prática (1972), na qual Bourdieu analisa instituições das sociedades kabila do norte da Argélia. Problematizando o olhar centrado exclusivamente nos procedimentos de controle (Foucault) e na ideia de determinação do habitus (Bourdieu), Certeau coloca o seu foco, não na imposição de padrões de comportamento, mas nos diferentes modos pelos quais as práticas cotidianas podem subverter imposições e controles diversos. A distinção entre “estratégia” e “tática” é central para o desenvolvimento da noção de prática cotidiana do autor, mais próxima do segundo termo. A ideia de tática inspira-se na análise que Detienne e Vernant realizam sobre a noção grega antiga de métis, forma astuciosa ou ardilosa de inteligência; trata-se formas de saber e conhecimentos práticos, que dependem de uma ocasião, ou momento oportuno (kairós) para serem colocados em ação.

A amplitude de inspirações teóricas em A Invenção do Cotidiano e os alcances da abordagem original da vida social e da cultura que apresenta fizeram da obra uma referência para estudos nas áreas de História, Antropologia, Educação, Literatura, Estudos Urbanos e Culturais, entre outros.

A Invenção do Cotidiano

I
data de publicação
02/05/2016
autoria

Bruno Ribeiro da Silva Pereira e Mariana Luiza Fiocco Machini

palavras chave
cultura, política, espaço, linguística, ação, linguagem
bibliografia

AUSTIN, John Langshaw, Philosophical papers, Londres, Oxford University Press, 1970.

CERTEAU, Michel de, La culture au pluriel, Paris, Union Générale d’Éditions, 1974 (Tradução de Enid Abreu Dobránszky. São Paulo, Papirus, 1995).

CERTEAU, Michel de, L’invention du quotidien: 1. Arts de faire, 1980, Paris, Gallimard, 1980 (Trad. Bras. Ephrain F. Alves. Petrópolis, Vozes, 2014).

CERTEAU, Michel de, GIARD, Luce & MAYOL, Pierre, L’invention du quotidien : 2. Habiter, cuisiner, Paris, Gallimard, 1980 (Trad. Bras. Ephrain F. Alves e Lúcia Endlich Orth. Petrópolis, Vozes, 2014).

CERTEAU, Michel de, Histoire et psychanalyse entre science et fiction, Paris, Gallimard, 1987 (Trad. Bras. Guilherme J. de Freitas Teixeira. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2011).

CERTEAU, Michel de,  “La révolution fondatrice, ou le risque d’exister”, Études, julho de 1968. Online em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k441829m/f81.image.r=jesus.langFR. Consultado em 20 de julho de 2015.

CERTEAU, Michel de, “Pour une nouvelle culture: le pouvoir de parler”, Études, outubro de 1968. Online em : http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k441831x.image.r=jesus.f57.pagination.langFR. Consultado em 20 de julho de 2015.

BOURDIEU, Pierre, Esquisse d’une théorie de la pratique. Précédé de Trois études d’ethnologie kabyle, Genève, Librarie Droz, 1972 (Trad. Port. Oeiras, Celta Editora, 2002).

CHARTIER, Anne-Marie & HÉBRARD, Jean,  L’Invention du quotidien, une lecture, des usages, 1988 (Trad. Bras. Mariza Romero. Projeto História. Revista do programa de estudos pós-graduados de história, São Paulo, v. 17, 1998, p. 29-44).

DETIENNE, Marcel & VERNANT, Jean Pierre, La métis des Grecs. Les ruses de l’intelligence, Paris, Flammarion, 1974 (Trad. Bras. Filomena Hirata, São Paulo, Odysseus, 2008).

FOUCAULT, Michel, Surveiller et punir: Nassaince de la prision, Paris, Gallimard, 1975 (Trad. Bras. Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 2000).

LÉVI-STRAUSS, Claude, La pensée sauvage, Paris, Plon, 1962 (Trad. Bras. Tânia Pellegrini. Campinas,  Papirus, 1989).