Abas primárias

conceito

O termo moeda foi usado pelo antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) de forma menos restrita do que fora empregado antes por Bronislaw Malinowski (1884-1942) e F. Simiand (1873-1935). Para Malinowski, a designação indica não apenas objetos visando a troca, mas aqueles que permitem aferir valor. Para Mauss, por sua vez, o valor econômico só tem lugar com a “moeda propriamente dita”, quando as riquezas são condensadas e os signos de riqueza “impessoalizados”, isto é, separados das pessoas morais, sejam elas coletivas ou individuais. Nos escritos sobre o tema, Mauss propõe estender a noção de moeda - que pode assumir a forma de objetos variados - para além da nossa, a única, segundo ele, a preencher os critérios de uma definição estrita do termo.

O cerne de seus argumentos recai sobre algumas teses básicas. Em primeiro lugar, diz ele, todas as sociedades possuem coisas que servem como meio de troca e pagamento, cuja função é a de moeda; possuem poder de compra público e oficial, calculado em números. Quanto ao poder de compra, defende, a moeda não é fato material ou físico, mas fato social, cujo valor corresponde à sua capacidade de adquirir bens e à confiança nela depositada. Em relação ao cálculo do poder de compra, ele não é necessariamente estável, como no caso da nossa moeda. O valor das outras moedas, que não é somente econômico, mas também mágico, aumenta com as trocas: quanto mais tais objetos circulam, mais valor adquirem.

Nos ensaios que escreveu sobre o tema, Les origines de la notion de monnaie (1914), Débats sur les fonctions de la monnaie (1934) e em nota no Ensaio sobre a dádiva (1923-24), Mauss apresenta três fases pelas quais passou a noção de moeda, até chegar à que hoje conhecemos. A forma mais elementar decorre da percepção de que há coisas mágicas e preciosas que não se deterioram com o uso, e que adquirem poder de compra. A segunda fase corresponde ao momento no qual esses instrumentos de compra passam a servir como meio de contagem e circulação de riquezas. Este seria o estágio no qual se encontram as sociedades da Polinésia, da Melanésia e do Noroeste americano, cujos sistemas de troca o autor analisa no Ensaio sobre a dádiva. Nas duas primeiras fases, o valor econômico da moeda não se separa de seu valor mágico, de talismã; a posse desses objetos confere ao seu detentor poder de comando e prestígio, que se converte em poder de compra. Além disso, tais coisas preciosas são percebidas como separadas de outros objetos de uso; a moeda é valor de uso permanente e transmissível, que atua como objeto nas transações sem se deteriorar, podendo ser o veículo para a obtenção de outros valores.

Cinto iroquês wampun - Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia

De modo a desenvolver sua reflexão, o autor se apoia em casos etnográficos retirados das ilhas Trobriand, nas quais as moedas chamam-se vaygu’a, dividindo-se em mwali (braceletes usados em ocasiões cerimoniais) e soulava (colares usados ritualmente pelas mulheres); da Samoa e Nova Zelândia (onde a moeda chama-se taonga e consiste em esteiras herdadas pelas jovens por ocasião do casamento, e também nos talismãs que passam a integrar a família por meio das mulheres); da Nova Guiné e em Papua (o tau-tau); das ilhas Bank (o rongo) e de Fiji (tambua, peças feitas de dentes de cachalote). Entre os iroqueses, na América do Norte, têm-se os wampun. No noroeste americano, por sua vez, os objetos que servem de meio de troca (dentre os quais os cobres brasonados e as conchas de abalone) são denominados logwa, termo que significa talismã e que, como os vaygu’a trobriandeses, são veículos de mana, o que leva à inseparabilidade dos valores mágico e econômico. Outros casos etnográficos explorados dizem respeito a algumas sociedades africanas e asiáticas, em que objetos de usos, como placas de cobre e ferro, servem como moeda; ou o gado, em certas sociedades da África; o ainda sal, na África saariana. Em todos esses exemplos, aquele que troca e a coisa trocada não se encontram jamais completamente separados. É com o afastamento das coisas e dos grupos humanos, e com a noção de preço, que Mauss localiza a terceira fase de desenvolvimento da moeda, que corresponde à nossa, situando tal passagem possivelmente entre povos semitas e certamente entre os antigos gregos e romanos, com a separação entre a venda e a dádiva.

As considerações de Mauss sobre o dinheiro foram pouco retomadas pela literatura antropológica posterior, mesmo por autores que ressaltam a importância de seu trabalho para a antropologia econômica, como David Graeber (1961), Toward An Anthropological Theory of Value (2001). As propostas de Karl Polanyi (1886-1964) e de Paul Bohannan (1920-2007), The Impact of Money on an African Subsistence Economy (1959) sobre o dinheiro influenciaram as discussões posteriores sobre o tema na disciplina, mesmo em trabalhos que buscam superá-las, como indica ensaio bibliográfico recente de Bill Maurer sobre a antropologia do dinheiro The Anthropology of Money (2006).

Moeda - Marcel Mauss

M
data de publicação
02/05/2016
autoria

Camila Galan de Paula

palavras chave
troca, economia, França
bibliografia

BOHANNAN, Paul, “The Impact of Money on an African Subsistence Economy”, The Journal of Economic History, vol. 19, n. 4, 1959, p.491-503

GRAEBER, David, Toward an anthropological theory of value: the false coin of our own dream, New York, Palgrave, 2001

MAURER, Bill, “The Anthropology of Money”, Annual Review of Anthropology, vol. 35, n.1, 2006, p. 15-36

MAUSS, Marcel, “Les origines de la notion de monnaie” [1914] e “Débats sur les fonctions de la monnaie” [1934] In: Marcel Mauss, Œuvres (II): Représentations collectives et diversité des civilisations, Paris, Editions de Minuit, 1968-1969

MAUSS, Marcel, “Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques”, Année Sociologique, 2a série [1923-24] (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac & Naify, 2003)