conceito

Definir um método de trabalho maussiano é tarefa no mínimo arriscada, já que em seus artigos e ensaios Marcel Mauss (1872-1950) não se preocupou em estabelecer sínteses metodológicas. Suas observações sobre o método encontram-se espalhadas em diversas análises: sobre a dádiva, a prece, a magia, os sentimentos, o corpo, a nação, a civilização etc., além de presentes em notas de aula e em comunicações orais. Tal constatação não impede a localização de características marcantes do método maussiano, fundamentalmente: o caráter partilhado do trabalho sociológico e a defesa de que este deveria se basear em fatos sociais concretos.

O primeiro traço do método do antropólogo francês refere-se ao trabalho coletivo como prerrogativa para desenvolver o método comparativo; a única maneira de alcançar resultados analíticos sólidos, segundo ele, seria lançar mão do cotejo sistemático dos diversos trabalhos disponíveis, de modo que a comparação entre uma grande quantidade de fatos observáveis em diversas sociedades (tarefa “impossível para um homem só”, segundo ele) tenha lugar. O próprio progresso da disciplina, nos seus termos, seria fruto do trabalho conjunto de diferentes especialistas. A segunda marca desse método, por sua vez, pode ser observada na provocativa asserção contida em seu Manuel d’ethnographie (1926): “como positivista, creio somente nos fatos”, diz ele. Tal afirmativa encontra eco em sua recusa em propor modelos analíticos ou teorias que tendam ao plano abstrato; as teorias devem ancorar-se nos fatos e os modelos, resultantes do exercício comparativo. Além disso, só é possível obter vasto material empírico com a colaboração de diversas especialidades; no interior destas, a função do etnologia seria o registro, a análise profunda e a comparação exaustiva dos fatos, com a ajuda, se necessário, de conhecimentos estatísticos. O etnógrafo deve ter a preocupação em ser exato; ter o sentido dos fatos e das suas inter-relações, de suas proporções e, consequentemente, de suas articulações. O dado determina o plano de estudo assim como os métodos mais apropriados para compreendê-lo. Finalmente, o exame minucioso dos aspectos vida social não se esgota em sua observação no momento presente, exigindo a análise histórica dos fatos colocados em comparação, entendidos como fenômenos históricos. Esta exigência de análise, longe de produzir uma tipologia, resulta na dedicação maussiana em analisar o desenvolvimento histórico de certos fatos ou ideias.

É em seu Manuel d’ethnographie (1926) que Mauss elabora uma divisão metodológica para a análise dos fenômenos sociais, qual seja: 1. Morfologia Social: demografia, geografia humana, tecnomorfologia. 2. Fisiologia: técnicas, estética, economia, direito, religião, ciências. 3. Fenômenos Gerais: língua, fenômenos nacionais, fenômenos internacionais, etologia coletiva. Mais do que romper com a observação empírica, externa e objetiva dos fatos sociais, tal como proposta por Émile Durkheim (1858-1917), Marcel Mauss aprofundou-a, no sentido de entender os fenômenos sociais em si mesmos, comparando aquilo que pode ser comparado e partindo, sempre, dos fatos concretos.

Por suas contribuições teóricas e metodológicas, assim como pela originalidade de suas formulações, Mauss foi apontado como o precursor do estruturalismo, em função das relações que estabelece entre linguística e etnologia; do funcionalismo, por sua crítica ao evolucionismo e por sua preocupação em entender os fenômenos sociais a partir dos fatos concretos; e da fenomenologia, por conferir importância ao caráter subjetivo e as emoções, alçando-os a temas de estudo.

Método - Marcel Mauss

M
data de publicação
12/12/2016
autoria

Olavo Souza Filho e Michelle Cirne

palavras chave
França, comparação, etnografia
bibliografia

DUBAR, Claude,  « La méthode de Marcel Mauss », Revue Française de Sociologie, n. 10-4, 1969, p. 515-521

MAUSS, Marcel, Manuel d’ethnographie (cours donnés à l’Institut d’Ethnologie de l’Université de Paris, réunis par M. Leiris & D. Paulme), Paris, Payot, 1947 (Trad. Port., Lisboa,  Editorial Pórtico, 1972)

MAUSS, Marcel, “An intellectual self-portrait” In: Philippe Besnard (ed), The Sociological Domain: The Durkheimians and the Founding of French Sociology Cambridge, Cambridge University Press, 1983