cultura

Gentrificação

O termo gentrificação é a versão aportuguesada de gentrification (de gentry, “pequena nobreza”), conceito criado pela socióloga britânica Ruth Glass (1912-1990) em London: Aspects of Change (1964), para descrever e analisar transformações observadas em diversos bairros operários em Londres. Desde seu surgimento, a palavra tem sido amplamente utilizada em estudos e debates sobre desigualdade e segregação urbana, assim como nos estudos sobre patrimônio, nos mais diferentes domínios: sociologia, antropologia, geografia e arquitetura, além de planejamento e gestão urbana, economia e estudos urbanos em geral.

Em sua definição primeira, o termo refere-se a processos de mudança das paisagens urbanas, aos usos e significados de zonas antigas e/ou populares das cidades que apresentam sinais de degradação física, passando a atrair moradores de rendas mais elevadas. Os “gentrificadores” (gentrifiers) mudam-se gradualmente para tais locais, cativados por algumas de suas características - arquitetura das construções, diversidade dos modos de vida, infraestrutura, oferta de equipamentos culturais e históricos, localização central ou privilegiada, baixo custo em relação a outros bairros -, passando a demandar e consumir outros tipos de estabelecimentos e serviços inéditos. A concentração desses novos moradores tende a provocar a valorização econômica da região, aumentando os preços do mercado imobiliário e o custo de vida locais, e levando à expulsão dos antigos residentes e comerciantes, comumente associados a populações com maior vulnerabilidade e menor possibilidade de mobilidade no território urbano, tais como classes operárias e comunidades de imigrantes. Estes, impossibilitados de acompanhar a alta dos custos, terminam por se transferir para outras áreas da cidade, o que resulta na redução da diversidade social do bairro.

Esses processos de gentrificação têm sido classificados como “culturais” ou “socioculturais”, já que formulados com base em transformações sofridas pelas grandes metrópoles após o declínio do modelo econômico industrial e da ascensão do setor de serviços, verificado a partir dos anos 1970. Tais mudanças reconfigurariam os usos do solo urbano em função de escolhas residenciais, de consumo e de sociabilidade de profissionais de alta renda, geralmente ligados a profissões emergentes de áreas como finanças, tecnologia e comunicações. Uma referência para esta perspectiva é a socióloga francesa Catherine Bidou-Zachariasen, organizadora da coletânea De volta à cidade: dos processos de gentrificação às políticas de “revitalização” dos centros urbanos (2006). Nos anos 1970, tal perspectiva cultural do fenômeno passou a ser contestada por explicações de tipo econômico, centradas nas oportunidades de investimento pelo poder público e pelo setor privado, em regiões tidas como degradadas e com potencial de requalificação. Um autor importante para este enfoque é o geógrafo escocês Neil Smith (1954-2012), que afirma que a chegada de pessoas de alta renda a certas zonas das cidades não é a causa da gentrificação dos bairros, mas a consequência do afluxo do capital para essas regiões. O autor aponta a centralidade do mercado financeiro e sua imbricação com os poderes públicos e interesses privados locais (empresas de construção civil e do mercado imobiliário, investidores, corporações, comércio, imprensa etc.) em um processo calculado de desinvestimento e precarização de determinadas áreas, para posterior reinvestimento de capital com vistas à atração de ocupantes que possibilitariam maior retorno financeiro. Uma das autoras a aliar a perspectiva “sociocultural” à “econômica” é a socióloga estadunidense Sharon Zukin em Loft Living: Culture and Capital in Urban Change (1982). Ao investigar como os antigos galpões e edifícios industriais do bairro nova-iorquino do SoHo foram transformados por artistas, intelectuais e estudantes em lofts residenciais e estúdios, Zukin observa um processo de requalificação dos usos do espaço, acompanhado pela expansão do turismo, do mercado imobiliário, e de intensos investimentos na região, que se tornaria uma das mais valorizadas da cidade.

Mark Ramsay, Londres, Wikimedia Commons

Embora nas últimas décadas o conceito da gentrificação tenha se tornado uma importante ferramenta para os estudos acadêmicos, assim como para os ativismos políticos e para aqueles envolvidos com os debates ligados à ideia de “direito à cidade” - conceito proposto pelo filósofo francês Henri Lefebvre (1901-1991) e retomado nos anos 2000 pelo geógrafo britânico David Harvey (1935) -, seu uso está longe de ser consensual. Além dos dissensos sobre as causas e agentes responsáveis pelos processos de gentrificação, intelectuais e ativistas de diferentes espectros políticos divergem quanto aos seus efeitos, havendo quem denuncie as expulsões e o aumento da desigualdade e da segregação nas cidades, e quem defenda o processo como sendo benéfico por atrair investimentos e promover melhorias em regiões tidas como degradadas. Certos autores apontam, ainda, para o risco de uma excessiva polivalência do termo, o que o converteria em sinônimo de múltiplos processos de transformação urbana e social que, embora possam ocorrer concomitantemente ou produzir consequências similares, são muito diferentes entre si. Como sugere a antropóloga Silvana Rubino no artigo “‘Gentrification’: notas sobre um conceito incômodo” (2003), a utilização indiscriminada do termo pode diluir sua precisão descritiva e explicativa. Outros autores, como o geógrafo grego Thomas Maloutas, em “Contextual Diversity in Gentrification Research” (2012), questionam a universalidade de um termo concebido e consolidado a partir de estudos de cidades da Europa e dos EUA. Tais leituras não rejeitam contribuições como as de Glass e de Smith, mas buscam um uso crítico da noção, chamando a atenção para a necessidade de consideração dos contextos em que as transformações urbanas se efetivam. Adicionalmente, como propõe Maloutas, a observação das etapas dos processos de gentrificação deve ser complementada ou contrastada com a análise das trajetórias, estratégias e mecanismos mobilizados por diferentes agentes locais, tais como poder público, iniciativa privada, moradores, associações civis, movimentos sociais e indivíduos diretamente ou indiretamente envolvidos ou afetados por eles. Além disso, seria preciso considerar a eficácia das práticas desses agentes, seus resultados e consequências ao longo do tempo.

Na antropologia especificamente, o termo é mobilizado por autores como Michael Herzfeld (1947), que discute como a conservação histórica do patrimônio vem sendo usada como ferramenta a serviço dos interesses do neoliberalismo, e Loïc Wacquant (1960), quando lança luz sobre o papel do Estado em processos de “invisibilização” das classes operárias. No Brasil, a antropologia urbana vem explorando os rendimentos e limites da noção em função do exame de diferentes cidades; além dos trabalhos de Silvana Rubino, Rogério Proença Leite se vale do conceito em sua pesquisa sobre as transformações observadas no Recife Antigo. Heitor Frúgoli Jr. e Jessica Sklair discutem os seus limites nas pesquisas que realizaram sobre o bairro da Luz, em São Paulo. Osmundo Pinho investiga a noção em Salvador em estudo sobre a zona do Pelourinho, enquanto Alexandre Corrêa volta-se, com ele, para a compreensão de São Luís do Maranhão. As transformações ocorridas no Rio de Janeiro com a implementação das obras do Porto Maravilha, por sua vez, estão na origem de diversos trabalhos acadêmicos.

Como citar este verbete:
ALCÂNTARA, Maurício Fernandes de. 2018. "Gentrificação". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/gentrificação>

autoria

Maurício Fernandes de Alcântara

bibliografia

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ZUKIN, Sharon The Naked City: The Death and Life of Authentic Urban Places, Oxford, Oxford University Press, 2010

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Gentrificação

Cultures of relatedness

Cultures of Relatedness (2000) é uma coletânea organizada e introduzida pela antropóloga britânica Janet Carsten, composta por oito ensaios assinados por Charles Stafford, Sharon Hutchinson, Helen Lambert, Rita Astuti, Karen Middleton, Barbara Bodenhorn, Jeanette Edwards e Marilyn Strathern (1941). Resultado de uma conferência sobre fronteiras e identidades realizada na Universidade de Edimburgo em 1996, o livro é uma resposta à Critique of the Study of Kinship (1984) em que o antropólogo norte-americano David Schneider (1918-1995) condena o método genealógico que, segundo ele, estaria baseado na suposição ocidental de preeminência da biologia na criação de laços de parentesco, concluindo ser o parentesco um conceito que não existe em outras sociedades, senão nas ocidentais. Com o objetivo de refutar as abordagens biologizantes do parentesco, os ensaios de Cultures of Relatedness buscam referências teóricas e metodológicas nos estudos de gênero e na antropologia feminista - por exemplo, nos trabalhos de Jane Collier e Sylvia Yanagisako, e nos de Judith Butler (1956) -, bem como na obra de Bruno Latour (1947), para defender que o parentesco é também construído.

A proposta de Janet Carsten é incorporar à reflexão a noção de relatedness, termo que dá relevância metodológica às dimensões do cotidiano (comensalidade, troca de nomes, amizade etc.) na produção de laços de parentesco. Os artigos do livro analisam materiais etnográficos de contextos distintos - chineses, Nuer, indianos, Vezo, Karembola, Iñupiat e os habitantes de Alltown, norte da Inglaterra - buscando entender o que significa “estar aparentado” e quais símbolos (além das substâncias biológicas) criam vínculos profundos e duradouros associados à esfera de parentes. A perspectiva defendida no volume, conhecida como o novo parentesco, utilizou-se do pensamento de Schneider para pensar a concepção de parentes em função de outras dimensões, diferentes do elo biológico. O esforço para desnaturalizar o lugar da mulher (mãe/esposa); para contestar as opressões de gênero relacionadas ao caráter natural da procriação e das diferenças fisiológicas; além da tentativa de compreender fenômenos como a adoção transnacional e o casamento homo-afetivo levou esse grupo de pensadoras a problematizar a dicotomia natureza/cultura, enfatizando a permeabilidade de suas fronteiras. Mary Bouquet, autora do capítulo de encerramento do volume, defende que a cisão biológico/social é reflexo da transição da antropologia das coleções de museus, ou de gabinete, para o método genealógico. Segundo ela, os mapas genealógicos forneceram uma análise racional às exposições em museus sobre os povos do mundo, além disso, representaram um tipo de “visão pura” sobre as sociedades e permitiram a separação entre ‘natural’ e ‘cultural’ nos estudos do parentesco. O questionamento dessa cisão (natural-cultural) é a questão chave dos trabalhos reunidos na obra cuja proposta é uma “nova antropologia comparativa” que coteja formas de conhecimento ocidentais e não-ocidentais para mostrar como elas operam afinidades e diferenças entre pessoas nas diversas maneiras de produzir, manter e desfazer “relacionalidades”.

A incorporação da noção de relatedness às discussões sobre o parentesco é considerada fundamental para que os estudos escapem da oposição biológico/social, mas Carsten pondera que pensar as “relacionalidades” afastadas da dimensão biológica, arrisca colocar outro problema: quaisquer relações poderiam ser vistas, no limite, como relações de parentesco. Esta foi justamente a porta de entrada para diversas críticas feitas à ideia de relatedness. Uma corrente que enfatiza o caráter biológico do parentesco, por exemplo Warren Shapiro e Maurice Godelier (1934), a acusou de menosprezar a importância dos aspectos reprodutivos, dando relevância às construções sociais e culturais. A etnologia americanista, especificamente Eduardo Viveiros de Castro (1951) criticou o novo parentesco por considerar que ele carrega o traço eurocêntrico da dicotomia dado/construído, específica do parentesco ocidental, apontando o caráter construído do parentesco para qualquer sociedade. A partir dessas críticas, a ideia de relatedness passou a ser conhecida como parentesco construtivista.

Imagem da família com o casal no meio, Silverdalen, Suécia. Entre 1890 e 1910. Nordiska Museet. Wikimedia Commons

Atento a esses debates, Marshall Sahlins (1930) produziu o conceito de mutuality of being que, assim como a noção de “relacionalidade”, considera os aspectos cotidianos, como comensalidade e convivência, na definição do parentesco. Ele define o parentesco como implicações mútuas construídas por meio de relações sociais. A existência coletiva compartilhada entre as pessoas e que as faz pertencer umas às outras pode ser, nos seus termos, chamada de parentesco. Nesse sentido, ele também amplia o significado do conceito se aproximando do mesmo problema posto pela ideia de relatedness: o risco do vácuo analítico, já que qualquer relação poderia ser definida como parentesco. A despeito dos limites apontados, estudos desenvolvidos pela antropologia brasileira, interessados na noção de família e suas conexões com a política, migração, gênero, ciência e memória, vêm utilizando e desdobrando as reflexões presentes em Cultures of relatedness.

Como citar este verbete:
MURILLO, Aline Lopes. 2016. "Cultures of relatedness". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/cultures-relatedness>

autoria

Aline Lopes Murillo

bibliografia

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CARSTEN, Janet, “Janet Carsten on the Kinship of Anthropology”, Entrevista concedida a Nigel Warburton. Social Science Bites, January 13, 2016, disponível em http://www.socialsciencespace.com/2016/01/janet-carsten-on-the-kinship-of-anthropology/> Acesso em julho de 2016

FONSECA, Cláudia, “De afinidades a coalizões: uma reflexão sobre a ‘transpolinização’ entre gênero e parentesco em décadas recentes da antropologia”, Ilha: Revista de Antropologia, Vol. 5, n. 2, Florianópolis, 2003, p. 5-31

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Cultures of relatedness

Irving Goldman

Irving Goldman nasceu em 2 de setembro de 1911, no Brooklin, em Nova York, filho de Golda e Louis Goldman, imigrantes russos, e faleceu em 7 de abril de 2002, aos 90 anos de idade. Após concluir sua graduação no Brooklin College, em 1933, ingressou na Columbia University, instituição onde foi aluno de Franz Boas (1858-1942). Seu primeiro trabalho antropológico foi realizado com os índios Modoc, na Califórnia, em 1934. Para seu trabalho final de graduação na Columbia, estudou os Ulkatcho Carrier da Columbia Britânica (entre 1935-36), no noroeste dos Estados Unidos, pesquisa publicada na coletânea Acculturation in Seven American Indians Tribes (1940). Obteve seu Ph.D. em antropologia no ano de 1941, com a tese sobre os Cubeo do rio Cuduiari, na região do Vaupés colombiano, onde esteve entre 1939 e 1940. O trabalho de campo de dez meses entre os Cubeo é apresentado preliminarmente no artigo “Tribes of the Uaupés-Caquetá region”, publicado no Handbook of South American Indians (1948), dedicado aos povos habitantes da região do Uaupés-Caquetá de modo geral. Nesse artigo, Goldman apresenta parte dos dados coletados no seu trabalho, que depois viriam a ser publicados de modo mais detalhado e sistemático como The Cubeo (1963), monografia que inaugura os estudos etnológicos com trabalho de campo prolongado no noroeste da Amazônia.  
Após a pesquisa junto aos Cubeo, Goldman retorna aos EUA e assume o cargo de professor no Brooklin College entre 1940 e 1942, tendo, em seguida, se transferido para Washington, onde trabalharia como consultor no Bureau of Latin American Research. Torna-se professor no Sarah Lawrence College em 1947, onde permanece até 1980, ano em que se aposenta. Neste período, realiza diversas pesquisas antropológicas e publicações, entre as quais: Chamula, sobre esse povo da região de Chiapas, no México, em 1955, e The First Man (1955), escrito com sua então esposa Hannah Goldman, no qual o casal apresenta, de uma perspectiva paleo-antropológica, uma história do desenvolvimento do ser humano, do homem pré-histórico às primeiras civilizações no Oriente, África e América. Além desses trabalhos, inicia na década de 1960 estudos bibliográficos sobre as sociedades da Polinésia, resultando na monografia Ancient Polynesian Society (1970). Na sequência, dedica-se ao estudo dos índios Kwakiutl da Columbia Britânica, no noroeste dos EUA, debruçando-se sobre o tema do potlach, no qual revisita o material de Franz Boas (1858-1942), pesquisa que resulta na publicação da monografia The Mouth of Heaven: An Introduction to Kwakiutl Religious Thought (1975). Nos anos 1968-70, depois em 1979, Goldman retorna aos Cubeo, quando permanece, dessa vez, junto ao clã Hehénewa, e trabalha em novo livro sobre temas do universo religioso e metafísico dessa população (livro esse que permanece inconcluso e somente seria publicado postumamente por seu amigo Peter Wilson, em 2004). Entre 1980 e 1987, Goldman ensina na New School of Social Research, na cidade de Nova York.

Irving Goldman, c. 1969, Dep. of Anthropology, Smithsonian Institution
Os anos de Goldman na Columbia University foram marcados pela antropologia de Franz Boas. Segundo Peter Wilson, na introdução à monografia de Goldman sobre os Hehénewa (2004), os trabalhos de Goldman mostram a operacionalização de muitas ideias de Boas sobre antropologia, em particular sobre métodos em geral e sobre a etnografia, em particular. O legado de Boas é notável, sobretudo na primeira monografia sobre os Cubeo, marcada por forte preocupação com a história cultural, tal como ensinava Boas, e pelo propósito de buscar um padrão de cultura, noção elaborada por Ruth Benedict (1887-1948) a partir de seu entendimento das ideias de Boas sobre cultura.

Goldman logrou conjugar a preocupação boasiana com o trabalho de campo e os estudos bibliográficos, sem estabelecer hierarquias entre os dois tipos de empreendimentos. Além disso, dedicou-se ao estudo de povos e regiões diversas, como os Modoc da Califórnia, os Ulkatcho Carrier da Colúmbia Britânica, os Cubeo do noroeste amazônico, as sociedades da Polinésia e os Kwakiutl da Colúmbia Britânica. Apesar da diversidade etnográfica e regional que caracteriza sua obra, Goldman afirma a persistência de um mesmo tema ao longo da maior parte dessas investigações: trata-se da noção de aristocracia, do sistema de ranks e das noções correlatas de poder e hierarquia, tal como se apresentam nas várias regiões etnográficas que esse antropólogo investigou ao longo da vida.

Como citar este verbete:
PEDROSO, Diego Rosa. 2016. "Irving Goldman". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/irving-goldman>

autoria

Diego Rosa Pedroso

bibliografia

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GOLDMAN, Irving, "The Alkatcho Carrier of British Columbia" In: Ralph LINTON  (org), Acculturation in seven american indian tribes, New York, D. Appleton-Century Co., 1940


GOLDMAN, Irving, "Tribes of the Uaupés-Caquetá region" In: J. H., STEWARD,  (org), Handbook of South American Indians, Washington, Smithsonian Institution, vol. III, 1948


GOLDMAN, Irving, The Cubeo: Indians of the Northwest Amazon, Urbana, The University of Illinois Press, 1963


GOLDMAN, Irving, Ancient Polynesian Society, Chicago and London, University of Chicago Press, 1970


GOLDMAN, Irving, The Mouth of Heaven: An Introduction to Kwakiutl Religious Thought, New York, John Wiley and Sons Inc., 1975

GOLDMAN, Irving, Cubeo Hehenewa Religious Thought: Metaphysics of a Northwestern Amazonian People, New York, Columbia University Press, 2004 


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SCHILDKROUT, Enid & GOLDMAN, Irving, “A Conversation with Irving Goldman”, American Ethnologist, 16: 3, 1989, p. 551-563

 

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Goldman, Irving

A Invenção do Cotidiano

O livro A Invenção do Cotidiano (1980) do historiador e antropólogo francês Michel de Certeau (1924-1986) desdobra-se em dois tomos: Artes de fazer (volume 1) e Habitar, cozinhar (volume 2), este escrito com Luce Giard, historiadora das ciências e da religião, e Pierre Mayol, aluno de Certeau. A obra é fruto de um trabalho coletivo realizado entre 1974 e 1977, a partir de uma encomenda do Ministério da Cultura francês interessado em questões de cultura e de sociedade, e sobre as quais Certeau trabalhara em obras precedentes, por exemplo em La culture au pluriel (1974). À proposição feita, Certeau e equipe respondem pela análise das práticas culturais cotidianas, tema a partir do qual desenvolvem uma abordagem do consumo cultural, pensado como dimensão criadora e inventiva.

Debord, Guy. THE NAKED CITY - Illustration de l'hypothèse des plaques tournantes en psychogeographique, 1957.No primeiro e mais difundido volume da obra, em função de pesquisa empírica detida, o autor esboça uma reflexão sobre as práticas ordinárias, aproximando-as dos “modos de fazer” das pessoas comuns, atento às diversas maneiras pelas quais fazem uso de regras e convenções impostas por uma ordem social e economicamente dominante. Para isto, escolhe para análise campos corriqueiros de ação: o espaço, a língua, a crença, entre outros. Trata, por exemplo, do caminhar pela cidade como um modo de “praticar o espaço” e apropriar-se do traçado urbano, não previsto pelos planos urbanísticos; examina também relatos de milagres entre os lavradores de Pernambuco que, ao mesmo tempo, que partem de preceitos do catolicismo tradicional, produzem “modos de crer” diversos; ou, ainda, do ato corriqueiro de ler, considerado como uma forma de apropriação do texto pelo leitor, que o realiza segundo seus códigos próprios de percepção e interesses. O segundo volume da obra, por sua vez, visa “traçar as interligações de uma cotidianidade concreta” por meio de vasto material etnográfico, estatístico, cartográfico e de entrevistas, reunido por Pierre Mayol que investiga as práticas do habitar no então bairro operário de Croix-Rousse em Lyon, e por Luce Giard, que se detém sobre as práticas de cozinhar.

A Invenção do cotidiano ancora-se em ideias e procedimentos provenientes de diversos campos de conhecimento: história, teologia, educação, psicanálise, filosofia, antropologia e linguística. Michel de Certeau aponta como suas principais inspirações a psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939); a filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e John Langshaw Austin (1911-1960); a antropologia de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e a filosofia de Immanuel Kant (1724-1804). Ao mesmo tempo, estabelece interlocuções fundamentais com Michel Foucault (1926-1984) e Pierre Bourdieu (1930-2002), a partir das quais delimita o campo das práticas; e com Marcel Detienne (1935) e Jean-Pierre Vernant (1914-2007) com quem dialoga para definir sua noção de tática. Duas obras de Foucault e Bourdieu são especialmente importantes nesses diálogos: Vigiar e Punir (1975), na qual Foucault relata a emergência de um novo tipo de controle sobre os sujeitos e seus corpos, sintetizada pelo modelo do panóptico e Esboço de uma teoria da prática (1972), na qual Bourdieu analisa instituições das sociedades kabila do norte da Argélia. Problematizando o olhar centrado exclusivamente nos procedimentos de controle (Foucault) e na ideia de determinação do habitus (Bourdieu), Certeau coloca o seu foco, não na imposição de padrões de comportamento, mas nos diferentes modos pelos quais as práticas cotidianas podem subverter imposições e controles diversos. A distinção entre “estratégia” e “tática” é central para o desenvolvimento da noção de prática cotidiana do autor, mais próxima do segundo termo. A ideia de tática inspira-se na análise que Detienne e Vernant realizam sobre a noção grega antiga de métis, forma astuciosa ou ardilosa de inteligência; trata-se formas de saber e conhecimentos práticos, que dependem de uma ocasião, ou momento oportuno (kairós) para serem colocados em ação.

A amplitude de inspirações teóricas em A Invenção do Cotidiano e os alcances da abordagem original da vida social e da cultura que apresenta fizeram da obra uma referência para estudos nas áreas de História, Antropologia, Educação, Literatura, Estudos Urbanos e Culturais, entre outros.

Como citar este verbete:
PEREIRA, Bruno Ribeiro da Silva & MACHINI, Mariana Luiza Fiocco. 2016. "A Invenção do Cotidiano". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/invenção-do-cotidiano>

autoria

Bruno Ribeiro da Silva Pereira e Mariana Luiza Fiocco Machini

bibliografia

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LÉVI-STRAUSS, Claude, La pensée sauvage, Paris, Plon, 1962 (Trad. Bras. Tânia Pellegrini. Campinas,  Papirus, 1989).

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Invenção, Cotidiano

Ritual - Roy Wagner

O “ritual” é, para Roy Wagner (1938), análogo à “cultura”: ambos constituem um estilo interpretativo, um modo criativo que se utiliza de distinções convencionais para improvisar e produzir a diferença. A diferença entre eles é que o conceito de “cultura” é mobilizado para designar fenômenos mais abrangentes, enquanto o “ritual” é parte da “cultura” e constituiu uma modalidade específica de ação criativa que opera dentro dela como um controle. A especificidade do rito reside, em primeiro lugar, no seu caráter não-cotidiano; trata-se de uma ação que metaforiza distinções sociais tidas como dadas durante a vida regular do grupo. A motivação para essa manipulação deliberada das convenções sociais é a necessidade de controlar uma situação ou evento diferenciante que, tomado como uma força dada, se converte em algo ameaçador e ambíguo para a convenção. Essas situações diferenciantes são frequentemente percebidas como um poder que transcende a ação humana ordinária. Para garantir algum tipo controle social sobre essas forças, mobiliza-se uma distinção entre “cotidiano” e “cerimonial”, de modo a estabelecer um contato direto com elas e metaforizá-las segundo as convenções de que se lançou mão. A especificidade da invenção ritual consistiria no seu caráter de ação coletiva, capaz de mobilizar não apenas um indivíduo  ou conjunto de indivíduos, mas um contingente maior da coletividade social.           

INCT InclusãoUm exemplo empírico de “ritual” pode ser tomado da análise realizada em Habu: The Innovation of Meaning in Daribi Reluigion (1972). O argumento parte da cerimônia Habu que o antropólogo assistiu e descreveu durante o seu trabalho de campo junto aos Daribi, povo da Nova Guiné. O pano de fundo sobre o qual esse ritual inova é chamado pelo autor de “ideologia social” daribi e inclui domínios como a mitologia, o parentesco, os papéis sexuais, os sistemas de trocas e obrigações rituais, os sistemas de nominação etc. Dentre a variedade de metáforas encontradas nos mitos da Papua Nova Guiné, o autor põe especial relevo no mito da maldição de Soul, em que o demiurgo dos Daribi, após ser envergonhado pelas mulheres, lança a maldição da mortalidade sobre a humanidade. Os mitos são pensados como metáforas que atualizam a ideologia dos Daribi, marcada pelos papéis sexuais que opõem e contrastam o masculino e o feminino. Esta divisão é expressa tanto nos mitos, como na divisão do trabalho, na troca de riqueza, na magia e nos rituais a partir das relações de complementaridade ou de substituição que elas engendram. A interação desses dois aspectos da ideologia Daribi requer uma constante mediação feita por meio de metáforas.

A noção de mortalidade se estende, através de metáforas complementares, pela cosmologia, divisão espacial e temporal do mundo daribi, e constituiu um ponto central de sua ideologia. O Habu, por sua vez, está diretamente ligado a um domínio que inova sobre essa ideologia central: a questão da invenção da imortalidade. A maldição de Soul é combatida pela personificação do fantasma (izibidi), que é o ato de transcender a morte e “inventar a imortalidade”. Os Daribis mediam suas relações com os fantasmas por meio de metáforas. O médium ou xamã (sogoyezibidi) “impersonaliza” uma metáfora entre fantasmas e humanos, aliando as capacidades dos vivos e propriedades dos mortos, controlando estes por um nexo de posse. Essa oposição é incorporada pelo fantasma e representa uma inovação sobre a ideologia, onde o médium inova sobre o convencional, uma vez que seu fantasma é uma inovação sobre suas próprias limitações humanas, ultrapassadas pelo poder do fantasma que agora é personificado por ele. A cerimônia Habu seria também um modo de controlar a relação de possessão e uma maneira semelhante de inovar sobre o convencional. Contudo, enquanto as práticas ditas xamânicas o fazem a partir de uma intervenção individual do sogoyezibidi, o Habu consiste fundamentalmente  em uma ação coletiva.

Em A Invenção da Cultura (1975), a palavra “ritual” aparece entre aspas na maioria das vezes em que é empregada pelo autor. Com isso, Wagner deixa marcado que, quando fala em cultura, está mencionando certa tradição ou convenção que a utilizou. A abundância no uso de aspas constitui, assim, uma maneira de Wagner mostrar que seu conceito de “cultura”, ao mesmo tempo que se diferencia da acepção antropológica corrente, necessita dessa convenção para ter sentido. Pode-se compreender, a partir daí a inovação análoga que ele propõe para o tema do “ritual”. A convenção constitui apenas a metade do mundo do significado. A outra dimensão a ser considerada é aquela pertinente à invenção, designada por Wagner por um conjunto de termos diversos: “metáfora”, “improvisação”, “impersonação”, “diferenciação”. Nela, o sentido é alcançado pela extensão dos contextos simbólicos convencionais a novas situações e eventos. Do ponto de vista do autor, estes dois modos de significação estão necessariamente envolvidos em todo ato de simbolização eles são ao mesmo tempo interdependentes e contraditórios entre si. Um agente simbolizador necessariamente mobiliza no ato de criação de significado esses dois modos, tendo, contudo, que concentrar sua atenção em apenas em um deles, que se torna o controle, e passando a perceber o outro como uma motivação ou uma compulsão que transcende e motiva sua ação. Esse ajuste de foco tem como duplo efeito converter um dos modos no domínio do dado, do inato, e tornar o outro modo o reino do construído, próprio para a ação e a responsabilidade humanas.

Como citar este verbete:
DOS SANTOS, Augusto Ventura & PINTO FILHO, Olavo Souza. 2015. "Ritual - Roy Wagner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/ritual-roy-wagner>

autoria

Augusto Ventura dos Santos e Olavo de Souza Pinto Filho

bibliografia

WAGNER, Roy, Habu: The Innovation of Meaning in Daribi Religion, Chicago, The University of Chicago Press, 1972.

WAGNER, Roy, The invention of culture, The University of Chicago Press, 1975 (Trad. Bras. Marcela Coelho de Souza e Alexandre Morales. São Paulo: Cosac Naify, 2010)

WAGNER, Roy,  “Ritual as comunication: Order, Meaning, and Secracy in Melanesian Initiation Rites”, Annual Review of Anthropology, vol. 13, 1984, p. 143-155.

GOLDMAN, Márcio, “O fim da antropologia. Resenha sobre A Invenção da Cultura”, Novos estudos, São Paulo, CEBRAP, n.89, 2011, p.195-211.

DULLEY, Iracema, Os nomes dos Outros: alteridade e comunicação em Roy Wagner, Tese (Doutorado em Antropologia Social), Universidade de São Paulo, 2012, 163p.

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Ritual - Roy Wagner

Gênero

O termo gênero é comumente utilizado nas ciências sociais e humanas para enfatizar o caráter cultural das diferenças existentes entre homens e mulheres. As assimetrias de poder que demarcam estas distinções e discriminações são justificadas pela atribuição de características entendidas como naturais entre homens e mulheres, traços decorrentes das distinções corpóreas, em especial as associadas às capacidades reprodutivas. Os estudos clássicos de Marcel Mauss (1872-1950), As técnicas do corpo (1934) e de Margaret Mead (1901-1971), Sexo e Temperamento (1936) já indicavam que certos padrões de conduta não estavam relacionados à natureza de homens e mulheres, mas antes aos diferentes processos culturais e de socialização.

É possível recuar às décadas de 1920 e 1930, em diferentes países, para verificar, principalmente no continente europeu e na América do Norte, que as mulheres romperam com formas agudas de desigualdade, especificamente no que diz respeito ao direito à educação, à propriedade e ao voto. Esta dinâmica de equiparação de direitos foi central no pensamento feminista, sobretudo a partir dos anos 1960. Diferentes correntes feministas questionavam o suposto caráter natural da subordinação feminina e sustentavam a ideia de que essa assimetria era decorrente do modo como a mulher havia sido construída histórica e socialmente. Para além das diferenciações teóricas, as causas do jugo feminino foram apresentadas a partir de dois aspectos determinantes, um biológico e um social, isto é, a reprodução e a produção social. O corpo passa a ser considerado a principal causa da opressão sexual e da desigualdade social. Para o debate feminista pós 1960, no qual se destacam os nomes das ativistas Betty Friedam (1921-2006) e Bell Hooks (1952), as categorias “mulher”, “opressão” e “patriarcado” tornam-se centrais. A relação homem/mulher passa a ser entendida como uma relação política e a dominação masculina, postulada como universal, presente em diferentes épocas e culturas. A noção de patriarcado sai de voga, ao passo que o uso da categoria “mulher” é substituído por mulheres no plural, com o intuito de evidenciar as diversas “mulheres”, já que a mulher branca não seria dominada da mesma forma que a mulher negra; ao lado disso, distinções como posição social e geração também passam a ser entendidas como fundamentais nesse processo.

O conceito de gênero se desenvolve em um quadro marcado por intelectuais e militantes feministas em todo o mundo, abrindo espaço para a consolidação de novas formas de conhecimento e de luta política. Foram em especial as feministas norte-americanas e inglesas que se apropriaram do termo gênero, pioneiramente utilizado pelo psicanalista Robert Stoller (1924-1991) em intervenção no Congresso Psicanalítico Internacional em Estocolmo (1963), para marcar a distinção entre natureza e cultura. Apresentado por ele como “identidade de gênero”, o conceito enfatizava o caráter social em contraste com a diferença sexual tida como natural e inscrita no corpo fisiológico. O ensaio clássico da antropóloga Gayle Rubin (1949), O tráfico de mulheres: notas para uma economia política do sexo (1975), torna-se uma referência para o debate feminista e para os estudos antropológicos. A partir das leituras de Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009),  Sigmund Freud (1856 – 1939) e Jacques Lacan (1901 – 1981), a autora cria o conceito “sistema sexo/gênero”, descrito como um conjunto de arranjos modelados pela intervenção social que incidem na matéria prima biológica do sexo humano e da procriação. Os princípios fundamentais para a manutenção desse sistema seriam o constrangimento da sexualidade feminina, o tabu do incesto e a heterossexualidade. A análise de Rubin esteve marcada pelo princípio da igualdade presente na teoria marxista, tendo influenciado os estudos feministas nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Trabalhos antropológicos posteriores voltam-se para a análise de contextos específicos, com foco em processos sociais que estabelecem a assimetria entre os sexos. A nova orientação tem por objetivo lançar uma crítica epistemológica às respostas transculturais oferecidas para enfrentar a suposta subordinação da mulher. Carol MacCormack (1933-1997)em Nature, culture and gender: a critique (1980) enfatiza que a dicotomia natureza/cultura é reflexo de uma concepção cultural específica e não uma característica universal, e, por isso mesmo, seria também necessário relativizar o conceito de dominação. Para a autora, há uma arbitrariedade de significação nos termos macho e fêmea tanto quanto nas noções de natureza e cultura. Nessa perspectiva, Marilyn Strathern (1941-) em No nature, no culture: the Hagen case (1980), utiliza a etnografia realizada no monte Hagen, da Melanésia, para evidenciar a inaplicabilidade dos conceitos ocidentais sobre outras culturas, uma vez que foram identificadas entre os Hagen concepções distintas das relações entre natureza/cultura e homens/mulheres.

Um novo paradigma teórico retira as questões de gênero do âmbito universal, situando-o como categoria de análise relacional e dinâmica; nessa vertente situa-se o ensaio de Joan Wallach Scott (1941-), Gênero: uma categoria útil para a análise histórica (1986). A autora, já distante das primeiras formulações sobre o tema, postula gênero como categoria histórica que permite pensar as origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres. A análise de Scott se distingue de formulações anteriores por sublinhar que nenhuma experiência corporal pode ser compreendida fora dos processos sociais e históricos. A autora chama a atenção para a necessidade de examinar o modo como gênero é construído em relação a uma série de atividades, organizações sociais e representações culturais, historicamente situadas. Tais perspectivas sobre o gênero indicam uma leitura que estranha e questiona qualquer naturalização da diferença e dos processos de significação do poder. A partir da abordagem de Judith Butler (1956-) em Problemas de Gênero (1990), todos os corpos são entendidos como sexuados, generificados e racializados por meio de um processo regulado de repetição de discursos. Para Butler, referência incontornável nesse debate, o gênero é antes “o ato de fazer do que o de ser”, sequência de atos cadenciados no interior de um quadro regulatório rígido, não havendo sexo capaz de resistir sem o gênero. A emergência dessas leituras logrou mobilizar e reordenar argumentos não apenas da antropologia, mas também da filosofia, da linguística e, também, das ciências biológicas e da natureza.

Diane Arbus,

Como citar este verbete:
MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro & FERREIRA, Lucas Bulgarelli. 2015. "Gênero". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/gênero>

autoria

Carolina Cordeiro Mazzariello e Lucas Bulgarelli Ferreira

bibliografia

BUTLER, Judith, Gender trouble: feminism and the subversion of identity. Nova York, Routledge, 1990 (Trad. Bras. Renato Aguiar. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003)

MACCORMACK, Carol, “Nature, culture and gender: a critique” In: Carol MacComarck l & Marilyn Strathern (ed.), Nature, culture and gender, Cambridge, Cambridge University Press, 1980

MAUSS, Marcel, “Les techniques du corps” (1934) In: Sociologie et Anthropologie. Paris, PUF, 1950 (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac & Naify, 2003)

MEAD, Margareth, Sex and temperament in three primitive societies, New York, Dell, 1935 (Trad. Bras. Rosa Krausz. São Paulo, Perspectiva, 2000)

MOORE, Henrietta, “Understanding sex and Gender” In:Tim  Ingold. (ed), Companion Encyclopedia of Anthropology. Londres, Routledge, 1997

PISCITELLI, Adriana, Recriando a (categoria) mulher?”  In: Leila M. Algranti (org), A prática feminista e o conceito de gênero, Campinas, IFCH/UNICAMP, 2002, v. 48, p. 7-42

RUBIN, Gayle, “The Traffic in Women. Notes on the “Political Economy” of Sex" In: Rayna Reiter,(ed), Toward an Anthropology of Women, New York, Monthly Review  Press, 1975

SCOTT, Joan, Gender: a useful category of historical analyses. Gender and the politics of history, New York, Columbia University Press, 1989

STRATHERN, Marilyn,  No nature, no culture: the Hagen case. In: Carol MacComarck  & Marilyn Strathern (ed), Nature, culture and gender. Cambridge, Cambridge University Press, 1980 (Trad. Bras. Iracema Dulley e Jamille Pinheiro. São Paulo, Cosac Naify, 2014)

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Gênero

Civilização - Marcel Mauss

Há fenômenos sociais que cruzam fronteiras políticas, não estando restritos à circunscrição de tribos, povos, nações, cidades ou Estados, indica o antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) em artigo escrito em coautoria com Émile Durkheim (1858-1917), “Nota sobre a Noção de Civilização” (1913), e em estudo aprofundado de sua própria autoria, “As Civilizações – Elementos e Formas” (1929). Nesses textos, Mauss defende a transversalidade de tais tipos de fenômenos, que pode ser aferida com a ajuda de diversos exemplos. As coleções arqueológicas dos museus etnográficos e históricos propõem classificações científicas, ainda que hipotéticas, de ferramentas e objetos de arte, representando-as em mapas de dispersão e propondo genealogias para as técnicas. Mas esta dispersão pode ser observada não só no que concerne à cultura material; a filologia demonstra que o conjunto dos povos falantes de línguas indo-europeias partilham vocábulos e formas verbais, e um mesmo substrato de instituições elementares. As diversas nações iroquesas, por sua vez, compartilham as bases de um sistema religioso comum, e em todos os povos polinésios pode ser encontrada organização política semelhante. Tais fenômenos não são isolados, argumenta Mauss; ainda que existam de maneira independente, articulam-se em um sistema solidário, sendo localizáveis no tempo e no espaço.

A esses fatos, “que têm sua unidade” e sua “maneira própria de ser”, Mauss dá o nome de “civilização”, termo que engloba fenômenos dispersos em diferentes grupos sociais (os “fenômenos de civilização”), mas característicos o suficiente para remeterem à ideia de famílias de sociedades. Entre as sociedades que partilham um substrato mínimo, material ou cultural, há, segundo ele, um intercâmbio constante de elementos culturais passíveis de troca, que circunscrevem um sistema social mais amplo. Mas, a despeito das trocas, há um ponto no qual os fenômenos chocam-se diante da recusa deste ou daquele empréstimo, o que termina por definir uma fronteira civilizacional.

O modo como a noção de civilização é formulada expressa uma regra do método maussiano, que propõe que todo o conceito faça referência a um substrato específico, isto é, a um grupo humano ocupando uma porção determinada do espaço, em tempo determinado, o que leva a criticar os usos ordinários do termo, alimentados pelo romantismo alemão e por autores como Auguste Comte (1798-1857), que lidariam com uma ideia abstrata de civilização, entendida como categoria do espírito humano. Assim considerada, a noção acaba, segundo Mauss, por exprimir carga ideológica e por se associar à dominação política, abstraindo as individualidades nacionais. Ao visarem “a marcha geral da humanidade”, tais formulações deixam de lado o objeto próprio da pesquisa social: os organismos sociais e a expressão coletiva das personalidades que os povos constituíram no decurso da história. Nesses termos, compete ao sociólogo tratar de descrever as civilizações, classificando-as em gênero e espécie, e analisando-as de modo a explicar os elementos que as compõem. “Se não há uma civilização humana”, pondera o autor, “houve e há sempre civilizações diversas, que dominam e envolvem a vida coletiva de cada povo”; é com essa diversidade, mais do que com uma abstração política, que a sociologia como ciência deve estar comprometida.

Como citar este verbete:
MORAIS, Bruno Martins. 2015. "Civilização - Marcel Mauss". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/civilização-marcel-mauss>

autoria

Bruno Martins Morais

bibliografia

MAUSS, Marcel & DURKEIM, Émile, “Note sur la notion de civilisation”, Année Sociologique n. 12, 1913, p. 46- 50 In: M. Mauss, Oeuvres 2, Paris, Les Éditions de Minuit, 1969 (Trad. Bras. Luiz João Gaio e J. Guinsburg.  São Paulo, Perspectiva, 1999 e Mauro Guilherme Pinheiro Khoury, Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, 6 (17), 2007, p. 594-599 http://www.cchla.ufpb.br/rbse/DurkheimMaussTrad.pdf)

MAUSS, Marcel,  “Civilisation. Le mot et l’idée” In: MAUSS, M. Oeuvres 2, Paris,  Les Éditions de Minuit, 1969 (Trad. Bras. Luiz João Gaio e J. Guinsburg. São Paulo, Perspectiva, 1999)

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Civilização - Marcel Mauss