método genealógico

O método genealógico na pesquisa antropológica

O artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica”, assinado por William H. R. Rivers (1864-1922), como indica o título, dedica-se à apresentação do método genealógico concebido por Rivers com auxílio de Alfred Cort Haddon (1855-1940), durante a expedição ao estreito de Torres (1898), cujo objetivo é fornecer uma base científica para a nova disciplina, pela sistematização de instrumental próprio para a análise antropológica. Sua primeira versão, “A genealogical method of collecting social and vital statistics”, é exposta à comunidade científica em 1900; após a experiência etnográfica de Rivers entre os Toda na Índia, o texto é republicado no The Genealogical Method of Anthropology Inquiry (1910).

O método consiste na coleta de genealogias reais de determinado povo com base em perguntas específicas feitas aos seus membros. Por meio delas, o pesquisador obteria um diagnóstico da organização social do grupo, possível porque, de acordo com Rivers, as sociedades tendem a conservar oralmente, e por diversas gerações, as suas genealogias. O método genealógico seria, portanto, a solução ideal para etnógrafos que dispõem de pouco tempo de permanência em campo, sem o domínio do idioma local ou auxílio de bons intérpretes. Seu uso mostra-se também eficaz por permitir o acesso, em um curto período, a informações objetivas e precisas acerca da filiação, aliança, residência, status, entre outras.

Em virtude das diferenças entre os sistemas de parentesco existentes, na aplicação do método e na formulação das questões, o antropólogo deveria utilizar um vocabulário limitado a poucas categorias: pai, mãe, filho, filha, esposo e esposa. Após obter os dados necessários nas linhas de descendência masculina e feminina, ao pesquisador caberia dispor as informações de forma gráfica -  grafando os nomes dos homens em letras maiúsculas e sempre à esquerda dos das mulheres, sendo estes redigidos em minúsculas. Outras informações deveriam ser destacadas de modo a que a identificação precisa de cada indivíduo seja possível, tais como: nome, idade, condição social, localidade de origem ou habitação; grupo ou clã, entre outros. A despeito de eventuais erros, Rivers defende a eficiência do método devido à possibilidade de testar a veracidade das informações a partir do entrecruzamento dos dados com base em três genealogias completas. Assim, segundo o autor, seria possível alcançar uma demonstração científica e, simultaneamente, retornar até um século na trajetória da sociedade em questão. Dentre suas aplicações estariam, além da obtenção do sistema de parentesco de um povo, o estudo de relações matrimoniais, já que se revelariam as leis que regem os casamentos, bem como regras de descendência, herança, propriedade, cargos de chefia, entre muitas outras. O método poderia ainda ser utilizado ainda para detalhar processos migratórios, práticas mágicas e religião, bem como para oferecer um amplo banco de dados censitários e estatísticos, revelando padrões. Seu uso na antropologia física foi também referenciado por Rivers.

OLIVEIRA, Roberto C. A Antropologia de Rivers, 1991

Apesar de ser considerado o mais notório defensor do método genealógico, Rivers não foi o primeiro a fazer uso de genealogias em estudos antropológicos; o questionário de parentesco de Lewis Henry Morgan (1818-1881), publicado em Sistemas de Consanguinidade e Afinidade da Família Humana (1871), já apresentava um minucioso roteiro para a coleta de dados de parentesco. Se isso é verdade, a contribuição de Rivers foi criar uma ferramenta ágil, capaz de produzir, com precisão e rapidez, informações chave para os estudos de parentesco, a partir de uma genealogia considerada real, já que o informante seria capaz de fornecer com exatidão as classificações de seus parentes. No entanto, é preciso lembrar que tanto a obtenção das informações quanto a construção da genealogia, com base nos dados recolhidos, seguem os critérios classificatórios do pesquisador e não propriamente os dos informantes. Sua objetividade deriva, portanto, da tradução que o antropólogo realiza dos conceitos nativos.

O método genealógico pode ser apontado como um dos maiores subsídios metodológicos para os estudos de parentesco, considerado durante décadas como instrumento indispensável e mínimo do antropólogo em campo na coleta de informações. Foi retomado pelos estudos africanistas e adotado em diversas pesquisas da etnologia sul-americana, ainda que extensamente criticado por pesquisadores que apontaram as limitações do modelo, como David Schneider (1918-1995) e Mary Bouquet (1955-). No Brasil, o artigo de Rivers conheceu duas traduções: uma primeira, de 1969, a cargo de Roque de Barros Laraia (1932-) e outra de Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006), em 1991.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "O método genealógico na pesquisa antropológica". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/o-método-genealógico-na-pesquisa-antropológica>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

LARAIA, Roque de Barros (org.), Organização Social, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969

RIVERS, William H., “O método genealógico na pesquisa antropológica” In: CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto (Org.), A Antropologia de Rivers, Campinas, Editora da Unicamp, 1991, p. 51-67

SILVA, Márcio Ferreira, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, p. 323-336, 2010

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Método genealógico na pesquisa antropológica, O

William Halse Rivers

Nascido na cidade de Chatham, região do Kenty, Inglaterra, William Halse Rivers (1864-1922) conclui sua graduação em Medicina, aos 22 anos, obtendo o título de doutor na Universidade de Londres, dois anos depois. Em 1891, trabalha como médico residente no National Hospital for the Paralysed and Epileptic, período em que publica estudos nas áreas de Psicologia e Neurologia. A fim de especializar-se nesses campos, muda-se para a Alemanha, onde irá estudar na Universidade de Jena com o psiquiatra Emil Kraepelin. De volta à Inglaterra, assume o Laboratório de Psicologia na University College London, tornando-se, em 1897, o primeiro professor em Psicologia Fisiológica e Experimental da Universidade de Cambridge. Na primeira década do século XX, Rivers produz uma série de artigos nos campos da antropologia e psicologia experimental. Após uma segunda expedição à Oceania, às Ilhas Salomão (Melanésia), publica o artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica” (1900 e 1910, para a segunda versão revista), no qual apresenta uma ferramenta capaz de coletar, com precisão e rapidez, informações-chave para os estudos de parentesco e da organização social.

Foto por Henry Maull para The Royal Society (1922)

Em 1898, Rivers integrará a expedição ao estreito de Torres, localizado entre a Austrália e a Papua-Nova Guiné, que se tornaria um marco na história da antropologia em geral e na britânica, em particular. Sua experiência com os insulares dessa região da Melanésia, onde conduziu, como psicólogo, testes sobre as percepções visuais e cognitivas dos nativos, foi fundamental para que sua carreira e produção se orientassem na direção da antropologia; é nesse contexto que lança as bases para o desenvolvimento de seu método genealógico. Entre 1901 e 1902, com interesse em temas como o parentesco e a organização social, passa cinco meses no sul da Índia, entre os Toda, cujo resultado vem à luz com a monografia The Toda, publicada em 1906. A experiência de ir a campo para obter seus próprios dados de pesquisa sinaliza o esforço do autor em trabalhar com fontes primárias, algo pouco comum à produção antropológica da época. Nos anos seguintes, Rivers aproximaria-se do difusionismo, o que era considerado, por alguns antropólogos de sua geração, uma adesão à empiria estimulada pelo trabalho de campo.  Em seu primeiro discurso como presidente da seção de Antropologia da British Association for the Advancement of Science, em 1911, realiza duras críticas à atitude especulativa adotada pelos evolucionistas, considerando-a extremamente prejudicial à constituição da nova ciência. Em 1914, publica Kinship and Social Organization, coletânea com três conferências ministradas em 1913 na London School of Economics sobre sua experiência durante o campo realizado na segunda expedição à Oceania. No mesmo ano, publica The History of Melanesian Society, obra em dois volumes, considerada pelo autor a sua mais importante publicação. Enquanto o primeiro livro contém descrições etnográficas dos povos visitados, o segundo abarca uma densa discussão teórica voltada, sobretudo, para uma crítica à perspectiva evolucionista, ressaltando a importância das análises etnológicas frente às especulações “de gabinete”. Durante a I Guerra Mundial, Rivers reaproxima-se da psicologia, ganhando notoriedade pelos tratamentos que realizou entre os soldados britânicos com traumas de guerra. Também se envolve com a esfera política, sendo nomeado candidato ao Parlamento britânico nas eleições de 1922 pelo Labour Party. Mas não chegou a disputar o pleito, já que faleceria meses antes.

Em seu multifacetado trajeto intelectual, W. H. R. Rivers estabeleceu o programa básico da Antropologia Social britânica ao adotar a pesquisa empírica como fonte privilegiada de informação,  influenciando importantes autores da disciplina, como Radcliffe-Brown (1881-1955) e instituindo preceitos fundamentais para estudos posteriores sobre o parentesco e a organização social, especialmente por ter privilegiado a pesquisa empírica e estabelecido o método genealógico. Como lembra Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006) na introdução a um volume dedicado a Rivers, o caráter científico que o antropólogo objetivava conferir à antropologia foi emblematicamente sintetizado por Claude Lévi-Strauss (1908-2009) quando disse, em 1958:  “Em Rivers, a Etnologia encontrou seu Galileu”.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "William Halse Rivers". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/william-halse-rivers>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

KUPER, Adam, “Richard Slobodin. W. H. R. Rivers (Leaders of Modern Anthropology Series)”, The American Historical Review, n.84 (4), Oxford, Oxford University Press, 1979, p.1027-1028

OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.), A Antropologia de Rivers. Tradução Gilda Cardoso de Oliveira e Sônia Bloomfield Ramagem. Campinas, Editora da UNICAMP, 1991

SILLITOE, Paul, “The Role Of Section H At The British Association For The Advancement Of Science In: “The History Of Anthropology”, Durham Anthropology Journal, Volume 13 (2), Durham, Department of Anthropology/Durham University, 2005, p.1-17

SILVA, Márcio Ferreira da, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, 2010, p. 323-336

SLOBODIN, Richard, W. H. R. Rivers, New York, Columbia University Press, 1978

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