política

Genealogia - Michel Foucault

Utilizado pelo filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) em suas reflexões sobre as tecnologias e dispositivos de saber-poder, o método genealógico consiste em um instrumental de investigação voltado à compreensão da emergência de configurações singulares de sujeitos, objetos e significações nas relações de poder, associando o exame de práticas discursivas e não-discursivas. O desenvolvimento das análises genealógicas contribui para o exame do biopoder, poder que governa a vida, o que leva Foucault a investigar diferentes dispositivos, considerados conjuntos articulados de discursos e práticas constitutivos de objetos e sujeitos, produtivos e eficazes tanto no domínio do saber quanto no campo estratégico do poder. A genealogia do sujeito moderno desdobra-se no exame de três dispositivos distintos: o disciplinar, que toma o corpo como foco de estratégias de saber-poder, desenvolvendo tanto uma microfísica do poder quanto uma anatomia política dos indivíduos; o dispositivo de segurança que desenvolve uma biopolítica das populações, considerando o ser humano como espécie; e o dispositivo da sexualidade, que emerge do questionamento e da intervenção em relação ao sujeito, considerando distintos modos de subjetivação.

Michel Foucault, foto de Randolph BadlerA noção de genealogia é apresentada no ensaio Nietzsche, a Genealogia, a História (1971), quando enfatiza as reflexões do filósofo alemão sobre as relações entre história e filosofia. A discussão conceitual desenvolvida nesse comentário à obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900) é fundamental para a elaboração da ideia de genealogia, que marca uma inflexão na obra de Foucault com a inclusão mais explícita das relações de poder e das práticas não-discursivas nas análises. Suas investigações a partir daí diferem dos trabalhos anteriores orientados pelo método arqueológico, discutido em A Arqueologia do Saber (1969) - em que procura responder à polêmica gerada em torno de As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas (1966) - e empregado em suas primeiras obras: História da Loucura na Idade Clássica (1961) e O Nascimento da Clínica: uma arqueologia do olhar médico (1963).

O método genealógico surge como questionamento de leituras metafísicas da história, segundo as quais a pesquisa sobre a origem das coisas apresentaria como resultado sua essência supra-histórica, o que permitiria tanto o reconhecimento de seu valor solene, quanto a descoberta de sua verdade oculta. Como contraponto, Foucault proporá uma investigação genealógica que problematiza três elementos. Em primeiro lugar, a genealogia é “dissociativa”, buscando refutar a existência de essências e identidades eternas, e procurando apresentar os acontecimentos múltiplos, heterogêneos e disparatados presentes na origem. Em segundo lugar, ela é “paródica”, destruindo os valores e as realidades aceitas, negando-se a venerá-los, o que permitiria a liberação de potências vitais e criativas. Finalmente, a genealogia é “disruptiva” do sujeito de conhecimento e da verdade, não se limitando a inquirir a verdade daquilo que se conhece e questionando também quem conhece, de modo a propor uma crítica do próprio fundamento antropológico do saber, isto é, do sujeito do conhecimento.

Foucault encontrará no projeto genealógico de Nietzsche um uso bem definido dos conceitos de “proveniência” (Herkunft) e “emergência” (Entsteung), ambos voltados à problematização da “origem miraculosa” (Wunderursprung) das coisas, com tudo que ela propõe de metafísico e ilusório às pesquisas históricas, quando pretendem descobrir a essência das coisas, sua identidade primeira, estado de perfeição e verdade. A análise da proveniência refere-se à articulação entre corpo e história, pois é no corpo, segundo Foucault, que os acontecimentos são inscritos. Mas não se trata de buscar o que é geral e constitutivo de uma identidade, mas de mostrar a heterogeneidade e a proliferação de acontecimentos que se encontram na origem das coisas, indicando o que há de acidental e descontínuo na história. Entendida desse modo, a proveniência tende a ser omitida das narrativas históricas que, ao buscarem construir um discurso coerente sobre a origem das coisas, acabam por desconsiderar elementos que podem causar rupturas à unidade proposta. Assim que a tarefa daquele que busca realizar uma “genealogia da ‘alma’ moderna” deve partir da análise minuciosa das relações entre corpo e história. O exame do sujeito e de suas identidades remete o genealogista aos diversos acontecimentos heterogêneos pelos quais ele se forma, de modo que a indicação da proveniência permite a dissociação do Eu e das identidades constituídas.

A emergência, por sua vez, trata dos acontecimentos, da maneira como se associam suas significações com as relações de poder; sua análise procura determinar, na descontinuidade dos acontecimentos, os diferentes e sempre cambiantes sistemas de submissão a que as coisas estão associadas, tendo em vista que aquilo que emerge nos acontecimentos, e sua significação, dependem do estado das forças em determinado momento. Quando se procura inquirir a emergência, é preciso atentar às lutas, às confrontações dos adversários, às suas estratégias e táticas, ao modo como buscam assegurar sua própria dominação ou então revertê-la, seja pela subversão das regras existentes ou pela instauração de outras, fazendo com que a sucessão dos sistemas de dominação esteja, no limite, sujeita ao acaso das lutas. A análise da emergência propõe uma atenção às relações entre os processos de dominação e de significação, pois a interpretação dos acontecimentos está orientada pelas perspectivas daqueles que combatem.

Ao enfatizar a análise das relações entre verdade, sujeito e poder, a noção de genealogia tem sido mobilizada em pelo menos três domínios da antropologia: (1) nas discussões sobre o trabalho de campo e a etnografia, como em Writing Culture (1986), organizado por James Clifford (1945-) e George Marcus (1943-) - em que é possível destacar a contribuição de Paul Rabinow (1944-), antropólogo social, divulgador e intérprete da obra de Michel Foucault nos Estados Unidos - e The Predicament of Culture (1988), de James Clifford (2) nos estudos de gêneros e sexualidade, discutida por Judith Butler (1956-) em Problemas de Gênero (1990) e Bodies That Matter (1993) e (3) no domínio da reflexão política, como em The Anthropology of The State (2006), organizado por Aradhana Sharma e Akhil Gupta.

Como citar este verbete:
MORAES, Marcos Vinicius Malheiros. 2018. "Genealogia - Michel Foucault". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/genealogia-michel-foucault>

autoria

Marcos Vinicius Malheiros Moraes

bibliografia

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FOUCAULT, Michel, L'Archéologie du savoir, Paris, Gallimard, 1969 (Trad. Port. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Edições 70, 2014)

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FOUCAULT, Michel, Histoire de la sexualité, vol. 1: La volonté de savoir, Paris, Gallimard, 1976 (Trad. Bras. Maria T. da Costa Albuquerque & J. A. Guilhon Albuquerque, São Paulo, Paz e Terra, 2014)

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GUPTA, Akhil & SHARMA, Aradhana, (orgs.) The Anthropology of the State: a reader, Malden, MA, Blackwell Publishing, 2006

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Genealogia

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society (1986), referência no seio da antropologia das formas expressivas e das emoções, é o primeiro livro publicado pela antropóloga norte americana Lila Abu-Lughod (1952-). A obra trata dos elos complexos entre organização sócio-política, sistema moral e expressão dos sentimentos entre os Awlad 'Ali, população beduína do Egito Ocidental, junto à qual ela realizou seu trabalho de campo no início da década de 1980. Em uma interpelação crítica a abordagens limitadas à homogeneidade do discurso oficial da cultura sobre ela mesma e aos modelos individualistas de tratamento das emoções, a autora constrói seu argumento em torno do contraste entre dois modos discursivos coexistentes entre os beduínos: o da vida ordinária, pautado pela honra e por uma linguagem “agressiva”, e um discurso poético que, enunciado em contextos privados, ressalta vulnerabilidade e afeição. Considerada um exemplo de análise discursiva inspirada em Michel Foucault (1926-1984), a atenção da obra de Abu-Lughod à intimidade da vida doméstica das mulheres em suas conexões com a moralidade e a organização sócio-política beduína é crucial para a elucidação da complementaridade desses discursos na lógica do sistema moral dos Awlad 'Ali e dos modos culturalmente construídos de expressar e sentir as experiências pessoais.

A relação entre as duas seções do livro está baseada nessa contraposição. Na primeira, a autora apresenta distintas facetas da ideologia oficial beduína que refletem a divergência entre o ideal igualitário da estrutura patrilinear e as hierarquias social e de gênero. De um lado, um rígido código de honra no qual a capacidade de alguns homens de “encorporar” os valores supremos do autocontrole, autonomia pessoal e política torna-se a medida para sua posição hierárquica; sendo dependentes econômica, física e socialmente, os homens jovens e, sobretudo, as mulheres estão impedidos de realizar tal ideal. De outro lado, a modéstia sexual, expressão da deferência voluntária na relação com os hierarquicamente superiores, é o modo pelo qual as mulheres expressam respeito pelo sistema hierárquico e, ao fazê-lo, valorizam-se moralmente no interior deste (a obediência deliberada ao sistema moral aparece como virtude feminina). Abu-Lughod descreve, assim, modos ideológicos por meio dos quais os Awlad 'Ali conciliam ideais igualitários e hierárquicos, demonstrando a relação dialética entre honra e modéstia, caminhos distintos que convergem para a valorização moral de famílias e pessoas.

A segunda parte da obra desdobra o contraste entre o discurso público, marcado por uma linguagem agressiva e altiva, e os ghinnawas, pequenas canções poéticas que remetem à intimidade pessoal e expressam sentimentos negados pelo sistema moral público por sua conotação de fraqueza e dependência: dor, melancolia, tristeza, amor romântico. Tal oposição emerge em distintos momentos da vida social, sobretudo nas crises de perda pessoal, como a morte e o divórcio, ou nas relações amorosas, que suscitam reações diferentes no mundo público e privado. Ao constituir meio de expressão culturalmente sancionado para sentimentos que ameaçam os valores do próprio sistema moral oficial, a poesia fornece uma imagem contrapontística ao sistema moral beduíno: o aspecto subversivo da fórmula poética tradicional é valorizado na medida em que se integra ao próprio código da honra e autonomia beduína, e da escolha virtuosa pela deferência. Trata-se, portanto, de duas linguagens disponíveis para expressar e sentir as experiências pessoais, cuja articulação reflete contradições profundas entre princípios hierárquicos e igualitários do sistema sócio-político. Nesse sentido, Veiled Sentiments abre-se na direção de debates em torno dos limites do caráter subversivo da arte e dos modos de expressão e construção cultural dos sentimentos.

Capa da nova edição do livro, comemorativa do 30o aniversário de lançamento

As resenhas a respeito do livro ­- entre as quais, uma bastante elogiosa de Clifford Geertz (1926-2006) - indicam sua recepção positiva da obra na academia norte-americana e evidenciam a multiplicidade de campos e questões que o atravessam, por exemplo, o trabalho reflexivo sobre o campo, necessário para a explicitação do vínculo entre a posição social do etnógrafo e a construção de relações específicas e situadas de conhecimento, algo vislumbrado no capítulo inicial do livro e desdobrado em sua segunda obra, Writing Women’s World (1993). Veiled Sentiments insere-se, dessa forma, ao lado de trabalhos como os de Donna Haraway (1988), Edward Said (1935-2003), George Marcus (1943) e James Clifford (1945) em uma ampla discussão acerca das relações entre política e escrita etnográfica, sobre o caráter situado do conhecimento e suas implicações éticas e epistemológicas.

Como citar este verbete:
MONTEIRO, Eduardo Santos Gonçalves. 2018. "Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/obra/veiled-sentiments-honor-and-poetry-bedouin-society>

autoria

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro

bibliografia

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Abu-Lughod, Lila, Writing Against Culture In: Fox, Richard (ed.), Recapturing Anthropology, Santa Fe, School of American Research Press, 1991

Abu-Lughod, Lila, Writing Women’s Worlds: Bedouin Stories, Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1993

Clifford, James & Marcus, George (ed.), Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography, Berkeley & Los Angeles, University of California Press, 1986

Geertz, Clifford, “Review: Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society by Lila Abu-Lughod”, American Ethnologist: Journal of American Ethnological Society, Volume 14, Issue 3, 1987, p. 567-568

Haraway, Donna, “Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective”, Feminist Studies 14,1988, p. 575-99

Overing, Joanna & Rapport, Nigel, Social and Anthropology: The Key Concepts, London e New York, Routledge, 2000

Said, Edward, Orientalism New York: Random House, 1978 (Trad. Bras. Tomás Rosa Bueno, São Paulo, Companhia das Letras, 1990)

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Veiled Sentiments

Sociedade contra o Estado - Pierre Clastres

A noção de sociedade contra o Estado é desenvolvida pelo filósofo e etnólogo francês Pierre Clastres (1934-1977) nos escritos reunidos em A sociedade contra o Estado, 1974 e Arqueologia da violência (1980). Por meio dela, o autor refuta a ideia de que a evolução das sociedades deve ser medida pela presença ou ausência do Estado ou por um maior, ou menor grau, de centralização de poder, dirigindo duras críticas ao grande divisor entre sociedades com e sem poder, corroborado por diferentes modelos de análise política como, por exemplo, os de Meyer Fortes (1906-1983) e Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973) na obra African Political Systems (1940). A Antropologia Política praticada até então, segundo P. Clastres, analisava as sociedades ditas arcaicas sob a ótica da filosofia política euro-americana, pensando o poder político em termos de coerção e subordinação; ficavam excluídas outras maneiras de pensar o poder que não estivessem de acordo com o pressuposto de um sentido único de história e com as definições correntes de poder e política, sinônimas de poder coercitivo e de Estado, respectivamente. Ao procurar a centralização do poder nas sociedades ditas primitivas, classificando-as como sem Estado, sem escrita, sem história e sem economia, tal antropologia teria produzido, segundo o autor, um discurso da “falta”, fazendo tais sociedades aparecerem nas análises, como haviam figurado antes nos relatos de viajantes e cronistas, como constituídas por “gentes sem fé, sem lei, sem rei”.

Contra uma razão de tipo etnocêntrico, cara à ciência, P. Clastres pensa os fundamentos do poder e suas transformações, debruçando-se sobre a dimensão política das sociedades indígenas e, mais do que isso, propondo o que ele chama de uma “revolução copernicana”, com a alteração do centro de gravidade da antropologia pela retirada da noção ocidental do político do coração da análise. Em seu projeto de antropologia política, o antropólogo defende o que denomina uma arqueologia crítica da linguagem antropológica, amparada na revisão conceitual do pensamento político, e que considera seriamente as escolhas políticas de sociedades outras, mesmo quando estas revelam ser a negação ou recusa das escolhas ocidentais. Trata-se de deixar de emitir um discurso sobre as sociedades não ocidentais, buscando estabelecer um diálogo com elas.

Partindo da literatura americanista, P. Clastres mostra que o poder coercitivo, típico de sociedades com Estado, é apenas uma modalidade particular do poder dentre outras, o que o faz alargar a noção de política e a entender o poder, coercitivo ou não, como universal e imanente a todas sociedades. Tal pressuposto termina por positivar a ideia mesma de sociedade primitiva, não mais vista em função da suposta ausência de poder, mas como dotada de formas não-coercitivas de ação política; o modo de ser político dessas sociedades, sua intencionalidade de organização eminentemente política, implica a recusa da centralização do poder coercitivo exercido por uma figura ou órgão separado da sociedade o que, por sua vez, poderia conduzir a uma divisão social entre dominantes e dominados. O antropólogo percorre caminho semelhante ao refutar, contra as correntes neo-evolucionistas da época, a suposta ausência de economia nessas sociedades, consideradas miseráveis em função da economia de subsistência e arcaicas, pela carência de inovações tecnológicas; argumenta serem elas “essencialmente igualitárias”, recusando qualquer força transcendente que imponha a produção de excedentes visando o enriquecimento de um pequeno grupo. Nessa inversão das interpretações correntes, reside a rotação de perspectivas empreendida por Clastres: as sociedades ditas primitivas deixam de ser pensadas a partir do grande divisor,  sociedades com e sem Estado, e passam a ser reconhecidas como sociedades contra o Estado, contrapondo-se àquelas assentadas na relação de comando-obediência. Nesse sentido, são também sociedades contra a economia, uma vez que o poder político é compreendido pelo antropólogo como sendo anterior à economia, em todas as sociedades. 

Pierre ClastresA filosofia política contra o Estado proposta por P. Clastres assenta-se em dois mecanismos principais: de um lado, na chefia indígena, esvaziada de poder coercitivo e considerada um aparelho interno contra a concentração do poder; de outro, no dispositivo da guerra, máquina de dispersão centrífuga que recusa o mecanismo de unificação e a concentração do poder, possibilitando que as sociedades indígenas permaneçam demográfica e territorialmente restritas, condição básica para sua indivisibilidade. A sociedade primitiva, segundo ele, é a sociedade contra o Estado na mesma medida em que é a sociedade para a guerra. O profetismo tupi-guarani analisado por Hélène Clastres, por sua vez, é reconhecido como uma máquina profética contra a centralização que se opõe à ameaça do fortalecimento dos chefes de guerra, ao mesmo tempo que desponta como a prefiguração do Estado; isto porque os profetas, por meio de suas belas e subversivas palavras, logram convencer numerosos grupos, aliados e inimigos, a caminharem, sob sua liderança, em longas migrações em busca da terra sem mal. O poder para P. Clastres não é visto como representação, mas como exercício que cria e sustenta o espaço coletivo, construindo-se por meio de figuras como o chefe, o guerreiro e o profeta. 

Estudos posteriores acerca das sociedades ameríndias, motivados pela obra do “intempestivo” etnólogo francês, como ficou conhecido, passaram também a pensar essas sociedades além da órbita do Estado, recusando um vocabulário tomado de realidades outras, e inspirando-se nas próprias formas políticas americanas. De acordo com os antropólogos brasileiros Tânia Stolze Lima e Marcio Goldman, a análise clastreana da guerra é uma das primeiras a não reduzir as sociedades ameríndias a grupos fechados, fazendo aparecer as alianças políticas que interligam grupos locais e formam redes de relações. Tal obra pode ser vista também, segundo Eduardo Viveiros de Castro, como uma intuição da “política da multiplicidade”, característica das populações ameríndias, marcadas em seu modo de ser pela metafísica da predação e pelo perspectivismo, e podendo ser considerada ainda, como uma “cosmologia contra o Estado”.

Como citar este verbete:
ARANHA, Aline & FREIRE, Gabriela. 2016. "Sociedade contra o Estado - Pierre Clastres". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/sociedade-contra-o-estado-pierre-clastres>

autoria

Aline Aranha e Gabriela Freire

bibliografia

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SZTUTMAN, Renato, “Le vertige des prophètes te des guerriers amérindiens: déploiement de quelques paradoxes clastriens” In: Miguel Abensour e Anne Kupiec (org), Pierre Clastres, Paris, Sens & Tonka Editeurs, 2011, p. 193-210

SZTUTMAN, Renato, O profeta e o principal: a ação política ameríndia e seus personagens, São Paulo, EDUSP, 2012

SZTUTMAN, Renato, “Metamorfoses do Contra-Estado: Pierre Clastres e as Políticas Ameríndias”, São Paulo, Ponto Urbe, v. 13, 2013 (http://pontourbe.revues.org

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo, “O intempestivo, ainda” In: Pierre Clastres,  Arqueologia da violência, Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac & Naify, 2011

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Sociedade, Estado

A Invenção do Cotidiano

O livro A Invenção do Cotidiano (1980) do historiador e antropólogo francês Michel de Certeau (1924-1986) desdobra-se em dois tomos: Artes de fazer (volume 1) e Habitar, cozinhar (volume 2), este escrito com Luce Giard, historiadora das ciências e da religião, e Pierre Mayol, aluno de Certeau. A obra é fruto de um trabalho coletivo realizado entre 1974 e 1977, a partir de uma encomenda do Ministério da Cultura francês interessado em questões de cultura e de sociedade, e sobre as quais Certeau trabalhara em obras precedentes, por exemplo em La culture au pluriel (1974). À proposição feita, Certeau e equipe respondem pela análise das práticas culturais cotidianas, tema a partir do qual desenvolvem uma abordagem do consumo cultural, pensado como dimensão criadora e inventiva.

Debord, Guy. THE NAKED CITY - Illustration de l'hypothèse des plaques tournantes en psychogeographique, 1957.No primeiro e mais difundido volume da obra, em função de pesquisa empírica detida, o autor esboça uma reflexão sobre as práticas ordinárias, aproximando-as dos “modos de fazer” das pessoas comuns, atento às diversas maneiras pelas quais fazem uso de regras e convenções impostas por uma ordem social e economicamente dominante. Para isto, escolhe para análise campos corriqueiros de ação: o espaço, a língua, a crença, entre outros. Trata, por exemplo, do caminhar pela cidade como um modo de “praticar o espaço” e apropriar-se do traçado urbano, não previsto pelos planos urbanísticos; examina também relatos de milagres entre os lavradores de Pernambuco que, ao mesmo tempo, que partem de preceitos do catolicismo tradicional, produzem “modos de crer” diversos; ou, ainda, do ato corriqueiro de ler, considerado como uma forma de apropriação do texto pelo leitor, que o realiza segundo seus códigos próprios de percepção e interesses. O segundo volume da obra, por sua vez, visa “traçar as interligações de uma cotidianidade concreta” por meio de vasto material etnográfico, estatístico, cartográfico e de entrevistas, reunido por Pierre Mayol que investiga as práticas do habitar no então bairro operário de Croix-Rousse em Lyon, e por Luce Giard, que se detém sobre as práticas de cozinhar.

A Invenção do cotidiano ancora-se em ideias e procedimentos provenientes de diversos campos de conhecimento: história, teologia, educação, psicanálise, filosofia, antropologia e linguística. Michel de Certeau aponta como suas principais inspirações a psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939); a filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e John Langshaw Austin (1911-1960); a antropologia de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e a filosofia de Immanuel Kant (1724-1804). Ao mesmo tempo, estabelece interlocuções fundamentais com Michel Foucault (1926-1984) e Pierre Bourdieu (1930-2002), a partir das quais delimita o campo das práticas; e com Marcel Detienne (1935) e Jean-Pierre Vernant (1914-2007) com quem dialoga para definir sua noção de tática. Duas obras de Foucault e Bourdieu são especialmente importantes nesses diálogos: Vigiar e Punir (1975), na qual Foucault relata a emergência de um novo tipo de controle sobre os sujeitos e seus corpos, sintetizada pelo modelo do panóptico e Esboço de uma teoria da prática (1972), na qual Bourdieu analisa instituições das sociedades kabila do norte da Argélia. Problematizando o olhar centrado exclusivamente nos procedimentos de controle (Foucault) e na ideia de determinação do habitus (Bourdieu), Certeau coloca o seu foco, não na imposição de padrões de comportamento, mas nos diferentes modos pelos quais as práticas cotidianas podem subverter imposições e controles diversos. A distinção entre “estratégia” e “tática” é central para o desenvolvimento da noção de prática cotidiana do autor, mais próxima do segundo termo. A ideia de tática inspira-se na análise que Detienne e Vernant realizam sobre a noção grega antiga de métis, forma astuciosa ou ardilosa de inteligência; trata-se formas de saber e conhecimentos práticos, que dependem de uma ocasião, ou momento oportuno (kairós) para serem colocados em ação.

A amplitude de inspirações teóricas em A Invenção do Cotidiano e os alcances da abordagem original da vida social e da cultura que apresenta fizeram da obra uma referência para estudos nas áreas de História, Antropologia, Educação, Literatura, Estudos Urbanos e Culturais, entre outros.

Como citar este verbete:
PEREIRA, Bruno Ribeiro da Silva & MACHINI, Mariana Luiza Fiocco. 2016. "A Invenção do Cotidiano". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/invenção-do-cotidiano>

autoria

Bruno Ribeiro da Silva Pereira e Mariana Luiza Fiocco Machini

bibliografia

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LÉVI-STRAUSS, Claude, La pensée sauvage, Paris, Plon, 1962 (Trad. Bras. Tânia Pellegrini. Campinas,  Papirus, 1989).

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Invenção, Cotidiano

Chefia Indígena - Pierre Clastres

A reflexão sobre a chefia indígena percorre a obra de Pierre Clastres (1934-1977), constituindo uma dimensão fundamental de sua conceituação de uma sociedade contra o Estado, que renovou a antropologia política, ao transfor, mar o campo de pesquisa sobre as formas indígenas da política. O tema está presente desde seu primeiro artigo, “Troca e Poder: Filosofia da Chefia Indígena” (1962) reeditado como segundo capítulo da coletânea A Sociedade Contra o Estado: Pesquisas de Antropologia Política, 1974), onde o autor discorre sobre o aparente paradoxo de uma chefia sem poder nas sociedades ameríndias. A partir de balanço bibliográfico sobre a política nas terras baixas sul americanas, ele se posiciona contra a visão consolidada pelo Handbook of South American Indians (1949), editado por Julian H. Steward (1902-1972).

Relacionando adaptação ecológica à complexidade sociopolítica conforme o paradigma da ecologia cultural, Steward contrapôs os povos das terras baixas sul americanas, considerados desprovidos de instituição política, aos impérios andinos e aos cacicados circum-caribenhos, ambos de caráter autocrático. Segundo Clastres, entre o excesso e a falta, Steward foi incapaz de conceder aos ameríndios a justa medida do poder político. Essa posição foi por ele aprofundada em “Copérnico e os Selvagens” (1969), resenha crítica ao Essai Sur Le Fondement du Pouvoir Politique, de Jean-William Lapierre (1921-2007), obra comparativa de cunho evolucionista que postulava um grau zero da política ao qual corresponderiam os povos “primitivos”. Para Clastres, é preciso desvencilhar-se do etnocentrismo que toma o Estado como realização última da política na consideração das formas políticas indígenas, o que implica desfazer a associação entre política e coerção. Tal movimento aproxima Clastres do filósofo Étienne de La Boétie (1530-1563), autor do Discurso sobre a Servidão Voluntária (1576), como indica o próprio Clastres em “Liberdade, Mau Encontro, Inominável” (1976) e em outros textos.

Em “Troca e Poder”, Pierre Clastres toma como ponto de partida a reflexão de Robert Lowie (1883-1957) em Some Aspects of Political Organization among the American Aborigines (1948), no qual o autor elenca os principais atributos do chefe ameríndio, que define como um titular chief. Segundo Lowie, o chefe tem função apaziguadora; desprovido de poder coercitivo, tem de recorrer à palavra. Deve ser assim um bom orador, capaz de realizar discursos ritualizados diariamente. Além disso, é incapaz de acumular excedente produtivo, devido à imposição de que seja generoso, doando seus bens ao grupo. A estes aspectos, Clastres acrescenta o privilégio da poliginia.

Dialogando com o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss (1908-2009), que identifica a origem da sociedade nas regras que impelem à reciprocidade entre os homens - como o tabu do incesto e a exogamia - o autor assinala que os elementos definidores da chefia são os signos cuja circulação define a atividade social: bens, palavras e mulheres. Mas, afirma o autor, ao considerar os circuitos de troca de cada um desses signos, nota-se que estes seguem apenas uma direção, rompendo o princípio de reciprocidade. Bens e palavras vão do chefe ao grupo, sem serem retribuídos, enquanto as mulheres vão do grupo ao chefe. Opondo-se à reflexão de Lévi-Strauss sobre a chefia Nambikwara em The social and psychological aspects of chieftainship in a primitive tribe: the Nambikwara of Northern Mato Grosso (1944), Clastres afirma que não se pode conceber este quadro como uma troca recíproca entre chefe e grupo - ou seja, os bens e palavras do chefe pelas mulheres do grupo - pois, segundo ele, a desigualdade da troca é insuperável.

caciques Guarani Kaiowá, foto de Pedro Alves

Incapaz de retribuir a dádiva a ele concedida, o chefe está em eterna dívida com o grupo. Excluído dos circuitos de reciprocidade que constituem a atividade social, é exteriorizado, tornando-se incapaz de agir sobre a sociedade, o que explica sua impotência; exterior ao grupo, o chefe define seus limites, conferindo-lhe sua unidade frente a outros grupos sem com isso engendrar uma divisão interna, entre os que mandam e os que obedecem, nos termos de La Boétie. A chefia sem poder deve sua razão de ser à escolha da sociedade indígena, que funda o político sem permitir que este se descole de seu substrato sociológico originário, voltando-se contra ele. Esta crítica de Clastres ao estruturalismo é sintetizada por Tânia Stolze Lima e Marcio Goldman em “Pierre Clastres, etnólogo da américa” (2001). Se para o estruturalismo lévi-straussiano a reciprocidade distingue os homens da natureza ao fundar a sociedade, Clastres mostra que a ruptura da reciprocidade distingue os homens entre si, fundando uma política. Se a ruptura da reciprocidade é para Clastres comum às sociedades, o sentido da dívida as diferencia. Como afirma em “O Poder da Palavra” (1973), é na relação entre palavra e poder que esta diferença se torna saliente. Se nas sociedades com Estado a palavra é o direito do poder, nas sociedades indígenas, não mais sem, mas contra o Estado, a palavra é um dever do chefe. Em ambos os casos, a reciprocidade é rompida, uma vez que essas falas não esperam resposta. Mas, se nas primeiras a palavra do poder é uma ordem, nas sociedades indígenas a palavra do chefe, dita por si mesma, se assemelha à palavra poética.

Como citar este verbete:
POUGY, Henrique. 2015. "Chefia Indígena - Pierre Clastres". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/chefia-indígena-pierre-clastres>

autoria

Henrique Pougy

bibliografia

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CLASTRES, Pierre, “Copernic et les Sauvages”, Critique, n. 270, 1969. Republicado em Pierre Clastres, La Société contre l’Etat. Recherches d’anthropologie politique, Paris, Éditions de Minuit, 1974 (Trad. Bras. Theo Santiago. São Paulo, Cosac Naify, 2001)

CLASTRES, Pierre, “Le Devoir de Parole”, Nouvelle Revue de Psychanalyse, n. 8, 1973. Republicado em Pierre Clastres, Recherches d’anthropologie politique. Paris, Seuil, 1980 (Trad. Bras. Paulo Neves, São Paulo, Cosac Naify, 2001)

CLASTRES, Pierre, “Liberté, malencontre, innommableIn: É. La Boétie, Discours de la servitude voluntaire, Paris, Payot, 1976. Republicado em Pierre Clastres, La Société contre l’Etat. Recherches d’anthropologie politique, Paris, Éditions de Minuit, 1974 (Trad. Bras.Theo Santiago. São Paulo, Cosac Naify, 2001)

LA BOÉTIE, Etienne de la [1576], Discours de la servitude voluntaire, Paris, Payot, 1976

LAPIERRE, Jean-William, Essai sur le fondement du pouvoir politique, Aix-en-Provence, Publications de la Faculté des Lettres d’Aix-en-Provence/Editions Ophryx, 1968

Lévi-Strauss, Claude [1944], The social and psychological aspects of chieftainship in a primitive tribe: the Nambikwara of Northern Mato Grosso In: R. Cohen & T. Middleton (eds.), Comparative Political Systems studies in the politics of pré-industrial societies, New York, Natural History Press, 1967

LIMA, Tânia S. & GOLDMAN, Marcio, “Pierre Clastres, etnólogo da américa”, Sexta-feira, n. 6. São Paulo, Hedra, 2001, p. 7-20

Lowie, Robert, "Some Aspects of Political Organization among the American Aborigenes", Journal of Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, n. 78, 1948

FORTES, Mayer & EVANS-PRITCHARD, Edward E. [1940], « Introduction” In: African Political Systems. Oxford, Oxford University Press (Trad. Port. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1981)

Steward, Julian H (ed.), The Handbook of South American Indians, vol. 5 – The Comparative Ethnology of South American Indians, Washington, DC, Smithsonian Institution, p. 818, 1949

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The Sanusi of Cyrenaica

Permanecendo ainda desconhecida para grande parte dos leitores do antropólogo britânico Edward Evans Evans-Pritchard (1902-1973), The Sanusi of Cyrenaica (1949) é um estudo histórico sobre o desenvolvimento político da fraternidade islâmica conhecida como Ordem Sanusiya na região da Cirenaica, na costa da Líbia. No período em que o autor viveu no Egito, lecionando na Universidade do Cairo (1932-1934), quando veio a conhecer alguns exilados Sanusi, Evans-Pritchard teve a oportunidade de viajar por diversas regiões do norte da África, adquirindo conhecimento sobre a história e a cultura beduínas, além de domínio da língua árabe. Durante a II Guerra Mundial, como oficial político da Terceira Administração Militar Britânica da Cirenaica, o autor passou dois anos (1942-1943) entre os beduínos nômades, percorrendo a cavalo mais de três mil quilômetros da inóspita região. Segundo o seu relato, o serviço militar o impediu de conduzir uma pesquisa sociológica sistemática entre os beduínos, mas permitiu a leitura da literatura que forma a base do estudo à luz de sua própria experiência.

Nesta obra, Evans-Pritchard narra a história do surgimento e desenvolvimento dos Sanusyia como uma ordem de origem sufi, enumerando as principais características que a distinguem de outras ordens islâmicas semelhantes. Descrevendo a região da Cirenaica e o modo de vida dos beduínos da região, o autor coloca em contexto os principais motivos da expansão e difusão dos Sanusi entre eles. A experiência do antropólogo entre os povos do deserto certamente influenciou a descrição detalhada que ele faz da ecologia cultural, da organização política em segmentos tribais, da vida religiosa, das relações de parentesco e da identidade étnica dos beduínos da região. Tais informações são fundamentais para a apresentação dos fatos históricos que se sucederam no período posterior à chegada e ao desenvolvimento dos Sanusi entre os beduínos, assim como das razões pelo qual esta Ordem tornou-se a principal voz política deste povo.

Sanusi marchando para enfrentar os Britânicos (c. 1915), Biblioteca do Congresso (EUA)A análise histórica realizada percorre a administração colonial turca, do final do Império Otomano, e sua política de quase nenhuma interferência nos assuntos relativos aos Sanusi, criando condições para o fortalecimento da Ordem e para sua transição de uma simples organização religiosa para uma organização política e econômica, que gradualmente adquire as feições de um proto-Estado. O autor realiza uma descrição minuciosa da resistência empreendida pelos Sanusi, em apoio ao governo turco frente à invasão italiana na Cyrenaica, a ascensão da Ordem na conjuntura política internacional da I Guerra Mundial e dos processos de negociação de um acordo de paz entre lideranças Sanusi e os governos italiano e britânico. Relata os pormenores da II Guerra entre os Sanusi e o governo fascista italiano em ascensão, apresentando detalhadamente toda a tática de guerrilha no deserto empreendida pelos beduínos; apesar dos esforços, a guerra culminou na derrota dos Sanusi frente ao exército italiano. Evans-Pritchard encerra o volume com uma forte crítica à política colonialista posteriormente conduzida pelo governo fascista da Itália no território da Cirenaica; justifica a indignação expressa contra o colonialismo italiano na região deixando claro não ser este diferente dos colonialismos levados a cabo por outras potências europeias.

The Sanusi of Cyrenaica possui grande relevância metodológica, delineando as bases de uma nova antropologia histórica. Seminal, a obra antecipa diversas discussões de método levantadas posteriormente pelo autor nos artigos em “Social Anthropology: Past and Present” e “Anthropology and History” (ambos de 1962), em que discute a articulação, na prática antropológica, entre pesquisa documental e pesquisa de campo, além de pensar a contribuição da teoria antropológica à pesquisa histórica.

Como citar este verbete:
RIBEIRO, Fábio & HUPSEL, Rafael. 2015. "The Sanusi of Cyrenaica". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/sanusi-cyrenaica>

autoria

Fábio Ribeiro e Rafael Hupsel

bibliografia

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Sanusi of Cyrenaica,  Oxford, Clarendon Press, 1949.

EVANS-PRITCHARD, E. E., “Social Anthropology: Past and Present” In: Essays in Social Anthropology, Londres, Faber and Faber, 1962.

EVANS-PRITCHARD, E. E., "Anthropology and History" in: Essays in Social Anthropology, Londres, Faber and Faber, 1962.

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Sanusi of Cyrenaica, The

Liminaridade e communitas - Victor Turner

Victor Turner (1920-1983), antropólogo britânico que dedicou boa parte de seus esforços intelectuais ao entendimento das simbologias subjacentes aos rituais, deu contribuição significativa à compreensão das práticas rituais ao refinar a noção de liminaridade e elaborar, a partir dela, o conceito de communitas. O autor concebe a ideia de liminaridade como correspondendo a um momento de margem dos ritos de passagem: fase ritual na qual os sujeitos apresentam-se indeterminados, em uma espécie de processo transitório de “morte” social, para, em seguida, “renascerem” e reintegrarem-se à estrutura social. Liminaridade é, portanto, uma condição transitória na qual os sujeitos encontram-se destituídos de suas posições sociais anteriores, ocupando um entre-lugar indefinido no qual não é possível categorizá-los plenamente. Segundo Turner, a vida social se movimenta a partir de um movimento dialético, envolvendo estrutura social e communitas, estrutura e antiestrutura, alimentado pelas práticas rituais.

Victor Turner, Rito de passagem Ndembu, A Floresta dos Símbolos

O antropólogo iniciou as reflexões sobre o tema em O processo ritual: estrutura e antiestrutura (1969), a partir de inspiração retirada de Os ritos de passagem (1909) de Arnold Van Gennep (1873-1957). Suas contribuições teóricas estão fundamentadas na análise de práticas rituais observadas entre os Ndembu, povo da região da África Central, e em uma ampla revisão da literatura antropológica disponível sobre a temática do ritual. Em sua  obra, Victor Turner concebe a liminaridade como condição social efêmera vivenciada por sujeitos temporariamente situados fora da estrutura social, dando origem ao que ele denomina communitas, isto é: uma forma de antiestrutura constituída pelos vínculos entre indivíduos ou grupos sociais que compartilham uma condição liminar em momentos especificamente ritualizados. Os sujeitos liminares agrupados pela communitas são marcados pela submissão, silêncio e isolamento, considerados como tábula rasa em relação à nova posição social a ser assumida após a conclusão do ritual de passagem. O autor opta pelo termo latim communitas à noção de comunidade, de modo a não conferir circunscrição espacial ao vínculos entre os sujeitos liminares, já que o caráter de antiestrutura da communitas está baseado em relações sociais e não em pertencimentos territoriais.

Turner expande a compreensão dos termos liminaridade e communitas para além dos contextos rituais classicamente analisados na antropologia, destacando que hippies, profetas, artistas, assim como integrantes de movimentos milenaristas e religiosos podem ser também considerados sujeitos liminares, que se agrupam em communitas diversas. Nesses casos, no entanto, a condição liminar parece ser permanente já que tais sujeitos se opõem ou, no mínimo, desafiam a estrutura social como única forma de organização social possível. No caso dos movimentos milenaristas, por sua vez, a condição liminar mostra-se transitória, durável até o momento em que as profecias nas quais o grupo acredita não se concretizam. Independente do contexto ritual, Turner destaca que, além estarem situados em uma condição de indiferenciação social por nome, status e gênero, os integrantes da communitas podem ser também marcados pela suspensão (ainda que efêmera) do direito à propriedade e das obrigações de parentesco.

De modo a fundamentar suas teses, o antropólogo recorre às etnografias de E.E. Evans-Pritchard (1902-1973), entre os Nuer, e de Meyer Fortes (1906-1983), entre os Tallensi, para mostrar que liminaridade e communitas evidenciam o que ele genericamente denomina “o poder dos fracos”. Ele afirma que em sistemas de parentesco patrilineares, nos quais os atributos jurídicos e políticos são transmitidos pela ascendência paterna, as mulheres encontram formas – muitas vezes justificadas pela mitologia e pelas práticas rituais – de marcar a importância da descendência materna na constituição pessoal e mística dos sujeitos. Em sistemas de parentesco matrilineares, onde o status jurídico e político é dado pela ascendência materna, por sua vez, os indivíduos que desenvolvem estratégias liminares para demonstrar sua importância na estrutura social seriam, inversamente, os homens. Esses exemplos permitem assinalar que, diante do confronto com a estrutura social, os sujeitos em condição liminar constituem uma solidariedade proporcionada pelo estabelecimento da communitas para marcar a relevância de sua posição social em contexto político, cultural e jurídico determinado. Turner conclui que toda estrutura social, acompanhada pelos ritos que concedem direitos de acesso a determinadas esferas de poder ou status, coopera para a existência de uma antiestrutura na medida em que produz sujeitos liminares, transitórios ou não, que se agrupam em communitas. Assim, a relação entre estrutura e communitas traduz uma dialética imprescindível à vida social em qualquer contexto.

Posteriormente, os conceitos de liminaridade, communitas e drama social serviram como pontos de partida para que Turner, a partir de seu interesse pelo universo do teatro, problematizasse as interações possíveis entre dramas sociais e dramas estéticos. Seu encontro teórico com Richard Schechner (1934-) originou um novo campo de estudos na disciplina, denominado Antropologia da Performance, que se beneficia das imbricações entre a antropologia e o teatro, e que vem encontrando grande repercussão no Brasil.

Como citar este verbete:
NOLETO, Rafael da Silva & ALVES, Yara de Cássia. 2015. "Liminaridade e communitas - Victor Turner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/liminaridade-e-communitas-victor-turner>

autoria

Rafael da Silva Noleto e Yara de Cássia Alves

bibliografia

DAWSEY, John, MÜLLER, Regina, HIKIJI, Rose Satiko & MONTEIRO, Mariana F.M. (orgs),  Antropologia e Performance: ensaios Napedra,  São Paulo, Terceiro Nome, 2013

SCHECHNER, R., Between Theater and Anthropology, Philadelphia, The University of Pennsylvania Press, 1985

TURNER, V., The Ritual Process: Structure and Anti-Structure, Chicago: Aldine Publishing Co., 1969. (Trad. Bras. Nancy Campi de Castro. Petropolis, Vozes, 2013)

TURNER, V., Dramas, Fields and Metaphors: Symbolic Action in Human Society, Ithaca, Cornell University Press, 1975

TURNER, V., From ritual to Theatre, New York, PAJ Publications, 1982

TURNER, V., The Anthropology of performance, New York, PAJ Publications, 1987

VAN GENNEP, A., Les rites de passage, Paris, Émile Nourry, 1909 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1978)

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Liminaridade e communitas - Victor Turner

Kinship and marriage among the Nuer

Publicado em 1951, Kinship and Marriage Among the Nuer é o segundo volume da trilogia Nuer, conjunto de monografias escrito pelo antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902- 1973) sobre os Nuer, povo nilótico do Sul do Sudão. Assim como suas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940) e Nuer Religion (1956), este livro é baseado em um total de doze meses de pesquisa de campo realizada sob condições adversas entre 1930 e 1936, e financiada pelo governo anglo-egípcio do Sudão. Os dez anos que separam as datas de publicação do primeiro e do segundo volume devem-se ao agravamento da II Guerra e à convocação do autor para o exército britânico. Evans-Pritchard planejara sua publicação para 1942, entretanto, durante o serviço militar, entrou em contato com beduínos Sanusi, ordem islâmica da região da Cyrenaica, no norte da Líbia, experiência que resultou no livro The Sanusi of Cyrenaica (1949). Este hiato foi preenchido pela publicação de artigos, dentre os quais: “Nuer Bridewealth(1946), “Nuer Marriage Cerimonies” (1948), “Nuer Rules of Exogamy and Incest” (1949) e “Kinship and the local community among the Nuer(1950), que abordam temas retomados com maior ou menor detalhe em Kinship and Marriage Among the Nuer.

O primeiro volume da série, The Nuer, tem por objeto o sistema político nuer e suas relações com o modo de vida deste povo, culminando na célebre descrição da estrutura segmentar nuer. Desprovidos de governo, os Nuer se organizam politicamente por meio do jogo de oposições entre a estrutura tribal e a estrutura de clãs. Os clãs são um sistema de linhagens agnáticas exógamas que traçam sua descendência em relação a um ancestral comum. Idealmente um filho herda a linhagem de seu pai e deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. Denominadas buth pelos Nuer, essas relações de parentesco constituem grupos dotados de unidade cuja amplitude depende de distâncias estruturais. Assim, um nuer será nuer frente a um dinka, mas jikany frente a um nuer de outra tribo. Dotadas de exclusividade territorial, as tribos, unidade política de maior extensão, segmentam-se em seções e subseções de acordo com os segmentos e linhagens dos clãs dominantes em cada território tribal. Neste sistema, a aldeia é definida por Evans-Pritchard como a unidade mínima da política Nuer.

Grupo de mulheres e meninas em uma casa, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum

Em Kinship and Marriage Among the Nuer, o autor mostra como as redes de parentesco internas às comunidades locais, e que se estendem para além delas, estão conectadas com o sistema de linhagens nuer e, por meio desse sistema, com sua estrutura política tribal. Um Nuer vive em uma comunidade por manter laços de parentesco com algum de seus membros, consanguíneos ou por casamento. A co-residência, associada à elasticidade do sistema de parentesco, prolonga esses laços. Afins (parentes por casamento) tendem a ser associados a consanguíneos, de modo que a comunidade compreende uma única genealogia baseada em relações de parentesco cognáticas (isto é, por via paterna e materna), denominadas pelos Nuer mar. Uma aldeia, a unidade mínima da política Nuer, constitui-se assim como um agregado cognático – mar – ao redor de um núcleo agnático – buth,  linhagem principal que associa a aldeia ao sistema político.

A partir de uma etnografia minuciosa das relações de parentesco Nuer, Evans-Pritchard descreve em Kinship and Marriage among the Nuer diversos recursos por meio dos quais relações de tipo mar infletem sobre relações de tipo buth. Formas de adoção, maneiras de traçar o pertencimento à linhagem por via materna, diversas formas de casamento, dentre as quais o levirato (casamento com a mulher do irmão) e o casamento com mortos, entre outros, mostram a centralidade do parentesco cognático na compreensão da estrutura segmentar nuer. Destacam-se as negociações que precedem o casamento e a importância do gado como dote (bridewealth). Nestes e em outros exemplos etnográficos, Evans-Pritchard demonstra o equilíbrio dinâmico entre o parentesco agnático e o parentesco uterino (por via materna) na vida social Nuer. Dimensões cujo caráter de oposição e complementaridade se apresenta nas relações entre um nuer e seus tios materno e paterno, para os quais é, respectivamente, um “filho das mulheres” da linhagem e um “filho da linhagem”. Além de descrever em detalhe temas fundamentais da antropologia do parentesco, como a relação entre proibições do casamento e incesto e o papel do irmão da mãe, Kinship and Marriage among the Nuer complementa e complexifica o modelo da estrutura segmentar Nuer apresentado no primeiro volume da série, sendo uma leitura fundamental para sua compreensão.

 

Como citar este verbete:
Pougy, Henrique. 2015. "Kinship and marriage among the Nuer". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/kinship-and-marriage-among-nuer>

autoria

Henrique Pougy

bibliografia

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EVANS-PRITCHARD, E. E., “Bridewealth among the Nuer”, African Studies, vol. 6, n. 4, 1947, p. 181-188

EVANS-PRITCHARD, E. E. , “Nuer marriage cerimonies”, Africa. Journal of the International African Institute, vol. 18, n. 1, 1948, p. 29-40

EVANS-PRITCHARD, E. E., “A note on affinity relations among the Nuer”, Man, vol. 48, 1948, p. 3-5

EVANS-PRITCHARD, E. E., “Nuer Rules of Exogamy and Incest” In: Meyer Fortes (ed), Social Structure, studies presented to A.R. Rafcliffe-Brown, Oxford, Clarendon Press, 1949

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Sanusi of Cyrenaica. Oxford, Oxford University Press, 1949

EVANS-PRITCHARD, E. E., “Kinship and the local community among the Nuer” In: A. R. Radcliffe-Brown & C. D. Forde, African systems of kinship and marriage, London, Oxford University Press, 1950

EVANS-PRITCHARD, E. E., Kinship and Marriage among the Nuer. Oxford, Clarendon Press, 1951

EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer Religion. Oxford, Clarendon Press, 1956

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Kinship and marriage among the Nuer

Gênero

O termo gênero é comumente utilizado nas ciências sociais e humanas para enfatizar o caráter cultural das diferenças existentes entre homens e mulheres. As assimetrias de poder que demarcam estas distinções e discriminações são justificadas pela atribuição de características entendidas como naturais entre homens e mulheres, traços decorrentes das distinções corpóreas, em especial as associadas às capacidades reprodutivas. Os estudos clássicos de Marcel Mauss (1872-1950), As técnicas do corpo (1934) e de Margaret Mead (1901-1971), Sexo e Temperamento (1936) já indicavam que certos padrões de conduta não estavam relacionados à natureza de homens e mulheres, mas antes aos diferentes processos culturais e de socialização.

É possível recuar às décadas de 1920 e 1930, em diferentes países, para verificar, principalmente no continente europeu e na América do Norte, que as mulheres romperam com formas agudas de desigualdade, especificamente no que diz respeito ao direito à educação, à propriedade e ao voto. Esta dinâmica de equiparação de direitos foi central no pensamento feminista, sobretudo a partir dos anos 1960. Diferentes correntes feministas questionavam o suposto caráter natural da subordinação feminina e sustentavam a ideia de que essa assimetria era decorrente do modo como a mulher havia sido construída histórica e socialmente. Para além das diferenciações teóricas, as causas do jugo feminino foram apresentadas a partir de dois aspectos determinantes, um biológico e um social, isto é, a reprodução e a produção social. O corpo passa a ser considerado a principal causa da opressão sexual e da desigualdade social. Para o debate feminista pós 1960, no qual se destacam os nomes das ativistas Betty Friedam (1921-2006) e Bell Hooks (1952), as categorias “mulher”, “opressão” e “patriarcado” tornam-se centrais. A relação homem/mulher passa a ser entendida como uma relação política e a dominação masculina, postulada como universal, presente em diferentes épocas e culturas. A noção de patriarcado sai de voga, ao passo que o uso da categoria “mulher” é substituído por mulheres no plural, com o intuito de evidenciar as diversas “mulheres”, já que a mulher branca não seria dominada da mesma forma que a mulher negra; ao lado disso, distinções como posição social e geração também passam a ser entendidas como fundamentais nesse processo.

O conceito de gênero se desenvolve em um quadro marcado por intelectuais e militantes feministas em todo o mundo, abrindo espaço para a consolidação de novas formas de conhecimento e de luta política. Foram em especial as feministas norte-americanas e inglesas que se apropriaram do termo gênero, pioneiramente utilizado pelo psicanalista Robert Stoller (1924-1991) em intervenção no Congresso Psicanalítico Internacional em Estocolmo (1963), para marcar a distinção entre natureza e cultura. Apresentado por ele como “identidade de gênero”, o conceito enfatizava o caráter social em contraste com a diferença sexual tida como natural e inscrita no corpo fisiológico. O ensaio clássico da antropóloga Gayle Rubin (1949), O tráfico de mulheres: notas para uma economia política do sexo (1975), torna-se uma referência para o debate feminista e para os estudos antropológicos. A partir das leituras de Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009),  Sigmund Freud (1856 – 1939) e Jacques Lacan (1901 – 1981), a autora cria o conceito “sistema sexo/gênero”, descrito como um conjunto de arranjos modelados pela intervenção social que incidem na matéria prima biológica do sexo humano e da procriação. Os princípios fundamentais para a manutenção desse sistema seriam o constrangimento da sexualidade feminina, o tabu do incesto e a heterossexualidade. A análise de Rubin esteve marcada pelo princípio da igualdade presente na teoria marxista, tendo influenciado os estudos feministas nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Trabalhos antropológicos posteriores voltam-se para a análise de contextos específicos, com foco em processos sociais que estabelecem a assimetria entre os sexos. A nova orientação tem por objetivo lançar uma crítica epistemológica às respostas transculturais oferecidas para enfrentar a suposta subordinação da mulher. Carol MacCormack (1933-1997)em Nature, culture and gender: a critique (1980) enfatiza que a dicotomia natureza/cultura é reflexo de uma concepção cultural específica e não uma característica universal, e, por isso mesmo, seria também necessário relativizar o conceito de dominação. Para a autora, há uma arbitrariedade de significação nos termos macho e fêmea tanto quanto nas noções de natureza e cultura. Nessa perspectiva, Marilyn Strathern (1941-) em No nature, no culture: the Hagen case (1980), utiliza a etnografia realizada no monte Hagen, da Melanésia, para evidenciar a inaplicabilidade dos conceitos ocidentais sobre outras culturas, uma vez que foram identificadas entre os Hagen concepções distintas das relações entre natureza/cultura e homens/mulheres.

Um novo paradigma teórico retira as questões de gênero do âmbito universal, situando-o como categoria de análise relacional e dinâmica; nessa vertente situa-se o ensaio de Joan Wallach Scott (1941-), Gênero: uma categoria útil para a análise histórica (1986). A autora, já distante das primeiras formulações sobre o tema, postula gênero como categoria histórica que permite pensar as origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres. A análise de Scott se distingue de formulações anteriores por sublinhar que nenhuma experiência corporal pode ser compreendida fora dos processos sociais e históricos. A autora chama a atenção para a necessidade de examinar o modo como gênero é construído em relação a uma série de atividades, organizações sociais e representações culturais, historicamente situadas. Tais perspectivas sobre o gênero indicam uma leitura que estranha e questiona qualquer naturalização da diferença e dos processos de significação do poder. A partir da abordagem de Judith Butler (1956-) em Problemas de Gênero (1990), todos os corpos são entendidos como sexuados, generificados e racializados por meio de um processo regulado de repetição de discursos. Para Butler, referência incontornável nesse debate, o gênero é antes “o ato de fazer do que o de ser”, sequência de atos cadenciados no interior de um quadro regulatório rígido, não havendo sexo capaz de resistir sem o gênero. A emergência dessas leituras logrou mobilizar e reordenar argumentos não apenas da antropologia, mas também da filosofia, da linguística e, também, das ciências biológicas e da natureza.

Diane Arbus,

Como citar este verbete:
MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro & FERREIRA, Lucas Bulgarelli. 2015. "Gênero". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/gênero>

autoria

Carolina Cordeiro Mazzariello e Lucas Bulgarelli Ferreira

bibliografia

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STRATHERN, Marilyn,  No nature, no culture: the Hagen case. In: Carol MacComarck  & Marilyn Strathern (ed), Nature, culture and gender. Cambridge, Cambridge University Press, 1980 (Trad. Bras. Iracema Dulley e Jamille Pinheiro. São Paulo, Cosac Naify, 2014)

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Gênero

Edward Evan Evans-Pritchard

Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973), antropólogo britânico cujo trabalho revelou-se determinante para o desenvolvimento da antropologia social no século XX, inicia sua graduação em História Moderna no Exeter College, na universidade de Oxford (1921), período em que conhece Robert Ranulph Marett (1866-1943), um dos fundadores da Oxford Anthropology Society e seu interlocutor ao longo da década de 1920. Por incentivo de Marret passa a frequentar os seminários de antropologia na London School of Economics, tendo entre os professores Bronislaw Malinowski (1884-1942) e Gabriel Seligman (1873-1940). Este último fora um pioneiro no trabalho de campo junto a povos do Sudão, onde pesquisa desde 1909, e orientador da tese de doutoramento de Evans-Pritchard defendida em 1927 sobre os Azande, fruto de sua primeira incursão a campo, e publicada posteriormente com o título Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

Em 1930, o antropólogo inicia pesquisas junto aos Nuer, população nilota da região sul do Sudão. Entre os anos de 1932 e 1934, atua como professor da Universidade do Cairo, onde ministra seminários sobre a questão religiosa entre os povos estudados. Em 1935, transfere-se para o Instituto de Antropologia Social da Universidade de Oxford, fundado por Radcliffe-Brown (1881-1955), onde segue trabalhando e escrevendo sobre sua experiência junto aos Nuer. Em 1940 publica Os Nuer e também African Political Systems, este em parceria com Meyer Fortes (1906-1983). Durante a II Guerra Mundial, atua como consultor da administração militar do governo britânico, tendo servido na Etiópia, Líbia, Sudão e Síria. Em 1945, torna-se professor em Cambridge e no ano seguinte sucede Radcliffe-Brown na cadeira de antropologia de Oxford. Em 1950, é professor na Universidade de Chicago e em 1957 da Universidade de Stanford, onde permanece até sua aposentadoria, em 1970. Em 1971, é condecorado com o título de Cavaleiro (Sir) pela Coroa Britânica, falecendo dois anos depois.

Edward E. Evans-Pritchard

Evans-Pritchard é um dos mais renomados especialistas nas populações sudanesas do sul da região do Nilo Branco, ocupando lugar decisivo na história do africanismo e da antropologia política. Realizou etnografia em diferentes sociedades, defendendo ser o trabalho de campo um dos pilares do saber antropológico. Concebe o ofício do antropólogo como uma tarefa de tradução de valores culturais, necessariamente comparativa, negando assim a possibilidade de existência de uma teoria antropológica per si, independente ou anterior à pesquisa empírica. Segundo ele, o conhecimento antropológico deriva de um diálogo comparativo complexo que deve ir além da relação entre pesquisador e nativo, levando em conta a teoria acumulada da disciplina a partir de experiências etnográficas diversas. Em seu trabalho como antropólogo destacam-se, além das reflexões sobre a estrutura política e a lógica segmentar nuer, o estudo do que ele denomina sistemas de pensamento dos povos pesquisados.

Do ponto de vista das discussões metodológicas que lança, além de defender a importância do uso de uma perspectiva histórica na antropologia, Evans-Pritchard destaca a importância da habilidade literária do antropólogo ao narrar a experiência etnográfica. A antropologia, para ele, é uma disciplina humanista, mais próxima das artes do que das ciências, uma vez que o impacto da vivência de campo gera uma experiência singular no pesquisador que não é absorvida apenas intelectualmente, mas que passa pelos sentidos e pela subjetividade. As contribuições deixadas por seus trabalhos ecoam em diferentes campos científicos para além da antropologia e das ciências sociais (como a história, a psicologia, os estudos da religião e a filosofia), tendo sido também fundamentais para os estudos sobre transformações sociais em contextos coloniais e pós-coloniais.

Como citar este verbete:
MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro; FERREIRA, Lucas Bulgarelli & STUMPF, Lúcia Klück. 2015. "Edward Evan Evans-Pritchard". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/edward-evan-evans-pritchard>

autoria

Carolina Cordeiro Mazzariello, Lucas Bulgarelli Ferreira e Lúcia Klück Stumpf

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