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O pensamento selvagem

Entre março e maio de 1962, Claude Lévi-Strauss publicou duas obras complementares: O totemismo hoje e O pensamento selvagem. Elaboradas no interior de um mesmo programa, estas obras se dedicam ao estudo dos modos de classificação presentes em um vasto número de sociedades. O primeiro livro volta-se às classificações totêmicas, por meio do qual Lévi-Strauss destrinça um “atributo universal do espírito humano”. Encomendado por Georges Dumézil (1898-1986) e lido em círculos especializados, o volume repassa, de modo crítico, as teorias antropológicas sobre o totemismo considerado, até então, uma instituição ou religião primitiva. No segundo, por sua vez, ele amplia o corpus etnográfico e o escopo da reflexão, evidenciando a lógica inscrita em formas de pensamento e conhecimentos não ocidentais, contrapondo-se de modo contundente às teorias evolucionistas correntes. Os dois volumes, inspirados pela linguística estrutural, dão continuidade ao programa estruturalista de Lévi-Strauss para a antropologia, destacado pelos ensaios reunidos em Antropologia estrutural (1958). A partir do estudo sobre o pensamento selvagem, Lévi-Strauss não apenas afirma sua inscrição no cenário geral da disciplina, como consolida as bases para o seu projeto de análise da lógica dos mitos americanos, que abre um campo de interlocuções alargado sobre o pensamento – não por acaso o livro é dedicado ao filósofo Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). A obra é entendida, por ele mesmo, como uma “espécie de pausa” no programa iniciado em As estruturas elementares do parentesco (1949) e aperfeiçoado nas Mitológicas (1964-1991), indicando uma passagem dos estudos sobre a organização social e o parentesco para o estudo dos sistemas classificatórios e das formas de pensar.

Claude Lévi-Strauss, La pensée sauvage, com a flor do amor-perfeito, Viola tricolor.

O título, O pensamento selvagem, é uma provocação em dois sentidos: por um lado, faz referência à espécie botânica da Viola tricolor (amor-perfeito, pensée sauvage, em francês), flor que, segundo o autor, cresce à revelia e ao abrigo da “civilização”, tal como o pensamento selvagem; por outro, é uma resposta à importantes obras da antropologia, tais como Primitive Culture (1871) de Edward B. Tylor (1832-1917), Primitive Society (1920) de Robert Lowie (1883-1957) e, sobretudo, La mentalité primitif (1922) de Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), obras que, cada qual ao seu modo, sustentam que o pensamento dos povos não ocidentais seria “pré-lógico”, afetivo ou avesso à abstrações. Contra estas ideias, Lévi-Strauss demonstra que esse modo de pensamento é regido por rigorosa atividade intelectual, dotado de lógica própria. Composta de nove capítulos e um apêndice, é em O pensamento selvagem que Lévi-Strauss desenvolve conceitos importantes como: a noção de bricolagem, modo de pensar que produz sentidos recombinando materiais disponíveis (com os “meios às mãos”); ciência do concreto, conhecimento que opera logicamente com as qualidades sensíveis do mundo, sem deixar de produzir abstrações; operador totêmico, dispositivo lógico que faz corresponder séries de diferenças naturais (espécies) e sociais (grupos); além das ideias de estrutura, sistema, transformação e grupo de transformações, que se desdobram nas produções posteriores do autor.

Claude Lévi Strauss, Fig. 8, O operador totêmico (Laboratório de Cartografia da École Pratique de Hautes Études), O pensamento selvagem, p. 173

Ao estudar a lógica dos sistemas de classificação, a obra dialoga diretamente com o ensaio “Essai sur quelques formes primitives de classification” (1902), de Émile Durkheim (1858-1917) e Marcel Mauss (1872-1950), que Lévi-Strauss ao mesmo tempo retoma e do qual se distancia, afirmando que as classificações lógicas não derivam das classificações sociais, como queriam Durkheim e Mauss. Dialoga também com a etnografia azande de E. E. Evans-Pritchard (1902-1973), de quem reaproveita a análise da feitiçaria como uma teoria da causalidade; recorre também à noção de signo de Ferdinand de Saussure (1857-1913) para situar o pensamento mítico entre a imagem e o conceito.

O pensamento selvagem aprofunda a compreensão dos processos de classificação e categorização operados no totemismo. No célebre primeiro capítulo, “A ciência do concreto”, o autor apresenta de forma condensada as bases de seus argumentos, explorados a fundo nos capítulos seguintes com a ajuda de um vasto material etnográfico (australiano, americano, africano). Argumentando contra ideias difundidas por autores como Lucien Lévy-Bruhl e Bronisław Malinowski (1884-1942), que minimizam o caráter intelectual das operações de pensamento de povos não ocidentais, Lévi-Strauss demonstra que a riqueza das classificações dos chamados “primitivos” responde a uma exigência de ordem e a um apetite de conhecer pelo próprio prazer do conhecimento, de modo comparável ao que se dá na ciência moderna. Argumenta assim que a ciência do concreto é uma ciência plena, e não o seu esboço: ela alcança os mesmos arranjos necessários que a ciência moderna persegue, mas por outra via, mais próxima do mundo sensível. A diferença entre elas não reside, portanto, em termos intelectuais, mas em função de modos de operação; enquanto a ciência moderna opera por conceitos, a ciência do concreto trabalha com signos retirados do mundo sensível: as espécies vegetais e animais, por exemplo. É esse modo de pensar que a noção de bricolagem descreve: assim como o bricoleur, que cria com um repertório de materiais fechado e heterogêneo (restos, sucatas), o pensamento mítico constrói estruturas rearranjando fragmentos retirados do mundo ao redor. A ele, Lévi-Strauss opõe o engenheiro, que busca matérias e instrumentos fabricados à medida de cada projeto, e antecipa resultados. Portanto, ele insiste, a oposição entre a ciência do bricoleur e a do engenheiro não separa “primitivos” e modernos, mas dois modos distintos e coexistentes de pensar o mundo; por isso o pensamento selvagem não é aquele dos selvagens, mas “o pensamento em estado selvagem”.

© André Breton, Jacqueline Lamba, Jeannette Tanguy, Yves Tanguy. Cadáver requintado, 8 fev. 1938. Colagem sobre papel.

O argumento do autor progride em etapas e a demonstração avança ao longo dos capítulos à medida que ele exibe as operações envolvidas nessa lógica. O primeiro capítulo estabelece que as classificações ditas “selvagens” repousam numa observação minuciosa e sistemática do mundo. O segundo mostra que tais classificações operam por homologias, colocando em correspondência relações entre termos naturais (os animais totêmicos, por exemplo) e grupos sociais. O terceiro capítulo, “Os sistemas de transformações”, mostra que esses arranjos funcionam como códigos traduzíveis entre si, quer dizer, um mesmo conjunto de relações pode passar de um sistema a outro, sendo cada sistema uma “transformação” dos demais. Os capítulos seguintes movem-se no eixo da “universalização” e da “particularização”. O quarto, “Totem e Casta”, contrapõe os sistemas totêmicos (que tomam espécies naturais como modelos para pensar diferenças sociais) aos sistemas de castas (nos quais, ao contrário, os próprios grupos se comportam como espécies que não se misturam). De “Categorias, elementos, espécies, números” a “O indivíduo como espécie”, a classificação desce do mais geral ao mais particular, até chegar aos nomes próprios. Em todos estes capítulos, trata-se de observar diferenças que permitem opor, classificar e permutar termos, como no exemplo do povo Osage evocado pelo autor, em que uma mesma série de oposições é enunciada ora por animais e plantas, ora pelos números e pelas direções espaciais, cada termo valendo pela diferença contrastada com os demais.

Por meio do totemismo, Lévi-Strauss evidencia como as formas de pensamento de diferentes grupos humanos encontram na natureza (animais, vegetais, minerais etc.) materiais para expressar e classificar diferenças sociais. Além disso, para o autor, o problema do totemismo repousa na relação entre estrutura e evento, ou, em sentido correlato, entre sincronia e diacronia. Isto é: o pensamento selvagem tende a integrar a diacronia na sincronia, na medida em que ordena os eventos em sistemas classificatórios. As operações de transformação apresentadas no terceiro capítulo, que trabalham inversões e substituições de termos (trocar o alto pelo baixo, ou um animal por outro) pelas quais um arranjo se converte em outro, demonstram que as estruturas não são totalidades fixas, mas se transformam umas nas outras. Neste sentido, a lição que o totemismo oferece é que a forma da estrutura tende a sobreviver ao evento, mas não a estrutura em si; ou seja, quando um evento perturba um arranjo determinado, o que permanece não é esse arranjo, mas a regra que permite passar dele a um outro, sua estrutura se reorganizando ao invés de se desfazer.

O pensamento selvagem operaria assim uma espécie de “regulação estrutural do processo histórico”, quer dizer: a própria história se apresenta como um código construído a partir de uma cronologia (sucessão de acontecimentos). Essa questão atravessa todos os capítulos, ganhando destaque no oitavo, “O tempo reencontrado”, no qual o autor discute três sentidos de história, construídos a partir dos modelos do progresso, do sacrifício e do arquivo. Aproximando o churinga australiano (objeto sagrado que cada grupo guarda e que, de tempos em tempos, inspeciona) dos arquivos modernos, o autor mostra que, num caso e no outro, o passado é, em certo sentido, convertido em presente. No nono capítulo, “História e Dialética”, tomando a Revolução Francesa como exemplo, Lévi-Strauss dirige sua “crítica à razão histórica” defendida por Jean-Paul Sartre (1905-1980), que via na consciência histórica o caminho privilegiado de acesso ao humano. Contra essa primazia, Lévi-Strauss argumenta que a história é apenas um código entre outros - um modo de ordenar acontecimentos - não um saber superior, e que a “razão dialética” elaborada por Sartre nada mais é do que a razão analítica comum em movimento. Ao recusar fazer da consciência histórica a medida do humano, ele afirma o seu projeto antropológico contra a filosofia existencialista sartriana.

Lido em diversas áreas das ciências humanas e sociais, O pensamento selvagem teve repercussão ao mesmo tempo imediata e duradoura. Na França, foi recebido, já em 1962, por uma série de resenhas. Suscitou, em 1963, uma célebre discussão na revista Esprit entre Lévi-Strauss e o filósofo Paul Ricœur (1913-2005) sobre os limites do método estrutural. Sua circulação internacional dependeu das traduções; a versão inglesa, de 1966, por exemplo, foi marcada por uma longa controvérsia sobre a tradução de conceitos apresentados na obra e sua fidelidade com o original em francês – e uma nova tradução seria publicada apenas em 2021. Ainda no cenário anglófono, Jack Goody (1919-2015) retoma criticamente as teses do livro em seu The Domestication of Savage Mind (1977), no qual destaca o papel da escrita para o pensamento das sociedades humanas, dimensão ausente na obra de Lévi-Strauss. A primeira edição brasileira de O pensamento selvagem foi publicada na década 1970, com uma segunda tradução em 1989. No Brasil, sua influência abrangente pode ser localizada em trabalhos de Mauro Almeida (1950-), que aprofunda o estudo das lógicas dos conhecimentos indígenas, e em estudos de Manuela Carneiro da Cunha (1943-), que defende serem os saberes indígenas formas legítimas de conhecimento, e cuja aula inaugural no Collège de France em 2012 foi dedicada ao pensamento selvagem.

Como citar este verbete:
SILVA, Jeferson Carvalho da. “O pensamento selvagem”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/obra/o-pensamento-selvagem

ISSN: 2676-038X (online)

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