O antropólogo haitiano Michel-Rolph Trouillot (1949-2012), referência nos estudos da diáspora negra e na historiografia do Caribe, propôs o conceito de savage slot (nicho, lugar, fenda ou compartimento do selvagem) para criticar, a partir da antropologia, o lugar simbólico em que o Ocidente localizou aqueles que definiu como seus “outros”. Formulado em “Anthropology and the Savage Slot: the poetics and politics of otherness” (1991) e aprofundado em obras posteriores, o conceito identifica uma estrutura retórica – formada ao longo do Renascimento tardio e consolidada pelo colonialismo – que permitiu ao Ocidente imaginar-se como “civilizado” em oposição ao mundo não ocidental “selvagem”. Para Trouillot, esse arranjo moldou a própria constituição da antropologia, que herdou e institucionalizou essa forma de produzir a alteridade. O savage slot designa, assim, um dispositivo histórico e epistemológico que organiza a produção da alteridade, cuja lógica ainda informa práticas e narrativas antropológicas.
O conceito surge como resposta crítica, desde uma perspectiva marxista e pós-colonial, às discussões pós-modernistas que marcaram a produção antropológica nos Estados Unidos entre as décadas de 1980 e 1990, e que se destacaram, entre outros, pela crítica à autoridade etnográfica e ao legado colonial da antropologia. Embora valorize os pontos de vista defendidos por autores como James Clifford (1945-) e George Marcus (1946-), Trouillot argumenta que o debate por eles lançado tendeu a se limitar à autorreflexão, deixando intocados os alicerces históricos e epistêmicos que estruturaram a produção do “outro”. Ressalta ainda que os chamados pós-modernos, ao tratarem a relação entre antropologia e colonialismo como uma etapa superada, desconsideraram a persistência da colonialidade nas condições materiais e simbólicas da produção do conhecimento; mesmo em suas autocríticas mais intensas, a antropologia continuava a operar no interior do “compartimento do selvagem”, deslocando seus termos, mas mantendo intacta sua lógica estrutural.
A elaboração do conceito acompanha a trajetória intelectual de Trouillot. Em “Anthropology and the Savage Slot” (1991), ele nasce como crítica disciplinar ao legado colonial da antropologia. Em “Adieu, culture: a new duty arises” (2002) o autor identifica-o como a estrutura simbólica que sustenta a pretensão universalista do Ocidente. Em Global transformations (2003), por sua vez, a noção é ampliada para analisar a modernidade, a globalização e a formação de um projeto norte-atlântico. No ensaio “The perspective of the world: globalization then and now” (2002), Trouillot retoma a discussão desse projeto e propõe uma historicização do próprio Ocidente – designado como “Norte Atlântico” –, enfatizando seu caráter ficcional e seu projeto de legitimação global, cuja consolidação depende do que denomina “universais norte-atlânticos”: ideais prescritivos que projetam experiências particulares em escala universal, a partir de ideias como progresso e modernidade.

No interior desse projeto, enquanto o Ocidente coincide com o ápice da razão e do progresso, o selvagem mostra-se o termo inverso, variavelmente situado em oposições binárias como barbárie e nobreza, sabedoria e maldade. Em seus textos, Trouillot destaca como a figura do selvagem foi central para as pretensões universalistas ocidentais e para a manutenção do poder norte-atlântico, baseado na imposição da ordem, e no qual a utopia não é senão o horizonte futuro e legitimador desse mesmo projeto. Forma-se, assim, a tríade estruturante do savage slot, tal como apresentada no artigo “Anthropology and the Savage Slot” (1991): ordem (projeto civilizatório), utopia (horizonte de assimilação do outro) e selvageria (o outro, oposto necessário para a constituição da identidade do Ocidente). A crítica à antropologia norte-atlântica, segundo o autor, deve atingir essa tríade, destruindo o “compartimento do selvagem”. Tal movimento crítico exige desnaturalizar e historicizar essas categorias e seus campos discursivos de poder, questionando a “condição de nativo” (nativeness) e abrindo espaço para que sistemas de conhecimento até então silenciados possam emergir como vozes legítimas. Só assim se torna possível reconhecer que nem o Ocidente nem o selvagem existem e que ambos são produtos materiais e simbólicos de processos históricos, políticos e epistemológicos. Partindo desse reconhecimento, a antropologia poderia, então, se concentrar nas “histórias do presente”, nos processos históricos concretos e em suas conexões globais.
Nas últimas décadas, o conceito tem sido mobilizado em cursos, debates decoloniais e sobre a globalização, bem como em reflexões críticas de tipo epistemológico. Ainda que nem todos os usos derivados dele mantenham a estrutura relacional proposta por Trouillot, seus desdobramentos compartilham a crítica ao modo como a alteridade é mobilizada na produção do conhecimento. O arqueólogo Charles Cobb (1956-) aplica o savage slot à arqueologia, demonstrando como a figura do “outro” continua sendo construída como primitiva, localmente enraizada, isolada e destituída de capacidade de mudança. Contrapondo-se a essa postura, Cobb sugere que populações indígenas antigas sejam reconhecidas como agentes históricos ativos, pois se adaptavam, se deslocavam e transformavam o mundo ao seu redor. O antropólogo Joel Robbins (1961-), por sua vez, argumenta que, na antropologia contemporânea, a figura do selvagem foi progressivamente substituída pela figura do “sujeito sofredor”. Propõe assim o suffering slot (ou “compartimento do sofrimento”) para criticar a abordagem universalista do “trauma” na antropologia do sofrimento, reiterando a importância de considerar as diferenças culturais para uma compreensão do “sofrimento”; mas mesmo rompendo com o exotismo do “selvagem”, esse compartimento, segundo ele, homogeneiza a experiência da dor e limita a potência da crítica antropológica. Já a antropóloga Elizabeth Ferry (1966-) defende a pertinência de pensar o savage slot no contexto das relações entre humanos e não humanos. Propõe, assim, o conceito de inorganic slot (“compartimento do inorgânico”) para refletir sobre a agência das coisas inorgânicas e sobre as disciplinas que as representam na longa duração da dominação colonial-capitalista, como a geologia e as ciências da Terra. Se o selvagem organizava a alteridade na antropologia clássica, o inorgânico passa a ocupar um lugar simbólico e epistêmico central na estruturação do Ocidente do ponto de vista do imaginário moderno.
As leituras e desdobramentos recentes da noção deixam ver que o savage slot permanece um dispositivo crítico produtivo para compreender como certas figuras epistêmicas orientam o que se torna visível, narrável ou inteligível na constituição da alteridade. No Brasil, contudo, savage slot pouco aparece, o que certamente se deve à ausência de traduções e edições sistemáticas da obra de Trouillot.
Como citar este verbete:
SOUZA, Kayah Nicholas; CARNEIRO, Nathália Nunes. “Savage slot - Michel-Rolph Trouillot”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/conceito/savage-slot-trouillot
ISSN: 2676-038X (online)
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Kayah Nicholas de Souza e Nathália Nunes Carneiro
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