Comunidades Imaginadas, publicado pelo historiador e cientista político Benedict Anderson (1936-2015) em 1983, com novas edições ampliadas em 1991 e em 2006, é uma das obras mais conhecidas e influentes sobre os temas das nações e do nacionalismo. No livro, o autor propõe compreender a nação como uma comunidade política “imaginada”, isto é, como forma moderna de construção histórica e cultural de identidades coletivas. Assim, ele situa o nacionalismo como um fenômeno cultural central da vida política, capaz de estruturar as identidades e distinto dos sistemas culturais pré-modernos que a antecederam – como as monarquias dinásticas, baseadas no direito divino de governo, os impérios multiétnicos e as religiões. Dessa forma, Anderson oferece uma interpretação que se afasta das leituras que definem a nação como um subproduto funcional das necessidades das sociedades industriais modernas, como faz Ernest Gellner (1925-1995) em Nações e nacionalismo (1983), e de algumas posições marxistas que tendem a associar o nacionalismo a um efeito das estruturas de classe e dominação, como faz Eric Hobsbawm (1917-2012) em A invenção da tradição (1983).
O livro inicia-se com uma introdução em que Anderson apresenta o contexto da obra, alguns conceitos e definições, como a própria noção de “comunidade imaginada”. Segue-se um desenvolvimento organizado em dez capítulos e, por fim, um posfácio, no qual o autor realiza um balanço geral. Os dois últimos capítulos são acréscimos da segunda edição de 1991 e funcionam como apêndices do livro. Escrita após quase duas décadas de pesquisas realizadas sobre o Sudeste Asiático, a obra é central na trajetória do autor. Nascido na China, filho de mãe inglesa e pai irlandês, Anderson viveu entre a Inglaterra, os Estados Unidos, a Indonésia, a Tailândia e as Filipinas, tendo atuado particularmente na Indonésia, de onde foi afastado em razão de seus escritos políticos. Essa experiência multiétnica, cultural, política e linguística, bem como o contexto de conflitos em 1978-1979 entre Camboja, Vietnã e China, nações entendidas como revolucionárias e socialistas, levaram-no a pensar a formação das identidades nacionais e do nacionalismo como um fenômeno decisivo no século XX, em uma análise de perspectiva comparada, com especial enfoque no Sudeste Asiático e na América Latina. Anderson defende que a consciência nacional foi pioneira no continente americano, em meio aos processos de independência ocorridos na virada dos séculos XVIII e XIX, tendo sido difundida, com o imperialismo, para a Europa e posteriormente para o resto do mundo. Com isso, ele opera um deslocamento analítico, retirando o continente europeu do centro dos fenômenos históricos analisados, mas sem romper com a matriz epistemológica europeia, na qual se verificam, segundo ele, as condições para o nascimento das nações.

Para o autor, a nação é uma comunidade política imaginada, concebida como limitada e soberana; “imaginada” não significa fictícia, mas socialmente construída: seus membros se imaginam como parte de um grupo, mesmo que não conheçam os demais. É “limitada” porque, por mais maleáveis que sejam suas fronteiras, elas são sempre finitas, delimitadas por outras nações igualmente imaginadas. E é “soberana” porque, sucedendo o momento histórico em que o Iluminismo e as revoluções científicas e políticas colocavam em xeque a legitimidade dos reinos dinásticos de ordem divina, a nação só podia recorrer à própria soberania para legitimar sua autoridade, sendo composta então por cidadãos e não por súditos. Finalmente, é uma “comunidade” porque, independentemente das tensões e desigualdades internas, a nação é concebida por meio de uma “camaradagem horizontal profunda” entre seus membros, forma de relação que tende a obliterar, em sua imagem, desigualdades e hierarquias.
Anderson vincula o surgimento da nação a duas transformações históricas articuladas da modernidade ocidental. A primeira, elaborada em diálogo com as formulações dos filósofos alemães Walter Benjamin (1892-1940) e Erich Auerbach (1892-1957), diz respeito a uma nova concepção de tempo, um “tempo vazio e homogêneo”, típico de jornais e do romance moderno que relatam atividades simultâneas de toda a comunidade, e medido pelo relógio e pelo calendário, distinto da mentalidade religiosa medieval, que estruturava passado, presente e futuro como justaposição e repetição de eventos prefigurados pela ordem divina. Com isso, a nação imagina-se como um “organismo sociológico” que atravessa uma história progressiva e projeta uma origem longínqua, apesar de ser um fenômeno recente. A segunda liga-se à convergência do capitalismo com as tecnologias de impressão, que criou mercados editoriais unificados em línguas vernáculas, que substituíram línguas transnacionais como o latim, dando forma a comunidades unidas por leituras de jornais e romances num idioma compartilhado. Na segunda edição da obra, Anderson acrescentou o papel das instituições e práticas de gestão do território, como os mapas, os museus e os censos, que contribuem para reforçar a ideia da nação na medida em que constroem a imagem de um território e de um passado comuns.


A obra de Anderson não ficou imune a críticas, como as feitas por Partha Chatterjee em Nationalist thought and the colonial world (1986) e por Radhika Desai em “The inadvertence of Benedict Anderson: engaging imagined communities” (2009). Um juízo crítico feito por ambos os autores é o eurocentrismo involuntário de Anderson que trata a nação como modelo seguido por nações não ocidentais, minimizando as especificidades históricas e culturais. A partir disso, Desai aponta uma desconexão entre o objetivo declarado por Anderson de “deseuropeizar” o estudo teórico do nacionalismo, derivado da sua experiência pessoal no Sudeste Asiático, e o resultado final da obra que, segundo ela, é ainda uma teoria ocidentalizante. Outra questão apontada por Desai é a tendência de Anderson em focalizar aspectos culturais e dar pouca centralidade a fatores políticos e econômicos, o que levaria a uma compreensão limitada do nacionalismo.
Apesar das críticas, Comunidades Imaginadas tornou-se uma referência no debate acerca da nação e do nacionalismo para diferentes campos do conhecimento. O enfoque cultural de Anderson favoreceu a circulação da obra também na antropologia, uma vez que ele trata a nação como uma construção histórico-cultural e espaço simbólico de pertencimento e de identidade coletiva. No Brasil, essa abordagem encontrou ressonâncias sobretudo em trabalhos voltados à análise do Estado e da formação da identidade nacional. Um exemplo pode ser encontrado em Um grande cerco de paz: poder tutelar, indianidade e formação do Estado no Brasil (1995), do antropólogo Antonio Carlos de Souza Lima, que analisa a integração nacional das populações indígenas como um processo administrativo e simbólico de inscrição de territórios e populações no corpo abstrato e imaginário da nação.
Como citar este verbete:
BORLINA, Lucas Augusto. “Comunidades imaginadas”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/obra/comunidades-imaginadas
ISSN: 2676-038X (online)
Lucas Augusto Borlina
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