Abas primárias

conceito

Utilizado pelo filósofo francês Michel Foucault (1926-1984) em suas reflexões sobre as tecnologias e dispositivos de saber-poder, o método genealógico consiste em um instrumental de investigação voltado à compreensão da emergência de configurações singulares de sujeitos, objetos e significações nas relações de poder, associando o exame de práticas discursivas e não-discursivas. O desenvolvimento das análises genealógicas contribui para o exame do biopoder, poder que governa a vida, o que leva Foucault a investigar diferentes dispositivos, considerados conjuntos articulados de discursos e práticas constitutivos de objetos e sujeitos, produtivos e eficazes tanto no domínio do saber quanto no campo estratégico do poder. A genealogia do sujeito moderno desdobra-se no exame de três dispositivos distintos: o disciplinar, que toma o corpo como foco de estratégias de saber-poder, desenvolvendo tanto uma microfísica do poder quanto uma anatomia política dos indivíduos; o dispositivo de segurança que desenvolve uma biopolítica das populações, considerando o ser humano como espécie; e o dispositivo da sexualidade, que emerge do questionamento e da intervenção em relação ao sujeito, considerando distintos modos de subjetivação.

Michel Foucault, foto de Randolph BadlerA noção de genealogia é apresentada no ensaio Nietzsche, a Genealogia, a História (1971), quando enfatiza as reflexões do filósofo alemão sobre as relações entre história e filosofia. A discussão conceitual desenvolvida nesse comentário à obra de Friedrich Nietzsche (1844-1900) é fundamental para a elaboração da ideia de genealogia, que marca uma inflexão na obra de Foucault com a inclusão mais explícita das relações de poder e das práticas não-discursivas nas análises. Suas investigações a partir daí diferem dos trabalhos anteriores orientados pelo método arqueológico, discutido em A Arqueologia do Saber (1969) - em que procura responder à polêmica gerada em torno de As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas (1966) - e empregado em suas primeiras obras: História da Loucura na Idade Clássica (1961) e O Nascimento da Clínica: uma arqueologia do olhar médico (1963).

O método genealógico surge como questionamento de leituras metafísicas da história, segundo as quais a pesquisa sobre a origem das coisas apresentaria como resultado sua essência supra-histórica, o que permitiria tanto o reconhecimento de seu valor solene, quanto a descoberta de sua verdade oculta. Como contraponto, Foucault proporá uma investigação genealógica que problematiza três elementos. Em primeiro lugar, a genealogia é “dissociativa”, buscando refutar a existência de essências e identidades eternas, e procurando apresentar os acontecimentos múltiplos, heterogêneos e disparatados presentes na origem. Em segundo lugar, ela é “paródica”, destruindo os valores e as realidades aceitas, negando-se a venerá-los, o que permitiria a liberação de potências vitais e criativas. Finalmente, a genealogia é “disruptiva” do sujeito de conhecimento e da verdade, não se limitando a inquirir a verdade daquilo que se conhece e questionando também quem conhece, de modo a propor uma crítica do próprio fundamento antropológico do saber, isto é, do sujeito do conhecimento.

Foucault encontrará no projeto genealógico de Nietzsche um uso bem definido dos conceitos de “proveniência” (Herkunft) e “emergência” (Entsteung), ambos voltados à problematização da “origem miraculosa” (Wunderursprung) das coisas, com tudo que ela propõe de metafísico e ilusório às pesquisas históricas, quando pretendem descobrir a essência das coisas, sua identidade primeira, estado de perfeição e verdade. A análise da proveniência refere-se à articulação entre corpo e história, pois é no corpo, segundo Foucault, que os acontecimentos são inscritos. Mas não se trata de buscar o que é geral e constitutivo de uma identidade, mas de mostrar a heterogeneidade e a proliferação de acontecimentos que se encontram na origem das coisas, indicando o que há de acidental e descontínuo na história. Entendida desse modo, a proveniência tende a ser omitida das narrativas históricas que, ao buscarem construir um discurso coerente sobre a origem das coisas, acabam por desconsiderar elementos que podem causar rupturas à unidade proposta. Assim que a tarefa daquele que busca realizar uma “genealogia da ‘alma’ moderna” deve partir da análise minuciosa das relações entre corpo e história. O exame do sujeito e de suas identidades remete o genealogista aos diversos acontecimentos heterogêneos pelos quais ele se forma, de modo que a indicação da proveniência permite a dissociação do Eu e das identidades constituídas.

A emergência, por sua vez, trata dos acontecimentos, da maneira como se associam suas significações com as relações de poder; sua análise procura determinar, na descontinuidade dos acontecimentos, os diferentes e sempre cambiantes sistemas de submissão a que as coisas estão associadas, tendo em vista que aquilo que emerge nos acontecimentos, e sua significação, dependem do estado das forças em determinado momento. Quando se procura inquirir a emergência, é preciso atentar às lutas, às confrontações dos adversários, às suas estratégias e táticas, ao modo como buscam assegurar sua própria dominação ou então revertê-la, seja pela subversão das regras existentes ou pela instauração de outras, fazendo com que a sucessão dos sistemas de dominação esteja, no limite, sujeita ao acaso das lutas. A análise da emergência propõe uma atenção às relações entre os processos de dominação e de significação, pois a interpretação dos acontecimentos está orientada pelas perspectivas daqueles que combatem.

Ao enfatizar a análise das relações entre verdade, sujeito e poder, a noção de genealogia tem sido mobilizada em pelo menos três domínios da antropologia: (1) nas discussões sobre o trabalho de campo e a etnografia, como em Writing Culture (1986), organizado por James Clifford (1945-) e George Marcus (1943-) - em que é possível destacar a contribuição de Paul Rabinow (1944-), antropólogo social, divulgador e intérprete da obra de Michel Foucault nos Estados Unidos - e The Predicament of Culture (1988), de James Clifford (2) nos estudos de gêneros e sexualidade, discutida por Judith Butler (1956-) em Problemas de Gênero (1990) e Bodies That Matter (1993) e (3) no domínio da reflexão política, como em The Anthropology of The State (2006), organizado por Aradhana Sharma e Akhil Gupta.

Como citar este verbete:
MORAES, Marcos Vinicius Malheiros. 2018. "Genealogia - Michel Foucault". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/genealogia-michel-foucault>

Genealogia - Michel Foucault

g
data de publicação
03/07/2018
autoria

Marcos Vinicius Malheiros Moraes

palavras chave
política, história, corpo, significação, sexualidade, conhecimento
bibliografia

ABÉLÈS, Marc, “Michel Foucault, l’anthropologie et la question du pouvoir”, L’Homme, Revue française d’anthropologie, 187-188, 2008, p. 105-122

BUTLER, Judith, Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity, New York/London. Routledge, 1990 (Trad. Bras. Renato Aguiar, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2017, 15ªed.)

BUTLER, Judith, Bodies That Matter: On the discursive limits of “sex”, New York/London, Roudedge, 1993

CASCAIS, Antonio Fernando, “Nota de Apresentação” In: Foucault, Michel, A Arqueologia do Saber, Tradução Miguel Serras Pereira, Lisboa, Edições 70, 2014

CLIFFORD, James, The Predicament of Culture: Twentieth-Century Ethnography, Literature, and Art. Cambridge, MA, Harvard University Press, 1988

CLIFFORD, James & Marcus, George, Writing Culture: the Poetics and Politics of Ethnography, Berkeley, Los Angeles, London, University of California Press, 1986

DELEUZE, Gilles, Foucault, Paris, Les Éditions de Minuit, 1986. (Trad. Bras. Claudia Sant’Anna Martins, São Paulo, Brasiliense, 2005)

FOUCAULT, Michel, Histoire de la folie à l'âge classique: Folie et déraison (1961), Paris, Éditions Gallimard, 1972 (Trad. Bras. José T. Coelho Neto, São Paulo, Perspectiva, 2010, 9ªed.)

FOUCAULT, Michel, Naissance de la clinique: Une archéologie du regard médical, Paris, Presses Universitaires de France, 1963 (Trad. Bras. Roberto Machado, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1977)

FOUCAULT, Michel, Les Mots et les Choses: une archéologie des sciences humaines, Paris, Gallimard, 1966 (Trad. Bras. Salma Tannus Muchail, São Paulo, Martins Fontes, 2010, 9ªed)

FOUCAULT, Michel, L'Archéologie du savoir, Paris, Gallimard, 1969 (Trad. Port. Miguel Serras Pereira, Lisboa, Edições 70, 2014)

FOUCAULT, Michel, “Nietzsche, la généalogie, l'histoire” In: Dits et Écrits, vol. 2: 1970-1975, Paris, Gallimard, 1994 (Trad. Bras. Elisa Monteiro, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2015. 3ªed.)

FOUCAULT, Michel, Surveiller et punir: Naissance de la prison, Paris, Gallimard, 1975 (Trad. Bras. Raquel Ramalhete, Petrópolis, RJ, Vozes, 2010, 38ªed).

FOUCAULT, Michel, Histoire de la sexualité, vol. 1: La volonté de savoir, Paris, Gallimard, 1976 (Trad. Bras. Maria T. da Costa Albuquerque & J. A. Guilhon Albuquerque, São Paulo, Paz e Terra, 2014)

FOUCAULT, Michel, Sécurité, Territoire, Population: Cours au Collège de France (1977-1978), Paris, Seuil-Gallimard, 2004

FOUCAULT, Michel, “The Subject and Power” (1982) In: Rabinow, Paul & Dreyfus, Henry, Michel Foucault: Beyond Structuralism and Hermeneutics, University of Chicago Press, 1983 (Trad. Bras. Vera Porto Carrero, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1995)

GUPTA, Akhil & SHARMA, Aradhana, (orgs.) The Anthropology of the State: a reader, Malden, MA, Blackwell Publishing, 2006