Reino Unido

Casamento por captura - John Ferguson McLennan

A noção de casamento por captura, também conhecida como casamento por rapto, foi sistematizada e conceitualizada pela primeira vez pelo antropólogo escocês John Ferguson McLennan (1827-1881) em seu livro Primitive Marriage (1865). A obra está organizada em torno da ideia de que a humanidade passa por estágios de desenvolvimento cujo ápice seria a civilização europeia; o que não quer dizer que o processo tenha sido uniforme e percorrido por todas as sociedades.

Francesco Primaticcio,

 

No livro, o autor tem como objeto a origem e o significado do rapto de mulheres visando o casamento, largamente difundido pelo mundo. McLennan interpreta a existência dessa forma de matrimônio – e das práticas matrimoniais nas quais a captura é apenas simbolizada, mas não efetivada – como a sobrevivência de formas sociais primitivas, e sobretudo do infanticídio feminino. Em um contexto social caracterizado pela hostilidade entre grupos e pela dificuldade em garantir a segurança e a subsistência, as mulheres eram vistas como menos capazes de contribuir para a sobrevivência grupal, levando à preferência pelo nascimento de bebês do sexo masculino e ao infanticídio de meninas. O resultado seria a escassez de mulheres no interior desses grupos, forçando o estabelecimento de arranjos matrimoniais entre uma mulher e mais de um homem (poliandria) e o ataque a outros grupos para a obtenção de esposas. Do rapto de mulheres resultaria a exogamia: a partir da proibição de casamento no interior da tribo, em virtude da escassez de mulheres, se consolida o costume do casamento fora do grupo. Com o passar do tempo, a prática torna-se uma obrigação; na medida em que os membros de uma tribo compartilham o mesmo sangue, sobre eles incide a regra da exogamia. Para McLennan, a noção moderna de propriedade se relaciona ao casamento por captura: as esposas capturadas seriam consideradas propriedades, estatuto estendido às crianças. Em um estágio posterior, a captura daria lugar à cessão da esposa pelo pai mediante pagamento, fazendo com que a noção de esposa como propriedade não apenas sobrevivesse, mas se consolidasse, assumindo feições cada vez mais modernas.

No processo de evolução social, a substituição do sistema de captura de esposas só se concretizaria com o surgimento da ideia de relacionamento de sangue; a reflexão sobre a consanguinidade e sobre os fatos naturais da reprodução estariam, assim, na base do desenvolvimento da noção de parentesco. A incerteza quanto à paternidade teria como resultado que os laços sanguíneos maternos, por serem evidentes, formassem a base de um sistema de parentesco por meio das mulheres; nesse sistema, as crianças passam a ser afiliadas às mães e não mais aos grupos, como no estágio anterior. Com o tempo esse sistema contribui, segundo o autor, para tornar os grupos exogâmicos heterogêneos, substituindo o sistema de captura de esposas: pela operação conjunta da exogamia e do sistema de parentesco através das mulheres, os grupos passam a contar com pessoas de diferentes linhas de descendência a ponto de ser possível o casamento no seu interior. Em decorrência das práticas exogâmicas, as mães de uma tribo passam a ser consideradas estrangeiras, da mesma forma que seus filhos, neste caso em razão do sistema de parentesco. Com o afrouxamento da prática de infanticídio, o casamento no interior desses grupos tornou-se viável e coerente com a regra de exogamia, uma vez que essas pessoas não possuíam parentesco com o grupo do pai, apenas laços de sangue com suas mães estrangeiras.

A análise de McLennan do casamento por rapto tornou-se paradigmática nas ciências sociais, sobretudo em virtude de estar associada às discussões acerca da exogamia e endogamia, conceitos que passaram a fazer parte do vocabulário antropológico a partir de Primitive Marriage. Em Principles of Sociology, obra em três volumes publicada entre os anos de 1882 e 1896, Herbert Spencer (1820–1903) seguiu a interpretação de McLennan, sugerindo, de modo semelhante, que o rapto de mulheres deu origem à exogamia nas etapas mais arcaicas da evolução social. Nessa mesma linha, John William Lubbock (1834–1913) propôs um esquema evolutivo que vai do casamento no interior do grupo (endogâmico) ao  casamento por captura (exogâmico), no qual as mulheres passam a ser consideradas bens individuais, levando às formas modernas de casamento. Em As estruturas elementares do parentesco (1949), Claude Lévi-Strauss (1908-2009) rechaçou as explicações de matriz mclenniana, argumentando que elas se baseiam em uma sequência histórica tão específica que seria impossível a sua verificação em todas as sociedades. No entanto, delas retira sua intuição fundamental: a exogamia expressa antes o caráter positivo da prescrição (de casamentos fora do grupo), do que o caráter negativo da proibição (de casamentos dentro do grupo), ideia que está na base da sua teoria da aliança matrimonial.

Como citar este verbete:
SILVA, Thiago Timóteo da. 2017. "Casamento por captura - John Ferguson McLennan". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/casamento-por-captura-john-ferguson-mclennan>

autoria

Thiago Timóteo da Silva

bibliografia

LÉVI-STRAUSS, Claude, Les structures élémentaires de la parenté (1949), Paris, Mouton, 1967 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1982)

LUBBOCK, John, The origin of civilization and the primitive condition of man, Londres, Longmans, Green, and Co, 1870

MCLENNAN, John Ferguson, Primitive Marriage, London, MacMillan & Co, 1865

SPENCER, Herbert, The Principles of Sociology, v.1, (1882), Londres, D. Appleton and Company, 1885

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Casamento por captura

William Halse Rivers

Nascido na cidade de Chatham, região do Kenty, Inglaterra, William Halse Rivers (1864-1922) conclui sua graduação em Medicina, aos 22 anos, obtendo o título de doutor na Universidade de Londres, dois anos depois. Em 1891, trabalha como médico residente no National Hospital for the Paralysed and Epileptic, período em que publica estudos nas áreas de Psicologia e Neurologia. A fim de especializar-se nesses campos, muda-se para a Alemanha, onde irá estudar na Universidade de Jena com o psiquiatra Emil Kraepelin. De volta à Inglaterra, assume o Laboratório de Psicologia na University College London, tornando-se, em 1897, o primeiro professor em Psicologia Fisiológica e Experimental da Universidade de Cambridge. Na primeira década do século XX, Rivers produz uma série de artigos nos campos da antropologia e psicologia experimental. Após uma segunda expedição à Oceania, às Ilhas Salomão (Melanésia), publica o artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica” (1900 e 1910, para a segunda versão revista), no qual apresenta uma ferramenta capaz de coletar, com precisão e rapidez, informações-chave para os estudos de parentesco e da organização social.

Foto por Henry Maull para The Royal Society (1922)

Em 1898, Rivers integrará a expedição ao estreito de Torres, localizado entre a Austrália e a Papua-Nova Guiné, que se tornaria um marco na história da antropologia em geral e na britânica, em particular. Sua experiência com os insulares dessa região da Melanésia, onde conduziu, como psicólogo, testes sobre as percepções visuais e cognitivas dos nativos, foi fundamental para que sua carreira e produção se orientassem na direção da antropologia; é nesse contexto que lança as bases para o desenvolvimento de seu método genealógico. Entre 1901 e 1902, com interesse em temas como o parentesco e a organização social, passa cinco meses no sul da Índia, entre os Toda, cujo resultado vem à luz com a monografia The Toda, publicada em 1906. A experiência de ir a campo para obter seus próprios dados de pesquisa sinaliza o esforço do autor em trabalhar com fontes primárias, algo pouco comum à produção antropológica da época. Nos anos seguintes, Rivers aproximaria-se do difusionismo, o que era considerado, por alguns antropólogos de sua geração, uma adesão à empiria estimulada pelo trabalho de campo.  Em seu primeiro discurso como presidente da seção de Antropologia da British Association for the Advancement of Science, em 1911, realiza duras críticas à atitude especulativa adotada pelos evolucionistas, considerando-a extremamente prejudicial à constituição da nova ciência. Em 1914, publica Kinship and Social Organization, coletânea com três conferências ministradas em 1913 na London School of Economics sobre sua experiência durante o campo realizado na segunda expedição à Oceania. No mesmo ano, publica The History of Melanesian Society, obra em dois volumes, considerada pelo autor a sua mais importante publicação. Enquanto o primeiro livro contém descrições etnográficas dos povos visitados, o segundo abarca uma densa discussão teórica voltada, sobretudo, para uma crítica à perspectiva evolucionista, ressaltando a importância das análises etnológicas frente às especulações “de gabinete”. Durante a I Guerra Mundial, Rivers reaproxima-se da psicologia, ganhando notoriedade pelos tratamentos que realizou entre os soldados britânicos com traumas de guerra. Também se envolve com a esfera política, sendo nomeado candidato ao Parlamento britânico nas eleições de 1922 pelo Labour Party. Mas não chegou a disputar o pleito, já que faleceria meses antes.

Em seu multifacetado trajeto intelectual, W. H. R. Rivers estabeleceu o programa básico da Antropologia Social britânica ao adotar a pesquisa empírica como fonte privilegiada de informação,  influenciando importantes autores da disciplina, como Radcliffe-Brown (1881-1955) e instituindo preceitos fundamentais para estudos posteriores sobre o parentesco e a organização social, especialmente por ter privilegiado a pesquisa empírica e estabelecido o método genealógico. Como lembra Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006) na introdução a um volume dedicado a Rivers, o caráter científico que o antropólogo objetivava conferir à antropologia foi emblematicamente sintetizado por Claude Lévi-Strauss (1908-2009) quando disse, em 1958:  “Em Rivers, a Etnologia encontrou seu Galileu”.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "William Halse Rivers". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/william-halse-rivers>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

KUPER, Adam, “Richard Slobodin. W. H. R. Rivers (Leaders of Modern Anthropology Series)”, The American Historical Review, n.84 (4), Oxford, Oxford University Press, 1979, p.1027-1028

OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.), A Antropologia de Rivers. Tradução Gilda Cardoso de Oliveira e Sônia Bloomfield Ramagem. Campinas, Editora da UNICAMP, 1991

SILLITOE, Paul, “The Role Of Section H At The British Association For The Advancement Of Science In: “The History Of Anthropology”, Durham Anthropology Journal, Volume 13 (2), Durham, Department of Anthropology/Durham University, 2005, p.1-17

SILVA, Márcio Ferreira da, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, 2010, p. 323-336

SLOBODIN, Richard, W. H. R. Rivers, New York, Columbia University Press, 1978

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Rivers

Estar Vivo

Estar vivo - Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição (2011) é uma coletânea de ensaios do antropólogo britânico Tim Ingold (1948-) escritos e ministrados ao longo da primeira década do século XXI. O volume dá continuidade e atualiza um processo teórico iniciado em Lines: a brief history (2007), subsidiando formulações posteriores, reunidas em Making: Anthropology, Archeology, Art and Architecture (2013). As ideias do livro, segundo ele, orbitam em torno das três palavras-chave que o intitulam: movimento, conhecimento e descrição. Estas não são meras sequências de operações, mas compostos paralelos de um só processo, o do curso da vida. Uma simples caminhada, ele sugere, mobiliza as três operações ao mesmo tempo, o que requer observação para além dos grandes esquemas filosóficos sobre o “estar no mundo”. Aí reside o principal argumento do autor: o ser que está em movimento, conhecendo e descrevendo, está atento, e estar atento é estar vivo para (e no) mundo.

Nos dezenove capítulos distribuídos em cinco partes, Ingold argumenta que a epistemologia antropológica deve se inclinar aos fluxos e percursos da vida. Por isso, renuncia a adjetivações (social, estrutural, ecológica, simbólica ou cultural) comumente associadas ao vocabulário da disciplina. Para ele, se o objetivo dos antropólogos é ler o mundo, as fontes textuais que os informam devem estar abertas às inspirações e dizeres contidos, literalmente, no chão que se pisa; no curso dos rios e movimentos das marés; na habitação das casas e no convívio entre animais humanos e não-humanos. O autor busca superar fronteiras disciplinares, conduzindo diálogos com a arte, a arquitetura e os estudos da cultura material, pois acredita que esses domínios partilham da capacidade de observar, descrever e propor. À antropologia não caberia apenas o papel de relatar a vida social tal como ela se apresenta, mas sobretudo um engajamento no mundo e uma educação perceptiva, aberta às infinitas possibilidades dos organismos de nele estarem e existirem.

Amparado sobretudo pela psicologia ecológica de James Gibson (1979), Ingold defende que colocar o foco nas atividades dos materiais - sem encerrá-las no interior de um objeto, reduzindo-as a matéria inerte - significa admitir que a vida está nas coisas, e não que as coisas estão na vida. Este aprisionamento das coisas em objetos teria originado o que ele denomina de “problemas da agência” nos estudos da cultura material, como observados em autores como Alfred Gell (1998) que, supondo a inatividade dos materiais, necessita de algo exterior a eles, como a ideia de agência, capaz de animá-los. Na teoria ingoldiana, os materiais que compõem o mundo não existem como objetos do mundo material, mas “ocorrem”, pois as propriedades dos materiais consideradas constituintes de um ambiente não podem ser identificadas como essenciais e fixas nas coisas, ao contrário, são sempre processuais e relacionais. Por isso, para o autor, todos os organismos, das pedras às pessoas, são “colmeias de atividades” que pulsam com o fluxo de materiais, cujas propriedades são estórias condensadas que os mantêm vivos, se misturando e se modificando.

Ingold acredita que a “lógica da inversão” operada no pensamento ocidental depositou uma membrana entre os seres e o ambiente, apartando-os e impedindo o trânsito de informações entre eles; como se os primeiros fossem anteriores às relações e o segundo estivesse preordenado. Contrário a esta visão, ele acredita que os seres e o ambiente se constituem mutuamente em um contínuo nascimento, cujas formas geradas são trilhas de movimento ou crescimento. Neste raciocínio, cada trilha equivale a uma relação; mas não se trata de uma relação entre um organismo aqui e o ambiente lá, mas de uma trilha ao longo da qual a vida é vivida. Para ele, uma trilha é um fio que se adensa em um tecido de trilhas compreendendo a textura do mundo da vida, tal como uma “malha”, termo que ele toma de empréstimo à filosofia de Henri Lefebvre (1901-1991). A constituição relacional dos organismos se daria nessa textura, não como um campo de pontos interconectados imaginado pela Teoria Ator-Rede de Bruno Latour (1947-), mas sim por linhas entrelaçadas. Se o pensamento em rede cria para si o problema da distinção entre os seres e suas relações, operando na “lógica da inversão”, tratar as relações como trilhas, para Ingold, é afirmar que os seres são as suas próprias relações.

Parte da cosmologia ingoldiana, resgatada e ampliada em Estar vivo, tem revigorado a chamada antropologia fenomenológica, que mobiliza, por exemplo, as etnografias organizadas em coletânea por Carlos Steil & Isabel Carvalho (2012). Ao lado de autores como Donna Haraway (1944-), Philippe Descola (1949-) e Eduardo Viveiros de Castro (1951-), Ingold, e suas ideias, vêm incidindo no debate antropológico sobre humanos e não-humanos, contribuindo, além disso, para os diálogos acerca do uso de desenho em trabalhos etnográficos que ressoam, por exemplo, nas pesquisas reunidas no dossiê Antropologia e Desenho (2016).

Como citar este verbete:
FONTGALAND, Arthur. 2017. "Estar Vivo". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/estar-vivo>

autoria

Arthur Fontgaland

bibliografia

DESCOLA, Philippe, L’Écologie des Autres: l’anthropologie et la question de la nature, Paris, Éditions Quae, 2011

Dossiê Antropologia e desenho, Revista Cadernos de Arte e Antropologia, v.5, n.2, p. 6- 142, 2016. Disponível em: http://cadernosaa.revues.org/1152

GELL, Alfred, Art and Agency: An Anthropological Theory, Oxford, Clarendon, 1998

GIBSON, James, The Ecological Approach to Visual Perception, Boston, MA, Houghton Mifflin, 1979

HARAWAY, Donna, The Companion Species Manifesto: Dogs, People, and Significant Otherness, Chicago, Prickly Paradigm Press, 2003

INGOLD, Tim, The Perception of the Environment: Essays on Livelihood, dwelling and skill. London, Routledge, 2000

INGOLD, Tim, Being Alive: essays on movement, knowledge and description, London, Routledge, 2011 (Trad. Bras. Fabio Creder. Petrópolis, Vozes, 2015)

INGOLD, Tim, Making: Anthropology, Archeology, Art and Architecture, Londres/Nova York, Routledge, 2013

LATOUR, Bruno, Nous n'avons jamais été modernes. Essai d'anthropologie symétrique, Paris, La Découverte, 1991. (Trad. Bras. Carlos Irineu da Costa, Editora 34, 1994)

LEFEBVRE, Henri, La production de l’espace, Paris, Éditions Anthropos, 1974

 

STEIL, Carlos Aberto & CARVALHO, Isabel Cristina de Moura (orgs), Cultura, percepção e ambiente: diálogos com Tim Ingold, São Paulo, Terceiro Nome, 2012

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metáphysiques cannibales, Paris, PUF, 2009 (Trad. Bras. Oiara Bonilla. Cosac Naify/ N-1 edições, 2015)

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Estar Vivo. Ensaios sobre Movimento, Conhecimento e Descrição

Coral Gardens and Their Magic

Publicada em 1935, Coral gardens, a study of the methods of tilling the soil and of agricultural rites in the Trobriand Islands é a quarta e última monografia produzida por Bronislaw Malinowski (1884-1942) acerca da vida dos nativos das Ilhas Trobriand, no Pacífico Ocidental. Com quase mil páginas de extensão, a obra tem como foco a relação entre magia e práticas agrícolas dos trobriandeses. Embora não tenha tido a notoriedade e difusão de Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), Coral Gardens foi considerada pelo próprio autor como sua obra mais bem-acabada, tanto pela exposição sistemática do método funcionalista quanto por sua inovadora abordagem em relação ao campo da linguística, juízo compartilhado por leituras posteriores da obra, como as dos linguistas Jean Rupert Firth (1890-1960) e Terence Langendoen.

Bronisław Malinowski e trobriandeses, 1918. Wikimedia commons.

O livro é dividido em sete partes, distribuídas em dois volumes. No primeiro, Malinowski esboça aspectos gerais da vida social dos trobriandeses, tomando como base suas obras anteriores e o método funcionalista, exercitado antes, e que se encontra sistematicamente apresentado nos capítulos finais do primeiro tomo. Encontra-se aí descrita a distribuição da população do arquipélago em diversas aldeias e sua especialização econômica, além de sua integração em um sofisticado e abrangente sistema de comércio, o kula. Na segunda parte, a mais extensa do primeiro volume, Malinowski volta seu olhar às práticas agrícolas, à magia e ao regime de posse da terra - sobre os quais se assentam elementos centrais da organização social trobriandesa – além de se deter nos mitos que narram a origem dos clãs e sua conexão com determinadas porções do território, na divisão dos clãs em classes (ranks), nas regras matrimoniais e no papel de liderança ocupado pelo mágico. Em relação às roças, ou jardins cultivados, o autor as descreve como verdadeiras obras de arte produzidas pela tecnologia e pela magia, e não como meros espaços utilitários.

Uma das contribuições mais originais da obra é o esboço de uma teoria etnográfica da linguagem, levada a cabo no segundo volume da obra. O autor defende que os encantamentos mágicos, como toda forma de linguagem, devem ser entendidos em seu contexto como “atos verbais”, tendo por função produzir efeitos práticos. Para Malinowski, o verdadeiro fato linguístico é a fala em seu contexto, entendido em um sentido amplo, envolvendo não apenas as palavras, mas expressões faciais, gestual, atividades corporais, o grupo presente ao ato de fala e o próprio ambiente em que se encontram. Nesse sentido, a obra traz aportes pioneiros ao campo da linguística conhecido como pragmática, o que se evidencia, por exemplo, na sua apropriação por J. R. Firth.

Merecem destaque também as inspirações que fornece ao antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) no ensaio The Magical Power of Words (1968). Reanalisando o material reunido por Malinowski em Coral Gardens à luz da teoria dos atos de fala de John Austin (1911-1960), Tambiah defende que ato e palavra se relacionam de forma indissociável no pensamento mágico. A abordagem pragmática ecoa ainda na análise de Alfred Gell (1945-1997) sobre a eficácia do objeto de arte e seu poder de agência. Coral Gardens foi também objeto de reflexão o historiador Karl Polanyi, para elaboração de sua crítica ao homo economicus, desenvolvida em A grande transformação (2000). Em sua introdução crítica à edição inglesa de 1966, Edmund Leach (1910-1989) aponta que Malinowski é inovador por descrever um modo de vida e não apenas descrições de costumes, modos e artefatos como seus antecessores; critica, entretanto, ser sua análise da sociedade pouco sociológica e concentrada nos indivíduos. Além disso, haveria, segundo Leach, uma contradição inerente ao seu tratamento dos trobriandeses como, ao mesmo tempo, únicos e universais, o que não o impede de reconhecer o “mestre do trabalho de campo antropológico” que foi Malinowski - Coral Gardens uma evidência irrefutável desse fato.

Como citar este verbete:
GUERRERO, Natalia Ribas & BASSI, Flávio. 2016. "Coral Gardens and Their Magic". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/coral-gardens-and-their-magic>

autoria

Natalia Ribas Guerrero e Flávio Bassi

bibliografia

FIRTH, John Rupert, The Tongues of Men and Speech, London, Oxford University Press, 1964

GELL, Alfred, Art and agency, Oxford, Clarendon Press, 1998

LEACH, Edmund, “Introduction” In: Malinowski, B., Coral Gardens and Their Magic, Soil-tilling and agricultural rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1

LANGENDOEN, Terence, London School of Linguistics: A Study of the Linguistic Theories of B. Malinowski and J. R. Firth, Cambridge, MIT Press, 1968 

MALINOWSKI, Bronislaw, Coral Gardens and Their Magic. A Study of the Methods of Tilling the Soil and of Agricultural Rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1 e 2

POLANYI, Karl, The Great Transformation: Origins of Our Time, New York, Farrar & Rinehart, 1944 (Trad. Bras. Fanny Wrobel. Rio de Janeiro, Campus, 1980)

SENFT, Gunter, “Bronislaw Malinowski and Linguistic Pragmatics”, Lodz Papers in Pragmatics v. 3 (2007), p. 79-96

TAMBIAH, Stanley, “The Magical Power of Words”, Man, New Series, v. 3, n. 2 (Jun., 1968), pp. 175-208

YOUNG, Michael W., “Malinowski’s Last Word on the Anthropological Approach to Language”, Pragmatics, v.1, n. 21 (2011), p. 1-22

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Coral Gardens

Paisagem - Tim Ingold

Desenvolvida por Tim Ingold (1948) ao longo de sua obra, a partir da leitura de etnografias variadas, e de trabalhos de ciências humanas, naturais e da filosofia - em particular dos trabalhos de Jakob von Uexküll (1864-1944), Martin Heidegger (1889-1976), James Gibson (1904-1979) e de Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) -, a noção de paisagem (landscape) é pensada a partir de inúmeros processos que se verificam na passagem do tempo, na forma de registros duradouros de vidas e da atividade de gerações de seres, incluídos aí seres humanos, animais e plantas, assim como ciclos geológicos e atmosféricos. Paisagens estão intimamente relacionadas à temporalidade; são histórias e nos oferecem modos de contar histórias mais profundas sobre o mundo. Mas “temporalidade” não se confunde com “cronologia”, sucessão regular de um tempo vazio e quantitativo, ou com “história”, entendida como série variada de eventos qualitativos que nunca se repetem; perceber a paisagem, para Ingold, corresponde a um ato de memória, relacionado ao engajamento e à circulação em um ambiente impregnado de passado.

No artigo “Temporalidade da Paisagem” (1993), republicado na coletânea The Perception of the Environment (2000), o autor aprofunda sua crítica à oposição entre natureza e cultura, conceitos fundantes do pensamento moderno. O primeiro, referido às “paisagens naturalistas”, indicaria uma realidade dada, compreendida pelas ciências naturais e pela cartografia. O segundo, relacionado às “paisagens culturalistas”, como na coletânea dos geógrafos Stephen Daniels e Denis Cosgrove (1988), refere-se às imagens mentais e símbolos sobre o espaço, objetos de estudo das ciências humanas. A paisagem, em seus termos, não indica um mundo externo e acabado, independente dos seres que o habitam, tampouco imagens ou ideias sobre ele. Vivendo nas paisagens, nós as produzimos, tanto quanto somos produzidos por elas, por meio de processos materiais e cotidianos.

Para definir a paisagem, Ingold constrói paralelos entre práticas e conhecimentos de arqueólogos e de grupos com os quais os antropólogos trabalham, tais como os caçadores e criadores de renas da Lapônia (norte da Europa), com quem ele realizou seu trabalho de campo. Pensando nesses engajamentos cotidianos com seres, sinais do passado e o mundo, o autor busca um caminho distinto daqueles adotados por alguns geógrafos e historiadores de iconografia e arte, como por exemplo Peter Gould e Rodney White (1974), Stephen Daniels e Denis Cosgrove (1988), que tendem a definir o conceito como sinônimo de “terra”, “natureza” ou “espaço”. A noção distingue-se de “terra”, categoria quantitativa e homogênea, em função de sua especificidade: cada paisagem é única, composta ao longo de sua história por texturas, contornos e elementos variados. Diferencia-se também de “natureza”, categoria que pressupõe uma realidade exterior aos seres que a compõem, e que se oporia à “cultura”, entendida como domínio das imaginações e representações. Contrapõe-se, ainda, a “espaço”, noção que costuma ser associada à visão distante de um observador onisciente, tal como aquela implicada na cartografia, com suas imagens estáticas, silenciosas e vazias do mundo e, como tal, diferente dos saberes e práticas produzidos nos engajamentos na (e com) a paisagem, sempre situados e em transformação. Com o auxílio dessas distinções, Ingold propõe uma caracterização positiva da paisagem referida ao mundo e pensada do ponto de vista daqueles que o habitam e o produzem, assim como dos lugares e percursos. Paisagem poderia ser aproximada da noção de “ambiente”, mas ele evita adotar o termo, por sua habitual associação à imagem de um mundo acabado, produzido por processos abióticos (como a geologia) e ocupado por seres vivos (que, do ponto de vista da biologia genética, também estariam prontos).

A Colheita do Trigo, Pieter Bruegel, o Velho, 1565, óleo sobre tela, 119cm x 162cm, Metropolitan Museum of Arts, New York. © Wikimedia Commons

De modo a guiar os leitores na compreensão de sua formulação, Ingold cria o neologismo “tarefagem” (taskscape), distinto do conceito de “trabalho”, categoria da economia e que o antropólogo considera quantitativa e homogênea. “Tarefa” estaria ligada aos diferentes atos de viver, sentir, perceber e se deslocar no mundo, todos esses atos situados, qualitativos e heterogêneos, produzidos por diversos agentes em relação (e em) resposta a atos e processos de outros agentes e da paisagem. ‘Paisagem’ e ‘tarefagem’ emergem das mesmas correntes de atividades, sendo, portanto, inacabadas e em perpétua construção. Para exemplificar a ideia, ele analisa o quadro A Colheita do Trigo (1565) do pintor holandês Pieter Brugel, o Velho, como se estivesse no interior da paisagem, olhando ao redor de si mesmo. Com isso, o autor segue as transformações e os processos produzidos pelos atos de habitar, marcados pelos ritmos e ciclos sociais, biológicos, geológicos, em ressonância uns com outros. A paisagem “encorpora” (embody) ciclos, movimentos, feições e vidas na forma de características duráveis, como vales, montes, caminhos, padrões de vegetação e urbanização, árvores, rios etc. O antropólogo destaca, assim, que qualquer oposição entre o que seria “animado” e “inanimado” perde de vista o fato que até mesmo os ciclos geológicos são processos vivos se considerados em outras escalas de tempo (uma paisagem somente parece constante ou imutável na curta duração da escala humana). A noção foi retomada e redefinida no artigo “Paisagem ou Mundo-Clima?”, de sua coletânea Estar vivo (2011), em que critica sua primeira formulação, que desconsiderava o céu e a atmosfera como partes integrantes da paisagem. A paisagem não é estática nem constante, graças ao vento, chuva, calor, frio (que denominamos “tempo” - weather), tampouco está acima das paisagens; as superfícies materiais estão imersas no meio fluido que ele denomina mundos-climas (weather-worlds), sendo impossível percebê-las sem os fluxos do meio luminoso, dos deslocamentos dos sons, calor e umidade que constituem o que convencionamos chamar de “atmosfera”.

O conceitual ingoldiano constitui uma referência para trabalhos etnográficos e historiográficos no campo da antropologia da paisagem. Em função das suas reflexões, paisagem passou a ser considerada não mais como cenário externo acabado ou como imagens mentais, mas como um mundo produzido e em contínua transformação, analisado conjuntamente com ações e movimentos humanos e não-humanos. Como exemplos das repercussões de suas ideias é possível mencionar as coletâneas publicadas no Reino Unido, organizadas por Eric Hirsch e Michael O’Hanlon (1995); por Monica Janowski e Tim Ingold (2012); por Arnar Árnason, Nicolas Ellison, Jo Vergunst, Andrew Whitehouse (2012); e no Brasil, por Marta R. Amoroso e Gilton Mendes dos Santos (2013). Entre antropólogos brasileiros, o conceitual produziu um campo de experimentação interessante para a história indígena e a etnologia, de maneira a dar corpo e história às produções e circulações de povos indígenas em seus engajamentos no (e com) o mundo, com a flora e a fauna.

Como citar este verbete:
BAILÃO, André. 2016. "Paisagem - Tim Ingold". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/paisagem-tim-ingold>

autoria

André S. Bailão

bibliografia

AMOROSO, Marta, “Natureza e sociedade nos aldeamentos indígenas do Império: diálogos da Ordem Menor dos Frades Capuchinhos com a história natural”, Revista de História - edição especial, São Paulo, USP, 2010, p. 271-301

AMOROSO, Marta & SANTOS, Gilton (orgs.), Paisagens Ameríndias: lugares, circuitos e modos de vida na Amazônia, São Paulo, Editora Terceiro Nome, 2013

ÁRNASON, Arnar, ELLISON, Nicolas, VERGUNST, Jo & WHITEHOUSE, Andrew (orgs.), Landscapes beyond Land. Routes, Aesthetics, Narratives, Oxford, Berghahn, European Association of Social Anthropology Series, 2012

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JANOWSKI, Monica & INGOLD, Tim (orgs.), Imagining Landscapes. Past, Present and Future, Londres, Routledge, 2012

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Paisagem - Ingold

Naven

Publicada originalmente em 1936, Naven: um esboço dos problemas sugeridos por um retrato compósito, realizado a partir de três perspectivas da cultura de uma tribo da Nova Guiné é uma obra baseada no trabalho de campo que Gregory Bateson (1904-1980) realizou entre os Iatmul (povo das terras baixas do rio Sepik, Nova Guiné), ao longo de 1929 e 1932. Uma das principais contribuições da obra é fazer do comportamento ritual o centro da investigação antropológica.

Gregory Bateson,

A monografia focaliza as atitudes observadas durante o ritual nativo naven, analisando-as a partir de diferentes pontos de vista científicos, parciais mas complementares entre si. A cerimônia que dá título ao livro ocorre para comemorar realizações culturalmente valorizadas de um jovem iatmul. Sua principal figura é o tio materno (wau) que, em clima de bufonaria, “traveste-se” em “repugnantes” (velhas, sujas) roupas femininas. Nesse contexto, procura seu sobrinho (laua) e, ao encontrá-lo, o embaraça com uma “saudação sexual”: esfrega suas nádegas na canela do laua, o qual deve dar objetos de valor para que o wau “fique bom”. Ainda que este “travestismo” se irradie com modos e intensidades variadas entre diversos parentes ligados ao laua, e que o naven não se limite à relação entre laua e wau (o que não passa despercebido por Bateson), é aí que reside o centro e parte mais significativa da cerimônia, seu ponto de partida e foco de sua análise.

As escolhas metodológicas e o modo de exposição dos problemas nesta obra – primeira e única monografia escrita por Bateson – fazem ressoar as múltiplas facetas de seu percurso intelectual. Em Naven, a relação do autor com o estrutural-funcionalismo, por meio do qual ele trava o seu contato inicial com a antropologia, é marcadamente heterodoxa: ainda que lide com questões relativas à integração social no livro – caras à tradição britânica na qual se forma – enfatiza ser insuficiente, do ponto de vista explicativo, tomá-las isoladamente. Nesse sentido, busca em outros campos disciplinares (como a psiquiatria) e tradições antropológicas (como a norte-americana) instrumentais analíticos que permitam observar novos aspectos do fenômeno cultural. Por um lado, através do exame do que denomina eidos iatmul, Bateson explicita modos de pensamento culturalmente padronizados, premissas e operações de identificação relevantes para o “comportamento naven” do wau, inspirando-se no trabalho seminal de Radcliffe-Brown (1881-1955) sobre o irmão da mãe na África do Sul. Por outro lado, observa expressões características da emoção iatmul, de seu ethos, e o valor específico a elas atribuído durante a cerimônia, o que mostra como a análise do naven encontra-se repartida em um ponto de vista sociológico, um eidológico-cognitivo e outro etológico-afetivo. Apesar da separação meticulosa dos planos de análise, Bateson esclarece que o material sobre o qual se baseia o estudo é o mesmo, concluindo, no balanço autocrítico efetuado nos epílogos das edições de 1936 e de 1958, que as perspectivas adotadas são apenas maneiras pelas quais os cientistas organizam a sua descrição, e que, portanto, nem o ethos, o eidos ou a estrutura social têm uma existência independente da explicação científica. Por essa razão, Bateson considera que Naven é principalmente um “estudo sobre a natureza da explicação”, através do qual se deduz a impossibilidade de totalização explicativa do fenômeno trabalhado, já que sempre haverá resíduos e impurezas que escapam a qualquer tentativa de análise.

Se a investigação é construída a partir de planos heterogêneos, há um fenômeno que os atravessa: a cismogênese, que Bateson define como “criação da separação”. Formulada para demonstrar o potencial disjuntivo da relação entre as diferentes ênfases emocionais atribuídas a cada sexo (derivada da análise do ethos), a cismogênese também foi notada na descrição dos padrões de fissão da estrutura social iatmul (perceptíveis pelo prisma sociológico) e nos modos de operação dos dois tipos de dualismo encontrados no pensamento iatmul (que se mostram pelo exame do eidos). A ligação entre as análises afetiva e cognitiva, tornada possível pela persistência da cismogênese, faz com que Bateson proponha uma relação entre estímulos e reações para compreender como ethos e eidos são inculcados no indivíduo. Tal discussão expressa o interesse do autor nos processos de aprendizagem, intimamente ligados às suas reflexões posteriores sobre teoria da comunicação e cibernética.

Naven não foi uma obra recebida com destaque pelo establishment antropológico de sua época; recentemente, contudo, o livro tem fornecido grandes inspirações para a antropologia, lembremos a importância do conceito de cismogênese para a antropologia de Roy Wagner (1938), como mostra o seu A invenção da cultura (1975); a influência da descrição dos ethos sexuais iatmul para as análises do gênero na Melanésia, realizadas por Marilyn Strathern (1941) em O gênero da dádiva (1988) e a relevância do naven para a análise do ritual proposta por Michael Houseman e Carlo Severi, em 1994. Como se vê, uma obra que forneceu potências renovadoras ao pensamento antropológico ao longo das últimas décadas.

Como citar este verbete:
MONTEIRO, Eduardo Santos Gonçalves & BRUSCO, Rodrigo Rossi Mora. 2016. "Naven". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/naven>

autoria

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro e Rodrigo Rossi Mora Brusco

bibliografia

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BATESON, Gregory, Naven: a survey of the problems suggested by a composite picture of the culture of a New Guinea tribe drawn from three points of view (1936), Stanford, Stanford University Press, 1958 (Trad. Bras. Magda Lopes. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2008)

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BENEDICT, Ruth, Patterns of culture, Boston e Nova Iorque, Houghton Mifflin Company 1934 (Trad. Bras. César Tozzi. São Paulo, Perspectiva, 1988)

GEIGER, Amir, “Introdução” In: Gregory Bateson, Naven: um esboço dos problemas sugeridos por um retrato compósito, realizado a partir de três perspectivas da cultura de uma tribo da Nova Guiné. Trad. Bras. Magda Lopes. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2008

HOUSEMAN, Michael & SEVERI, Carlo,  Naven ou le donner à voir. Essai d’interpretation de la action rituelle, Paris, CNRS Édition/Éd. de la Maison des sciences de l’homme, 1994

LIPSET, David, Gregory Bateson. The legacy of a scientist, Boston, Beacon Press, 1982

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MEAD, Margaret, Sex and Temperament in three primitive societies, New York, W. Morrow & Company, 1935 (Trad. Bras. Rosa Krausz, São Paulo, Editora Perspectiva, 2015)

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RADCLIFFE-BROWN, Alfred Reginald, “On social structure”, The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland, v. 1, Londres, 1940, p. 1-12

STRATHERN, Marilyn, The gender of the gift. Problems with women and problems with society in Melanesia, Cambridge, Cambridge University Press, 1988 (Trad. Bras. André Villalobos. Campinas, Editora da Universidade de Campinas, 2006)

WAGNER, Roy, The invention of culture (1975), Chicago, The University of Chicago Press, 1981 (Trad. Bras. Marcela Coelho de Souza e Alexandre Morales. São Paulo, Cosac Naify, 2010)

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Naven

Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande

Já em sua primeira publicação em 1937, o livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande ganhou lugar de destaque na obra do antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973). Fruto de vinte meses de trabalho de campo, realizado entre 1926 e 1929, junto a este povo do sul do Sudão, a monografia é vasta em contribuições tanto teóricas quanto etnográficas, resultantes de um envolvimento intenso com as ideias azande. A bruxaria, questão central do livro, longe de ser um tema concebido antes da ida a campo, se impôs como objeto de estudo por conta de sua presença constante entre os nativos e pela importância atribuída a ela, notada desde os primeiros contatos do antropólogo com a sociedade.

Nos treze capítulos e quatro apêndices que compõem a versão mais sintética do livro, lançada em 1976, Evans-Pritchard descreve a crença zande na bruxaria como um meio de explicar os infortúnios. Em uma abordagem próxima daquela posteriormente empreendida em Nuer Religion (1956), em que a noção de kwoth é o ponto de partida para interpretar a filosofia religiosa dos Nuer, o autor mostra como a bruxaria faz parte de um sistema de pensamento racional e coerente - que envolve os oráculos, a magia, a feitiçaria, os adivinhos e as drogas etc. - capaz de dar sentido não apenas a eventos físicos e objetivos, como faz a racionalidade científica ocidental, mas também aos acasos e a acontecimentos imprevisíveis. Cada parte desse sistema é utilizada para explicar e validar a outra, e as eventuais lacunas deixadas pelo fracasso de algum rito ou por inconsistências das respostas dos oráculos, por exemplo, são explicadas por uma variedade de noções místicas que são – e, segundo o autor, só poderiam ser – expressas no próprio idioma da crença. 

Contra-feiticeiro Azande, século XIX, foto de Richard Buchta, acervo do Pitt Rivers Museum (Wikimedia Commons)
Os Azande entendem a bruxaria como condição hereditária e biológica, que é disparada por um ato psíquico, por vezes involuntário, incitado por ciúme, inveja, ódio ou cobiça, e que desencadeia uma série de infortúnios a quem ela se destina. Evans-Pritchard conta que viu a luz característica da bruxaria atravessar a floresta e se instalar na residência de um homem que – não por acaso, segundo a lógica zande – faleceu pouco tempo depois. Uma vez que tais infortúnios vão das situações mais comezinhas até a morte, recorre-se cotidianamente a diversos tipos de oráculos, que tanto revelam a identidade do bruxo (o que também pode ser feito pelos adivinhos) quanto sanam dúvidas sobre assuntos impossíveis de serem revelados por inferência lógico-experimental. Principal inimiga da bruxaria, a magia combate os males por ela causados, curando doenças, controlando a agricultura e a caça, além de ser responsável  pela vingança contra os bruxos e feiticeiros identificados pelos oráculos. A magia é realizada de maneira consciente, pois depende da manipulação deliberada de drogas específicas para cada finalidade e da realização de encantamentos, o que nitidamente a diferencia da bruxaria. Distingue-se ainda a “boa magia”, aquela socialmente autorizada, da feitiçaria, maligna, imoral e antissocial, destinada a fazer mal deliberadamente a outrem, seja a seus negócios ou ao corpo do sujeito. Os ritos mágicos são raros e secretos e, embora sejam mais comuns entre os homens mais velhos, todo zande, diz o autor, é até certo ponto um mágico, já que tem contato com magia e com drogas em algum momento de sua vida.

Nesta obra, Evans-Pritchard dialoga com as principais teorias então correntes sobre a razão humana. Ao identificar a racionalidade que subjaz à bruxaria zande, a monografia avança em relação à teoria da mentalidade primitiva de Lucien Lévy-Brühl (1857-1939) e à noção de representações coletivas de Émile Durkheim (1858-1917), que lhe serviram de ponto de partida. A obra suscitou também uma pluralidade de linhas de descendência e abriu caminhos para o posterior desenvolvimento de subáreas no interior da filosofia, da psicologia, dos estudos da religião e da sociologia do conhecimento; serviu ainda de inspiração para os estudos de micropolítica, na medida em que mostra a dimensão sociológica, os conflitos e as relações de poder produzidos pelas acusações de bruxaria e feitiçaria, e para os estudos da transformação social em contextos coloniais e pós-coloniais, ao apontar alguns dos efeitos da administração anglo-egípcia na organização social e nas crenças dos Azande. A preocupação do autor em nuançar, e mesmo em colocar em questão, as diferenças entre os chamados povos tradicionais e os ocidentais-modernos, entre “nós” e “eles”, tem sido observada por autores das safras mais recentes da antropologia, que localizam neste estudo os germens do que veio a ser chamado posteriormente de antropologia simétrica.

Como citar este verbete:
MACIEL, Diogo Barbosa & CORTEZ, Renata Harumi. 2016. "Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/bruxaria-oráculos-e-magia-entre-os-azande>

autoria

Diogo Barbosa Maciel e Renata Harumi Cortez

bibliografia

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EVANS-PRITCHARD, E.E.,Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande.  Oxford, Clarendon Press, 1937 (Trad. Bras. Eduardo Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Zahar editores, 2005)


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Bruxaria

Nuer Religion

Nuer Religion (1956) faz parte da trilogia escrita pelo antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973) sobre os Nuer, povo que vivia, na época do trabalho de campo do autor, entre 1930 e 1936, às margens do rio Nilo, ao sul da então colônia britânica do Sudão. As incursões do antropólogo às terras nuer resultaram nas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940), Kinship and marriage among the Nuer (1951) e Nuer religion (1956), monografias consideradas clássicas que refletem acerca da política, da ecologia, do parentesco e da filosofia religiosa nuer. Nesta última obra, o antropólogo lança mão de noções ocidentais, como Deus e pecado, para desconstruí-las, delineando novas categorias a partir de termos e concepções dos próprios Nuer. Evans-Pritchard adota, assim, uma nova perspectiva sobre a religião, propondo uma maneira renovada de fazer e pensar o trabalho de campo e a própria Antropologia.

A ordenação do livro segue o traço fundamental do pensamento religioso nuer que é, segundo o autor, “eminentemente dualista”, realizando-se a partir de uma série de oposições, como céu/terra, alto/baixo e Deus/humanos. O antropólogo parte da noção mais importante da filosofia religiosa nuer, kwoth (espírito), em direção às demais noções que dela derivam, kuth nhial (espíritos de cima) e kuth piny (espíritos de baixo), para então analisar as relações entre religião e ordem social, símbolos e ritos religiosos nuer, em especial o sacrifício, bem como algumas de suas personagens. O capítulo que encerra o volume reúne reflexões teóricas mais amplas acerca da religião nuer, em uma perspectiva comparativa em relação a outros sistemas de pensamento religioso africanos e às proposições escritas por antropólogos que o precederam no estudo das religiões ditas primitivas.

A noção de kwoth é a peça central para o entendimento da filosofia religiosa nuer, descrita por Evans-Pritchard como a relação entre humanos e kwoth, que pode ser entendido como o espírito criador do mundo e da sociedade e, ao mesmo tempo, como um conjunto de diversas manifestações, que podem assumir diferentes significados de acordo com cada contexto:  são modos de “Deus”, e não sua própria essência, que é só Espírito. Tal concepção revela a dualidade material-imaterial presente na filosofia religiosa nuer e a escolha nativa em manter a separação entre as categorias espirituais e as coisas materiais. Kwoth é, então, uma noção que se desenvolve em uma dimensão estrutural, relacionando-se aos processos de fusão e fissão característicos dos sistemas políticos e de parentesco nuer: da mesma forma que os Nuer se reconhecem como uma nação e se dividem em tribos, aldeias, unidades domésticas e indivíduos, kwoth é, ao mesmo tempo, um em sua natureza e múltiplo em suas diferentes representações sociais, estabelecendo relações com cada seção da estrutura segmentar nuer. As refrações de kwoth podem se relacionar a uma variedade de grupos sociais e se manifestar de distintos modos e em diferentes graus, sem que ele deixe de ser considerado o guardião de todos os grupos. Assim, mostra o autor, a noção nuer de kwoth pode ser considerada, como a teoria nuer dos acontecimentos.

Sacerdote de pele de leopardo, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum.

Evans-Pritchard descreve e interpreta a religião nuer como um sistema de ideias essencialmente interior, embora externalizado por meio de ações (resguardos e orações), e envolva personagens (os sacerdotes, kuaar e os profetas, gwan kwoth), cuja aparição e importância, recente entre os Nuer, se relaciona às políticas colonialistas inglesas da época. A própria noção de “pecado” (thec) é vista como consequência de faltas cometidas pelos humanos, sem contudo afetar a qualidade moral dos indivíduos; ela se refere apenas à condição espiritual, isto é, à relação pessoal com o Espírito. O bem e o mal, nesse sentido, ganham contornos muito diferentes dos que possuem no interior da moralidade cristã ocidental. Aos olhos do antropólogo, seria inapropriado pensar a religião nuer como um espelhamento da sociedade,  reduzindo-a a seus ritos, argumento que está na origem das críticas que empreende a Émile Durkheim (1858-1917) e a Marcel Mauss (1872-1950). Do mesmo modo, o pesquisador britânico tece duras críticas ao conceito de “índole pré-lógica” desenvolvido por Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), demonstrando que a lógica nuer não confunde relações ideais com as consideradas reais, e que construções nuer como “um pepino é um boi” não são da ordem da identidade, mas da analogia. É interessante notar que a mesma questão é enfrentada também em seu estudo Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

A obra de Evans-Pritchard convida a considerar a religião nuer como um modo de pensar a relação do homem consigo mesmo e deste com os espíritos-forças, além permitir pensar a natureza polimorfa e polissêmica do Espírito. Sua análise, em diálogo com a filosofia nuer, impõe a revisão da dimensão social dos conceitos de ordem religiosa, assim como a dimensão espiritual da estrutura social.

Como citar este verbete:
ARANHA, Aline; FREIRE, Gabriela & MENEZES, Hélio. 2015. "Nuer Religion". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/nuer-religion>

autoria

Aline Aranha, Gabriela Freire e Hélio Menezes

bibliografia

EVANS-PRITCHARD, E. E., Oracles, witchcraft and magic among the Azande. Oxford, Claredon Press, 1937 (Trad. Bras. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro, Zahar editores, 2005, 2a ed.)

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EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer religion. Oxford, Oxford University Press, 1956

EVANS-PRITCHARD, E. E., Theories of primitive religion. Oxford: Oxford University Press, 1965

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Nuer Religion

Kinship and marriage among the Nuer

Publicado em 1951, Kinship and Marriage Among the Nuer é o segundo volume da trilogia Nuer, conjunto de monografias escrito pelo antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902- 1973) sobre os Nuer, povo nilótico do Sul do Sudão. Assim como suas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940) e Nuer Religion (1956), este livro é baseado em um total de doze meses de pesquisa de campo realizada sob condições adversas entre 1930 e 1936, e financiada pelo governo anglo-egípcio do Sudão. Os dez anos que separam as datas de publicação do primeiro e do segundo volume devem-se ao agravamento da II Guerra e à convocação do autor para o exército britânico. Evans-Pritchard planejara sua publicação para 1942, entretanto, durante o serviço militar, entrou em contato com beduínos Sanusi, ordem islâmica da região da Cyrenaica, no norte da Líbia, experiência que resultou no livro The Sanusi of Cyrenaica (1949). Este hiato foi preenchido pela publicação de artigos, dentre os quais: “Nuer Bridewealth(1946), “Nuer Marriage Cerimonies” (1948), “Nuer Rules of Exogamy and Incest” (1949) e “Kinship and the local community among the Nuer(1950), que abordam temas retomados com maior ou menor detalhe em Kinship and Marriage Among the Nuer.

O primeiro volume da série, The Nuer, tem por objeto o sistema político nuer e suas relações com o modo de vida deste povo, culminando na célebre descrição da estrutura segmentar nuer. Desprovidos de governo, os Nuer se organizam politicamente por meio do jogo de oposições entre a estrutura tribal e a estrutura de clãs. Os clãs são um sistema de linhagens agnáticas exógamas que traçam sua descendência em relação a um ancestral comum. Idealmente um filho herda a linhagem de seu pai e deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. Denominadas buth pelos Nuer, essas relações de parentesco constituem grupos dotados de unidade cuja amplitude depende de distâncias estruturais. Assim, um nuer será nuer frente a um dinka, mas jikany frente a um nuer de outra tribo. Dotadas de exclusividade territorial, as tribos, unidade política de maior extensão, segmentam-se em seções e subseções de acordo com os segmentos e linhagens dos clãs dominantes em cada território tribal. Neste sistema, a aldeia é definida por Evans-Pritchard como a unidade mínima da política Nuer.

Grupo de mulheres e meninas em uma casa, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum

Em Kinship and Marriage Among the Nuer, o autor mostra como as redes de parentesco internas às comunidades locais, e que se estendem para além delas, estão conectadas com o sistema de linhagens nuer e, por meio desse sistema, com sua estrutura política tribal. Um Nuer vive em uma comunidade por manter laços de parentesco com algum de seus membros, consanguíneos ou por casamento. A co-residência, associada à elasticidade do sistema de parentesco, prolonga esses laços. Afins (parentes por casamento) tendem a ser associados a consanguíneos, de modo que a comunidade compreende uma única genealogia baseada em relações de parentesco cognáticas (isto é, por via paterna e materna), denominadas pelos Nuer mar. Uma aldeia, a unidade mínima da política Nuer, constitui-se assim como um agregado cognático – mar – ao redor de um núcleo agnático – buth,  linhagem principal que associa a aldeia ao sistema político.

A partir de uma etnografia minuciosa das relações de parentesco Nuer, Evans-Pritchard descreve em Kinship and Marriage among the Nuer diversos recursos por meio dos quais relações de tipo mar infletem sobre relações de tipo buth. Formas de adoção, maneiras de traçar o pertencimento à linhagem por via materna, diversas formas de casamento, dentre as quais o levirato (casamento com a mulher do irmão) e o casamento com mortos, entre outros, mostram a centralidade do parentesco cognático na compreensão da estrutura segmentar nuer. Destacam-se as negociações que precedem o casamento e a importância do gado como dote (bridewealth). Nestes e em outros exemplos etnográficos, Evans-Pritchard demonstra o equilíbrio dinâmico entre o parentesco agnático e o parentesco uterino (por via materna) na vida social Nuer. Dimensões cujo caráter de oposição e complementaridade se apresenta nas relações entre um nuer e seus tios materno e paterno, para os quais é, respectivamente, um “filho das mulheres” da linhagem e um “filho da linhagem”. Além de descrever em detalhe temas fundamentais da antropologia do parentesco, como a relação entre proibições do casamento e incesto e o papel do irmão da mãe, Kinship and Marriage among the Nuer complementa e complexifica o modelo da estrutura segmentar Nuer apresentado no primeiro volume da série, sendo uma leitura fundamental para sua compreensão.

 

Como citar este verbete:
Pougy, Henrique. 2015. "Kinship and marriage among the Nuer". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/kinship-and-marriage-among-nuer>

autoria

Henrique Pougy

bibliografia

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Kinship and marriage among the Nuer

Edward Evan Evans-Pritchard

Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973), antropólogo britânico cujo trabalho revelou-se determinante para o desenvolvimento da antropologia social no século XX, inicia sua graduação em História Moderna no Exeter College, na universidade de Oxford (1921), período em que conhece Robert Ranulph Marett (1866-1943), um dos fundadores da Oxford Anthropology Society e seu interlocutor ao longo da década de 1920. Por incentivo de Marret passa a frequentar os seminários de antropologia na London School of Economics, tendo entre os professores Bronislaw Malinowski (1884-1942) e Gabriel Seligman (1873-1940). Este último fora um pioneiro no trabalho de campo junto a povos do Sudão, onde pesquisa desde 1909, e orientador da tese de doutoramento de Evans-Pritchard defendida em 1927 sobre os Azande, fruto de sua primeira incursão a campo, e publicada posteriormente com o título Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

Em 1930, o antropólogo inicia pesquisas junto aos Nuer, população nilota da região sul do Sudão. Entre os anos de 1932 e 1934, atua como professor da Universidade do Cairo, onde ministra seminários sobre a questão religiosa entre os povos estudados. Em 1935, transfere-se para o Instituto de Antropologia Social da Universidade de Oxford, fundado por Radcliffe-Brown (1881-1955), onde segue trabalhando e escrevendo sobre sua experiência junto aos Nuer. Em 1940 publica Os Nuer e também African Political Systems, este em parceria com Meyer Fortes (1906-1983). Durante a II Guerra Mundial, atua como consultor da administração militar do governo britânico, tendo servido na Etiópia, Líbia, Sudão e Síria. Em 1945, torna-se professor em Cambridge e no ano seguinte sucede Radcliffe-Brown na cadeira de antropologia de Oxford. Em 1950, é professor na Universidade de Chicago e em 1957 da Universidade de Stanford, onde permanece até sua aposentadoria, em 1970. Em 1971, é condecorado com o título de Cavaleiro (Sir) pela Coroa Britânica, falecendo dois anos depois.

Edward E. Evans-Pritchard

Evans-Pritchard é um dos mais renomados especialistas nas populações sudanesas do sul da região do Nilo Branco, ocupando lugar decisivo na história do africanismo e da antropologia política. Realizou etnografia em diferentes sociedades, defendendo ser o trabalho de campo um dos pilares do saber antropológico. Concebe o ofício do antropólogo como uma tarefa de tradução de valores culturais, necessariamente comparativa, negando assim a possibilidade de existência de uma teoria antropológica per si, independente ou anterior à pesquisa empírica. Segundo ele, o conhecimento antropológico deriva de um diálogo comparativo complexo que deve ir além da relação entre pesquisador e nativo, levando em conta a teoria acumulada da disciplina a partir de experiências etnográficas diversas. Em seu trabalho como antropólogo destacam-se, além das reflexões sobre a estrutura política e a lógica segmentar nuer, o estudo do que ele denomina sistemas de pensamento dos povos pesquisados.

Do ponto de vista das discussões metodológicas que lança, além de defender a importância do uso de uma perspectiva histórica na antropologia, Evans-Pritchard destaca a importância da habilidade literária do antropólogo ao narrar a experiência etnográfica. A antropologia, para ele, é uma disciplina humanista, mais próxima das artes do que das ciências, uma vez que o impacto da vivência de campo gera uma experiência singular no pesquisador que não é absorvida apenas intelectualmente, mas que passa pelos sentidos e pela subjetividade. As contribuições deixadas por seus trabalhos ecoam em diferentes campos científicos para além da antropologia e das ciências sociais (como a história, a psicologia, os estudos da religião e a filosofia), tendo sido também fundamentais para os estudos sobre transformações sociais em contextos coloniais e pós-coloniais.

Como citar este verbete:
MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro; FERREIRA, Lucas Bulgarelli & STUMPF, Lúcia Klück. 2015. "Edward Evan Evans-Pritchard". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/edward-evan-evans-pritchard>

autoria

Carolina Cordeiro Mazzariello, Lucas Bulgarelli Ferreira e Lúcia Klück Stumpf

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