Michel-Rolph Trouillot (1949-2012) foi um antropólogo nascido em Porto Príncipe, Haiti, considerado um dos mais notáveis acadêmicos do Caribe, com influência marcante nos estudos antropológicos da região caribenha e em diversas disciplinas das ciências humanas. Ao longo de sua produção intelectual, Trouillot concentrou seus interesses na análise crítica historiográfica, problematizando tanto as fontes quanto paradigmas dominantes, de modo a questionar o poder e os interesses envolvidos na produção da história. Suas reflexões acerca das bases epistemológicas da antropologia permeiam questões prementes na agenda de pesquisa contemporânea.

Trouillot é originário de uma família destacada por sua atuação na vida intelectual haitiana; dentre seus membros estão intelectuais como os seus pais, Ernst Trouillot e Anne-Marie Morisset, e seu tio, Hénock Trouillot. Além disso, todos os seus irmãos se tornaram escritores: Évelyne, Jocelyne e Lyonel. Michel-Rolph deixa a terra natal em 1968, quando migra para Nova York, Estados Unidos, integrando uma leva expressiva de haitianos que fugiram da ditadura de François Duvalier no Haiti, que duraria de 1957 a 1971. Dada a situação precária do exílio, trabalharia como taxista para se manter, enquanto participava de grupos artístico-ativistas, como por exemplo Les Ménestrels e Tanbou Libète, tendo também colaborado com o Mouvement Haïtien d’Action Patriotique (MHAP).
Posteriormente, gradua-se em História e Cultura Caribenha no Brooklyn College da Universidade da Cidade de Nova York (1978), dividindo, desde cedo, o seu interesse acadêmico entre a antropologia e a história. Em 1985, doutora-se em História e Cultura Atlântica pela Universidade Johns Hopkins com uma tese acerca da relação entre o capitalismo e o campesinato na ilha de Dominica. O resultado de sua pesquisa de doutoramento foi publicado com o título Peasants and Capital: Dominica in the World Economy, em 1988.
Ainda antes de doutorar-se, em 1983, torna-se professor na Universidade de Duke, assumindo, a partir de 1988, o posto de professor na Universidade Johns Hopkins, na qual também atuou como diretor do Instituto para Estudos Globais em Cultura, Poder e História. Em 1998, transfere-se para a Universidade de Chicago, na qual permaneceria até o fim de sua vida. Durante a vida universitária nos Estados Unidos, continua a participar ativamente da cena intelectual haitiana, visitando o país com frequência. No Haiti, foi um dos fundadores e editores da revista Les Cahiers du Vendredi (posteriormente, Lire Haïti). Em 2002, sua carreira foi interrompida em razão de um aneurisma, cujas complicações resultaram em sua morte, em 2012.
A produção de Trouillot manteve diálogo constante com Sidney Mintz (1922-2015) e Richard Price (1941-), fundamentais para as suas reflexões sobre o campesinato e a antropologia do Caribe. No plano teórico, teve interlocução com o pensamento de Karl Marx (1818-1883), Antonio Gramsci (1891-1937), Michel Foucault (1926-1984), Samir Amin (1931-2018) e Michel de Certeau (1925-1986), ao passo que, no campo do pensamento social haitiano e caribenho, dialogou com a tradição de Anténor Firmin (1850-1911) e Jean Price-Mars (1876-1969), além de autores como Aimé Césaire (1913-2008), C. R. L. James (1901-1989) e seu tio, Hénock Trouillot (1923-1988).

Ao longo de sua trajetória intelectual, é notória a preocupação de Trouillot em intervir no mundo em que vivia; seu trabalho investiga como o campesinato coexistiu com o capitalismo global, argumentando que essa relação de trabalho não definia um atavismo, e que os camponeses estavam integrados a circuitos transnacionais de valorização e exploração. Esta perspectiva crítica é perceptível desde os primeiros trabalhos, como o já citado estudo acerca do campesinato na ilha de Dominica e o livro Ti difé boulé sou istoua Ayiti [Pequeno fogo arde na história do Haiti], considerado o primeiro livro de história publicado em crioulo haitiano, de 1977. Neste último, destinado ao público não especializado e publicado em Nova York por uma editora da diáspora haitiana militante, Trouillot reinterpreta a história haitiana em novas bases, deslocando o foco dos feitos das elites, considerados heroicos, para o protagonismo revolucionário das massas camponesas. Essas análises antecipam questões centrais que serão aprofundadas em obras posteriores do antropólogo, como, por exemplo, a tensão entre Estado e as massas populares e a análise dos mecanismos de poder que estabelecem versões do passado como “fatos”.
Originalmente concebida como uma tradução de Les Racines historiques de l’État duvaliérien (1986), a obra Haiti: State Against Nation (1990) resultou em uma profunda reelaboração teórica e empírica, descrita por Trouillot como um exercício de tradução cultural para o público internacional. Neste livro, o autor analisa a ditadura duvalierista como o resultado de um longo processo de disjunção entre a sociedade política e a sociedade civil. Mobilizando um arcabouço gramsciano, investiga a autonomia relativa de um Estado periférico, demonstrando como o aparato estatal haitiano se consolidou como uma entidade capaz de agir de forma independente – e frequentemente antagônica – aos interesses da nação, entendida como o campesinato e as massas populares. Para Trouillot, a gênese dessa crise estaria na ocupação estadunidense (1915-1934), na qual os contrapesos regionais teriam sido eliminados por meio da centralização do poder administrativo e financeiro em Porto Príncipe, assim como pelo desarmamento da população para a criação de um exército profissional voltado para o controle interno. A ditadura duvalierista teria encontrado suas condições de possibilidade nesta nova infraestrutura repressiva, mostrando-se uma solução totalitária que subverteu os códigos tradicionais de violência política para esmagar a autonomia de instituições da sociedade civil (como igrejas e sindicatos), por meio de táticas de auto-neutralização e do uso das milícias tonton-makout. Indo além do exame do regime duvalierista, derrubado em 1986, Trouillot alerta para a formalização de uma crise na qual se dá a institucionalização de um sistema no qual o Estado se alimenta do excedente camponês sem oferecer-lhes representação.
Silenciando o passado (1995) é a obra responsável por ampliar a notoriedade do autor. Nela, investiga a produção da história ao analisar como o poder opera de forma ativa em quatro momentos do registro histórico: na criação das fontes, na montagem do arquivo, na recuperação dos fatos na narrativa e na atribuição de significado retrospectivo. Ao rejeitar a oposição entre o positivismo – entendido como a postura de o estudo da história se restringia meramente a descrever aquilo que ocorreu tal e qual – e o construtivismo – a história como mera narrativa –, Trouillot argumenta que os seres humanos são plenamente históricos por participarem da história, como atores e narradores. Propõe ainda que o silenciamento é um processo político ativo que torna certos eventos (por exemplo, a Revolução Haitiana) impensáveis em termos das categorias de pensamento ocidentais. Por meio de estudos sobre a memória de Cristóvão Colombo e da escravidão, a obra revela que a história resulta do acesso desigual aos meios de produção narrativa, expondo as forças invisíveis do poder na construção do passado.
Em Global Transformations (2003), o antropólogo reúne e reelabora ensaios fundamentais para oferecer uma crítica à geografia global da imaginação do Atlântico Norte, termo que utiliza para desvelar o Ocidente como um projeto político de legitimação global, negando sua associação com um lugar geográfico fixo. A obra examina como os universais norte-atlânticos (a modernidade e o progresso) operam para silenciar as transformações globais iniciadas no século XVI, integrando o campesinato caribenho e outras populações ao que ele define como uma “globalização de longa duração”. No centro da obra, destaca-se a análise sobre o “compartimento do selvagem” (savage slot) apresentado no ensaio “Anthropology and the Savage Slot: the poetics and politics of otherness”, resposta crítica ao debate pós-modernista das décadas de 1980 e 1990 – notadamente de autores como James Clifford (1945- ) e George Marcus. Para Trouillot, embora esses autores tenham questionado a autoridade etnográfica, eles falharam ao focalizar a 'textualidade', ignorando o arcabouço histórico e material que amparou a antropologia e a relação com a alteridade, que a fundamenta. A objeção de Trouillot impulsionou a crítica reflexiva na antropologia, conhecendo desdobramentos na ideia de “nicho do sofrimento” (suffering slot), do antropólogo Joel Robbins (1961-), e em releituras na arqueologia política, como as de Charles Cobb.
As obras de Trouillot têm sido traduzidas para o português recentemente, como a mais célebre, Silenciando o passado (2016 e 2024), e alguns de seus artigos. A atualidade reivindicada do autor reside em sua análise do silenciamento como um processo político ativo e na desconstrução dos universais norte-atlânticos que obstaculizam a compreensão de processos e eventos que escapam à sua gramática discursiva. Dentre seus principais comentadores internacionais, encontram-se os antropólogos Yarimar Bonilla e David Scott. No Brasil, é possível perceber rebatimentos de suas ideias em trabalhos de João Felipe Ferreira Gonçalves e Omar Ribeiro Thomaz, e em uma nova geração de antropólogos, como indicam dossiês recentes dedicados ao autor.
Como citar este verbete:
CRUZ, Rafaél Antônio Nascimento. “Michel-Rolph Trouillot”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/autor/michel-rolph-trouillot
ISSN: 2676-038X (online)
Rafaél Antônio Nascimento Cruz
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TROUILLOT, Michel-Rolph, Haiti, state against nation: the origins and legacy of Duvalierism, Nova York, Monthly Review Press, 1990
TROUILLOT, Michel-Rolph, Silencing the past: power and the production of history, Boston, Beacon Press, 1995 (Trad. Bras. Sebastião Nascimento. Curitiba, Huya, 2016; edição impressa: Rio de Janeiro, Cobogó, 2024)
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