Abas primárias

conceito

O termo Jurema aparece em obras de ciências sociais e humanas para designar determinadas espécies vegetais do gênero Acácia, a exemplo da Mimosa Tenuiflora. Indica também a bebida psicoativa feita a partir dos componentes desse mesmo vegetal, utilizada em rituais de comunidades indígenas e naqueles que integram uma parte das religiões de matriz africana; nomeia, ainda, os próprios rituais cujos participantes ingerem a bebida. No que concerne à cosmovisão da Jurema, uma plêiade de símbolos está presente nos rituais que apresentam modos bastante variados de composição. Em linhas gerais, a bebida, a fumaça expelida dos cachimbos, o maracá e os cânticos são elementos comuns a quase todas as cerimônias realizadas, seja nas comunidades indígenas seja naquelas que constituem as religiões de matriz africana. Entre os indígenas, os ritos permitem que xamãs estabeleçam comunicações com o mundo dos Encantados. Já no universo afro –  mais recorrente em centros urbanos – , o cerimonial possui algumas semelhanças com as chamadas “giras de Umbanda” e as divindades que caracterizam o métier juremeiro são os mestres e as mestras. Outra particularidade desse cosmos são os ritos iniciáticos por meio dos quais os praticantes tem acesso às “cidades” da Jurema onde, conforme os relatos nativos, o iniciado constrói sua relação com uma divindade, adquirindo os conhecimentos adequados para realizar trabalhos de cura e prevenir-se de infortúnios.

Embora existam diferentes pontos de vista acerca das religiões juremeiras, em quase todas as pesquisas sobre o tema, os estudiosos concordam que a Jurema abrange um universo mítico-ritual de origem indígena, frequentemente presenciado na região Nordeste do Brasil desde o período colonial. Na década de 1930, surgem os primeiros escritos sobre o uso ritualístico da Jurema. Mário de Andrade (1893-1945) e os técnicos da Missão de Pesquisas Folclóricas, dedicada a inventariar manifestações culturais brasileiras, catalogam músicas que são gravadas, transcritas e comentadas pelo escritor modernista, por exemplo em Música de feitiçaria no Brasil, conferência de 1933. Por meio de uma análise melódica das cantigas do “catimbó” –  nome utilizado na época para denominar o uso da jurema em rituais realizados nas cidades de Natal e Recife – , o pesquisador chama a atenção para a função hipnótica da musicalidade e destaca a presença de alguns símbolos em cerimônias como “os mestres” e a “árvore da jurema”. Nesse mesmo período, o médico e folclorista Gonçalves Fernandes (1909-1986) utiliza as noções de “mistura religiosa” e “sincretismo” em suas obras, Xangôs do nordeste: investigações sobre os cultos negro-fetichistas do Recife, 1937 e O folclore mágico do nordeste, 1938, para falar sobre a prática do catimbó no contexto recifense, estabelecendo contraposições entre os ritos catimbozeiros e o universo do Xangô que, assim como o candomblé, seria o culto fidedigno a uma origem africana na visão de certos intelectuais. Em 1945, em Imagens do Nordeste místico em branco e preto, o sociólogo francês Roger Bastide (1898-1974) descreve um ritual de catimbó, ratificando a origem indígena da Jurema e estabelecendo oposições entre essa prática e o candomblé da Bahia. Na sequência, Câmara Cascudo (1898-1986), ao tornar públicos alguns de seus escritos sobre folclore, como Meleagro (1978) e o Dicionário do Folclore Brasileiro (1969), faz coro às ideias de Mário de Andrade propondo uma antologia das manifestações culturais brasileiras e difundindo um tema que ocupou lugar de destaque no pensamento social e nas ciências sociais brasileiras: o mito das três raças. Nesse sentido, vê o catimbó como resultado de confluências entre a bruxaria ibérica, a farmacopeia indígena da Jurema e a musicalidade rítmica das macumbas bantu.

Até os anos 1990, os pesquisadores pouco se debruçam sobre as religiões juremeiras. Na primeira metade do século XX, alguns autores definem a Jurema em termos de “magia”, “feitiçaria” e “baixo espiritismo” e as análises, de maneira geral, resumem-se a breves descrições dos rituais. Algumas exceções merecem destaque, lembremos, entre outros, o trabalho de René Vandezande (1930-2017), que investiga o uso da Jurema em terreiros de Umbanda da Paraíba e, que, em Catimbó: pesquisa exploratória sobre uma forma nordestina de religião mediúnica (1975), descreve relatos que remontam à trajetória da família Acaes, de Alhandra, salientando o modo como esses atores construíram uma tradição, até hoje reverenciada na região Nordeste, em torno do uso da Jurema. Nos anos 2000, surgem novas pesquisas sobre o tema; algumas colocam em relevo o horizonte histórico, caso de Guilherme Medeiros que, em O uso ritual da Jurema entre os indígenas do Brasil colonial e as dinâmicas das fronteiras territoriais do nordeste no século XVIII (2006), analisa documentos coloniais, afirmando ser possível aventar o uso da Jurema a partir do XVIII. Outras pesquisas – como Toré e Jurema: emblemas indígenas no nordeste do Brasil (2008), de Rodrigo de Azeredo Grünewald acerca do uso da Jurema pelos índios Atikum – voltam-se para as identidades étnicas construídas pelos grupos indígenas do Nordeste que, almejando reivindicar o reconhecimento da autoctonia perante o Estado brasileiro e conquistar direitos, lançam mão da Jurema como símbolo de seu status de “povos tradicionais”.

Dos anos 2010 em diante, a literatura acadêmica sobre o uso da Jurema se amplia, dando lugar a construções narrativas inéditas. Em 2017, o juremeiro e fundador da ONG Quilombo Cultural Malunguinho em Pernambuco, Alexandre L’Omi L’Odo defende a dissertação de mestrado Juremologia: uma busca etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da jurema sagrada, por meio da qual constrói um relato sobre a tradição da Jurema do ponto de vista de seus praticantes, conferindo visibilidade à figura de Malunguinho, que é tanto o nome do líder do Quilombo do Catucá – construído e destruído na primeira metade do século XIX – quanto o de uma divindade do panteão das religiões juremeiras.

Como citar este verbete:
BARRETO, Marcus Vinícius. 2019. "Jurema". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/jurema>

Jurema

J
data de publicação
05/12/2019
autoria

Marcus Vinícius Barreto

palavras chave
Jurema, Indígena, Religiões de Matriz Africana, Nordeste
bibliografia

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