estrutura

Nuer Religion

Nuer Religion (1956) faz parte da trilogia escrita pelo antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973) sobre os Nuer, povo que vivia, na época do trabalho de campo do autor, entre 1930 e 1936, às margens do rio Nilo, ao sul da então colônia britânica do Sudão. As incursões do antropólogo às terras nuer resultaram nas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940), Kinship and marriage among the Nuer (1951) e Nuer religion (1956), monografias consideradas clássicas que refletem acerca da política, da ecologia, do parentesco e da filosofia religiosa nuer. Nesta última obra, o antropólogo lança mão de noções ocidentais, como Deus e pecado, para desconstruí-las, delineando novas categorias a partir de termos e concepções dos próprios Nuer. Evans-Pritchard adota, assim, uma nova perspectiva sobre a religião, propondo uma maneira renovada de fazer e pensar o trabalho de campo e a própria Antropologia.

A ordenação do livro segue o traço fundamental do pensamento religioso nuer que é, segundo o autor, “eminentemente dualista”, realizando-se a partir de uma série de oposições, como céu/terra, alto/baixo e Deus/humanos. O antropólogo parte da noção mais importante da filosofia religiosa nuer, kwoth (espírito), em direção às demais noções que dela derivam, kuth nhial (espíritos de cima) e kuth piny (espíritos de baixo), para então analisar as relações entre religião e ordem social, símbolos e ritos religiosos nuer, em especial o sacrifício, bem como algumas de suas personagens. O capítulo que encerra o volume reúne reflexões teóricas mais amplas acerca da religião nuer, em uma perspectiva comparativa em relação a outros sistemas de pensamento religioso africanos e às proposições escritas por antropólogos que o precederam no estudo das religiões ditas primitivas.

A noção de kwoth é a peça central para o entendimento da filosofia religiosa nuer, descrita por Evans-Pritchard como a relação entre humanos e kwoth, que pode ser entendido como o espírito criador do mundo e da sociedade e, ao mesmo tempo, como um conjunto de diversas manifestações, que podem assumir diferentes significados de acordo com cada contexto:  são modos de “Deus”, e não sua própria essência, que é só Espírito. Tal concepção revela a dualidade material-imaterial presente na filosofia religiosa nuer e a escolha nativa em manter a separação entre as categorias espirituais e as coisas materiais. Kwoth é, então, uma noção que se desenvolve em uma dimensão estrutural, relacionando-se aos processos de fusão e fissão característicos dos sistemas políticos e de parentesco nuer: da mesma forma que os Nuer se reconhecem como uma nação e se dividem em tribos, aldeias, unidades domésticas e indivíduos, kwoth é, ao mesmo tempo, um em sua natureza e múltiplo em suas diferentes representações sociais, estabelecendo relações com cada seção da estrutura segmentar nuer. As refrações de kwoth podem se relacionar a uma variedade de grupos sociais e se manifestar de distintos modos e em diferentes graus, sem que ele deixe de ser considerado o guardião de todos os grupos. Assim, mostra o autor, a noção nuer de kwoth pode ser considerada, como a teoria nuer dos acontecimentos.

Sacerdote de pele de leopardo, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum.

Evans-Pritchard descreve e interpreta a religião nuer como um sistema de ideias essencialmente interior, embora externalizado por meio de ações (resguardos e orações), e envolva personagens (os sacerdotes, kuaar e os profetas, gwan kwoth), cuja aparição e importância, recente entre os Nuer, se relaciona às políticas colonialistas inglesas da época. A própria noção de “pecado” (thec) é vista como consequência de faltas cometidas pelos humanos, sem contudo afetar a qualidade moral dos indivíduos; ela se refere apenas à condição espiritual, isto é, à relação pessoal com o Espírito. O bem e o mal, nesse sentido, ganham contornos muito diferentes dos que possuem no interior da moralidade cristã ocidental. Aos olhos do antropólogo, seria inapropriado pensar a religião nuer como um espelhamento da sociedade,  reduzindo-a a seus ritos, argumento que está na origem das críticas que empreende a Émile Durkheim (1858-1917) e a Marcel Mauss (1872-1950). Do mesmo modo, o pesquisador britânico tece duras críticas ao conceito de “índole pré-lógica” desenvolvido por Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), demonstrando que a lógica nuer não confunde relações ideais com as consideradas reais, e que construções nuer como “um pepino é um boi” não são da ordem da identidade, mas da analogia. É interessante notar que a mesma questão é enfrentada também em seu estudo Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

A obra de Evans-Pritchard convida a considerar a religião nuer como um modo de pensar a relação do homem consigo mesmo e deste com os espíritos-forças, além permitir pensar a natureza polimorfa e polissêmica do Espírito. Sua análise, em diálogo com a filosofia nuer, impõe a revisão da dimensão social dos conceitos de ordem religiosa, assim como a dimensão espiritual da estrutura social.

Como citar este verbete:
ARANHA, Aline; FREIRE, Gabriela & MENEZES, Hélio. 2015. "Nuer Religion". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/nuer-religion>

autoria

Aline Aranha, Gabriela Freire e Hélio Menezes

bibliografia

EVANS-PRITCHARD, E. E., Oracles, witchcraft and magic among the Azande. Oxford, Claredon Press, 1937 (Trad. Bras. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro, Zahar editores, 2005, 2a ed.)

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Nuer: a description of the modes of livelihood and political institutions among the Nuer. Oxford, Claredon Press, 1940 (Trad. Bras. Ana M. Goldberger Coelho. São Paulo, Editora Perspectiva, 1978)

EVANS-PRITCHARD, E. E., Kinship and marriage among the Nuer. Oxford, Claredon Press, 1951.

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The Nuer Conception of Spirit in Its Relation to the Social Order”, American Anthropologist, n.s., Vol. 55, No. 2, 1951, p. 112-121

EVANS-PRITCHARD, E. E. , “Some features of Nuer religion”, The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland v. 81, 1951, p. 1-13

EVANS-PRITCHARD, E. E.,  “A problem of Nuer religion”, Sociologus 4, 1954, p. 23-41

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The meaning of sacrifice among the Nuer” in The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland v. 84, 1954, p. 21-33

EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer religion. Oxford, Oxford University Press, 1956

EVANS-PRITCHARD, E. E., Theories of primitive religion. Oxford: Oxford University Press, 1965

inicial do verbete
título do índice alfabético
Nuer Religion

Liminaridade e communitas - Victor Turner

Victor Turner (1920-1983), antropólogo britânico que dedicou boa parte de seus esforços intelectuais ao entendimento das simbologias subjacentes aos rituais, deu contribuição significativa à compreensão das práticas rituais ao refinar a noção de liminaridade e elaborar, a partir dela, o conceito de communitas. O autor concebe a ideia de liminaridade como correspondendo a um momento de margem dos ritos de passagem: fase ritual na qual os sujeitos apresentam-se indeterminados, em uma espécie de processo transitório de “morte” social, para, em seguida, “renascerem” e reintegrarem-se à estrutura social. Liminaridade é, portanto, uma condição transitória na qual os sujeitos encontram-se destituídos de suas posições sociais anteriores, ocupando um entre-lugar indefinido no qual não é possível categorizá-los plenamente. Segundo Turner, a vida social se movimenta a partir de um movimento dialético, envolvendo estrutura social e communitas, estrutura e antiestrutura, alimentado pelas práticas rituais.

Victor Turner, Rito de passagem Ndembu, A Floresta dos Símbolos

O antropólogo iniciou as reflexões sobre o tema em O processo ritual: estrutura e antiestrutura (1969), a partir de inspiração retirada de Os ritos de passagem (1909) de Arnold Van Gennep (1873-1957). Suas contribuições teóricas estão fundamentadas na análise de práticas rituais observadas entre os Ndembu, povo da região da África Central, e em uma ampla revisão da literatura antropológica disponível sobre a temática do ritual. Em sua  obra, Victor Turner concebe a liminaridade como condição social efêmera vivenciada por sujeitos temporariamente situados fora da estrutura social, dando origem ao que ele denomina communitas, isto é: uma forma de antiestrutura constituída pelos vínculos entre indivíduos ou grupos sociais que compartilham uma condição liminar em momentos especificamente ritualizados. Os sujeitos liminares agrupados pela communitas são marcados pela submissão, silêncio e isolamento, considerados como tábula rasa em relação à nova posição social a ser assumida após a conclusão do ritual de passagem. O autor opta pelo termo latim communitas à noção de comunidade, de modo a não conferir circunscrição espacial ao vínculos entre os sujeitos liminares, já que o caráter de antiestrutura da communitas está baseado em relações sociais e não em pertencimentos territoriais.

Turner expande a compreensão dos termos liminaridade e communitas para além dos contextos rituais classicamente analisados na antropologia, destacando que hippies, profetas, artistas, assim como integrantes de movimentos milenaristas e religiosos podem ser também considerados sujeitos liminares, que se agrupam em communitas diversas. Nesses casos, no entanto, a condição liminar parece ser permanente já que tais sujeitos se opõem ou, no mínimo, desafiam a estrutura social como única forma de organização social possível. No caso dos movimentos milenaristas, por sua vez, a condição liminar mostra-se transitória, durável até o momento em que as profecias nas quais o grupo acredita não se concretizam. Independente do contexto ritual, Turner destaca que, além estarem situados em uma condição de indiferenciação social por nome, status e gênero, os integrantes da communitas podem ser também marcados pela suspensão (ainda que efêmera) do direito à propriedade e das obrigações de parentesco.

De modo a fundamentar suas teses, o antropólogo recorre às etnografias de E.E. Evans-Pritchard (1902-1973), entre os Nuer, e de Meyer Fortes (1906-1983), entre os Tallensi, para mostrar que liminaridade e communitas evidenciam o que ele genericamente denomina “o poder dos fracos”. Ele afirma que em sistemas de parentesco patrilineares, nos quais os atributos jurídicos e políticos são transmitidos pela ascendência paterna, as mulheres encontram formas – muitas vezes justificadas pela mitologia e pelas práticas rituais – de marcar a importância da descendência materna na constituição pessoal e mística dos sujeitos. Em sistemas de parentesco matrilineares, onde o status jurídico e político é dado pela ascendência materna, por sua vez, os indivíduos que desenvolvem estratégias liminares para demonstrar sua importância na estrutura social seriam, inversamente, os homens. Esses exemplos permitem assinalar que, diante do confronto com a estrutura social, os sujeitos em condição liminar constituem uma solidariedade proporcionada pelo estabelecimento da communitas para marcar a relevância de sua posição social em contexto político, cultural e jurídico determinado. Turner conclui que toda estrutura social, acompanhada pelos ritos que concedem direitos de acesso a determinadas esferas de poder ou status, coopera para a existência de uma antiestrutura na medida em que produz sujeitos liminares, transitórios ou não, que se agrupam em communitas. Assim, a relação entre estrutura e communitas traduz uma dialética imprescindível à vida social em qualquer contexto.

Posteriormente, os conceitos de liminaridade, communitas e drama social serviram como pontos de partida para que Turner, a partir de seu interesse pelo universo do teatro, problematizasse as interações possíveis entre dramas sociais e dramas estéticos. Seu encontro teórico com Richard Schechner (1934-) originou um novo campo de estudos na disciplina, denominado Antropologia da Performance, que se beneficia das imbricações entre a antropologia e o teatro, e que vem encontrando grande repercussão no Brasil.

Como citar este verbete:
NOLETO, Rafael da Silva & ALVES, Yara de Cássia. 2015. "Liminaridade e communitas - Victor Turner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/liminaridade-e-communitas-victor-turner>

autoria

Rafael da Silva Noleto e Yara de Cássia Alves

bibliografia

DAWSEY, John, MÜLLER, Regina, HIKIJI, Rose Satiko & MONTEIRO, Mariana F.M. (orgs),  Antropologia e Performance: ensaios Napedra,  São Paulo, Terceiro Nome, 2013

SCHECHNER, R., Between Theater and Anthropology, Philadelphia, The University of Pennsylvania Press, 1985

TURNER, V., The Ritual Process: Structure and Anti-Structure, Chicago: Aldine Publishing Co., 1969. (Trad. Bras. Nancy Campi de Castro. Petropolis, Vozes, 2013)

TURNER, V., Dramas, Fields and Metaphors: Symbolic Action in Human Society, Ithaca, Cornell University Press, 1975

TURNER, V., From ritual to Theatre, New York, PAJ Publications, 1982

TURNER, V., The Anthropology of performance, New York, PAJ Publications, 1987

VAN GENNEP, A., Les rites de passage, Paris, Émile Nourry, 1909 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1978)

inicial do verbete
título do índice alfabético
Liminaridade e communitas - Victor Turner

Kinship and marriage among the Nuer

Publicado em 1951, Kinship and Marriage Among the Nuer é o segundo volume da trilogia Nuer, conjunto de monografias escrito pelo antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902- 1973) sobre os Nuer, povo nilótico do Sul do Sudão. Assim como suas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940) e Nuer Religion (1956), este livro é baseado em um total de doze meses de pesquisa de campo realizada sob condições adversas entre 1930 e 1936, e financiada pelo governo anglo-egípcio do Sudão. Os dez anos que separam as datas de publicação do primeiro e do segundo volume devem-se ao agravamento da II Guerra e à convocação do autor para o exército britânico. Evans-Pritchard planejara sua publicação para 1942, entretanto, durante o serviço militar, entrou em contato com beduínos Sanusi, ordem islâmica da região da Cyrenaica, no norte da Líbia, experiência que resultou no livro The Sanusi of Cyrenaica (1949). Este hiato foi preenchido pela publicação de artigos, dentre os quais: “Nuer Bridewealth(1946), “Nuer Marriage Cerimonies” (1948), “Nuer Rules of Exogamy and Incest” (1949) e “Kinship and the local community among the Nuer(1950), que abordam temas retomados com maior ou menor detalhe em Kinship and Marriage Among the Nuer.

O primeiro volume da série, The Nuer, tem por objeto o sistema político nuer e suas relações com o modo de vida deste povo, culminando na célebre descrição da estrutura segmentar nuer. Desprovidos de governo, os Nuer se organizam politicamente por meio do jogo de oposições entre a estrutura tribal e a estrutura de clãs. Os clãs são um sistema de linhagens agnáticas exógamas que traçam sua descendência em relação a um ancestral comum. Idealmente um filho herda a linhagem de seu pai e deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. Denominadas buth pelos Nuer, essas relações de parentesco constituem grupos dotados de unidade cuja amplitude depende de distâncias estruturais. Assim, um nuer será nuer frente a um dinka, mas jikany frente a um nuer de outra tribo. Dotadas de exclusividade territorial, as tribos, unidade política de maior extensão, segmentam-se em seções e subseções de acordo com os segmentos e linhagens dos clãs dominantes em cada território tribal. Neste sistema, a aldeia é definida por Evans-Pritchard como a unidade mínima da política Nuer.

Grupo de mulheres e meninas em uma casa, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum

Em Kinship and Marriage Among the Nuer, o autor mostra como as redes de parentesco internas às comunidades locais, e que se estendem para além delas, estão conectadas com o sistema de linhagens nuer e, por meio desse sistema, com sua estrutura política tribal. Um Nuer vive em uma comunidade por manter laços de parentesco com algum de seus membros, consanguíneos ou por casamento. A co-residência, associada à elasticidade do sistema de parentesco, prolonga esses laços. Afins (parentes por casamento) tendem a ser associados a consanguíneos, de modo que a comunidade compreende uma única genealogia baseada em relações de parentesco cognáticas (isto é, por via paterna e materna), denominadas pelos Nuer mar. Uma aldeia, a unidade mínima da política Nuer, constitui-se assim como um agregado cognático – mar – ao redor de um núcleo agnático – buth,  linhagem principal que associa a aldeia ao sistema político.

A partir de uma etnografia minuciosa das relações de parentesco Nuer, Evans-Pritchard descreve em Kinship and Marriage among the Nuer diversos recursos por meio dos quais relações de tipo mar infletem sobre relações de tipo buth. Formas de adoção, maneiras de traçar o pertencimento à linhagem por via materna, diversas formas de casamento, dentre as quais o levirato (casamento com a mulher do irmão) e o casamento com mortos, entre outros, mostram a centralidade do parentesco cognático na compreensão da estrutura segmentar nuer. Destacam-se as negociações que precedem o casamento e a importância do gado como dote (bridewealth). Nestes e em outros exemplos etnográficos, Evans-Pritchard demonstra o equilíbrio dinâmico entre o parentesco agnático e o parentesco uterino (por via materna) na vida social Nuer. Dimensões cujo caráter de oposição e complementaridade se apresenta nas relações entre um nuer e seus tios materno e paterno, para os quais é, respectivamente, um “filho das mulheres” da linhagem e um “filho da linhagem”. Além de descrever em detalhe temas fundamentais da antropologia do parentesco, como a relação entre proibições do casamento e incesto e o papel do irmão da mãe, Kinship and Marriage among the Nuer complementa e complexifica o modelo da estrutura segmentar Nuer apresentado no primeiro volume da série, sendo uma leitura fundamental para sua compreensão.

 

Como citar este verbete:
Pougy, Henrique. 2015. "Kinship and marriage among the Nuer". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/kinship-and-marriage-among-nuer>

autoria

Henrique Pougy

bibliografia

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Nuer: A description of the modes of livelihood and political institutions of a Nilotic people, Oxford, Clarendon Press, 1940 (Trad. Bras. Ana M. Goldberger Coelho. São Paulo, Perspectiva, 1978)

EVANS-PRITCHARD, E. E. ,“Nuer bridewealth”, Africa. Journal of the International African Institute, vol. 16, n. 4, 1946, p. 247-257

EVANS-PRITCHARD, E. E., “Bridewealth among the Nuer”, African Studies, vol. 6, n. 4, 1947, p. 181-188

EVANS-PRITCHARD, E. E. , “Nuer marriage cerimonies”, Africa. Journal of the International African Institute, vol. 18, n. 1, 1948, p. 29-40

EVANS-PRITCHARD, E. E., “A note on affinity relations among the Nuer”, Man, vol. 48, 1948, p. 3-5

EVANS-PRITCHARD, E. E., “Nuer Rules of Exogamy and Incest” In: Meyer Fortes (ed), Social Structure, studies presented to A.R. Rafcliffe-Brown, Oxford, Clarendon Press, 1949

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Sanusi of Cyrenaica. Oxford, Oxford University Press, 1949

EVANS-PRITCHARD, E. E., “Kinship and the local community among the Nuer” In: A. R. Radcliffe-Brown & C. D. Forde, African systems of kinship and marriage, London, Oxford University Press, 1950

EVANS-PRITCHARD, E. E., Kinship and Marriage among the Nuer. Oxford, Clarendon Press, 1951

EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer Religion. Oxford, Clarendon Press, 1956

inicial do verbete
título do índice alfabético
Kinship and marriage among the Nuer

Edward Evan Evans-Pritchard

Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973), antropólogo britânico cujo trabalho revelou-se determinante para o desenvolvimento da antropologia social no século XX, inicia sua graduação em História Moderna no Exeter College, na universidade de Oxford (1921), período em que conhece Robert Ranulph Marett (1866-1943), um dos fundadores da Oxford Anthropology Society e seu interlocutor ao longo da década de 1920. Por incentivo de Marret passa a frequentar os seminários de antropologia na London School of Economics, tendo entre os professores Bronislaw Malinowski (1884-1942) e Gabriel Seligman (1873-1940). Este último fora um pioneiro no trabalho de campo junto a povos do Sudão, onde pesquisa desde 1909, e orientador da tese de doutoramento de Evans-Pritchard defendida em 1927 sobre os Azande, fruto de sua primeira incursão a campo, e publicada posteriormente com o título Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

Em 1930, o antropólogo inicia pesquisas junto aos Nuer, população nilota da região sul do Sudão. Entre os anos de 1932 e 1934, atua como professor da Universidade do Cairo, onde ministra seminários sobre a questão religiosa entre os povos estudados. Em 1935, transfere-se para o Instituto de Antropologia Social da Universidade de Oxford, fundado por Radcliffe-Brown (1881-1955), onde segue trabalhando e escrevendo sobre sua experiência junto aos Nuer. Em 1940 publica Os Nuer e também African Political Systems, este em parceria com Meyer Fortes (1906-1983). Durante a II Guerra Mundial, atua como consultor da administração militar do governo britânico, tendo servido na Etiópia, Líbia, Sudão e Síria. Em 1945, torna-se professor em Cambridge e no ano seguinte sucede Radcliffe-Brown na cadeira de antropologia de Oxford. Em 1950, é professor na Universidade de Chicago e em 1957 da Universidade de Stanford, onde permanece até sua aposentadoria, em 1970. Em 1971, é condecorado com o título de Cavaleiro (Sir) pela Coroa Britânica, falecendo dois anos depois.

Edward E. Evans-Pritchard

Evans-Pritchard é um dos mais renomados especialistas nas populações sudanesas do sul da região do Nilo Branco, ocupando lugar decisivo na história do africanismo e da antropologia política. Realizou etnografia em diferentes sociedades, defendendo ser o trabalho de campo um dos pilares do saber antropológico. Concebe o ofício do antropólogo como uma tarefa de tradução de valores culturais, necessariamente comparativa, negando assim a possibilidade de existência de uma teoria antropológica per si, independente ou anterior à pesquisa empírica. Segundo ele, o conhecimento antropológico deriva de um diálogo comparativo complexo que deve ir além da relação entre pesquisador e nativo, levando em conta a teoria acumulada da disciplina a partir de experiências etnográficas diversas. Em seu trabalho como antropólogo destacam-se, além das reflexões sobre a estrutura política e a lógica segmentar nuer, o estudo do que ele denomina sistemas de pensamento dos povos pesquisados.

Do ponto de vista das discussões metodológicas que lança, além de defender a importância do uso de uma perspectiva histórica na antropologia, Evans-Pritchard destaca a importância da habilidade literária do antropólogo ao narrar a experiência etnográfica. A antropologia, para ele, é uma disciplina humanista, mais próxima das artes do que das ciências, uma vez que o impacto da vivência de campo gera uma experiência singular no pesquisador que não é absorvida apenas intelectualmente, mas que passa pelos sentidos e pela subjetividade. As contribuições deixadas por seus trabalhos ecoam em diferentes campos científicos para além da antropologia e das ciências sociais (como a história, a psicologia, os estudos da religião e a filosofia), tendo sido também fundamentais para os estudos sobre transformações sociais em contextos coloniais e pós-coloniais.

Como citar este verbete:
MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro; FERREIRA, Lucas Bulgarelli & STUMPF, Lúcia Klück. 2015. "Edward Evan Evans-Pritchard". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/edward-evan-evans-pritchard>

autoria

Carolina Cordeiro Mazzariello, Lucas Bulgarelli Ferreira e Lúcia Klück Stumpf

bibliografia

BARNES, J.A., “Edward Evan Evans-Pritchard, 1902 -1973”, Proceedings of the British Academy” n. 73,1987, p. 447-490

DOUGLAS, Mary, Evans-Pritchard. Brighton, UK, Harvester, 1980

EVANS-PRITCHARD, E.E., Witchcraft, Oracles and Magic Among the Azande. Clarendon Press, 1937 (Trad. Bras. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro, Zahar, 2005)

EVANS-PRITCHARD, E.E., The Nuer: A Description of the Modes of Livelihood and Political Institutions of a Nilotic People, Oxford University Press, 1940 (Trad. Bras. Ana M. Goldberg Coelho. São Paulo, Perspectiva, 1978)

EVANS-PRITCHARD, E.E.,The Political System of the Anuak of the Anglo Egyptian Sudan, Berg Publishers, 1940

EVANS-PRITCHARD, E.E & FORTES, M. (ed),  African Political Systems, Oxford, Oxford University Press, 1940 (Trad. Port. Teresa Brandão. Lisboa, Calouste Gulbekian, 1981)

EVANS-PRITCHARD, E.E., The Sanusi of Cyrenaica. Oxford, Clarendon Press, 1949

EVANS-PRITCHARD, E.E., Kinship and Marriage among the Nuer, Oxford University Press, 1951

EVANS-PRITCHARD, E.E., Social Anthropology, Londres, Cohen et West, 1951

EVANS-PRITCHARD, E.E. , Nuer Religion, Oxford University Press, 1956

EVANS-PRITCHARD, E.E., Essays in Social Anthropology, Londres, Faber, 1962

EVANS-PRITCHARD, E.E., The position of Women in Primitive societies and other Essays in Social Anthropology, Londres, Faber, 1965

EVANS-PRITCHARD, E.E., Theories of Primitive Religion, Oxford University Press, 1965

EVANS-PRITCHARD, E.E. The Zande Trickster, Oxford, Clarendon Press, 1967

EVANS-PRITCHARD, E.E.,The Azande: history and political institutions, Oxford, Clarendon Press, 1971

EVANS-PRITCHARD, E.E., Man and Woman among the Azande, Faber and Faber, 1974

GEERTZ, Clifford. Works and lives: the anthropologist as author, Stanford, CA, Stanford University Press, 1988 (Trad. Bras. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ, 2002)

KUPER, Adam, Anthropology and anthropologists: The modern British school. London,  Routledge and Kegan Paul, 1983 (Trad. Bras.Álvaro Cabral.  Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1978)

LIENHARDT, Godfrey. E-P., “A Personal View: Sir Edward Evans-Pritchard, 1902-1973”, Man, vol. 9, n. 2, 1974, p. 299-304

ROSA, Frederico Delgado, “O fantasma de Evans-Pritchard: diálogos da antropologia com a sua história », Etnográfica, vol. 15, n. 2, 2011, p. 337-360

inicial do verbete
título do índice alfabético
Evans-Pritchard