Ella Cara Deloria

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Ella Cara Deloria

Reconhecida como linguista, etnógrafa, professora e escritora, Ella Cara Deloria (1889-1971), Aŋpétu Wašté Wiŋ, yankton dakota, nasceu na reserva Yankton, em Dakota do Sul, a 31 de janeiro de 1889, filha de um dos primeiros sioux a tornar-se pastor da igreja episcopal. Ella estudou na escola da igreja na reserva de Standing Rock e posteriormente num internato da igreja episcopal em Sioux Falls. Obteve o bacharelado em ciências pela Universidade de Columbia em Nova York, em 1915. Começou nessa época a trabalhar com Franz Boas (1858-1942), como tradutora de textos em língua lakota. Em 1926, Boas levou-a para Nova York como assistente de pesquisa. Um dos primeiros projetos a que se dedicou a pedido de Boas foi a tradução de um texto sobre a Dança do Sol [Sun Dance], a mais importante cerimônia tradicional dos povos da nação sioux, que incluem os Lakota e os Dakota, entre outros. O texto, na língua nativa e na tradução em inglês, foi sua primeira publicação profissional, em 1929.

Nessa época Ella teria conhecido Ruth Benedict (1887-1948), que a incentivaria em suas pesquisas sobre parentesco, organização social e o papel das mulheres. A amizade entre as duas permaneceu viva numa intensa correspondência trocada até a morte de Benedict. Entre 1928 e 1938, financiada pela Universidade de Columbia, Deloria fez registros e estudos sobre as línguas dakota e lakota, registrou narrativas, memórias e conhecimentos de anciões, traduziu para o inglês textos que coletou e textos escritos por membros de sua nação em décadas anteriores. Nos anos seguintes, entre várias ocupações ligadas ao ensino, prosseguiu registrando narrativas, aspectos e características de línguas e dos modos de vida da nação sioux e de outros povos nativos. Ella Cara Deloria faleceu em 12 de fevereiro de 1971, em Vermillion, Dakota do Sul. Deixou um vasto conjunto de anotações, correspondências e textos inéditos, conservados no Ella C. Deloria Project, na Universidade de South Dakota, no Ella Deloria Archive, base de dados online dos Dakota, e em arquivos da American Philosophical Society.

Ella Deloria publicou Dakota Texts (1932) e, em colaboração com Franz Boas, Dakota Grammar (1941). Também escreveu a etnografia de referência a respeito dos Dakota, Speaking of Indians (1944), obra cuja primeira intenção teria sido apresentar os modos de vida e conhecimentos de seu povo aos não sioux. Ella Deloria escreveu ainda Waterlilly, livro em que a narrativa das experiências de três gerações de mulheres dakota mescla autobiografia, etnografia e romance. O livro foi terminado em 1948, mas só foi publicado após sua morte, em 1988 (e republicado em 2009). Segundo a apresentação biográfica da primeira edição (Picotte 1988), Ella Deloria era reconhecida, na década de 1940, como a maior conhecedora dos Sioux.

​​​​​​​​​​​​​​Ella Cara Deloria, Waterlilly, Bison Books, 2009. Capa de divulgação. ​​​​​​​

A Universidade de Columbia homenageia sua ex-aluna com um programa de bolsas de pesquisa de graduação com seu nome, criado em 2010. A página desse programa a apresenta como “uma das primeiras pessoas na antropologia americana realmente bilíngue e bicultural, uma pesquisadora, professora e pessoa extraordinária”. Em 2020, a Columbia começou a homenageá-la também com uma série de conferências anuais em celebração do “Dia dos povos indígenas” (12 de outubro) intitulada Ella Cara Deloria Lecture.

Como citar este verbete:
PERRONE-MOISÉS, Beatriz. 2021. "Ella Cara Deloria". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/autor/ella-cara-deloria

ISSN: 2676-038X (online)

D
Data de publicação
24/07/2021
autoria

Beatriz Perrone-Moisés

bibliografia

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