Mouloud Feraoun (1913-1962) nasceu na aldeia de Tizi-Hibel, com o nome Aït Chabanne, na região montanhosa da Cabília, ao norte da Argélia. Licenciou-se professor em 1936, pela École Normale de Bouzaréah, e dedicou grande parte da vida ao ensino público. Em 1958, tornou-se inspetor dos Centros Sociais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em Argel. Sua trajetória intelectual foi marcada pelo contexto colonial e pela Guerra de Independência da Argélia (1954-1962), refletindo em sua obra as tensões vividas pela sociedade cabila sob dominação francesa. Sua produção reúne, romances, crônicas etnográficas, cartas e um diário de guerra, compondo uma escrita situada na interface entre literatura, observação social e testemunho histórico; por registrar a sociedade cabila a partir de uma posição interna e crítica às representações coloniais, sua obra interessa à antropologia e aos debates pós-coloniais. Seu posicionamento político e sua atuação em defesa da educação argelina culminaram em seu assassinato. Em 15 de março de 1962, em El-Biar, Feraoun foi fusilado pela Organisation Armée Secrète (OAS), milícia paramilitar colonial que buscava frear o cessar-fogo assinado poucos dias depois.

Ao longo de sua trajetória, Feraoun estabeleceu diálogos e aproximações com intelectuais ligados à antropologia, à sociologia e aos estudos sobre a Argélia colonial, como o escritor, antropólogo e linguista argelino, Mouloud Mammeri (1917-1989); o sociólogo argelino, Abdelmalek Sayad (1933-1998); o sociólogo francês, Pierre Bourdieu (1930–2002) e a etnóloga francesa Germaine Tillion (1907–2008). Todos estes autores que contribuíram para uma leitura crítica da sociedade argelina, da dominação colonial e das transformações da vida rural na Cabília. Nesse contexto, os escritos de Feraoun atuaram como interpretação social da colonização e como fonte de valor etnográfico, dialogando com uma tradição antropológica e sociológica que desloca a descrição externa dos costumes para a análise das transformações históricas vividas pelas populações cabilas. Politicamente, Feraoun integrou o grupo dos “Liberais”, formado por jovens intelectuais que defendiam uma Argélia laica, plural e pluriétnica. Essa posição se opunha, de um lado, aos “Ultras”, defensores da dominação colonial francesa, e, de outro, ao projeto nacionalista da Frente de Libertação Nacional, visto pelos liberais como excessivamente centralizador e voltado à afirmação de uma Argélia islâmica. Nesse sentido, sua defesa de uma Argélia independente passava pelo reconhecimento da diversidade étnica, linguística e cultural, especialmente das especificidades berberes.

Sua obra é considerada pioneira nos “romances etnográficos” magrebinos, classificação formulada e difundida por Jean Déjeux em seu panorama da literatura magrebina francófona, publicada em 1973. O termo designa narrativas que incorporam costumes, organização familiar, parentesco, rituais, oralidade, trabalho e vida cotidiana, fazendo da literatura uma forma de observação social. Um exemplo é Jours de Kabylie (1954), no qual Feraoun registra formas de sociabilidade da Cabília, espaços coletivos, relações familiares, trabalho cotidiano e vínculos com a aldeia. Feraoun desloca a concepção assimilacionista do humanismo colonial, que via a sociedade cabila como atrasada, homogênea e dependente da tutela francesa, evidenciando a complexidade social de uma realidade frequentemente simplificada pela administração colonial. Nos romances publicados em vida, Le Fils du pauvre (1950), La Terre et le sang (1953) e Les Chemins qui montent (1957), Feraoun mobiliza a literatura para questionar representações coloniais e afirmar a sociedade cabila. Nessas narrativas, infância, pobreza, escola, mobilidade social, emigração, honra, terra e retorno à aldeia aparecem como experiências atravessadas pela colonização. Por meio delas, debateu os efeitos do colonialismo sobre os sujeitos, os vínculos familiares e comunitários e as tensões raciais, religiosas e geracionais produzidas pelo contato desigual com a França. Feraoun também analisou processos migratórios, a partir de observações realizadas em viagens à França junto a trabalhadores argelinos, destacando a formação de gerações de imigrantes e as transformações sociais e identitárias associadas à emigração. Sua abordagem das dinâmicas migratórias tem sido aproximada das análises de Abdelmalek Sayad sobre as migrações entre Argélia e França. Além dos romances, sua produção inclui o diário escrito durante a Guerra de Independência, publicado postumamente como Journal, 1955-1962 (1962), no qual registra reflexões ao longo do conflito.
Como citar este verbete:
BECKHAUSER, Gustavo. “Mouloud Feraoun”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/autor/mouloud-feraoun
ISSN: 2676-038X (online)
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Gustavo Beckhauser
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YACINE, Tassadit & SANSON, Hervé (ed.), Relire Feraoun : entre lucidité, combat et engagement, Alger-Algérie, Koukou Éditions, 2023