conceito
Cadeia operatória - André Leroi-Gourhan

O conceito de “cadeia operatória” foi cunhado pelo antropólogo, arqueólogo e paleontólogo francês André Leroi-Gourhan (1911-1986), e está elucidado nas obras Evolução e técnicas: O homem e a matéria (1943), Evolução e técnicas: o meio e técnicas (1945), O gesto e a palavra: técnica e linguagem (1964) e O gesto e a palavra: memória e ritmos (1965). A noção possui duas dimensões, uma teórico-conceitual e outra metodológica-analítica. Metodologicamente, as cadeias operatórias buscam designar e ilustrar o “encadeamento de operações” que constituem diferentes ações técnicas. Conceitualmente, o termo refere-se a comportamentos particulares que distinguem os seres humanos dos animais, bem como os grupos humanos entre si. Trata-se de ações técnicas que acarretam transformações corporais e cognitivas, que fazem parte da evolução biológica e se baseiam na memória para se perpetuar.

Nos animais, as cadeias operatórias expressam-se como comportamentos instintivos e sua memória é transmitida via carga genética; entre os seres humanos, referem-se ao modo como cada grupo social organiza seus comportamentos e hábitos particulares, sejam esses gestos ordinários e essenciais para a sobrevivência, como os atos de comer e de fazer sexo, ou extraordinários, como práticas ritualísticas. Em relação à conduta humana, designam ações que correspondem à sobrevivência material de um povo, de modo que todas as operações das cadeias carregam, nas palavras de Leroi-Gourhan, “personalidade étnica”. Segundo o autor, o fundamento da memória operatória para a humanidade, essencial para a sua transmissão, é a linguagem; o pensamento e expressão simbólica criam a capacidade de uma memória virtual que marca a pertença a um grupo social.

Homem com enxada, China, Dinastia Tang (618-907), Séc. VII. Cerâmica com pigmentos, 26 cm. Metropolitan Museum of Art, Nova York

Em O gesto e a palavra (1965) a diferença entre seres humanos e animais recai em suas cadeias operatórias e em sua base mnemônica. A capacidade de criar e manusear utensílios tem um papel importante nesse salto cognitivo, pois é por meio do uso de ferramentas que os seres humanos conseguem exteriorizar a força motora de seus gestos e criar uma base material para a memória. Na fabricação e no uso de utensílios, a mão humana – isolada pelo autor como fonte matriz de capacidades operatórias – para de evoluir e as operações sequenciais desempenhadas pelos humanos incide então sobre o utensílio, sobre os próprios movimentos das técnicas e sobre a matéria. As cadeias operatórias são, portanto, fenômenos biopsicossociais: práticas automáticas, ligadas à natureza biológica dos animais e dos seres humanos, mas também socialmente aprendidos e transmitidos. São comportamentos esclarecidos ligados ao uso consciente da linguagem e dos símbolos humanos, o que permite a alteração e a criação individual sobre cadeias operatórias socialmente transmitidas.

As concepções de Leroi-Gourhan são tributárias de Marcel Mauss (1872-1950), que foi seu professor na École Pratique des Hautes Études, em Paris. Em As técnicas do corpo (1936), ensaio fundante da antropologia da técnica, Mauss observa as técnicas do corpo como fenômenos biopsicossociais. Lançando luz para o aspecto sociológico da consolidação e transmissão das técnicas, o ensaio realiza uma análise comparativa ao pensar em diferentes formas de uso do corpo em sociedades distintas. A definição de Mauss da técnica como “ato tradicional eficaz” encontra reverberações na noção de cadeias operatórias, que indicam gestos transmitidos via educação e que encontram eficácia ao produzir um resultado de ordem mecânica que é sentido por seu atuante.

Em termos metodológicos, a cadeia operatória se refere à compreensão das dimensões sequenciais e estruturais de uma técnica específica. Em seus estudos, Leroi-Gourhan realizou a análise de artefatos líticos (pontas de flecha, machados, lâminas etc.) considerando o ciclo operatório do utensílio na classificação de sua forma, e compreendendo que forma e função estão diretamente ligadas às cadeias de operações nas quais se inserem. Tal análise consiste na descrição e reconstrução de operações sucessivas que compõem o processo de feitura e o desempenho utilitário dos artefatos. Com isso, busca-se pôr em evidência os fluxos, ritmos, pausas, gestos, pensamentos e materiais em jogo em uma atividade técnica.

André Leroi-Gourhan, Gesture and Speech, p. 93

Tal aporte metodológico é aproveitado pela antropologia e arqueologia, que utilizam a noção como instrumento metodológico para a descrição e transcrição de operações seriais das técnicas. Na arqueologia, especialmente, o método tende a se associar ao estudo de objetos etno-arqueológicos; neste campo, como observa o arqueólogo Roger Grace, em artigo de 1997, uma análise baseada em cadeias operatórias distingue-se de uma abordagem tipológica, cuja classificação e organização dos objetos se baseia em suas diferenças e semelhanças físicas. As cadeias operatórias, por sua vez, atentam para o processo de vida do artefato estudado, contextualizando-o em relação ao comportamento e à cultura que o produziu.

Na antropologia, a noção se liga diretamente ao campo da técnica. Nesse contexto, o conceito passou por atualizações a cargo dos antropólogos Pierre Lemonnier (1948-) e Ludovic Coupaye, que ampliaram a capacidade analítica do método ao distanciá-lo dos artefatos líticos, seu objeto de estudo clássico. No artigo “Cadeias operatórias míticas” (2013), Lemonnier observa como objetos e processos técnicos retratados em narrativas mitológicas relacionam-se às técnicas desempenhadas por um grupo e sua cosmologia. Ludovic Coupaye (1966-), de seu lado, busca uma expansão conceitual dessa metodologia, sugerindo que ela abarque as descrições fornecidas por seus interlocutores a respeito de suas próprias atividades técnicas. Em seus estudos na Papua-Nova Guiné, observa como interações sociais, não humanos, ritos mágicos e concepções acerca da vida participam das técnicas agrícolas locais. Com isso, o autor lança uma agenda de pesquisas que associa a antropologia da técnica à antropologia da vida. Assim, ao lado do antropólogo Perig Pitrou (1973-), propõe abordar a vida a partir de sua tecnicidade, fazendo do estudo das operações sequenciais responsáveis pela constituição do vivo um meio de acesso a teorias nativas a respeito da vida.

No Brasil, a noção e o método vêm sendo reabilitados para a compreensão de processos técnicos diversos, por antropólogos e arqueólogos de distintas instituições universitárias que adaptaram a análise aos contextos etnográficos locais. É possível identificar Fábio Mura, docente na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), como um expoente no procedimento de retomada dos conceitos da antropologia da técnica. Mura foi responsável por propor o estudo de “processos sociotécnicos”; em seus trabalhos, observa a forma que diferentes técnicas participam da conformação da territorialidade, relações interétnicas e da ecologia em seus contextos etnográficos.

Mais recentemente, a Universidade de Brasília (UnB) vem se destacando como um importante polo dos estudos da técnica na antropologia brasileira, lembremos os trabalhos de Carlos Sautchuk e Guilherme Fagundes, ambos formados nesta universidade. Em sua tese de doutorado de 2007,  Sautchuk coloca sob uma nova luz temas clássicos da antropologia, como a pesca amazônica e a noção de pessoa. Em sua abordagem, esses temas ganham uma explicação tanto semiótica quanto material voltada à consolidação da identidade pescadora por meio do aprendizado e assimilação das técnicas de pesca. Aluno de Sautchuk, Fagundes realizará em seu doutoramento (2019) o estudo de paisagem bioculturais na região do Jalapão, analisando as diferentes formas pelas quais Parques de conservação ambiental e membros de comunidades tradicionais agem em conjunto com entidades não humanas na configuração de um meio que é conhecido como Gerais. Hoje professor na Universidade de São Paulo (USP), Fagundes tem orientado suas pesquisas para o estudo de diferentes técnicas de manejo do fogo no Cerrado brasileiro.

Como citar este verbete:

CARVALHO, Jéssica Cardoso; LARA, Maria Lua Vieira. “Cadeia operatória - André Leroi-Gourhan”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/conceito/cadeia-operatoria-leroi-gourhan

ISSN: 2676-038X (online)

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data de publicação
20/07/2026
autoria

Jéssica Cardoso Carvalho e Maria Lua Vieira Lara

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