A noção de técnica ocupa lugar central na obra do antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) e em sua concepção de “social”. Definida por ele como “atos tradicionais eficazes”, a técnica é, simultaneamente, individual e coletiva, física e simbólica, conhecimento e prática. Para Mauss, as técnicas constituem meios de produção e reprodução da vida social, ao estarem constantemente associadas a diferentes instituições, como a religião e a ciência, sendo praticadas por “homens totais”, indivíduos que articulam simultaneamente dimensões físicas, psicológicas e sociais em suas práticas cotidianas. A técnica aparece, assim, como um conhecimento prático, encarnado no fazer, na experiência, na repetição e no gesto, recusando a oposição entre razão e técnica. É nesse mesmo sentido que Mauss argumenta que os fatos sociais são “totais”, como elaborou mais detidamente em trabalhos como Ensaio sobre a dádiva (1923-24), na medida em que extrapolam uma única esfera da vida, como a econômica ou a mental, e articulam um conjunto de aspectos diversos.
Mauss familiariza-se com o tema por meio de obras sobre o progresso industrial a ele indicadas por seu tio e mentor, Émile Durkheim (1858-1917), assim como das próprias obras de Durkheim que abordavam, ainda que parcialmente, a temática; por exemplo em A Divisão do Trabalho Social (1893), a “densidade material” e a “densidade moral” surgem como indicadores do progresso técnico e das condições objetivas que estruturam os vínculos sociais. Sofreu também influências do geógrafo alemão Friedrich Ratzel (1844-1904), cujas contribuições aproveitaria para articular técnica e fatores geográficos e sociais, e do filósofo francês Alfred Espinas (1844–1922), cujos cursos e estudos sociológicos sobre a tecnologia despertaram sua atenção para esse campo de investigação.
O interesse de Mauss pelo assunto materializou-se desde seus primeiros trabalhos, como também em contribuições pontuais para a rubrica “tecnologia” da revista L’Année sociologique, a partir de 1899, e na oferta de um curso na École Pratique des Hautes Études de Paris, em 1903. A temática ganha importância em escritos posteriores do autor, que tratam, entre outros, da fabricação e circulação de objetos, como nas transações e trocas coletivas de bens na Melanésia e no noroeste da América do Norte no Ensaio sobre a dádiva, e dos papéis que as técnicas desempenham na disciplina do corpo entre diferentes sociedades. O tema desempenha também papel relevante nas instruções metodológicas para o trabalho de campo feitas pelo autor em Manual de Etnografia (1947), projetando, assim, o estabelecimento de uma ciência das técnicas.
Em Esboço de uma teoria geral da magia (1902-1903), escrito em coautoria com Henri Hubert (1872-1927), magia e técnicas associam-se a atividades cotidianas, como pesca, caça, agricultura e medicina, e correspondem a atos tradicionais eficazes, ao serem transmitidas entre gerações com o intuito de produzir ou transformar algo. No entanto, há uma diferença de método entre elas: na técnica, o efeito é entendido como resultado direto e visível da ação, já que ela opera por causas físicas e observáveis, e seus resultados podem ser testados e confirmados; na magia, os efeitos são de outra ordem, simbólicos ou invisíveis, como fazer chover ao agitar água com um bastão.
No Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós (1906), por sua vez, a descrição material das habitações e o conhecimento técnico da caça fundamentam a análise das transformações sazonais que qualificam a organização social dos povos Inuit. Igualmente, o conceito de técnica aparece como ferramenta para compreender a articulação entre práticas materiais, organização social e modos de vida. Se, no texto escrito com Hubert, a noção foi mobilizada sobretudo para pensar a eficácia das práticas, ela articula-se agora a outras dimensões, como elementos geográficos (ou telúricos) e sociais (morais, jurídicos e religiosos). Esses pontos serão sistematizados em Manual de Etnografia (1947), quando Mauss define as técnicas como “atos tradicionais” orientados à produção de efeitos materiais concretos (mecânicos, físicos ou químicos), isto é, transformações observáveis sobre corpos, objetos ou substâncias, e distingue categorias de instrumentos: ferramenta (objeto simples, peça única); instrumento (conjunto de ferramentas) e máquina (conjunto de instrumentos).
Em As técnicas do corpo (1936), a noção passa ao centro da reflexão; neste texto Mauss define técnica como “ato tradicional eficaz”, o que sublinha seu caráter social e seus efeitos na modelagem de corpos. O corpo é simultaneamente o primeiro instrumento, o primeiro objeto e o meio técnico do ser humano, pois moldado por aprendizagens e práticas socialmente transmitidas, independente da mediação de ferramentas externas. As técnicas corporais, formas socialmente aprendidas de usar o corpo, são moldadas pela educação, pela moda, por conveniências e prestígio, variando entre indivíduos e sociedades. Assim, Mauss antecipa uma compreensão da técnica como forma de racionalidade encarnada, que seria desenvolvida quatro décadas depois com o conceito de habitus de Pierre Bourdieu (1930-2002) e com Tim Ingold (1948-), sobretudo em suas reflexões sobre os processos de engajamento contínuo entre corpo, materiais e ambiente. Em As técnicas e a tecnologia (1941/1948), Mauss propõe uma reflexão mais sistemática e descritiva sobre os gestos técnicos, seus encadeamentos e suas condições de transmissão, lançando ainda uma distinção entre técnica (modos concretos de agir) e tecnologia, entendida como a teoria geral das técnicas humanas.
É possível identificar ecos das reflexões de Mauss nas obras de dois de seus alunos, André-Georges Haudricourt (1911–1996) e André Leroi-Gourhan (1911–1986). Em Haudricourt, a noção de técnica afasta-se progressivamente do foco exclusivo nas “técnicas do corpo” para abranger uma análise mais ampla e sistemática das relações entre humanos, instrumentos, plantas e animais, movimento afinado às últimas formulações de Mauss. Já em Leroi-Gourhan, o interesse recai sobretudo no campo arqueológico das técnicas, a partir do qual formula a ideia de que a evolução humana se dá por meio da exteriorização gradual de funções biológicas em sistemas técnicos e simbólicos.
A coletânea Techniques, technology and civilisation, publicada em 2006 e organizada pelo arqueólogo e historiador Nathan Schlanger (1963–), reúne a maioria dos escritos de Marcel Mauss sobre técnica, o que evidencia a importância do autor para a antropologia da técnica contemporânea. No Brasil, a renovação dos estudos sobre técnica, que tem em Mauss um precursor, vem se consolidando a partir da atuação de diversos pesquisadores e coletivos. Destacam-se, entre outros, iniciativas do Laboratório de Antropologia da Ciência e da Técnica (LACT), criado em 2009 na Universidade de Brasília por Carlos Sautchuk e Guilherme Sá, assim como os trabalhos de Viviane Vedana e Rafael Devos, do Coletivo de Estudos com Ambientes, Percepções e Práticas (CANOA), na Universidade Federal de Santa Catarina, e de Fábio Mura, na Universidade Federal da Paraíba. Soma-se a essas iniciativas a criação, em 2024, do Coletivo de Antropologia, Ambiente e Biotecnodiversidade (CHAMA) na Universidade de São Paulo.
Como citar este verbete:
SOARES, Vitor Sampaio; PEREIRA, Valentina da Silva Dias. “Técnica - Marcel Mauss”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/conceito/tecnica-marcel-mauss
ISSN: 2676-038X (online)
Vitor Sampaio Soares e Valentina da Silva Dias Pereira
BOURDIEU, Pierre, La distinction : critique sociale du jugement, Paris, Les Éditions de Minuit, 1979. (Trad. Bras. Daniela Kern e Guilherme J. de F. Teixeira. Porto Alegre, Editora Zouk, 2007)
BRITO, Rainer, “Sobre uma ciência social das máquinas”, Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 34 , p. 1-18, 2019
DURKHEIM, Émile, De la division du travail social, Paris, Les Presses Universitaires de France, 8e éd., 1967. (Trad. Bras. Eduardo Brandão. 4ª ed., São Paulo, Martins Fontes, 1999)
ESPINAS, Alfred, Les origines de la technologie, Paris, Félix Alcan, 1897
HAUDRICOURT, André-Georges, L’homme et les plantes cultivées, Paris, Gallimard, 1943
INGOLD, Tim, Being alive: essays on movement, knowledge and description, London, Routledge, 2011 (Trad. Bras. Fabio Creder. Petrópolis, Vozes, 2015)
LAFITTE, Jacques, “Sur la science des machines”, Revue de Synthèse, 6 (2), p. 143-158, 1933
LEROI-GOURHAN, André, Le geste et la parole, Paris, Albin Michel, 1964-1965 (Trad. Bras. Maria Lúcia Machado. São Paulo, Martins Fontes, 1987)
MAUSS, Marcel. “Essai sur les variations saisonnières des sociétés eskimos”, L’Année sociologique, Paris, nouvelle série, t. 9, p. 39-132, 1906 (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac Naify, 2003)
MAUSS, Marcel. “Les techniques du corps”, Journal de Psychologie, XXXII, n. 3-4, 15 mars - 15 avril 1936 (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac Naify, 2003)
MAUSS, Marcel, “Les techniques et la technologie”, Journal de Psychologie, 41, p.71-78, 1948 (Trad. Bras. André Magnelli. Rio de Janeiro, Cadernos do Ateliê, 2018 - https://ateliedehumanidades.com/2018/03/10/as-tecnicas-e-a-tecnologia-1941-1948-marcel-mauss/)
MAUSS, Marcel, Manuel d’ethnographie, Paris, Payot, 1947 (Trad. Port. Lisboa, Editorial Pórtico, 1972)
MAUSS, Marcel, Techniques, technology and civilisation, New York, Durkheim Press/Berghahn Books, 2006 (edited and introduced by Nathan Schlanger)
MAUSS, Marcel & HUBERT, Henri, “Esquisse d’une théorie générale de la magie”. L’Année sociologique, Paris, t. 7, p. 1-46, 1904 (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2003)

