conceito
Perspectivismo ameríndio

O perspectivismo ameríndio diz respeito à síntese conceitual operada por Eduardo Viveiros de Castro (1951-) e Tânia Stolze Lima para tratar de uma importante matriz filosófica amazônica no que se refere à natureza relacional dos seres e da composição do mundo. O conceito sintetiza uma série de fenômenos e elaborações encontrados em etnografias anteriores sobre os povos ameríndios. De forma geral, a noção se refere a concepções indígenas que estabelecem que os seres providos de alma reconhecem a si mesmos e  àqueles a quem são aparentados como humanos, mas são percebidos por outros seres na forma de animais, espíritos ou modalidades de não humanos. A construção dessa humanidade compartilhada se efetiva pela construção dos corpos. Quer dizer: a humanidade só se torna visível para quem compartilha um mesmo tipo de corpo ou para os xamãs, que são capazes de assumir a perspectiva de outros e vê-los como humanos.

© Denilson Baniwa, Aquela gente que se transforma em Catitu, 2018. Acrílica sobre tela 60x80cm. Coleção particular. Reprodução autorizada pelo artista.

 

O humano é assim a forma da percepção de si mesmo, enquanto o animal e o espírito são formas de percepção de outrem. Daí a famosa asseveração de Viveiros de Castro sobre os mundos ameríndios serem regidos por pronomes cosmológicos, remetendo ao ponto de vista de um sujeito específico a partir do qual os seres e as coisas tomam uma forma determinada. A ideia de ponto de vista, central ao conceito, implica que só existe mundo para alguém. Isso é evidente quando Tânia Stolze Lima argumenta que a construção “os Yudjá pensam que os animais são humanos” é etnograficamente falsa. Em seu lugar, ela propõe a formulação Yudjá (também conhecidos como Juruna), de que “para si mesmos, os animais são humanos”. Portanto, tudo o que existe emerge para alguém: não há realidade que independa do sujeito.

As concepções ameríndias que sustentam o conceito de perspectivismo apontam, então, para a irredutibilidade dos seus contextos a uma distinção ontológica entre natureza e cultura. Tal configuração não pode ser usada para pensar as cosmologias ameríndias sem que antes se tomem medidas de precaução produzidas por uma crítica da própria separação entre o que é humano e o que não é, assim como do próprio estatuto da realidade. Em outros termos, entre os ameríndios a natureza não existe em si mesma como uma esfera “objetiva”, e sim como efeito de um ponto de vista. O modo em que os mundos ameríndios estão regidos levam a pressupostos que são irredutíveis à noção moderna-ocidental de relativismo cultural. A unidade da alma e a multiplicidade dos corpos para as quais apontam essas ontologias levariam não ao multiculturalismo moderno-ocidental, mas a um multinaturalismo ameríndio, em que a cultura é o fundo comum de uma multiplicidade de naturezas que se desdobram dos corpos. Assim, a condição compartilhada por humanos e animais não é a animalidade (como para a ciência moderna, segundo a qual os humanos pertencem ao reino animal), mas a humanidade. Essa característica é evidente nos mitos; estes remetem a um tempo-espaço virtual em que os diferentes seres se comunicavam e se reconheciam como reciprocamente humanos. Os mitos contam acontecimentos que incorrem na especiação dos seres, que passam a não mais se reconhecerem como humanos, a depender da formação de seus corpos.

Em sua etnografia da caça aos porcos, Lima mostra que aquilo que os Yudjá apreendem como caça é apreendido pelos porcos como guerra. Isto não quer dizer que o evento engendre uma mesma realidade percebida de forma diferente por porcos e por humanos, mas que ele produz dois acontecimentos paralelos mas que podem se cruzar, de modo que um inclua o outro. Neste sentido, é preciso que o caçador tome as medidas de precaução necessárias para que a perspectiva dos porcos não se imponha, fazendo com que ele perca a humanidade como condição compartilhada com seus parentes; isto é, se a dimensão inversa da caça (para os humanos) é a guerra (para os porcos), então numa perspectiva cruzada, caçadores combatem guerreiros. O caçador deve manter seu ponto de vista para que dê conta de caçar os porcos sem que sua alma seja capturada por sua perspectiva. Do contrário, a caça derrapa na guerra e a alma do caçador termina adquirindo a perspectiva dos porcos, indo viver com eles. Perder o ponto de vista do evento é perigoso porque o que começa como caça pode terminar em morte na guerra.

A humanidade à qual o perspectivismo ameríndio se refere não é a da noção de espécie humana [humankind], mas a da condição reflexiva de sujeito [humanity]. De fato, os termos ameríndios que costumam ser traduzidos como “humanos” são formas de autodesignação que denotam o lugar da pessoa, colocando em cena o ponto de vista de quem se nomeia. São expressões pronominais que marcam o ponto de vista a partir do qual se forma o sujeito, ou para quem ele é humano. Isto é importante porque revela qual é o sujeito que está ativado pela perspectiva enunciada. A realidade é produzida por uma continuidade metafísica (dada pela potencialidade da alma) e por uma descontinuidade física (dada pelos diferentes pontos de vistas que se desdobram dos corpos). Daí decorre a elaboração central de que a diferença é da ordem do mundo que se forma a partir de um sujeito específico (multinaturalismo perspectivista), e não da sua elaboração cultural (relativismo cultural ou multiculturalismo). É nesse sentido que podemos dizer que o perspectivismo é uma torção radical do pensamento antropológico: ele abala seus fundamentos epistêmicos. Viveiros de Castro retira rendimentos adicionais do conceito operando uma inflexão na teoria antropológica contemporânea com o auxílio dos diálogos filosóficos que estabelece com o pós-estruturalismo de Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992) e com o barroco de Gottfried W. Leibniz (1646-1716), e que conduz, entre outras coisas, ao que se conhece como “virada ontológica” na antropologia.

Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima têm apontado, ademais, que o perspectivismo deve ser entendido como um mecanismo de descolonização do pensamento; ele não serviria para descrever os mundos ameríndios, mas para formar uma pragmática da especulação, para pensar o que pode se tornar plausível e operar aberturas no real que nos permitam, como declarou recentemente Lima, “pensar na presença dos índios”.

Como citar este verbete:
MACIEL, Lucas da Costa. “Perspectivismo ameríndio”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2019. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/conceito/perspectivismo-amerindio

ISSN: 2676-038X (online)

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data de publicação
28/07/2019
autoria

Lucas da Costa Maciel

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