ação

Stanley Tambiah

Nascido no Ceilão (atual Sri Lanka) de família tâmil, o antropólogo Stanley Jeyaraja Tambiah (1929-2014) iniciou sua trajetória acadêmica nas áreas de sociologia e economia. Fluente em cingalês, inglês e tâmil, graduou-se na Universidade do Ceilão (1951) e obteve o doutorado em sociologia na Universidade de Cornell (1954), ambas no Sri Lanka. Foi antropólogo da UNESCO na Tailândia (1960-1963) e integrou os quadros acadêmicos da Universidade de Cambridge como lecturer do King’s College (1963-1972). Em seguida (1973-1976) teve uma breve passagem como docente na Universidade de Chicago, acabando por se fixar permanentemente na Universidade de Harvard (1976-). Ainda que sociólogo de formação, Tambiah manteve contato estreito e permanente com a antropologia, sendo sua tese de doutorado (cujos argumentos vêm a público em artigo de 1957), um esforço de síntese entre as duas áreas. A transição mais efetiva para a antropologia deu-se durante uma pesquisa de campo sobre organização social e parentesco no Sri Lanka, onde percebeu as limitações do survey como metodologia de coleta de dados e as possibilidades que a etnografia oferecia para revelar os nexos e sentidos das inter-relações sociais.

A trajetória dos temas de pesquisa do autor foi traçada pelas primeiras etnografias que realizou no Sri Lanka e na Tailândia. Ao tomar contato com a vida rural desses países, coletou amplo material sobre aspectos da organização social, parentesco, economia agrária, posse de terra e rituais. É nesse contexto que passa a dedicar-se aos estudos de religião, concentrando suas pesquisas nos monastérios das aldeias. Suas preocupações não estavam centradas apenas nos rituais, na magia e na religião, mas também nas relações entre os monges e as populações locais, assim como nos conflitos étnicos e políticos; após a independência do Sri Lanka, em 1948, o país viveu uma onda de revivalismo cingalês, que reivindicava uma identidade budista e nacionalista em detrimento da minoria tâmil. A guerra civil desencadeada pela questão tâmil-cingalesa tornou-se uma preocupação teórica e política central para Tambiah, que buscou entender o budismo nas aldeias enquanto uma religião popular. Desde então, procurou pensar a religião em seus aspectos políticos e rituais, especialmente quando ligados a ordens políticas mais amplas, como a nação.

No começo de sua temporada em Cambridge (1963), Tambiah toma contato com as ideias estruturalistas propagadas pelo antropólogo britânico Edmund Leach (1910-1989), através do qual conhece o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Essa influência o inspirará a escrever sobre o tema das classificações, como no trabalho Animals are good to think and good to prohibit (1969). O antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902-1973) e o linguista John Langshaw Austin (1911-1960) são outras referências fundamentais para as reflexões de Tambiah sobre linguagem e ritual no texto Form and Meaning of Magical Acts (1985).

Um de seus mais célebres estudos é o ensaio The Magical Power of Words (1968), fruto de uma comunicação proferida na London School of Economics, durante um evento que debateu o legado teórico do antropólogo britânico Bronislaw Malinowski (1884-1942) para a antropologia. Neste ensaio, ele desenvolve uma reflexão crítica sobre magia e ritual, duas noções consagradas na antropologia, a partir dos conceitos de magia simpática e por contágio, ambas propostas pelo antropólogo britânico James Frazer (1854-1941), e desenvolvidas por Roman Jakobson (1896-1982) no ensaio Two Aspects of Language and Two Types of Aphasic Disturbance (1956).

Neste ensaio emblemático, o autor articula o material etnográfico a uma perspectiva pragmática sobre a linguagem a partir das reflexões do filósofo John Austin e da leitura crítica de textos e autores clássicos da antropologia. Seu objetivo é mostrar a eficácia da linguagem na ação ritual, mostrando que ela não difere da linguagem usada no cotidiano, exceto pela maneira dramatizada e intensificada com que é mobilizada. Dessa maneira, o ritual revelaria – em sua expressão intensificada – o que é usual em outras situações sociais. Ao mesmo tempo, o autor entende que ritual e cosmologia se conectam através desses atos performativos, atualizando a distinção entre forma e conteúdo, ação e pensamento, ou entre langue e parole, nos termos de Ferdinand de Saussure (1857-1913). O modo como o autor elaborou suas reflexões sobre a eficácia simbólica do ritual iluminou diversos campos de pesquisa antropológico, como os de ritos, rituais e teatro, tendo um impacto notável na Antropologia da Performance em geral e no Brasil, em particular.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2016. "Stanley Tambiah". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/stanley-tambiah>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

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Tambiah, Stanley

A Invenção do Cotidiano

O livro A Invenção do Cotidiano (1980) do historiador e antropólogo francês Michel de Certeau (1924-1986) desdobra-se em dois tomos: Artes de fazer (volume 1) e Habitar, cozinhar (volume 2), este escrito com Luce Giard, historiadora das ciências e da religião, e Pierre Mayol, aluno de Certeau. A obra é fruto de um trabalho coletivo realizado entre 1974 e 1977, a partir de uma encomenda do Ministério da Cultura francês interessado em questões de cultura e de sociedade, e sobre as quais Certeau trabalhara em obras precedentes, por exemplo em La culture au pluriel (1974). À proposição feita, Certeau e equipe respondem pela análise das práticas culturais cotidianas, tema a partir do qual desenvolvem uma abordagem do consumo cultural, pensado como dimensão criadora e inventiva.

Debord, Guy. THE NAKED CITY - Illustration de l'hypothèse des plaques tournantes en psychogeographique, 1957.No primeiro e mais difundido volume da obra, em função de pesquisa empírica detida, o autor esboça uma reflexão sobre as práticas ordinárias, aproximando-as dos “modos de fazer” das pessoas comuns, atento às diversas maneiras pelas quais fazem uso de regras e convenções impostas por uma ordem social e economicamente dominante. Para isto, escolhe para análise campos corriqueiros de ação: o espaço, a língua, a crença, entre outros. Trata, por exemplo, do caminhar pela cidade como um modo de “praticar o espaço” e apropriar-se do traçado urbano, não previsto pelos planos urbanísticos; examina também relatos de milagres entre os lavradores de Pernambuco que, ao mesmo tempo, que partem de preceitos do catolicismo tradicional, produzem “modos de crer” diversos; ou, ainda, do ato corriqueiro de ler, considerado como uma forma de apropriação do texto pelo leitor, que o realiza segundo seus códigos próprios de percepção e interesses. O segundo volume da obra, por sua vez, visa “traçar as interligações de uma cotidianidade concreta” por meio de vasto material etnográfico, estatístico, cartográfico e de entrevistas, reunido por Pierre Mayol que investiga as práticas do habitar no então bairro operário de Croix-Rousse em Lyon, e por Luce Giard, que se detém sobre as práticas de cozinhar.

A Invenção do cotidiano ancora-se em ideias e procedimentos provenientes de diversos campos de conhecimento: história, teologia, educação, psicanálise, filosofia, antropologia e linguística. Michel de Certeau aponta como suas principais inspirações a psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939); a filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e John Langshaw Austin (1911-1960); a antropologia de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e a filosofia de Immanuel Kant (1724-1804). Ao mesmo tempo, estabelece interlocuções fundamentais com Michel Foucault (1926-1984) e Pierre Bourdieu (1930-2002), a partir das quais delimita o campo das práticas; e com Marcel Detienne (1935) e Jean-Pierre Vernant (1914-2007) com quem dialoga para definir sua noção de tática. Duas obras de Foucault e Bourdieu são especialmente importantes nesses diálogos: Vigiar e Punir (1975), na qual Foucault relata a emergência de um novo tipo de controle sobre os sujeitos e seus corpos, sintetizada pelo modelo do panóptico e Esboço de uma teoria da prática (1972), na qual Bourdieu analisa instituições das sociedades kabila do norte da Argélia. Problematizando o olhar centrado exclusivamente nos procedimentos de controle (Foucault) e na ideia de determinação do habitus (Bourdieu), Certeau coloca o seu foco, não na imposição de padrões de comportamento, mas nos diferentes modos pelos quais as práticas cotidianas podem subverter imposições e controles diversos. A distinção entre “estratégia” e “tática” é central para o desenvolvimento da noção de prática cotidiana do autor, mais próxima do segundo termo. A ideia de tática inspira-se na análise que Detienne e Vernant realizam sobre a noção grega antiga de métis, forma astuciosa ou ardilosa de inteligência; trata-se formas de saber e conhecimentos práticos, que dependem de uma ocasião, ou momento oportuno (kairós) para serem colocados em ação.

A amplitude de inspirações teóricas em A Invenção do Cotidiano e os alcances da abordagem original da vida social e da cultura que apresenta fizeram da obra uma referência para estudos nas áreas de História, Antropologia, Educação, Literatura, Estudos Urbanos e Culturais, entre outros.

Como citar este verbete:
PEREIRA, Bruno Ribeiro da Silva & MACHINI, Mariana Luiza Fiocco. 2016. "A Invenção do Cotidiano". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/invenção-do-cotidiano>

autoria

Bruno Ribeiro da Silva Pereira e Mariana Luiza Fiocco Machini

bibliografia

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CERTEAU, Michel de, GIARD, Luce & MAYOL, Pierre, L’invention du quotidien : 2. Habiter, cuisiner, Paris, Gallimard, 1980 (Trad. Bras. Ephrain F. Alves e Lúcia Endlich Orth. Petrópolis, Vozes, 2014).

CERTEAU, Michel de, Histoire et psychanalyse entre science et fiction, Paris, Gallimard, 1987 (Trad. Bras. Guilherme J. de Freitas Teixeira. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2011).

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FOUCAULT, Michel, Surveiller et punir: Nassaince de la prision, Paris, Gallimard, 1975 (Trad. Bras. Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 2000).

LÉVI-STRAUSS, Claude, La pensée sauvage, Paris, Plon, 1962 (Trad. Bras. Tânia Pellegrini. Campinas,  Papirus, 1989).

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Invenção, Cotidiano

Linguagem e Ritual - Pierre Bourdieu

As considerações do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) sobre as relações entre linguagem e ritual, presentes no conjunto de artigos que compõem a obra A economia das trocas linguísticas. O que falar quer dizer (1982), derivam inicialmente de uma crítica às ideias do filósofo e linguista britânico J. L. Austin (1911-1960). Segundo Austin, a força ilocutória do discurso, sua capacidade de promover ações, encontra origem nas próprias palavras, entendidas como objetos autônomos, ideias que, em linguística, ficaram conhecidas como a “teoria dos atos da fala”. Para Bourdieu, haveria um equívoco nas formulações dos linguistas cuja origem epistemológica remonta à divisão que F. Saussure (1857-1913) realizou entre a ciência da língua (linguística interna) e a ciência dos usos sociais da língua (linguística externa). Bourdieu rejeita ainda o argumento de que as palavras fazem “coisas” – tal como indicava o próprio título da obra mais influente de Austin “How to Do Things with Words” (1962), pois a eficácia da linguagem verbal, sobretudo em termos rituais, não deve ser entendida de forma autônoma, independente das condições sociais de sua produção. Em qualquer tipo de linguagem, segundo ele, devem ser consideradas as condições institucionais de produção e recepção dos discursos. Para o sociólogo, a ação mágica estende à natureza a ação verbal que, sob certas condições, afeta os homens; nesse sentido interessam-lhe sobretudo os atos do que denomina “magia social”. Tais atos não podem ser realizados por qualquer agente; a maneira e a matéria do discurso proferido (pelo agente autorizado a realizá-lo) dependem da posição social do interlocutor, que comanda o acesso ao que ele chama de “palavra legítima”. Assim, a linguagem ritual está circunscrita a um conjunto de condições interdependentes que compõem o ritual social. A magia dos ritos é dirigida pelo sistema das relações sociais constitutivas do próprio ritual e não pelos discursos e conteúdos de consciência.

Jeu de PaumeTomando a linguagem ritual em sentido amplo, não apenas em seu aspecto verbal, Bourdieu realiza considerações críticas à teoria dos ritos de passagem formulada por Van Gennep (1873-1957) e ampliada por Victor Turner (1920-1983), sugerindo uma mudança na abordagem relativa a esses rituais, da passagem à “separação, o que o leva a propor os “ritos de instituição”. Segundo ele, a descrição dos detalhes simbólicos dos rituais tende a mascarar o efeito essencial do rito: a separação entre iniciados e não-iniciados. Tal mudança de foco e de designação seria capaz de ampliar o poder de generalização e explicação dos rituais sociais, pois os ritos de instituição, além de confirmarem diferenças inscritas na natureza – como os ritos de circuncisão que marcam e confirmam, mais do que a diferença entre homens e meninos, a distinção entre homens e mulheres – seriam capazes de inscrever e naturalizar diferenças presentes no contínuo do tecido social, como fazem os concursos, premiações e investiduras. Bourdieu retoma aí a importância da “linguagem autorizada” de um sistema social constituído por agentes, instituições e palavras adequadas, que servem de base para a validade e reconhecimento do ritual de instituição. Este ritual produz distinções que delimitam as diferentes classes, o que termina por imprimir no iniciado uma segunda natureza, um habitus, com a ajuda de liturgias específicas.

A teoria dos ritos de instituição pode ser entendida como tributária da teoria bourdiana da distinção social. Em A distinção (1979) o autor explica o funcionamento de “estratégias de condescendência: o privilégio que elementos das camadas sociais mais altas possuem, graças à sua consagração nos diversos ritos de instituição, de transgredirem os limites estabelecidos, aproximando-se do comportamento ou da linguagem das camadas inferiores. Este é, por exemplo, o ato do intelectual que usa a linguagem informal em espaços de formalidade, ou do aristocrata que bate nas costas do cavalariço. Em atos como estes, produz-se um adicional: o de tomar liberdades com o próprio privilégio sem que a posição ou distinção, do intelectual ou do  aristocrata, seja colocada em dúvida.

Como citar este verbete:
ASSÊNSIO, Cibele Barbalho & OLIVEIRA JÚNIOR, Jorge Gonçalves. 2015. "Linguagem e Ritual - Pierre Bourdieu". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/linguagem-e-ritual-pierre-bourdieu>

autoria

Cibele Barbalho Assênsio e Jorge Gonçalves de Oliveira Júnior

bibliografia

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BOURDIEU, Pierre, Ce que parler veut dire: l'économie des échanges linguistiques, Arthème Fayard, 1982 (Trad. Bras. Sérgio Miceli.  São Paulo, EDUSP, 1996).

BOURDIEU, Pierre, Esquisse d'une théorie de la pratique précédé de Trois études d'ethnologie kabyle, Genève, Droz, 1972 (Trad. Portuguesa, Oeiras, Celta Editora, 2002).

BOURDIEU, Pierre, Le pouvoir symbolique, Paris, Éditions de Minuit, 1989 (Trad. Bras. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992).

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Linguagem e Ritual - Pierre Bourdieu

A representação do Eu na vida cotidiana

A Representação do Eu na vida cotidiana (1959) é o primeiro e um dos mais conhecidos livros do sociólogo canadense Erving Goffman (1922-1982). Nele, o autor propõe uma abordagem microssociológica para interpretar a vida social a partir de uma análise das interações face a face, lançando mão de vocabulário e perspectiva provenientes do teatro. O livro se ampara no material de sua tese de doutorado, fruto de pesquisa etnográfica junto a uma comunidade agrícola nas Ilhas Shetland, e em uma miríade de outros exemplos extraídos da vida cotidiana.

Nos sete capítulos que compõem a obra, o autor observa pequenos detalhes das interações humanas. A vida social é compreendida como um palco em que se encenam papéis sociais diversos, de modo que o indivíduo não é o mesmo em todas as circunstâncias: se ele for um policial e estiver em período de trabalho, por exemplo, utilizará um vocabulário específico, diferente daquele empregado quando está em sua casa e cumpre os papéis de pai e marido, ou quando encontra amigos para uma partida de futebol. Goffman parte do pressuposto de que uma interação, ou seja, a influência recíproca dos indivíduos em contato, é estabelecida de acordo com uma definição prévia de hierarquias, papéis e expectativas envolvidas em cada encontro. Uma vez negociado e compreendido o que está em jogo em uma dada interação, o indivíduo passa a gerir a apresentação do seu Eu (Self) em relação às impressões anteriormente estabelecidas, com vistas a alcançar objetivos formulados previamente, de maneira consciente ou não. Desse modo, cada interação social se estabelece de acordo com os atores (reunidos ou não em equipes), com a plateia, e com as expectativas estabelecidas entre eles.

O vocabulário do teatro serve à compreensão da capacidade expressiva que permite ao indivíduo passar uma determinada impressão. Tal expressividade envolve duas espécies diferentes de recursos significativos: aqueles que o ator “transmite” e aqueles que ele “emite”. Os primeiros são os símbolos verbais utilizados para veicular a informação; os segundos, caros ao argumento do livro, dizem respeito a aspectos corporais, não verbais e contextuais, propositais ou não, envolvidos na interação. Muito além do que é dito por um chefe de Estado, por exemplo, espera-se dele certa atitude corporal e um modo de se apresentar em público condizentes com a posição que ele ocupa. A não observação dessa etiqueta pode causar embaraços. Assim, a representação ou performance elaborada previamente nos bastidores e executada por meio da mobilização dos diversos equipamentos expressivos corre riscos caso a cooperação entre o ator e seus observadores seja perturbada por impressões emitidas sem intenção prévia, podendo gerar assimetrias, constrangimentos ou mal-entendidos. Por esse motivo, os pressupostos precisam ser negociados tanto antes quanto no curso da interação. O indivíduo emprega estratégias para a manutenção de uma impressão aceitável para si e para o observador em uma dada situação, como quando um professor assume uma postura firme no primeiro dia de aula para denotar autoridade que, a depender da situação, pode ser negociada posteriormente.

Ilya Repin, 'Um café parisiense', 1875. Óleo sobre tela, 20.6 x 191.8 cm, col. particular.

Goffman denomina “fachada” o equipamento expressivo de tipo padronizado e fixo mobilizado pelo ator antes e ao longo da interação. A fachada compreende o cenário que serve de palco ao desenrolar da ação, e a “fachada pessoal”, que envolve a aparência, cuja observação revela o status social e o tipo de atividade a que o ator se dedica em um determinado momento, e a maneira, que são estímulos e comportamentos como humildade, agressividade, submissão ou arrogância, que informam sobre os papeis cumpridos em cada situação. É preciso que exista uma coerência entre as duas características da fachada pessoal para que a comunicação seja bem sucedida, de forma que, enfatizando certos aspectos em detrimento de outros, o indivíduo transmita consciente ou inconscientemente a impressão desejada.

Este conjunto de preocupações faz com que Goffman seja frequentemente associado ao interacionismo simbólico - corrente à qual se associam os nomes de Herbert Blumer (1900-1987) e George Herbert Mead (1863-1931) –em virtude de sua formação na Escola de Chicago e de sua ligação com a obra de Georg Simmel (1858-1918). Mas em A Representação do Eu na vida cotidiana, ainda que atento às interações cotidianas, o autor aponta para possibilidades de análise em nível macroestrutural, fato que, segundo alguns de seus estudiosos, o distanciaria de uma filiação interacionista estrita. Para além de classificações, a abordagem do autor faz com que ele seja lido por antropólogos, psicólogos, teóricos da comunicação e da dramaturgia.

Como citar este verbete:
MACIEL, Diogo Barbosa & BERBEL, Gustavo dos Santos. 2015. "A representação do Eu na vida cotidiana". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/representação-do-eu-na-vida-cotidiana>

autoria

Diogo Barbosa Maciel e Gustavo dos Santos Berbel

bibliografia

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FRÓIS, C.O., “A Reinvenção do Eu Através do discurso: narrativa, estigma e anonimato nas famílias anônimas”, Mana, Rio de Janeiro, Museu Nacional, vol.13, n. 1, 2007, p. 63-84

GASTALDO, E.,  Erving Goffman, desbravador do cotidiano,  Porto Alegre, Tomo editora, 2004

GOFFMAN, E., The presentation of self in everyday life, EUA, Anchor Books Edition, 1959 (Trad. Bras. Maria Célia Santos Raposo. Petrópolis, Vozes, 2005, 13ª Edição)

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GOFFMAN, E.,  Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience (Trad. Bras. Gentil A. Titton. Petrópolis, Vozes, 2012)

GOFFMAN, E., Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity, London, Penguin, 1963 (Trad. Bras. Márcia B. de M. Leite Nunes. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1983)

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Representação do Eu na vida cotidiana, A

Ritual - Roy Wagner

O “ritual” é, para Roy Wagner (1938), análogo à “cultura”: ambos constituem um estilo interpretativo, um modo criativo que se utiliza de distinções convencionais para improvisar e produzir a diferença. A diferença entre eles é que o conceito de “cultura” é mobilizado para designar fenômenos mais abrangentes, enquanto o “ritual” é parte da “cultura” e constituiu uma modalidade específica de ação criativa que opera dentro dela como um controle. A especificidade do rito reside, em primeiro lugar, no seu caráter não-cotidiano; trata-se de uma ação que metaforiza distinções sociais tidas como dadas durante a vida regular do grupo. A motivação para essa manipulação deliberada das convenções sociais é a necessidade de controlar uma situação ou evento diferenciante que, tomado como uma força dada, se converte em algo ameaçador e ambíguo para a convenção. Essas situações diferenciantes são frequentemente percebidas como um poder que transcende a ação humana ordinária. Para garantir algum tipo controle social sobre essas forças, mobiliza-se uma distinção entre “cotidiano” e “cerimonial”, de modo a estabelecer um contato direto com elas e metaforizá-las segundo as convenções de que se lançou mão. A especificidade da invenção ritual consistiria no seu caráter de ação coletiva, capaz de mobilizar não apenas um indivíduo  ou conjunto de indivíduos, mas um contingente maior da coletividade social.           

INCT InclusãoUm exemplo empírico de “ritual” pode ser tomado da análise realizada em Habu: The Innovation of Meaning in Daribi Reluigion (1972). O argumento parte da cerimônia Habu que o antropólogo assistiu e descreveu durante o seu trabalho de campo junto aos Daribi, povo da Nova Guiné. O pano de fundo sobre o qual esse ritual inova é chamado pelo autor de “ideologia social” daribi e inclui domínios como a mitologia, o parentesco, os papéis sexuais, os sistemas de trocas e obrigações rituais, os sistemas de nominação etc. Dentre a variedade de metáforas encontradas nos mitos da Papua Nova Guiné, o autor põe especial relevo no mito da maldição de Soul, em que o demiurgo dos Daribi, após ser envergonhado pelas mulheres, lança a maldição da mortalidade sobre a humanidade. Os mitos são pensados como metáforas que atualizam a ideologia dos Daribi, marcada pelos papéis sexuais que opõem e contrastam o masculino e o feminino. Esta divisão é expressa tanto nos mitos, como na divisão do trabalho, na troca de riqueza, na magia e nos rituais a partir das relações de complementaridade ou de substituição que elas engendram. A interação desses dois aspectos da ideologia Daribi requer uma constante mediação feita por meio de metáforas.

A noção de mortalidade se estende, através de metáforas complementares, pela cosmologia, divisão espacial e temporal do mundo daribi, e constituiu um ponto central de sua ideologia. O Habu, por sua vez, está diretamente ligado a um domínio que inova sobre essa ideologia central: a questão da invenção da imortalidade. A maldição de Soul é combatida pela personificação do fantasma (izibidi), que é o ato de transcender a morte e “inventar a imortalidade”. Os Daribis mediam suas relações com os fantasmas por meio de metáforas. O médium ou xamã (sogoyezibidi) “impersonaliza” uma metáfora entre fantasmas e humanos, aliando as capacidades dos vivos e propriedades dos mortos, controlando estes por um nexo de posse. Essa oposição é incorporada pelo fantasma e representa uma inovação sobre a ideologia, onde o médium inova sobre o convencional, uma vez que seu fantasma é uma inovação sobre suas próprias limitações humanas, ultrapassadas pelo poder do fantasma que agora é personificado por ele. A cerimônia Habu seria também um modo de controlar a relação de possessão e uma maneira semelhante de inovar sobre o convencional. Contudo, enquanto as práticas ditas xamânicas o fazem a partir de uma intervenção individual do sogoyezibidi, o Habu consiste fundamentalmente  em uma ação coletiva.

Em A Invenção da Cultura (1975), a palavra “ritual” aparece entre aspas na maioria das vezes em que é empregada pelo autor. Com isso, Wagner deixa marcado que, quando fala em cultura, está mencionando certa tradição ou convenção que a utilizou. A abundância no uso de aspas constitui, assim, uma maneira de Wagner mostrar que seu conceito de “cultura”, ao mesmo tempo que se diferencia da acepção antropológica corrente, necessita dessa convenção para ter sentido. Pode-se compreender, a partir daí a inovação análoga que ele propõe para o tema do “ritual”. A convenção constitui apenas a metade do mundo do significado. A outra dimensão a ser considerada é aquela pertinente à invenção, designada por Wagner por um conjunto de termos diversos: “metáfora”, “improvisação”, “impersonação”, “diferenciação”. Nela, o sentido é alcançado pela extensão dos contextos simbólicos convencionais a novas situações e eventos. Do ponto de vista do autor, estes dois modos de significação estão necessariamente envolvidos em todo ato de simbolização eles são ao mesmo tempo interdependentes e contraditórios entre si. Um agente simbolizador necessariamente mobiliza no ato de criação de significado esses dois modos, tendo, contudo, que concentrar sua atenção em apenas em um deles, que se torna o controle, e passando a perceber o outro como uma motivação ou uma compulsão que transcende e motiva sua ação. Esse ajuste de foco tem como duplo efeito converter um dos modos no domínio do dado, do inato, e tornar o outro modo o reino do construído, próprio para a ação e a responsabilidade humanas.

Como citar este verbete:
DOS SANTOS, Augusto Ventura & PINTO FILHO, Olavo Souza. 2015. "Ritual - Roy Wagner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/ritual-roy-wagner>

autoria

Augusto Ventura dos Santos e Olavo de Souza Pinto Filho

bibliografia

WAGNER, Roy, Habu: The Innovation of Meaning in Daribi Religion, Chicago, The University of Chicago Press, 1972.

WAGNER, Roy, The invention of culture, The University of Chicago Press, 1975 (Trad. Bras. Marcela Coelho de Souza e Alexandre Morales. São Paulo: Cosac Naify, 2010)

WAGNER, Roy,  “Ritual as comunication: Order, Meaning, and Secracy in Melanesian Initiation Rites”, Annual Review of Anthropology, vol. 13, 1984, p. 143-155.

GOLDMAN, Márcio, “O fim da antropologia. Resenha sobre A Invenção da Cultura”, Novos estudos, São Paulo, CEBRAP, n.89, 2011, p.195-211.

DULLEY, Iracema, Os nomes dos Outros: alteridade e comunicação em Roy Wagner, Tese (Doutorado em Antropologia Social), Universidade de São Paulo, 2012, 163p.

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Ritual - Roy Wagner

The Magical Power of Words

A pergunta que norteia o ensaio The Magical Power of Words (1968) do antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) refere-se à potência mágica que as palavras possuem no contexto ritual. O autor elege a linguística como fonte teórica para discutir a relação entre atos e palavras, de modo a problematizar a concepção antropológica clássica que vê o ritual como repetição de palavras, atos não verbais, manipulação de objetos e, ainda, a partir da oposição entre magia e religião. Ao descrever um complexo ritual de exorcismo no Sri Lanka (Ásia do Sul), Tambiah indica que as palavras podem ser proferidas em diferentes idiomas, mostrando-se: coloquiais ou eruditas (acompanhadas de música ou oferendas de alimentos); ditas em voz baixa ou alta, ou em uma variedade de tons, hierarquias e intenções. Na forma de feitiços, elas podem ainda conter alusões abreviadas aos mitos, que são cantados na ordem da progressão da cura, articulando o ritual à cosmologia que ele encarna, e indicando a presença de duas lógicas que atuam articuladamente: uma que corresponde ao panteão e à teologia na relação com os homens, deuses e espíritos, e a outra que diz respeito à comunicação entre o exorcista e o paciente na passagem da doença para a cura. No âmbito específico da discussão da linguagem no ritual, o autor enfatiza as distinções entre os usos das línguas profanas, seculares e sagradas, posto que prefiguram os sentidos de cada aspecto e etapa do ritual, e a importância dos papéis desempenhados pelos seus executores, que atuam como mediadores no contato com o divino, em rituais de cura, iniciação etc.

ritual de cura no Sri Lanka, dança das 8 máscaras Sanniya yakA proposta de Tambiah de reanálise da magia trobriandesa, estudada por Malinowski (1884 -1942) está baseada em algumas premissas, a saber, que o uso da linguagem no ritual não é qualitativamente diferente do seu uso ordinário, e que seu sistema combina palavra e gesto, linguagem e ação. Ele toma como ponto de partida a elaboração de Roman Jakobson (1896-1982) a respeito da afasia (1956), na qual discute os dois mecanismos da linguagem - o metafórico e o metonímico - baseados nos princípios de semelhança e contiguidade: o primeiro permitindo abstrações através de substituições e o segundo, a construção de uma totalidade a partir das partes, procedimentos estes postos em prática pela magia trobriandesa no contexto da ação.

A abordagem do ritual, tal como construída nesse ensaio com o auxílio de narrativas etnográficas dissolve dicotomias recorrentes, como aquelas entre linguagem/ação, mito/rito, ação/representação. O ritual como ato performativo tem um objetivo integrador e coletivo; seus procedimentos combinam ações verbais e não verbais, e a linguagem aí mobilizada tem o poder de invocar imagens e comparações, projetando o futuro e permitindo voltar ao passado. Ao recuperar Malinowski e sua etnografia linguística do ritual, assim também como as formulações de do filósofo inglês John Austin (1911-1960) sobre a dimensão performativa da fala, Tambiah demonstra que no pensamento mágico, magia e prática, mito e rito, ação e palavra constituem-se mutuamente, numa relação indestrinçável.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2015. "The Magical Power of Words". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/magical-power-words>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

JAKOBSON, R., "Two aspects of language and two types of aphasic disturbance" In: R. Jakobson,  e M. Halle, Fundamentals of language, The Hague, Mouton, 1956.

PEIRANO, Mariza (org), O dito e o feito: ensaios de antropologia dos rituais, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ, 2002.

TAMBIAH, S., “The magical power of words” (Malinowski Memorial Lecture, 1978), Man vol. 3, n. 2, 1968, p. 175-208.

TAMBIAH, S., “Animals are good to think and good to prohibit”. Ethnology, vol. 8, n. 4, 1969, p. 423-459.

TAMBIAH, S., “Form and Meaning of Magical Acts” In: Cultura, Thought and Social Action, Cambridge, Mass, Harvard University Press, 1985.

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Magical Power of Words, The

A Prece

A Prece (1909) é um fragmento da tese de doutorado inacabada do antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950), na qual ele argumenta que o fenômeno constitui um dos elementos centrais da vida religiosa, de maneira que uma análise da evolução das formas da oração permitiria demonstrar o processo de evolução da religião em geral.

O estudo da prece, nos termos do autor, segue uma metodologia de tipo histórico-genético, em que a análise se inicia a partir de formas consideradas mais elementares, para chegar até formas ditas mais complexas. O objetivo é mostrar como as segundas surgiram a partir das primeiras, descrevendo a ordem de sua gênese por meio de uma sucessão histórica. Ao apresentar a metodologia proposta, Mauss faz uma comparação com outra possibilidade metodológica, de tipo esquemático, utilizada anteriormente com Henri Hubert (1872-1927) no ensaio Sobre a natureza e a função do sacrifício (1899), e defende que os dois métodos são igualmente válidos. No entanto, em A Prece ele opta pelo primeiro tipo, considerado mais adequado ao seu objetivo, que é estudar as origens da prece e seus processos de evolução a partir da análise do material etnográfico de sociedades australianas, consideradas então as mais primitivas. Tratar de evolução não significa explicar o complexo pelo simples, diz ele, já que as formas rudimentares não são mais simples do que as formas tidas como mais complexas; trata-se, isto sim, de complexidades diferentes.

A prece, neste ensaio, é considerada um fenômeno religioso, ou mesmo o fragmento de uma religião, sendo esta definida como um sistema de crenças e práticas coletivas dirigidas a seres sagrados reconhecidos pela tradição. Portanto, ao considerar a prece como narrativa religiosa, produto do esforço acumulado dos homens e gerações, o autor afirma que ela é antes de tudo um fenômeno social, pois mesmo quando o crente seleciona a seu modo os termos da oração, naquilo que diz ou pensa, nada mais faz do que recorrer a frases consagradas pela tradição. A prece é social não só devido ao conteúdo, mas também à forma, uma vez que ela não existe fora do ritual. Nesse sentido, o autor argumenta que não é na prece individual que está o princípio da oração coletiva; ao contrário, é no caráter coletivo que se encontra o princípio da oração individual. Embora não recuse a oposição indivíduo/sociedade, cara à escola sociológica francesa, o autor mostra que a prece associa as duas dimensões: sendo um fenômeno social, ela é também, e em certo grau, um fenômeno individual, pois cada indivíduo escolhe o momento em que reza e, no limite, cria a sua prece.

Situando o conceito em relação a outros, previamente definidos, Mauss classifica-o como rito, na medida em que a prece é, segundo ele, ato tradicional. A noção de rito, por sua vez, é categorizada a partir da distinção entre ritos mágicos e religiosos. Os ritos mágicos são geralmente realizados por feiticeiros e possuem eficácia por si sós; são ainda de tipo determinista, uma vez que seus efeitos são imediatos. Já os religiosos costumam ser realizados por sacerdotes, reivindicando a ação de seres sagrados; sua eficácia é, portanto, contingente com relação à intervenção divina. O autor define a prece como um ritual religioso distinto dos encantamentos mágicos, na medida em que busca a intervenção de forças sagradas em um determinado contexto, enquanto o encantamento, possuindo caráter mágico, tem eficácia imediata. Mas tal diferenciação não é rígida e definitiva: de acordo com os exemplos etnográficos apresentados, há uma gama de variações e graus de transição entre ritos mágicos e religiosos, entre encantamentos e preces. O autor distingue ainda os ritos religiosos em manuais e orais: os primeiros consistem no uso das expressões corporais e deslocamento de objetos; os segundos são locuções rituais.

Poren, dois homens e uma mulher rezando em um santuário budista, álbum Xiao-Tsu, sec. XVIII, Wellcome CollectionAo conceber a palavra como ato que produz efeito, e que visa uma determinada finalidade, o ensaio de Mauss é precursor ao trazer ideia de que o ritual pode ser pensado a partir da linguagem, considerada como portadora de eficácia. A prece associa assim ação e pensamento, uma vez que participa ao mesmo tempo da natureza do rito e da natureza da crença: rito, pois é ato realizado tendo em vista coisas sagradas; crença, na medida em que toda oração exprime um mínimo de ideias e sentimentos religiosos. Por meio da prece o autor observa, então, a relação entre rito e mito, afirmando que o rito contém crenças específicas que o orientam e que lhe conferem legitimidade, enquanto que o mito somente adquire sentido na prática através dos rituais.

Dentre os diversos rendimentos teóricos que a análise maussiana da prece oferece, é central a sugestão do autor de que é possível por meio deste fenômeno, associar, sem recusar, diferentes oposições como mito/rito, ação/pensamento e sociedade/indivíduo. Mesmo inacabada, A Prece é um ensaio de caráter programático em que Mauss lança diversas contribuições para os estudos voltados à teoria do ritual e da linguagem.

Como citar este verbete:
HAIBARA, Alice & OLIVEIRA, Maria Izabel Zanzotti de. 2015. "A Prece". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/prece>

autoria

Alice Haibara e Maria Izabel Zanzotti de Oliveira

bibliografia

CABRAL, João de Pina, “A Prece Revisitada: comemorando a obra inacabada de Marcel Mauss”, Religião e sociedade, vol. 29, n. 2, Rio de Janeiro, 2009, p. 13-28

Mauss, Marcel, La Prière, Paris, Félix Alcan Editor, 1909 (Trad. Bras. Luiz João Gaio e Jacob Ginzburg. São Paulo, Perspectiva, 2001)

MAUSS, Marcel & HUBERT, Henri, “Essai sur la nature et la fonction du sacrifice”, Année Sociologique, v. 2, 1899  (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac Naify, 2005)

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Prece