Estados Unidos

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society (1986), referência no seio da antropologia das formas expressivas e das emoções, é o primeiro livro publicado pela antropóloga norte americana Lila Abu-Lughod (1952-). A obra trata dos elos complexos entre organização sócio-política, sistema moral e expressão dos sentimentos entre os Awlad 'Ali, população beduína do Egito Ocidental, junto à qual ela realizou seu trabalho de campo no início da década de 1980. Em uma interpelação crítica a abordagens limitadas à homogeneidade do discurso oficial da cultura sobre ela mesma e aos modelos individualistas de tratamento das emoções, a autora constrói seu argumento em torno do contraste entre dois modos discursivos coexistentes entre os beduínos: o da vida ordinária, pautado pela honra e por uma linguagem “agressiva”, e um discurso poético que, enunciado em contextos privados, ressalta vulnerabilidade e afeição. Considerada um exemplo de análise discursiva inspirada em Michel Foucault (1926-1984), a atenção da obra de Abu-Lughod à intimidade da vida doméstica das mulheres em suas conexões com a moralidade e a organização sócio-política beduína é crucial para a elucidação da complementaridade desses discursos na lógica do sistema moral dos Awlad 'Ali e dos modos culturalmente construídos de expressar e sentir as experiências pessoais.

A relação entre as duas seções do livro está baseada nessa contraposição. Na primeira, a autora apresenta distintas facetas da ideologia oficial beduína que refletem a divergência entre o ideal igualitário da estrutura patrilinear e as hierarquias social e de gênero. De um lado, um rígido código de honra no qual a capacidade de alguns homens de “encorporar” os valores supremos do autocontrole, autonomia pessoal e política torna-se a medida para sua posição hierárquica; sendo dependentes econômica, física e socialmente, os homens jovens e, sobretudo, as mulheres estão impedidos de realizar tal ideal. De outro lado, a modéstia sexual, expressão da deferência voluntária na relação com os hierarquicamente superiores, é o modo pelo qual as mulheres expressam respeito pelo sistema hierárquico e, ao fazê-lo, valorizam-se moralmente no interior deste (a obediência deliberada ao sistema moral aparece como virtude feminina). Abu-Lughod descreve, assim, modos ideológicos por meio dos quais os Awlad 'Ali conciliam ideais igualitários e hierárquicos, demonstrando a relação dialética entre honra e modéstia, caminhos distintos que convergem para a valorização moral de famílias e pessoas.

A segunda parte da obra desdobra o contraste entre o discurso público, marcado por uma linguagem agressiva e altiva, e os ghinnawas, pequenas canções poéticas que remetem à intimidade pessoal e expressam sentimentos negados pelo sistema moral público por sua conotação de fraqueza e dependência: dor, melancolia, tristeza, amor romântico. Tal oposição emerge em distintos momentos da vida social, sobretudo nas crises de perda pessoal, como a morte e o divórcio, ou nas relações amorosas, que suscitam reações diferentes no mundo público e privado. Ao constituir meio de expressão culturalmente sancionado para sentimentos que ameaçam os valores do próprio sistema moral oficial, a poesia fornece uma imagem contrapontística ao sistema moral beduíno: o aspecto subversivo da fórmula poética tradicional é valorizado na medida em que se integra ao próprio código da honra e autonomia beduína, e da escolha virtuosa pela deferência. Trata-se, portanto, de duas linguagens disponíveis para expressar e sentir as experiências pessoais, cuja articulação reflete contradições profundas entre princípios hierárquicos e igualitários do sistema sócio-político. Nesse sentido, Veiled Sentiments abre-se na direção de debates em torno dos limites do caráter subversivo da arte e dos modos de expressão e construção cultural dos sentimentos.

Capa da nova edição do livro, comemorativa do 30o aniversário de lançamento

As resenhas a respeito do livro ­- entre as quais, uma bastante elogiosa de Clifford Geertz (1926-2006) - indicam sua recepção positiva da obra na academia norte-americana e evidenciam a multiplicidade de campos e questões que o atravessam, por exemplo, o trabalho reflexivo sobre o campo, necessário para a explicitação do vínculo entre a posição social do etnógrafo e a construção de relações específicas e situadas de conhecimento, algo vislumbrado no capítulo inicial do livro e desdobrado em sua segunda obra, Writing Women’s World (1993). Veiled Sentiments insere-se, dessa forma, ao lado de trabalhos como os de Donna Haraway (1988), Edward Said (1935-2003), George Marcus (1943) e James Clifford (1945) em uma ampla discussão acerca das relações entre política e escrita etnográfica, sobre o caráter situado do conhecimento e suas implicações éticas e epistemológicas.

Como citar este verbete:
MONTEIRO, Eduardo Santos Gonçalves. 2018. "Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/obra/veiled-sentiments-honor-and-poetry-bedouin-society>

autoria

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro

bibliografia

Abu-Lughod, Lila, Fieldwork of a Dutiful Daughter In: Altorki, Soraya & El-Solh, Camilla (ed.), Arab Women in the Field, Syracuse, Syracuse University Press, 1988

Abu-Lughod, Lila, Writing Against Culture In: Fox, Richard (ed.), Recapturing Anthropology, Santa Fe, School of American Research Press, 1991

Abu-Lughod, Lila, Writing Women’s Worlds: Bedouin Stories, Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1993

Clifford, James & Marcus, George (ed.), Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography, Berkeley & Los Angeles, University of California Press, 1986

Geertz, Clifford, “Review: Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society by Lila Abu-Lughod”, American Ethnologist: Journal of American Ethnological Society, Volume 14, Issue 3, 1987, p. 567-568

Haraway, Donna, “Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective”, Feminist Studies 14,1988, p. 575-99

Overing, Joanna & Rapport, Nigel, Social and Anthropology: The Key Concepts, London e New York, Routledge, 2000

Said, Edward, Orientalism New York: Random House, 1978 (Trad. Bras. Tomás Rosa Bueno, São Paulo, Companhia das Letras, 1990)

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Cultures of relatedness

Cultures of Relatedness (2000) é uma coletânea organizada e introduzida pela antropóloga britânica Janet Carsten, composta por oito ensaios assinados por Charles Stafford, Sharon Hutchinson, Helen Lambert, Rita Astuti, Karen Middleton, Barbara Bodenhorn, Jeanette Edwards e Marilyn Strathern (1941). Resultado de uma conferência sobre fronteiras e identidades realizada na Universidade de Edimburgo em 1996, o livro é uma resposta à Critique of the Study of Kinship (1984) em que o antropólogo norte-americano David Schneider (1918-1995) condena o método genealógico que, segundo ele, estaria baseado na suposição ocidental de preeminência da biologia na criação de laços de parentesco, concluindo ser o parentesco um conceito que não existe em outras sociedades, senão nas ocidentais. Com o objetivo de refutar as abordagens biologizantes do parentesco, os ensaios de Cultures of Relatedness buscam referências teóricas e metodológicas nos estudos de gênero e na antropologia feminista - por exemplo, nos trabalhos de Jane Collier e Sylvia Yanagisako, e nos de Judith Butler (1956) -, bem como na obra de Bruno Latour (1947), para defender que o parentesco é também construído.

A proposta de Janet Carsten é incorporar à reflexão a noção de relatedness, termo que dá relevância metodológica às dimensões do cotidiano (comensalidade, troca de nomes, amizade etc.) na produção de laços de parentesco. Os artigos do livro analisam materiais etnográficos de contextos distintos - chineses, Nuer, indianos, Vezo, Karembola, Iñupiat e os habitantes de Alltown, norte da Inglaterra - buscando entender o que significa “estar aparentado” e quais símbolos (além das substâncias biológicas) criam vínculos profundos e duradouros associados à esfera de parentes. A perspectiva defendida no volume, conhecida como o novo parentesco, utilizou-se do pensamento de Schneider para pensar a concepção de parentes em função de outras dimensões, diferentes do elo biológico. O esforço para desnaturalizar o lugar da mulher (mãe/esposa); para contestar as opressões de gênero relacionadas ao caráter natural da procriação e das diferenças fisiológicas; além da tentativa de compreender fenômenos como a adoção transnacional e o casamento homo-afetivo levou esse grupo de pensadoras a problematizar a dicotomia natureza/cultura, enfatizando a permeabilidade de suas fronteiras. Mary Bouquet, autora do capítulo de encerramento do volume, defende que a cisão biológico/social é reflexo da transição da antropologia das coleções de museus, ou de gabinete, para o método genealógico. Segundo ela, os mapas genealógicos forneceram uma análise racional às exposições em museus sobre os povos do mundo, além disso, representaram um tipo de “visão pura” sobre as sociedades e permitiram a separação entre ‘natural’ e ‘cultural’ nos estudos do parentesco. O questionamento dessa cisão (natural-cultural) é a questão chave dos trabalhos reunidos na obra cuja proposta é uma “nova antropologia comparativa” que coteja formas de conhecimento ocidentais e não-ocidentais para mostrar como elas operam afinidades e diferenças entre pessoas nas diversas maneiras de produzir, manter e desfazer “relacionalidades”.

A incorporação da noção de relatedness às discussões sobre o parentesco é considerada fundamental para que os estudos escapem da oposição biológico/social, mas Carsten pondera que pensar as “relacionalidades” afastadas da dimensão biológica, arrisca colocar outro problema: quaisquer relações poderiam ser vistas, no limite, como relações de parentesco. Esta foi justamente a porta de entrada para diversas críticas feitas à ideia de relatedness. Uma corrente que enfatiza o caráter biológico do parentesco, por exemplo Warren Shapiro e Maurice Godelier (1934), a acusou de menosprezar a importância dos aspectos reprodutivos, dando relevância às construções sociais e culturais. A etnologia americanista, especificamente Eduardo Viveiros de Castro (1951) criticou o novo parentesco por considerar que ele carrega o traço eurocêntrico da dicotomia dado/construído, específica do parentesco ocidental, apontando o caráter construído do parentesco para qualquer sociedade. A partir dessas críticas, a ideia de relatedness passou a ser conhecida como parentesco construtivista.

Imagem da família com o casal no meio, Silverdalen, Suécia. Entre 1890 e 1910. Nordiska Museet. Wikimedia Commons

Atento a esses debates, Marshall Sahlins (1930) produziu o conceito de mutuality of being que, assim como a noção de “relacionalidade”, considera os aspectos cotidianos, como comensalidade e convivência, na definição do parentesco. Ele define o parentesco como implicações mútuas construídas por meio de relações sociais. A existência coletiva compartilhada entre as pessoas e que as faz pertencer umas às outras pode ser, nos seus termos, chamada de parentesco. Nesse sentido, ele também amplia o significado do conceito se aproximando do mesmo problema posto pela ideia de relatedness: o risco do vácuo analítico, já que qualquer relação poderia ser definida como parentesco. A despeito dos limites apontados, estudos desenvolvidos pela antropologia brasileira, interessados na noção de família e suas conexões com a política, migração, gênero, ciência e memória, vêm utilizando e desdobrando as reflexões presentes em Cultures of relatedness.

Como citar este verbete:
MURILLO, Aline Lopes. 2016. "Cultures of relatedness". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/cultures-relatedness>

autoria

Aline Lopes Murillo

bibliografia

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CARSTEN, Janet, Cultures of Relatedness: New Approaches to the Study of Kinship (edited), Cambridge, Cambridge University Press, 2000

CARSTEN, Janet, After Kinship, Cambridge, Cambridge University Press, 2004

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CARSTEN, Janet, “Janet Carsten on the Kinship of Anthropology”, Entrevista concedida a Nigel Warburton. Social Science Bites, January 13, 2016, disponível em http://www.socialsciencespace.com/2016/01/janet-carsten-on-the-kinship-of-anthropology/> Acesso em julho de 2016

FONSECA, Cláudia, “De afinidades a coalizões: uma reflexão sobre a ‘transpolinização’ entre gênero e parentesco em décadas recentes da antropologia”, Ilha: Revista de Antropologia, Vol. 5, n. 2, Florianópolis, 2003, p. 5-31

GODELIER, Maurice, Métamorphoses de la parenté, Paris, Fayard, 2004

MACCORMACK, Carolyn e STRATHERN, Marilyn (eds.), Nature, culture and gender, Cambridge, Cambridge University Press, 1980

MACHADO, Igor J. R., “Parentesco, Migração e Espaço: reflexões sobre o entrelaçamento entre movimento e família”, 29ª Reunião Brasileira de Antropologia, Natal-RN, 2014

MACHADO, Igor J. R, Deslocamentos e Parentesco, São Carlos, Edufscar, 2015

PATTERSON, Mary, “Introduction: reclaiming paradigms lost”, The Australian Journal of Anthropology, n. 16, v.1, 2005, p. 1-17

SAHLINS, Marshall, “What kinship is” (part one), Journal of the Royal Anthropological Institute, n. 17, v. 1 (N.S.), 2011 p. 2-19

SAHLINS, Marshall. “What kinship is” (part two), Journal of the Royal Anthropological Institute, n. 17, v. 2 (N.S.), June 201, p. 227-242

SCHNEIDER, David, A Critique of the Study of Kinship, Ann Arbor, University of Michigan Press, 1984

SHAPIRO, Warren, “What human Kinship is primarily about: toward a critique of the new kinship studies”, Social Anthropology, n.16, v. 2, Cambridge, Cambridge University, June 2008, p. 137-153

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Stanley Tambiah

Nascido no Ceilão (atual Sri Lanka) de família tâmil, o antropólogo Stanley Jeyaraja Tambiah (1929-2014) iniciou sua trajetória acadêmica nas áreas de sociologia e economia. Fluente em cingalês, inglês e tâmil, graduou-se na Universidade do Ceilão (1951) e obteve o doutorado em sociologia na Universidade de Cornell (1954), ambas no Sri Lanka. Foi antropólogo da UNESCO na Tailândia (1960-1963) e integrou os quadros acadêmicos da Universidade de Cambridge como lecturer do King’s College (1963-1972). Em seguida (1973-1976) teve uma breve passagem como docente na Universidade de Chicago, acabando por se fixar permanentemente na Universidade de Harvard (1976-). Ainda que sociólogo de formação, Tambiah manteve contato estreito e permanente com a antropologia, sendo sua tese de doutorado (cujos argumentos vêm a público em artigo de 1957), um esforço de síntese entre as duas áreas. A transição mais efetiva para a antropologia deu-se durante uma pesquisa de campo sobre organização social e parentesco no Sri Lanka, onde percebeu as limitações do survey como metodologia de coleta de dados e as possibilidades que a etnografia oferecia para revelar os nexos e sentidos das inter-relações sociais.

A trajetória dos temas de pesquisa do autor foi traçada pelas primeiras etnografias que realizou no Sri Lanka e na Tailândia. Ao tomar contato com a vida rural desses países, coletou amplo material sobre aspectos da organização social, parentesco, economia agrária, posse de terra e rituais. É nesse contexto que passa a dedicar-se aos estudos de religião, concentrando suas pesquisas nos monastérios das aldeias. Suas preocupações não estavam centradas apenas nos rituais, na magia e na religião, mas também nas relações entre os monges e as populações locais, assim como nos conflitos étnicos e políticos; após a independência do Sri Lanka, em 1948, o país viveu uma onda de revivalismo cingalês, que reivindicava uma identidade budista e nacionalista em detrimento da minoria tâmil. A guerra civil desencadeada pela questão tâmil-cingalesa tornou-se uma preocupação teórica e política central para Tambiah, que buscou entender o budismo nas aldeias enquanto uma religião popular. Desde então, procurou pensar a religião em seus aspectos políticos e rituais, especialmente quando ligados a ordens políticas mais amplas, como a nação.

No começo de sua temporada em Cambridge (1963), Tambiah toma contato com as ideias estruturalistas propagadas pelo antropólogo britânico Edmund Leach (1910-1989), através do qual conhece o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Essa influência o inspirará a escrever sobre o tema das classificações, como no trabalho Animals are good to think and good to prohibit (1969). O antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902-1973) e o linguista John Langshaw Austin (1911-1960) são outras referências fundamentais para as reflexões de Tambiah sobre linguagem e ritual no texto Form and Meaning of Magical Acts (1985).

Um de seus mais célebres estudos é o ensaio The Magical Power of Words (1968), fruto de uma comunicação proferida na London School of Economics, durante um evento que debateu o legado teórico do antropólogo britânico Bronislaw Malinowski (1884-1942) para a antropologia. Neste ensaio, ele desenvolve uma reflexão crítica sobre magia e ritual, duas noções consagradas na antropologia, a partir dos conceitos de magia simpática e por contágio, ambas propostas pelo antropólogo britânico James Frazer (1854-1941), e desenvolvidas por Roman Jakobson (1896-1982) no ensaio Two Aspects of Language and Two Types of Aphasic Disturbance (1956).

Neste ensaio emblemático, o autor articula o material etnográfico a uma perspectiva pragmática sobre a linguagem a partir das reflexões do filósofo John Austin e da leitura crítica de textos e autores clássicos da antropologia. Seu objetivo é mostrar a eficácia da linguagem na ação ritual, mostrando que ela não difere da linguagem usada no cotidiano, exceto pela maneira dramatizada e intensificada com que é mobilizada. Dessa maneira, o ritual revelaria – em sua expressão intensificada – o que é usual em outras situações sociais. Ao mesmo tempo, o autor entende que ritual e cosmologia se conectam através desses atos performativos, atualizando a distinção entre forma e conteúdo, ação e pensamento, ou entre langue e parole, nos termos de Ferdinand de Saussure (1857-1913). O modo como o autor elaborou suas reflexões sobre a eficácia simbólica do ritual iluminou diversos campos de pesquisa antropológico, como os de ritos, rituais e teatro, tendo um impacto notável na Antropologia da Performance em geral e no Brasil, em particular.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2016. "Stanley Tambiah". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/stanley-tambiah>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

TAMBIAH, Stanley J., “Continuidade, integração e horizontes em expansão”, Entrevista à Mariza Peirano. Tradução Kátia Maria Pereira de Almeida. Mana, 3 (2), 1997, p. 199-219

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TAMBIAH, Stanley J., “The structure of kinship and its relationship to land possession and residence in Pata Dumbara, Central Ceylon”, Journal of the Royal Anthropological Institute, vol. 88, n.1, 1958, p. 21-44.
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Tambiah, Stanley

Irving Goldman

Irving Goldman nasceu em 2 de setembro de 1911, no Brooklin, em Nova York, filho de Golda e Louis Goldman, imigrantes russos, e faleceu em 7 de abril de 2002, aos 90 anos de idade. Após concluir sua graduação no Brooklin College, em 1933, ingressou na Columbia University, instituição onde foi aluno de Franz Boas (1858-1942). Seu primeiro trabalho antropológico foi realizado com os índios Modoc, na Califórnia, em 1934. Para seu trabalho final de graduação na Columbia, estudou os Ulkatcho Carrier da Columbia Britânica (entre 1935-36), no noroeste dos Estados Unidos, pesquisa publicada na coletânea Acculturation in Seven American Indians Tribes (1940). Obteve seu Ph.D. em antropologia no ano de 1941, com a tese sobre os Cubeo do rio Cuduiari, na região do Vaupés colombiano, onde esteve entre 1939 e 1940. O trabalho de campo de dez meses entre os Cubeo é apresentado preliminarmente no artigo “Tribes of the Uaupés-Caquetá region”, publicado no Handbook of South American Indians (1948), dedicado aos povos habitantes da região do Uaupés-Caquetá de modo geral. Nesse artigo, Goldman apresenta parte dos dados coletados no seu trabalho, que depois viriam a ser publicados de modo mais detalhado e sistemático como The Cubeo (1963), monografia que inaugura os estudos etnológicos com trabalho de campo prolongado no noroeste da Amazônia.  
Após a pesquisa junto aos Cubeo, Goldman retorna aos EUA e assume o cargo de professor no Brooklin College entre 1940 e 1942, tendo, em seguida, se transferido para Washington, onde trabalharia como consultor no Bureau of Latin American Research. Torna-se professor no Sarah Lawrence College em 1947, onde permanece até 1980, ano em que se aposenta. Neste período, realiza diversas pesquisas antropológicas e publicações, entre as quais: Chamula, sobre esse povo da região de Chiapas, no México, em 1955, e The First Man (1955), escrito com sua então esposa Hannah Goldman, no qual o casal apresenta, de uma perspectiva paleo-antropológica, uma história do desenvolvimento do ser humano, do homem pré-histórico às primeiras civilizações no Oriente, África e América. Além desses trabalhos, inicia na década de 1960 estudos bibliográficos sobre as sociedades da Polinésia, resultando na monografia Ancient Polynesian Society (1970). Na sequência, dedica-se ao estudo dos índios Kwakiutl da Columbia Britânica, no noroeste dos EUA, debruçando-se sobre o tema do potlach, no qual revisita o material de Franz Boas (1858-1942), pesquisa que resulta na publicação da monografia The Mouth of Heaven: An Introduction to Kwakiutl Religious Thought (1975). Nos anos 1968-70, depois em 1979, Goldman retorna aos Cubeo, quando permanece, dessa vez, junto ao clã Hehénewa, e trabalha em novo livro sobre temas do universo religioso e metafísico dessa população (livro esse que permanece inconcluso e somente seria publicado postumamente por seu amigo Peter Wilson, em 2004). Entre 1980 e 1987, Goldman ensina na New School of Social Research, na cidade de Nova York.

Irving Goldman, c. 1969, Dep. of Anthropology, Smithsonian Institution
Os anos de Goldman na Columbia University foram marcados pela antropologia de Franz Boas. Segundo Peter Wilson, na introdução à monografia de Goldman sobre os Hehénewa (2004), os trabalhos de Goldman mostram a operacionalização de muitas ideias de Boas sobre antropologia, em particular sobre métodos em geral e sobre a etnografia, em particular. O legado de Boas é notável, sobretudo na primeira monografia sobre os Cubeo, marcada por forte preocupação com a história cultural, tal como ensinava Boas, e pelo propósito de buscar um padrão de cultura, noção elaborada por Ruth Benedict (1887-1948) a partir de seu entendimento das ideias de Boas sobre cultura.

Goldman logrou conjugar a preocupação boasiana com o trabalho de campo e os estudos bibliográficos, sem estabelecer hierarquias entre os dois tipos de empreendimentos. Além disso, dedicou-se ao estudo de povos e regiões diversas, como os Modoc da Califórnia, os Ulkatcho Carrier da Colúmbia Britânica, os Cubeo do noroeste amazônico, as sociedades da Polinésia e os Kwakiutl da Colúmbia Britânica. Apesar da diversidade etnográfica e regional que caracteriza sua obra, Goldman afirma a persistência de um mesmo tema ao longo da maior parte dessas investigações: trata-se da noção de aristocracia, do sistema de ranks e das noções correlatas de poder e hierarquia, tal como se apresentam nas várias regiões etnográficas que esse antropólogo investigou ao longo da vida.

Como citar este verbete:
PEDROSO, Diego Rosa. 2016. "Irving Goldman". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/irving-goldman>

autoria

Diego Rosa Pedroso

bibliografia

CRAUDERUEFF, Mary, Register to the Papers of Irving Goldman, National Anthropological Archives, Smithsonian Institution, 2008


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GOLDMAN, Irving, "Tribes of the Uaupés-Caquetá region" In: J. H., STEWARD,  (org), Handbook of South American Indians, Washington, Smithsonian Institution, vol. III, 1948


GOLDMAN, Irving, The Cubeo: Indians of the Northwest Amazon, Urbana, The University of Illinois Press, 1963


GOLDMAN, Irving, Ancient Polynesian Society, Chicago and London, University of Chicago Press, 1970


GOLDMAN, Irving, The Mouth of Heaven: An Introduction to Kwakiutl Religious Thought, New York, John Wiley and Sons Inc., 1975

GOLDMAN, Irving, Cubeo Hehenewa Religious Thought: Metaphysics of a Northwestern Amazonian People, New York, Columbia University Press, 2004 


JACKSON, Jean, “Irving Goldman (1911-2002): A Brief Remembrance”, Tipití: Journal of the Society for the Anthropology of lowland South America, vol. 1 (1), 2003, p. 155-159

SCHILDKROUT, Enid & GOLDMAN, Irving, “A Conversation with Irving Goldman”, American Ethnologist, 16: 3, 1989, p. 551-563

 

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Goldman, Irving

Manifesto ciborgue

O Manifesto ciborgue -­ ciência, tecnologia e feminismo­ socialista no final do século XX (1985) é um ensaio escrito pela bióloga e filósofa norte-americana Donna J. Haraway (1944). Com título que alude ao Manifesto Comunista (1848) de Karl Marx e Friedrich Engels, o Manifesto Ciborgue integra um conjunto de posicionamentos públicos do feminismo socialista estadunidense acerca dos rumos dos movimentos sociais de esquerda desse país na década de 1980. Trata-se de uma obra central para a compreensão da crítica feminista da ciência proposta pela autora, que reverbera em suas obras posteriores, entre as quais Primate Visions: gender, race, and nature in the world of modern science (1990); Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature (1991); The Companion Species Manifesto: Dogs, People, and Significant Otherness (2003) e When Species Meet (2008).

Em diálogos com o feminismo norte-americano, em especial com o feminismo negro e latino, com a economia, com obras literárias e com a biologia – área na qual a autora é formada, Haraway produz um texto polêmico ao propor uma postura feminista apta a refletir sobre a influência da ciência e da tecnologia do final do século XX sobre as relações sociais. Para a autora, tanto os feminismos socialistas e marxistas quanto os feminismos radicais conceberam a categoria mulher a partir do que seria considerado comum a todas elas, por meio da “política da identidade”. Haraway sugere uma ruptura com tal política para dar lugar a uma coalizão capaz de considerar as diferenças e as afinidades entre mulheres, denominada por ela “política de afinidades”. O ciborgue, criatura formada por fusões entre máquina e organismo, mistura de realidade social e ficção, não constituindo um corpo sólido com componentes definidos, seria uma metáfora dessa nova política em um mundo marcado de forma crescente pelo binômio ciência e tecnologia, no qual as fronteiras entre humano e animal, organismo e máquina, e entre físico e  não-físico mostram-se fluidas.

Essa confusão de fronteiras é necessária para que a autora repense as questões de gênero, de sexualidade, raça e tecnociência, uma vez que a passagem das tradicionais dominações hierárquicas para um sistema de dominação baseado na informática global coloca em cena novas formas de poder e, com elas, novas configurações e significados de sujeitos. Haraway mostra como o desenvolvimento científico e tecnológico está presente no mundo do trabalho, na alimentação, na produção do conhecimento e nas mais diversas dimensões da vida. Nesse novo enquadramento histórico, seriam desfeitos pela tecnologia alguns pressupostos científicos e políticos que por muito tempo nortearam o pensamento ocidental e serviram à dominação das mulheres, das “pessoas de cor” (“people of color, no original) dos trabalhadores e animais; por exemplo, os dualismos mente/corpo, natureza/cultura, macho/fêmea e organismo/máquina. Essas dicotomias anteriormente rígidas seriam então desmanchadas, dando espaço a conceitos maleáveis e passíveis de reconstruções, produzindo alternativas às tradicionais concepções de corpos e modos de vida a partir da apreensão da tecnologia no cotidiano.  Esse processo de remodelamento de corpos e de relações mostra como os corpos são construídos e podem ser desmontados, colocando à prova sua suposta naturalidade e revelando suas possibilidades políticas. Daí a necessidade das mulheres apreenderem e se apropriarem da linguagem da tecnociência, tendo como inspiração a figura do ciborgue, de modo a contestar esses dualismos clássicos e alterar as relações de classe, raça e gênero, em uma tentativa de superação das dominações e da construção de um mundo a favor das diversidades.

Ao analisar as relações dicotômicas entre natureza e tecnologia, e o lugar da mulher no interior desse cenário, a política ciborgue proposta no manifesto de Haraway pretende ampliar o conceito de biopolítica de Michel Foucault (1926-1984) pela elucidação das complexas conexões entre cibernética e corpos e por meio da visibilidade conferida a inúmeros arranjos possíveis de subjetividade e de organismos. Tal contribuição torna o Manifesto Ciborgue fundamental para o pensamento pós-feminista, ao lado das obras de Judith Butler (1990), Teresa de Laurentis (1997), Judith Halberstam (1998), Audre Lorde (1984) Gloria Andalzua (1987) e Marie-Hélène Bourcier (2001). O ciborgue de Haraway contribuiu também para a problematização contemporânea das questões de gênero e sexualidade propostas pelo movimento queer, reverberando naquela que seria uma das obras mais emblemáticas acerca do tema, o Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual (2000) de Paul Beatriz Preciado (1970). Desde a concepção de ciborgue cunhada por Haraway em seu Manifesto, a preocupação política com a ciência e tecnologia é reconfigurada ao longo de sua obra, alimentando diálogos constantes com os debates da Antropologia da Ciência que mobilizam, por exemplo, Bruno Latour (1947) e Marilyn Strathern (1941).

Como citar este verbete:
FONTGALAND, Arthur & CORTEZ, Renata. 2015. "Manifesto ciborgue". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/manifesto-ciborgue>

autoria

Arthur Fontgaland e Renata Cortez

bibliografia

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Manifesto Ciborgue

A representação do Eu na vida cotidiana

A Representação do Eu na vida cotidiana (1959) é o primeiro e um dos mais conhecidos livros do sociólogo canadense Erving Goffman (1922-1982). Nele, o autor propõe uma abordagem microssociológica para interpretar a vida social a partir de uma análise das interações face a face, lançando mão de vocabulário e perspectiva provenientes do teatro. O livro se ampara no material de sua tese de doutorado, fruto de pesquisa etnográfica junto a uma comunidade agrícola nas Ilhas Shetland, e em uma miríade de outros exemplos extraídos da vida cotidiana.

Nos sete capítulos que compõem a obra, o autor observa pequenos detalhes das interações humanas. A vida social é compreendida como um palco em que se encenam papéis sociais diversos, de modo que o indivíduo não é o mesmo em todas as circunstâncias: se ele for um policial e estiver em período de trabalho, por exemplo, utilizará um vocabulário específico, diferente daquele empregado quando está em sua casa e cumpre os papéis de pai e marido, ou quando encontra amigos para uma partida de futebol. Goffman parte do pressuposto de que uma interação, ou seja, a influência recíproca dos indivíduos em contato, é estabelecida de acordo com uma definição prévia de hierarquias, papéis e expectativas envolvidas em cada encontro. Uma vez negociado e compreendido o que está em jogo em uma dada interação, o indivíduo passa a gerir a apresentação do seu Eu (Self) em relação às impressões anteriormente estabelecidas, com vistas a alcançar objetivos formulados previamente, de maneira consciente ou não. Desse modo, cada interação social se estabelece de acordo com os atores (reunidos ou não em equipes), com a plateia, e com as expectativas estabelecidas entre eles.

O vocabulário do teatro serve à compreensão da capacidade expressiva que permite ao indivíduo passar uma determinada impressão. Tal expressividade envolve duas espécies diferentes de recursos significativos: aqueles que o ator “transmite” e aqueles que ele “emite”. Os primeiros são os símbolos verbais utilizados para veicular a informação; os segundos, caros ao argumento do livro, dizem respeito a aspectos corporais, não verbais e contextuais, propositais ou não, envolvidos na interação. Muito além do que é dito por um chefe de Estado, por exemplo, espera-se dele certa atitude corporal e um modo de se apresentar em público condizentes com a posição que ele ocupa. A não observação dessa etiqueta pode causar embaraços. Assim, a representação ou performance elaborada previamente nos bastidores e executada por meio da mobilização dos diversos equipamentos expressivos corre riscos caso a cooperação entre o ator e seus observadores seja perturbada por impressões emitidas sem intenção prévia, podendo gerar assimetrias, constrangimentos ou mal-entendidos. Por esse motivo, os pressupostos precisam ser negociados tanto antes quanto no curso da interação. O indivíduo emprega estratégias para a manutenção de uma impressão aceitável para si e para o observador em uma dada situação, como quando um professor assume uma postura firme no primeiro dia de aula para denotar autoridade que, a depender da situação, pode ser negociada posteriormente.

Ilya Repin, 'Um café parisiense', 1875. Óleo sobre tela, 20.6 x 191.8 cm, col. particular.

Goffman denomina “fachada” o equipamento expressivo de tipo padronizado e fixo mobilizado pelo ator antes e ao longo da interação. A fachada compreende o cenário que serve de palco ao desenrolar da ação, e a “fachada pessoal”, que envolve a aparência, cuja observação revela o status social e o tipo de atividade a que o ator se dedica em um determinado momento, e a maneira, que são estímulos e comportamentos como humildade, agressividade, submissão ou arrogância, que informam sobre os papeis cumpridos em cada situação. É preciso que exista uma coerência entre as duas características da fachada pessoal para que a comunicação seja bem sucedida, de forma que, enfatizando certos aspectos em detrimento de outros, o indivíduo transmita consciente ou inconscientemente a impressão desejada.

Este conjunto de preocupações faz com que Goffman seja frequentemente associado ao interacionismo simbólico - corrente à qual se associam os nomes de Herbert Blumer (1900-1987) e George Herbert Mead (1863-1931) –em virtude de sua formação na Escola de Chicago e de sua ligação com a obra de Georg Simmel (1858-1918). Mas em A Representação do Eu na vida cotidiana, ainda que atento às interações cotidianas, o autor aponta para possibilidades de análise em nível macroestrutural, fato que, segundo alguns de seus estudiosos, o distanciaria de uma filiação interacionista estrita. Para além de classificações, a abordagem do autor faz com que ele seja lido por antropólogos, psicólogos, teóricos da comunicação e da dramaturgia.

Como citar este verbete:
MACIEL, Diogo Barbosa & BERBEL, Gustavo dos Santos. 2015. "A representação do Eu na vida cotidiana". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/representação-do-eu-na-vida-cotidiana>

autoria

Diogo Barbosa Maciel e Gustavo dos Santos Berbel

bibliografia

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Representação do Eu na vida cotidiana, A

Ritual - Roy Wagner

O “ritual” é, para Roy Wagner (1938), análogo à “cultura”: ambos constituem um estilo interpretativo, um modo criativo que se utiliza de distinções convencionais para improvisar e produzir a diferença. A diferença entre eles é que o conceito de “cultura” é mobilizado para designar fenômenos mais abrangentes, enquanto o “ritual” é parte da “cultura” e constituiu uma modalidade específica de ação criativa que opera dentro dela como um controle. A especificidade do rito reside, em primeiro lugar, no seu caráter não-cotidiano; trata-se de uma ação que metaforiza distinções sociais tidas como dadas durante a vida regular do grupo. A motivação para essa manipulação deliberada das convenções sociais é a necessidade de controlar uma situação ou evento diferenciante que, tomado como uma força dada, se converte em algo ameaçador e ambíguo para a convenção. Essas situações diferenciantes são frequentemente percebidas como um poder que transcende a ação humana ordinária. Para garantir algum tipo controle social sobre essas forças, mobiliza-se uma distinção entre “cotidiano” e “cerimonial”, de modo a estabelecer um contato direto com elas e metaforizá-las segundo as convenções de que se lançou mão. A especificidade da invenção ritual consistiria no seu caráter de ação coletiva, capaz de mobilizar não apenas um indivíduo  ou conjunto de indivíduos, mas um contingente maior da coletividade social.           

INCT InclusãoUm exemplo empírico de “ritual” pode ser tomado da análise realizada em Habu: The Innovation of Meaning in Daribi Reluigion (1972). O argumento parte da cerimônia Habu que o antropólogo assistiu e descreveu durante o seu trabalho de campo junto aos Daribi, povo da Nova Guiné. O pano de fundo sobre o qual esse ritual inova é chamado pelo autor de “ideologia social” daribi e inclui domínios como a mitologia, o parentesco, os papéis sexuais, os sistemas de trocas e obrigações rituais, os sistemas de nominação etc. Dentre a variedade de metáforas encontradas nos mitos da Papua Nova Guiné, o autor põe especial relevo no mito da maldição de Soul, em que o demiurgo dos Daribi, após ser envergonhado pelas mulheres, lança a maldição da mortalidade sobre a humanidade. Os mitos são pensados como metáforas que atualizam a ideologia dos Daribi, marcada pelos papéis sexuais que opõem e contrastam o masculino e o feminino. Esta divisão é expressa tanto nos mitos, como na divisão do trabalho, na troca de riqueza, na magia e nos rituais a partir das relações de complementaridade ou de substituição que elas engendram. A interação desses dois aspectos da ideologia Daribi requer uma constante mediação feita por meio de metáforas.

A noção de mortalidade se estende, através de metáforas complementares, pela cosmologia, divisão espacial e temporal do mundo daribi, e constituiu um ponto central de sua ideologia. O Habu, por sua vez, está diretamente ligado a um domínio que inova sobre essa ideologia central: a questão da invenção da imortalidade. A maldição de Soul é combatida pela personificação do fantasma (izibidi), que é o ato de transcender a morte e “inventar a imortalidade”. Os Daribis mediam suas relações com os fantasmas por meio de metáforas. O médium ou xamã (sogoyezibidi) “impersonaliza” uma metáfora entre fantasmas e humanos, aliando as capacidades dos vivos e propriedades dos mortos, controlando estes por um nexo de posse. Essa oposição é incorporada pelo fantasma e representa uma inovação sobre a ideologia, onde o médium inova sobre o convencional, uma vez que seu fantasma é uma inovação sobre suas próprias limitações humanas, ultrapassadas pelo poder do fantasma que agora é personificado por ele. A cerimônia Habu seria também um modo de controlar a relação de possessão e uma maneira semelhante de inovar sobre o convencional. Contudo, enquanto as práticas ditas xamânicas o fazem a partir de uma intervenção individual do sogoyezibidi, o Habu consiste fundamentalmente  em uma ação coletiva.

Em A Invenção da Cultura (1975), a palavra “ritual” aparece entre aspas na maioria das vezes em que é empregada pelo autor. Com isso, Wagner deixa marcado que, quando fala em cultura, está mencionando certa tradição ou convenção que a utilizou. A abundância no uso de aspas constitui, assim, uma maneira de Wagner mostrar que seu conceito de “cultura”, ao mesmo tempo que se diferencia da acepção antropológica corrente, necessita dessa convenção para ter sentido. Pode-se compreender, a partir daí a inovação análoga que ele propõe para o tema do “ritual”. A convenção constitui apenas a metade do mundo do significado. A outra dimensão a ser considerada é aquela pertinente à invenção, designada por Wagner por um conjunto de termos diversos: “metáfora”, “improvisação”, “impersonação”, “diferenciação”. Nela, o sentido é alcançado pela extensão dos contextos simbólicos convencionais a novas situações e eventos. Do ponto de vista do autor, estes dois modos de significação estão necessariamente envolvidos em todo ato de simbolização eles são ao mesmo tempo interdependentes e contraditórios entre si. Um agente simbolizador necessariamente mobiliza no ato de criação de significado esses dois modos, tendo, contudo, que concentrar sua atenção em apenas em um deles, que se torna o controle, e passando a perceber o outro como uma motivação ou uma compulsão que transcende e motiva sua ação. Esse ajuste de foco tem como duplo efeito converter um dos modos no domínio do dado, do inato, e tornar o outro modo o reino do construído, próprio para a ação e a responsabilidade humanas.

Como citar este verbete:
DOS SANTOS, Augusto Ventura & PINTO FILHO, Olavo Souza. 2015. "Ritual - Roy Wagner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/ritual-roy-wagner>

autoria

Augusto Ventura dos Santos e Olavo de Souza Pinto Filho

bibliografia

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Ritual - Roy Wagner

Liminaridade e communitas - Victor Turner

Victor Turner (1920-1983), antropólogo britânico que dedicou boa parte de seus esforços intelectuais ao entendimento das simbologias subjacentes aos rituais, deu contribuição significativa à compreensão das práticas rituais ao refinar a noção de liminaridade e elaborar, a partir dela, o conceito de communitas. O autor concebe a ideia de liminaridade como correspondendo a um momento de margem dos ritos de passagem: fase ritual na qual os sujeitos apresentam-se indeterminados, em uma espécie de processo transitório de “morte” social, para, em seguida, “renascerem” e reintegrarem-se à estrutura social. Liminaridade é, portanto, uma condição transitória na qual os sujeitos encontram-se destituídos de suas posições sociais anteriores, ocupando um entre-lugar indefinido no qual não é possível categorizá-los plenamente. Segundo Turner, a vida social se movimenta a partir de um movimento dialético, envolvendo estrutura social e communitas, estrutura e antiestrutura, alimentado pelas práticas rituais.

Victor Turner, Rito de passagem Ndembu, A Floresta dos Símbolos

O antropólogo iniciou as reflexões sobre o tema em O processo ritual: estrutura e antiestrutura (1969), a partir de inspiração retirada de Os ritos de passagem (1909) de Arnold Van Gennep (1873-1957). Suas contribuições teóricas estão fundamentadas na análise de práticas rituais observadas entre os Ndembu, povo da região da África Central, e em uma ampla revisão da literatura antropológica disponível sobre a temática do ritual. Em sua  obra, Victor Turner concebe a liminaridade como condição social efêmera vivenciada por sujeitos temporariamente situados fora da estrutura social, dando origem ao que ele denomina communitas, isto é: uma forma de antiestrutura constituída pelos vínculos entre indivíduos ou grupos sociais que compartilham uma condição liminar em momentos especificamente ritualizados. Os sujeitos liminares agrupados pela communitas são marcados pela submissão, silêncio e isolamento, considerados como tábula rasa em relação à nova posição social a ser assumida após a conclusão do ritual de passagem. O autor opta pelo termo latim communitas à noção de comunidade, de modo a não conferir circunscrição espacial ao vínculos entre os sujeitos liminares, já que o caráter de antiestrutura da communitas está baseado em relações sociais e não em pertencimentos territoriais.

Turner expande a compreensão dos termos liminaridade e communitas para além dos contextos rituais classicamente analisados na antropologia, destacando que hippies, profetas, artistas, assim como integrantes de movimentos milenaristas e religiosos podem ser também considerados sujeitos liminares, que se agrupam em communitas diversas. Nesses casos, no entanto, a condição liminar parece ser permanente já que tais sujeitos se opõem ou, no mínimo, desafiam a estrutura social como única forma de organização social possível. No caso dos movimentos milenaristas, por sua vez, a condição liminar mostra-se transitória, durável até o momento em que as profecias nas quais o grupo acredita não se concretizam. Independente do contexto ritual, Turner destaca que, além estarem situados em uma condição de indiferenciação social por nome, status e gênero, os integrantes da communitas podem ser também marcados pela suspensão (ainda que efêmera) do direito à propriedade e das obrigações de parentesco.

De modo a fundamentar suas teses, o antropólogo recorre às etnografias de E.E. Evans-Pritchard (1902-1973), entre os Nuer, e de Meyer Fortes (1906-1983), entre os Tallensi, para mostrar que liminaridade e communitas evidenciam o que ele genericamente denomina “o poder dos fracos”. Ele afirma que em sistemas de parentesco patrilineares, nos quais os atributos jurídicos e políticos são transmitidos pela ascendência paterna, as mulheres encontram formas – muitas vezes justificadas pela mitologia e pelas práticas rituais – de marcar a importância da descendência materna na constituição pessoal e mística dos sujeitos. Em sistemas de parentesco matrilineares, onde o status jurídico e político é dado pela ascendência materna, por sua vez, os indivíduos que desenvolvem estratégias liminares para demonstrar sua importância na estrutura social seriam, inversamente, os homens. Esses exemplos permitem assinalar que, diante do confronto com a estrutura social, os sujeitos em condição liminar constituem uma solidariedade proporcionada pelo estabelecimento da communitas para marcar a relevância de sua posição social em contexto político, cultural e jurídico determinado. Turner conclui que toda estrutura social, acompanhada pelos ritos que concedem direitos de acesso a determinadas esferas de poder ou status, coopera para a existência de uma antiestrutura na medida em que produz sujeitos liminares, transitórios ou não, que se agrupam em communitas. Assim, a relação entre estrutura e communitas traduz uma dialética imprescindível à vida social em qualquer contexto.

Posteriormente, os conceitos de liminaridade, communitas e drama social serviram como pontos de partida para que Turner, a partir de seu interesse pelo universo do teatro, problematizasse as interações possíveis entre dramas sociais e dramas estéticos. Seu encontro teórico com Richard Schechner (1934-) originou um novo campo de estudos na disciplina, denominado Antropologia da Performance, que se beneficia das imbricações entre a antropologia e o teatro, e que vem encontrando grande repercussão no Brasil.

Como citar este verbete:
NOLETO, Rafael da Silva & ALVES, Yara de Cássia. 2015. "Liminaridade e communitas - Victor Turner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/liminaridade-e-communitas-victor-turner>

autoria

Rafael da Silva Noleto e Yara de Cássia Alves

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Liminaridade e communitas - Victor Turner