gênero

Sistema sexo-gênero - Gayle Rubin

Que relações são essas por meio das quais uma mulher se torna uma mulher oprimida? Com essa pergunta em mente e com o objetivo de buscar uma explicação para a origem da opressão às mulheres, a antropóloga e militante feminista estadunidense Gayle Rubin (1949-) apontou, em 1975, a  existência de um “sistema sexo-gênero”, que ela define como “os arranjos por meio dos quais uma sociedade transforma a sexualidade biológica em produto da atividade humana”. O ensaio em que apresenta o conceito, O tráfico de mulheres, notas sobre a economia política do sexo (1975), é um dos trabalhos precursores dos estudos sobre gênero e sexualidade. Usando o termo gênero pela primeira vez em um texto de teoria antropológica, a autora faz uma leitura a contrapelo de obras de Karl Marx (1818-1883), Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e Sigmund Freud (1856-1939).

Gayle Rubin, GLBT History Museum, São Francisco, 2012, Wikimedia Commons.

A publicação do ensaio de Rubin, que integrou a coletânea Toward an anthropology of women (1975) editada por Rayna Reiter (1946-), foi peça fundamental na emergência de uma antropologia feminista estadunidense, dando prosseguimento às contribuições da coletânea Woman, Culture and Society (1974), organizada por Michelle Rosaldo (1944-1981). Todas essas reflexões foram marcadas pela cena política do início da década 1970 nos Estados Unidos, com a segunda onda do feminismo, a luta contra a guerra do Vietnã, a contracultura e os movimentos por direitos civis. A inspiração principal para o ensaio de Rubin surgiu em um curso sobre economia tribal ministrado pelo antropólogo Marshall Sahlins (1930-) na Universidade de Michigan. Nessa que foi sua primeira experiência na antropologia, a autora relata, em entrevista concedida à filósofa Judith Butler (1956-), ter se encantado pela riqueza da literatura etnográfica. Nesse período, a partir das leituras de As Estruturas elementares do parentesco (1949) de Lévi-Strauss e de um artigo de Louis Althusser (1918-1990) sobre Freud e Jacques Lacan (1901-1981) na New Left Review, Rubin se deu conta de que era possível estabelecer relações entre todas essas abordagens.

Para a autora, os sistemas de parentesco não dizem respeito a parentes biológicos, mas são sistemas de categorias e de estatutos: formas empíricas e observáveis do sistema sexo-gênero. Em As Estruturas elementares do parentesco (1949), Lévi-Strauss observa ser o parentesco a imposição de uma organização cultural sobre a procriação biológica; a matriz dessa organização, aponta o autor, encontra-se no tabu do incesto e na troca de mulheres entre os homens. Apoiada na ideia levistraussiana de troca de mulheres – que reforça os argumentos da então nascente antropologia feminista de que a opressão das mulheres estaria assentada em sistemas sociais e não na biologia – Rubin desenvolve seu argumento principal. Se parentesco é organização e confere poder, e se a troca de mulheres cria uma rede de relacionamentos que constitui a estrutura de parentesco, aos homens é conferido o poder de constituir o laço social. A troca de mulheres, afirma no ensaio de 1975, “é uma percepção profunda de um sistema no qual as mulheres não possuem plenos direitos sobre si mesmas”; para que esse sistema funcione bem, é preferível que a sexualidade feminina não corresponda aos seus desejos, mas aos de outros. Amparada na defesa de que o gênero é uma “divisão de sexos imposta socialmente”, e ainda dialogando com Lévi-Strauss, dessa vez com A família (1965),  Rubin parte da ideia de que a divisão sexual do trabalho nada mais é do que um dispositivo para instituir um estado recíproco de dependência entre os sexos. Conclui, então, que a organização social do sexo é baseada no gênero, na heterossexualidade compulsória e na imposição de restrições à sexualidade feminina.

O tráfico de mulheres se debruça ainda sobre a relação entre as estruturas sociais e as psíquicas. Gayle Rubin vê o parentesco como a “culturalização” da sexualidade biológica e a psicanálise como uma descrição da transformação da sexualidade biológica pela cultura. Nesse sentido, interpreta os ensaios sobre feminilidade de Freud como o relato de como o indivíduo, desde que nasce, é psicologicamente preparado para viver em meio à opressão. Associando Lévi-Strauss e Freud em função do que julga serem as potências e as limitações das teorias desses autores, propõe uma terceira perspectiva: a do sistema sexo-gênero. A fase edípica corresponde ao momento em que a criança aprende as regras sexuais incutidas nos termos relativos aos parentes (pai e mãe), compreende esse sistema de normas e o seu lugar nele; é nessa fase que se dá a divisão dos sexos, pressuposto para o funcionamento dos sistemas de parentesco. Desse modo, desde criança, o indivíduo tem sua sexualidade, sua libido e sua identidade de gênero “organizadas em conformidade com as regras da cultura que a domestica”. Rubin argumenta que o conjunto de regras que rege os sistemas de parentesco gera a heterossexualidade compulsória. A crise de Édipo consiste, portanto, na assimilação dessas regras e tabus, na instituição do desejo heterossexual. E tanto o complexo de Édipo quanto o parentesco atribuem disparidades radicais entre os direitos dos meninos/homens e das meninas/mulheres. Conclui que o feminismo deve se empenhar na defesa de uma revolução no sistema de parentesco. Uma visão utópica, dirá ela mais tarde, em conversa com Butler.

Quase uma década depois, a autora repensa o sistema sexo-gênero proposto em O tráfico de mulheres. Em Pensando o sexo (1984) - ensaio no qual problematiza categorias hierárquicas de estratificação sexual, apontando as dimensões políticas da vida erótica -  explica que, nos anos 1970, gênero e desejo sexual pareciam modalidades entrelaçadas do mesmo processo social. Essa perspectiva, ainda que possa mostrar-se adequada para olhar às organizações tribais, não o é para tratar da sexualidade nas sociedades industriais ocidentais. Se opondo à grande parte do pensamento feminista que trata a sexualidade como derivação do gênero, Rubin defende – diferentemente do que afirmou em O tráfico de mulheres – a importância de separar analiticamente gênero e sexualidade. Em 1984, insatisfeita com a forma com a qual o feminismo lidava com as práticas sexuais (principalmente as não convencionais), em um contexto de leis de repressão ao homossexualismo, e inspirada por A história da sexualidade (1976) de Michel Foucault (1926-1984), propõe, ao lado da crítica feminista à hierarquia de gênero, uma teoria radical do sexo.

As formulações de Rubin encontram enorme eco nos estudos de antropologia, de gênero e de sexualidade no Brasil e no mundo. Seus ensaios foram o ponto de partida para uma série de importantes produções, entre as quais o Is kinship always already heterosexual? (2002) de Judith Butler. Questões como a distinção entre sexo e gênero, o pressuposto da heterossexualidade como lógica subjacente dos sistemas de parentesco, críticas às visões binárias das sexualidades e a relação entre a antropologia e as construções das subjetividades são algumas das reflexões para as quais os escritos de Rubin são centrais.

Como citar este verbete:
MONCAU, Gabriela. 2018. "Sistema sexo-gênero - Gayle Rubin". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/sistema-sexo-gênero-gayle-rubin>

autoria

Gabriela Moncau

bibliografia

RUBIN, Gayle & BUTLER, Judith, “Sexual traffic”, Differences: A Journal of Feminist Culture Studies, vol. 6, nº 2-3, 1994, p. 62-99 (Trad. Bras. Cadernos Pagu, n º 21, Campinas, 2003, p.157-209)

RUBIN, Gayle, “The trouble with trafficking: afterthoughts on ‘The traffic in women’” In: Deviations: A Gayle Rubin Reader, London, Duke University Press, Durham & London, 2011

RUBIN, Gayle, “The traffic in women: notes on the political economy of sex” In: Rayna Reiter (org), Toward an anthropology of women. New York, Monthly View Press, 1975 (Trad. Bras. Jamille Pinheiro Dias. In: Políticas do sexo, São Paulo, Ubu, 2017)

RUBIN, Gayle, “Thinking sex: notes for a radical theory of the politics of sexuality” In: Carole S. Vance (org), Pleasure and danger: exploring female sexuality, Boston, Routledge & Kegan Paul, 1984 (Trad. Bras. Jamille Pinheiro Dias. In: Políticas do sexo. São Paulo, Ubu, 2017)

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Sistema sexo-gênero - Gayle Rubin

Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas

Escrito por Margaret Mead (1901-1978), Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), consolidou a antropóloga como autora de sucesso, abrindo caminho para o seu reconhecimento como pioneira nos estudos de relações de gênero. Fruto de trabalho de campo realizado em Papua-Nova Guiné, na companhia do antropólogo Reo Fortune (1903-1979), seu marido na ocasião, o estudo se concentra em três povos da região do rio Sepik: os Arapesh, os Mundugumor e os Tchambuli (Chambri). Mead observou as personalidades atribuídas a homens e mulheres em cada uma dessas sociedades, concluindo que características psicológicas femininas e masculinas (os temperamentos) não são inatas, mas padrões culturais aprendidos e ensinados de uma geração a outra, sustentando, com isso, a ideia de que a cultura molda o comportamento, assim como produz a diferenciação de personalidades entre os sexos, argumento que  irá desenvolver, posteriormente, no livro Male and Female (1949).

Reo Fortune, “Mead conduzindo flautistas

Entre os Arapesh, a antropóloga encontrou uma sociedade em que homens e mulheres mostravam-se gentis, não agressivos, cooperativos e atentos às necessidades alheias. Não eram guerreiros ou vingativos, embora pudessem ocorrer conflitos em virtude de casamentos, quando estes se davam em razão de fuga ou rapto. Além disso, Mead deparou-se com um povo em que homens e mulheres apresentavam temperamentos semelhantes, inclusive no que dizia respeito ao cuidado dos filhos. Este traço é especialmente destacado no livro, pois se nos EUA as crianças eram consideradas uma incumbência das mulheres, aí também os homens delas se ocupavam. Já entre os Mundugumor, a autora se deparou com um povo violento, implacável e agressivo. Os comportamentos, por sua vez, não diferiam muito em razão do sexo: homens e mulheres assumiam atitudes hostis e havia conflitos por todos os lados. Por fim, entre os Tchambuli, as atitudes masculinas e femininas mostravam-se bastante distintas, tendo as mulheres um protagonismo evidente: elas eram dotadas de poder dentro das aldeias; eram as principais fornecedoras de alimentos, também responsáveis pela pesca, por negociar o excedente em troca de outros víveres e pela produção da riqueza (com a venda de mosquiteiros). Os homens, de seu lado, se dedicavam à arte e à estética, e eram emocionalmente frágeis. Tal padrão chama a sua  atenção por ser o inverso do comportamento tradicionalmente atribuído aos sexos na sociedade estadunidense da época: entre os Tchambuli, as mulheres não desempenhavam funções secundárias ou desvalorizadas porque mais restritas à esfera doméstica; ao contrário, eram provedoras e pouco se dedicavam às atividades ornamentais, consideradas femininas nos Estados Unidos e em outros contextos.

Mead também se detém sobre os “inadaptados” em cada um dos povos estudados, aos quais dedica um capítulo inteiro da obra. Os inadaptados seriam aqueles que não se conformariam aos papéis sociais impostos, não atendendo ao temperamento socialmente determinado. Incapazes de se adequarem à personalidade social exigida por sua cultura, apresentavam atitudes “desajustadas”. Entre os Arapesh, correspondiam às pessoas agressivas, eventualmente obrigadas a deixar a aldeia por algum tempo; para os Mundugumor, eram os indivíduos excessivamente gentis e cooperativos; já entre os Tchambuli, eram aqueles que não possuíam afinidades com o comportamento visto como natural para o seu sexo, aproximando-se das atitudes e temperamentos do sexo oposto.

A despeito da importância do estudo para as reflexões posteriores sobre o gênero na antropologia, nos estudos culturais e nas teorias feministas, assim como o seu caráter de crítica cultural - já que os exemplos não ocidentais funcionam como uma ferramenta de interpelação às normas e convenções norte-americanas - o livro recebeu uma série de críticas. Segundo o antropólogo David Lipset, a primeira veio de Reo Fortune, seu ex-marido e companheiro de trabalho de campo, em 1939. De acordo com Fortune, a inclinação para o cuidado maternal, partilhada entre por homens e mulheres Arapesh, seria uma criação hipotética de Mead. E em relação ao comportamento não-agressivo desse povo, continua, embora eles não tivessem guerreado nos dezessete anos anteriores às pesquisas realizadas pela antropóloga (que começaram em 1931), a guerra era uma presença na vida social e o ato de seduzir uma mulher casada podia desencadear sérios conflitos. Crítica, aliás, rebatida por Lipset que reafirma o argumento de Mead:  a despeito da existência de conflitos, os Arapesh não glorificavam a guerra. Outros especialistas, como Deborah Gewertz e Frederick Errington também refutaram as conclusões de Mead sobre a posição das mulheres entre os Tchambuli. Em um primeiro momento, os autores afirmam que, ao contrário do que dizia a antropóloga, os homens dominavam as mulheres; anos depois, voltam atrás e defendem que homens e mulheres Tchambuli estavam em esferas muito diferentes de atuação e por essa razão as mulheres não poderiam, nem almejavam, ter acesso ao poder dos homens. Para Lipset, que revisita todos esses debates, não seria possível entender homens e mulheres Tchambuli em uma escala de poderes, ou seja, um sexo não dominava o outro, nem procurava fazê-lo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/sexo-e-temperamento-em-tr%C3%AAs-sociedades-primitivas>

autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

bibliografia

GEWERTZ, Deborah & ERRINGTON, Frederick, “The remarriage of Yebali: a study of dominance and false consciousness in a non-Western society” In: STRATHERN, M. (dir). Dealing with inequality: analyzing gender relations in Melanesia and beyond, Cambridge, Cambridge University Press, 1987

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret. Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)

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Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas

Margaret Mead

Margaret Mead (1901-1978), antropóloga estadunidense, foi um dos expoentes da chamada escola culturalista norte-americana. Nascida na Pensilvânia, estudou psicologia e posteriormente antropologia na Universidade de Columbia (1923), momento em que o departamento era dirigido por Franz Boas (1858-1942) e Ruth Benedict (1887-1948), ambos engajados no estabelecimento dos pressupostos teórico-metodológicos da disciplina nos Estados Unidos, na cena político-social da época e no combate ao racismo científico. Mead dedicou seus estudos ao desenvolvimento de teorias sobre as relações entre cultura e personalidade, a socialização de crianças, a sexualidade, aos papéis diferenciais de gênero e às conexões entre cultura coletiva e personalidade individual. Uma de suas muitas contribuições aos estudos antropológicos foi demonstrar a influência do aprendizado sociocultural sobre o comportamento de homens e mulheres. Mead casou-se três vezes: primeiro com o arqueólogo Luther Cressman (1897-1994), depois com os antropólogos Reo Fortune (1903-1979) e Gregory Bateson (1904-1980), seus companheiros nos trabalhos de campo que realizou. Com Bateson teve uma filha, Mary Catherine Bateson (1939-), também antropóloga. Viveu com a antropóloga Rhoda Métraux (1914-2003) de 1955 até sua morte, aos 76 anos.

A carreira acadêmica da pesquisadora desenvolveu-se no Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia, onde ingressou em 1940. Paralelamente, atuou como curadora do American Museum of Natural History de New York, a partir de 1926. Lecionou também em diversas universidades nos EUA, como The New School, Fordham University's e University of Rhode Island, tendo se engajado ainda em uma série de organizações e associações, como a American Anthropological Association e American Association for the Advancement of Science. Durante a II Guerra Mundial, dirigiu pesquisas com expatriados sobre culturas europeias, que resultaram em duas publicações: Soviet Attitudes Towards Authority (1951) e Themes in French Culture (1954), este com Rhoda Métraux.

Ken Heyman.

Em um de seus mais conhecidos trabalhos, Coming of age in Samoa:  A Psychological Study of Primitive Youth for Western Civilisation (1928), resultado de pesquisas realizadas em Samoa a partir de 1925, esteve interessada em compreender como indivíduos atravessavam a adolescência, fase da vida comumente entendida como período de crise e rebeldia. Nessa  primeira etnografia, na Ilha de Tau, observou um ambiente bastante livre: a criação das crianças não incluía punições severas, o que representava um contraste com os problemas típicos enfrentados por jovens estadunidenses. A adolescência em Samoa coincidia com um período de alegria e prazer, o que parecia indicar que as formas que a transição entre a infância e a vida adulta assumem depende do contexto cultural. O livro foi publicado em 1928 e se tornou imediatamente um sucesso editorial. Anos mais tarde sofreu severas críticas do antropólogo neozelandês Derek Freeman (1916-2001), que alegou que em seus anos de pesquisas na mesma região não encontrou a liberdade sexual que a antropóloga descreve; pelo contrário, em sua ótica havia diversos distúrbios sexuais disseminados e um culto à virgindade. Para sustentar tamanha discrepância das conclusões, elaborou a tese de que Mead ou teria sido enganada pelas jovens, sem perceber que estas passavam informações jocosamente, ou que ela apenas enxergou o que queria ver de modo a comprovar suas teses. Em 1931, Mead segue para Papua-Nova Guiné, experiência a partir da qual publica Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), outra de suas obras que conhecem notoriedade. Os levantamentos aí realizados com Reo Fortune entre os Arapesh, Mundugumor e Tchambuli indicam que características associadas às diferenças sexuais entre homens e mulheres, frequentemente entendidas como temperamentos masculinos e femininos, não eram propriedades inatas aos sexos, mas reflexos do aprendizado cultural. Com essas formulações - que colocam em xeque a ideia do cuidado doméstico e de uma suposta sensibilidade e fragilidade do sexo feminino como padrão universal - ela abre caminho para os estudos de relações de gênero na antropologia, conferindo à crítica aos estereótipos e às atribuições de papéis sociais importante arcabouço teórico.

Na segunda metade dos anos 1930, Mead realizou trabalhos de campo em Bali, na Indonésia, que estão na origem de diversas produções fílmicas, entre as quais o ensaio fotográfico Balinese character: a photographic analysis (1942), realizado com Gregory Bateson, assim como o documentário Trance and dance in Bali (1951), entre diversos outros curtas-metragens, muitos deles com imagens produzidas nos EUA. Mead e Bateson fizeram ainda longos registros da criação e crescimento da filha Mary Catherine Bateson, que inspiraram o pediatra Benjamin Spock (1903-1998) a escrever sobre o cuidado infantil.

Com o passar dos anos, Mead tornou-se uma comentadora de sua própria cultura, dando palestras e escrevendo para revistas não científicas sobre educação, direitos das mulheres e sexualidade, o que a levou a ficar muito conhecida fora dos círculos acadêmicos especializados. Elaborou também sérias críticas aos testes de inteligência em voga, que visavam provar hierarquias raciais, questionando sua validade e metodologia, e apontando fatores que poderiam influenciar em seus resultados, como a estrutura familiar, o status socioeconômico e a exposição à linguagem. Favorável a uma abertura moral e de costumes com relação à vida tradicional ocidental, Mead e suas formulações foram recuperadas por militantes de movimentos pelos direitos de homossexuais, sobretudo pela ênfase concedida à variabilidade de relações afetivas nas sociedades humanas; não por acaso o seu nome foi incluído entre os verbetes da Encyclopaedia of Gay, Lesbian, Bisexual, Transgender and Queer Culture (2003). Os trabalhos realizados com Bateson, por sua vez, sobretudo Balinese character, são considerados precursores da antropologia da imagem, inspiração para muitas incursões recentes nesse campo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Margareth Mead". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/margaret-mead> 

autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

bibliografia

FREEMAN, Derek, The making and unmaking of an anthropological myth, Harvard University Press and the Australian National University Press, 1983

FREEMAN, Derek, The fateful hoaxing of Margaret Mead, Westview Press, 1999

GEERTZ, Clifford, Margaret Mead (1901—1978): A biographical memoir, National Academy of Sciences, 1989. Disponível em: http://www.nasonline.org/publications/biographical-memoirs/memoir-pdfs/mead-margaret.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret, Coming of age in Samoa: a psychological study of primitive youth for western civilization (1928), Harmondsworth, Penguin Books, 1981

MEAD, Margaret, Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)

RAPP, Linda. “Mead, Margaret (1901-1978)”, glbtq.com: an encyclopaedia of gay, lesbian, bisexual, transgender and queer culture, 2004. Disponível em: http://www.glbtqarchive.com/ssh/mead_m_S.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

SAHLINS, Marshall. “Views of a culture heroine”. Book review desk, The New York Times. 26 de agosto de 1984. Disponível em: https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/98/12/06/specials/bateson-eye.html. Acesso 02 de julho de 2018

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Mead, Margareth

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society (1986), referência no seio da antropologia das formas expressivas e das emoções, é o primeiro livro publicado pela antropóloga norte americana Lila Abu-Lughod (1952-). A obra trata dos elos complexos entre organização sócio-política, sistema moral e expressão dos sentimentos entre os Awlad 'Ali, população beduína do Egito Ocidental, junto à qual ela realizou seu trabalho de campo no início da década de 1980. Em uma interpelação crítica a abordagens limitadas à homogeneidade do discurso oficial da cultura sobre ela mesma e aos modelos individualistas de tratamento das emoções, a autora constrói seu argumento em torno do contraste entre dois modos discursivos coexistentes entre os beduínos: o da vida ordinária, pautado pela honra e por uma linguagem “agressiva”, e um discurso poético que, enunciado em contextos privados, ressalta vulnerabilidade e afeição. Considerada um exemplo de análise discursiva inspirada em Michel Foucault (1926-1984), a atenção da obra de Abu-Lughod à intimidade da vida doméstica das mulheres em suas conexões com a moralidade e a organização sócio-política beduína é crucial para a elucidação da complementaridade desses discursos na lógica do sistema moral dos Awlad 'Ali e dos modos culturalmente construídos de expressar e sentir as experiências pessoais.

A relação entre as duas seções do livro está baseada nessa contraposição. Na primeira, a autora apresenta distintas facetas da ideologia oficial beduína que refletem a divergência entre o ideal igualitário da estrutura patrilinear e as hierarquias social e de gênero. De um lado, um rígido código de honra no qual a capacidade de alguns homens de “encorporar” os valores supremos do autocontrole, autonomia pessoal e política torna-se a medida para sua posição hierárquica; sendo dependentes econômica, física e socialmente, os homens jovens e, sobretudo, as mulheres estão impedidos de realizar tal ideal. De outro lado, a modéstia sexual, expressão da deferência voluntária na relação com os hierarquicamente superiores, é o modo pelo qual as mulheres expressam respeito pelo sistema hierárquico e, ao fazê-lo, valorizam-se moralmente no interior deste (a obediência deliberada ao sistema moral aparece como virtude feminina). Abu-Lughod descreve, assim, modos ideológicos por meio dos quais os Awlad 'Ali conciliam ideais igualitários e hierárquicos, demonstrando a relação dialética entre honra e modéstia, caminhos distintos que convergem para a valorização moral de famílias e pessoas.

A segunda parte da obra desdobra o contraste entre o discurso público, marcado por uma linguagem agressiva e altiva, e os ghinnawas, pequenas canções poéticas que remetem à intimidade pessoal e expressam sentimentos negados pelo sistema moral público por sua conotação de fraqueza e dependência: dor, melancolia, tristeza, amor romântico. Tal oposição emerge em distintos momentos da vida social, sobretudo nas crises de perda pessoal, como a morte e o divórcio, ou nas relações amorosas, que suscitam reações diferentes no mundo público e privado. Ao constituir meio de expressão culturalmente sancionado para sentimentos que ameaçam os valores do próprio sistema moral oficial, a poesia fornece uma imagem contrapontística ao sistema moral beduíno: o aspecto subversivo da fórmula poética tradicional é valorizado na medida em que se integra ao próprio código da honra e autonomia beduína, e da escolha virtuosa pela deferência. Trata-se, portanto, de duas linguagens disponíveis para expressar e sentir as experiências pessoais, cuja articulação reflete contradições profundas entre princípios hierárquicos e igualitários do sistema sócio-político. Nesse sentido, Veiled Sentiments abre-se na direção de debates em torno dos limites do caráter subversivo da arte e dos modos de expressão e construção cultural dos sentimentos.

Capa da nova edição do livro, comemorativa do 30o aniversário de lançamento

As resenhas a respeito do livro ­- entre as quais, uma bastante elogiosa de Clifford Geertz (1926-2006) - indicam sua recepção positiva da obra na academia norte-americana e evidenciam a multiplicidade de campos e questões que o atravessam, por exemplo, o trabalho reflexivo sobre o campo, necessário para a explicitação do vínculo entre a posição social do etnógrafo e a construção de relações específicas e situadas de conhecimento, algo vislumbrado no capítulo inicial do livro e desdobrado em sua segunda obra, Writing Women’s World (1993). Veiled Sentiments insere-se, dessa forma, ao lado de trabalhos como os de Donna Haraway (1988), Edward Said (1935-2003), George Marcus (1943) e James Clifford (1945) em uma ampla discussão acerca das relações entre política e escrita etnográfica, sobre o caráter situado do conhecimento e suas implicações éticas e epistemológicas.

Como citar este verbete:
MONTEIRO, Eduardo Santos Gonçalves. 2018. "Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/obra/veiled-sentiments-honor-and-poetry-bedouin-society>

autoria

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro

bibliografia

Abu-Lughod, Lila, Fieldwork of a Dutiful Daughter In: Altorki, Soraya & El-Solh, Camilla (ed.), Arab Women in the Field, Syracuse, Syracuse University Press, 1988

Abu-Lughod, Lila, Writing Against Culture In: Fox, Richard (ed.), Recapturing Anthropology, Santa Fe, School of American Research Press, 1991

Abu-Lughod, Lila, Writing Women’s Worlds: Bedouin Stories, Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1993

Clifford, James & Marcus, George (ed.), Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography, Berkeley & Los Angeles, University of California Press, 1986

Geertz, Clifford, “Review: Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society by Lila Abu-Lughod”, American Ethnologist: Journal of American Ethnological Society, Volume 14, Issue 3, 1987, p. 567-568

Haraway, Donna, “Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective”, Feminist Studies 14,1988, p. 575-99

Overing, Joanna & Rapport, Nigel, Social and Anthropology: The Key Concepts, London e New York, Routledge, 2000

Said, Edward, Orientalism New York: Random House, 1978 (Trad. Bras. Tomás Rosa Bueno, São Paulo, Companhia das Letras, 1990)

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Veiled Sentiments

Casamento por captura - John Ferguson McLennan

A noção de casamento por captura, também conhecida como casamento por rapto, foi sistematizada e conceitualizada pela primeira vez pelo antropólogo escocês John Ferguson McLennan (1827-1881) em seu livro Primitive Marriage (1865). A obra está organizada em torno da ideia de que a humanidade passa por estágios de desenvolvimento cujo ápice seria a civilização europeia; o que não quer dizer que o processo tenha sido uniforme e percorrido por todas as sociedades.

Francesco Primaticcio,

 

No livro, o autor tem como objeto a origem e o significado do rapto de mulheres visando o casamento, largamente difundido pelo mundo. McLennan interpreta a existência dessa forma de matrimônio – e das práticas matrimoniais nas quais a captura é apenas simbolizada, mas não efetivada – como a sobrevivência de formas sociais primitivas, e sobretudo do infanticídio feminino. Em um contexto social caracterizado pela hostilidade entre grupos e pela dificuldade em garantir a segurança e a subsistência, as mulheres eram vistas como menos capazes de contribuir para a sobrevivência grupal, levando à preferência pelo nascimento de bebês do sexo masculino e ao infanticídio de meninas. O resultado seria a escassez de mulheres no interior desses grupos, forçando o estabelecimento de arranjos matrimoniais entre uma mulher e mais de um homem (poliandria) e o ataque a outros grupos para a obtenção de esposas. Do rapto de mulheres resultaria a exogamia: a partir da proibição de casamento no interior da tribo, em virtude da escassez de mulheres, se consolida o costume do casamento fora do grupo. Com o passar do tempo, a prática torna-se uma obrigação; na medida em que os membros de uma tribo compartilham o mesmo sangue, sobre eles incide a regra da exogamia. Para McLennan, a noção moderna de propriedade se relaciona ao casamento por captura: as esposas capturadas seriam consideradas propriedades, estatuto estendido às crianças. Em um estágio posterior, a captura daria lugar à cessão da esposa pelo pai mediante pagamento, fazendo com que a noção de esposa como propriedade não apenas sobrevivesse, mas se consolidasse, assumindo feições cada vez mais modernas.

No processo de evolução social, a substituição do sistema de captura de esposas só se concretizaria com o surgimento da ideia de relacionamento de sangue; a reflexão sobre a consanguinidade e sobre os fatos naturais da reprodução estariam, assim, na base do desenvolvimento da noção de parentesco. A incerteza quanto à paternidade teria como resultado que os laços sanguíneos maternos, por serem evidentes, formassem a base de um sistema de parentesco por meio das mulheres; nesse sistema, as crianças passam a ser afiliadas às mães e não mais aos grupos, como no estágio anterior. Com o tempo esse sistema contribui, segundo o autor, para tornar os grupos exogâmicos heterogêneos, substituindo o sistema de captura de esposas: pela operação conjunta da exogamia e do sistema de parentesco através das mulheres, os grupos passam a contar com pessoas de diferentes linhas de descendência a ponto de ser possível o casamento no seu interior. Em decorrência das práticas exogâmicas, as mães de uma tribo passam a ser consideradas estrangeiras, da mesma forma que seus filhos, neste caso em razão do sistema de parentesco. Com o afrouxamento da prática de infanticídio, o casamento no interior desses grupos tornou-se viável e coerente com a regra de exogamia, uma vez que essas pessoas não possuíam parentesco com o grupo do pai, apenas laços de sangue com suas mães estrangeiras.

A análise de McLennan do casamento por rapto tornou-se paradigmática nas ciências sociais, sobretudo em virtude de estar associada às discussões acerca da exogamia e endogamia, conceitos que passaram a fazer parte do vocabulário antropológico a partir de Primitive Marriage. Em Principles of Sociology, obra em três volumes publicada entre os anos de 1882 e 1896, Herbert Spencer (1820–1903) seguiu a interpretação de McLennan, sugerindo, de modo semelhante, que o rapto de mulheres deu origem à exogamia nas etapas mais arcaicas da evolução social. Nessa mesma linha, John William Lubbock (1834–1913) propôs um esquema evolutivo que vai do casamento no interior do grupo (endogâmico) ao  casamento por captura (exogâmico), no qual as mulheres passam a ser consideradas bens individuais, levando às formas modernas de casamento. Em As estruturas elementares do parentesco (1949), Claude Lévi-Strauss (1908-2009) rechaçou as explicações de matriz mclenniana, argumentando que elas se baseiam em uma sequência histórica tão específica que seria impossível a sua verificação em todas as sociedades. No entanto, delas retira sua intuição fundamental: a exogamia expressa antes o caráter positivo da prescrição (de casamentos fora do grupo), do que o caráter negativo da proibição (de casamentos dentro do grupo), ideia que está na base da sua teoria da aliança matrimonial.

Como citar este verbete:
SILVA, Thiago Timóteo da. 2017. "Casamento por captura - John Ferguson McLennan". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/casamento-por-captura-john-ferguson-mclennan>

autoria

Thiago Timóteo da Silva

bibliografia

LÉVI-STRAUSS, Claude, Les structures élémentaires de la parenté (1949), Paris, Mouton, 1967 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1982)

LUBBOCK, John, The origin of civilization and the primitive condition of man, Londres, Longmans, Green, and Co, 1870

MCLENNAN, John Ferguson, Primitive Marriage, London, MacMillan & Co, 1865

SPENCER, Herbert, The Principles of Sociology, v.1, (1882), Londres, D. Appleton and Company, 1885

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Casamento por captura

Manifesto ciborgue

O Manifesto ciborgue -­ ciência, tecnologia e feminismo­ socialista no final do século XX (1985) é um ensaio escrito pela bióloga e filósofa norte-americana Donna J. Haraway (1944). Com título que alude ao Manifesto Comunista (1848) de Karl Marx e Friedrich Engels, o Manifesto Ciborgue integra um conjunto de posicionamentos públicos do feminismo socialista estadunidense acerca dos rumos dos movimentos sociais de esquerda desse país na década de 1980. Trata-se de uma obra central para a compreensão da crítica feminista da ciência proposta pela autora, que reverbera em suas obras posteriores, entre as quais Primate Visions: gender, race, and nature in the world of modern science (1990); Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature (1991); The Companion Species Manifesto: Dogs, People, and Significant Otherness (2003) e When Species Meet (2008).

Em diálogos com o feminismo norte-americano, em especial com o feminismo negro e latino, com a economia, com obras literárias e com a biologia – área na qual a autora é formada, Haraway produz um texto polêmico ao propor uma postura feminista apta a refletir sobre a influência da ciência e da tecnologia do final do século XX sobre as relações sociais. Para a autora, tanto os feminismos socialistas e marxistas quanto os feminismos radicais conceberam a categoria mulher a partir do que seria considerado comum a todas elas, por meio da “política da identidade”. Haraway sugere uma ruptura com tal política para dar lugar a uma coalizão capaz de considerar as diferenças e as afinidades entre mulheres, denominada por ela “política de afinidades”. O ciborgue, criatura formada por fusões entre máquina e organismo, mistura de realidade social e ficção, não constituindo um corpo sólido com componentes definidos, seria uma metáfora dessa nova política em um mundo marcado de forma crescente pelo binômio ciência e tecnologia, no qual as fronteiras entre humano e animal, organismo e máquina, e entre físico e  não-físico mostram-se fluidas.

Essa confusão de fronteiras é necessária para que a autora repense as questões de gênero, de sexualidade, raça e tecnociência, uma vez que a passagem das tradicionais dominações hierárquicas para um sistema de dominação baseado na informática global coloca em cena novas formas de poder e, com elas, novas configurações e significados de sujeitos. Haraway mostra como o desenvolvimento científico e tecnológico está presente no mundo do trabalho, na alimentação, na produção do conhecimento e nas mais diversas dimensões da vida. Nesse novo enquadramento histórico, seriam desfeitos pela tecnologia alguns pressupostos científicos e políticos que por muito tempo nortearam o pensamento ocidental e serviram à dominação das mulheres, das “pessoas de cor” (“people of color, no original) dos trabalhadores e animais; por exemplo, os dualismos mente/corpo, natureza/cultura, macho/fêmea e organismo/máquina. Essas dicotomias anteriormente rígidas seriam então desmanchadas, dando espaço a conceitos maleáveis e passíveis de reconstruções, produzindo alternativas às tradicionais concepções de corpos e modos de vida a partir da apreensão da tecnologia no cotidiano.  Esse processo de remodelamento de corpos e de relações mostra como os corpos são construídos e podem ser desmontados, colocando à prova sua suposta naturalidade e revelando suas possibilidades políticas. Daí a necessidade das mulheres apreenderem e se apropriarem da linguagem da tecnociência, tendo como inspiração a figura do ciborgue, de modo a contestar esses dualismos clássicos e alterar as relações de classe, raça e gênero, em uma tentativa de superação das dominações e da construção de um mundo a favor das diversidades.

Ao analisar as relações dicotômicas entre natureza e tecnologia, e o lugar da mulher no interior desse cenário, a política ciborgue proposta no manifesto de Haraway pretende ampliar o conceito de biopolítica de Michel Foucault (1926-1984) pela elucidação das complexas conexões entre cibernética e corpos e por meio da visibilidade conferida a inúmeros arranjos possíveis de subjetividade e de organismos. Tal contribuição torna o Manifesto Ciborgue fundamental para o pensamento pós-feminista, ao lado das obras de Judith Butler (1990), Teresa de Laurentis (1997), Judith Halberstam (1998), Audre Lorde (1984) Gloria Andalzua (1987) e Marie-Hélène Bourcier (2001). O ciborgue de Haraway contribuiu também para a problematização contemporânea das questões de gênero e sexualidade propostas pelo movimento queer, reverberando naquela que seria uma das obras mais emblemáticas acerca do tema, o Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual (2000) de Paul Beatriz Preciado (1970). Desde a concepção de ciborgue cunhada por Haraway em seu Manifesto, a preocupação política com a ciência e tecnologia é reconfigurada ao longo de sua obra, alimentando diálogos constantes com os debates da Antropologia da Ciência que mobilizam, por exemplo, Bruno Latour (1947) e Marilyn Strathern (1941).

Como citar este verbete:
FONTGALAND, Arthur & CORTEZ, Renata. 2015. "Manifesto ciborgue". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/manifesto-ciborgue>

autoria

Arthur Fontgaland e Renata Cortez

bibliografia

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HALBERSTAM, Judith, Female Masculinity. Durham, Duke University Press, 1998

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HARAWAY, Donna J., Primate Visions: gender, race, and nature in the world of modern science, New York and London, Routledge, 1990

HARAWAY, Donna J., Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature, New York, Routledge, 1991

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HARAWAY, Donna J., When Species Meet, Minneapolis, University of Minnesota Press, 2008

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LATOUR, Bruno, Pandora’s Hope: Essays on the Reality of Science Studies. Cambridge, MA, Harvard University Press, 1999 (Trad. Bras. Gilson César C. de Sousa. Bauru, EDUSC, 1999)

LAURETIS, Teresa de, “Feminist studies/crítical studies: issues, terms, and contexts” In: Feminist Studies/Critical Studies,  Bloomington, Indiana University Press, 1986

LORDE, Audre, Sister outsider,  Trumansberg (NY), Crossing, 1984

MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. Manifest der Kommunistischen Partei, 1848 (Trad. Bras. Marcus Vinicius Mazzari.  Estudos avançados, v.12, n.34. São Paulo, set-dez, 1998)

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MORAGA, Cherríe & ANZALDÚA, Gloria (orgs), This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color, Watertown, Persephone, 1981

PRECIADO, Paul Beatriz,  Manifeste Contra-sexuel. Paris, Ballard, 2000 (Trad. Bras. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo, n-1 Edições, 2014)

SANDOVAL, Chela, Yours in struggle: women respond to racism, a report on the National Women’s Studies Association, Oakland, CA, Center for Third World Organizing, [s. d.]

SANDOVAL, Chela,  “New Sciences: Cyborg Feminism and the Methodology of the Oppressed” In: Chris Hables Gray (ed.),The Cyborg Handbook, New York, Routledge, 1995

STRATHERN, Marilyn, Reproducing the future: Essays on anthropology, kinship and the new reproductive technologies, Manchester, Manchester University Press, 1992

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Manifesto Ciborgue

Gênero

O termo gênero é comumente utilizado nas ciências sociais e humanas para enfatizar o caráter cultural das diferenças existentes entre homens e mulheres. As assimetrias de poder que demarcam estas distinções e discriminações são justificadas pela atribuição de características entendidas como naturais entre homens e mulheres, traços decorrentes das distinções corpóreas, em especial as associadas às capacidades reprodutivas. Os estudos clássicos de Marcel Mauss (1872-1950), As técnicas do corpo (1934) e de Margaret Mead (1901-1971), Sexo e Temperamento (1936) já indicavam que certos padrões de conduta não estavam relacionados à natureza de homens e mulheres, mas antes aos diferentes processos culturais e de socialização.

É possível recuar às décadas de 1920 e 1930, em diferentes países, para verificar, principalmente no continente europeu e na América do Norte, que as mulheres romperam com formas agudas de desigualdade, especificamente no que diz respeito ao direito à educação, à propriedade e ao voto. Esta dinâmica de equiparação de direitos foi central no pensamento feminista, sobretudo a partir dos anos 1960. Diferentes correntes feministas questionavam o suposto caráter natural da subordinação feminina e sustentavam a ideia de que essa assimetria era decorrente do modo como a mulher havia sido construída histórica e socialmente. Para além das diferenciações teóricas, as causas do jugo feminino foram apresentadas a partir de dois aspectos determinantes, um biológico e um social, isto é, a reprodução e a produção social. O corpo passa a ser considerado a principal causa da opressão sexual e da desigualdade social. Para o debate feminista pós 1960, no qual se destacam os nomes das ativistas Betty Friedam (1921-2006) e Bell Hooks (1952), as categorias “mulher”, “opressão” e “patriarcado” tornam-se centrais. A relação homem/mulher passa a ser entendida como uma relação política e a dominação masculina, postulada como universal, presente em diferentes épocas e culturas. A noção de patriarcado sai de voga, ao passo que o uso da categoria “mulher” é substituído por mulheres no plural, com o intuito de evidenciar as diversas “mulheres”, já que a mulher branca não seria dominada da mesma forma que a mulher negra; ao lado disso, distinções como posição social e geração também passam a ser entendidas como fundamentais nesse processo.

O conceito de gênero se desenvolve em um quadro marcado por intelectuais e militantes feministas em todo o mundo, abrindo espaço para a consolidação de novas formas de conhecimento e de luta política. Foram em especial as feministas norte-americanas e inglesas que se apropriaram do termo gênero, pioneiramente utilizado pelo psicanalista Robert Stoller (1924-1991) em intervenção no Congresso Psicanalítico Internacional em Estocolmo (1963), para marcar a distinção entre natureza e cultura. Apresentado por ele como “identidade de gênero”, o conceito enfatizava o caráter social em contraste com a diferença sexual tida como natural e inscrita no corpo fisiológico. O ensaio clássico da antropóloga Gayle Rubin (1949), O tráfico de mulheres: notas para uma economia política do sexo (1975), torna-se uma referência para o debate feminista e para os estudos antropológicos. A partir das leituras de Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009),  Sigmund Freud (1856 – 1939) e Jacques Lacan (1901 – 1981), a autora cria o conceito “sistema sexo/gênero”, descrito como um conjunto de arranjos modelados pela intervenção social que incidem na matéria prima biológica do sexo humano e da procriação. Os princípios fundamentais para a manutenção desse sistema seriam o constrangimento da sexualidade feminina, o tabu do incesto e a heterossexualidade. A análise de Rubin esteve marcada pelo princípio da igualdade presente na teoria marxista, tendo influenciado os estudos feministas nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

Trabalhos antropológicos posteriores voltam-se para a análise de contextos específicos, com foco em processos sociais que estabelecem a assimetria entre os sexos. A nova orientação tem por objetivo lançar uma crítica epistemológica às respostas transculturais oferecidas para enfrentar a suposta subordinação da mulher. Carol MacCormack (1933-1997)em Nature, culture and gender: a critique (1980) enfatiza que a dicotomia natureza/cultura é reflexo de uma concepção cultural específica e não uma característica universal, e, por isso mesmo, seria também necessário relativizar o conceito de dominação. Para a autora, há uma arbitrariedade de significação nos termos macho e fêmea tanto quanto nas noções de natureza e cultura. Nessa perspectiva, Marilyn Strathern (1941-) em No nature, no culture: the Hagen case (1980), utiliza a etnografia realizada no monte Hagen, da Melanésia, para evidenciar a inaplicabilidade dos conceitos ocidentais sobre outras culturas, uma vez que foram identificadas entre os Hagen concepções distintas das relações entre natureza/cultura e homens/mulheres.

Um novo paradigma teórico retira as questões de gênero do âmbito universal, situando-o como categoria de análise relacional e dinâmica; nessa vertente situa-se o ensaio de Joan Wallach Scott (1941-), Gênero: uma categoria útil para a análise histórica (1986). A autora, já distante das primeiras formulações sobre o tema, postula gênero como categoria histórica que permite pensar as origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres. A análise de Scott se distingue de formulações anteriores por sublinhar que nenhuma experiência corporal pode ser compreendida fora dos processos sociais e históricos. A autora chama a atenção para a necessidade de examinar o modo como gênero é construído em relação a uma série de atividades, organizações sociais e representações culturais, historicamente situadas. Tais perspectivas sobre o gênero indicam uma leitura que estranha e questiona qualquer naturalização da diferença e dos processos de significação do poder. A partir da abordagem de Judith Butler (1956-) em Problemas de Gênero (1990), todos os corpos são entendidos como sexuados, generificados e racializados por meio de um processo regulado de repetição de discursos. Para Butler, referência incontornável nesse debate, o gênero é antes “o ato de fazer do que o de ser”, sequência de atos cadenciados no interior de um quadro regulatório rígido, não havendo sexo capaz de resistir sem o gênero. A emergência dessas leituras logrou mobilizar e reordenar argumentos não apenas da antropologia, mas também da filosofia, da linguística e, também, das ciências biológicas e da natureza.

Diane Arbus,

Como citar este verbete:
MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro & FERREIRA, Lucas Bulgarelli. 2015. "Gênero". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/gênero>

autoria

Carolina Cordeiro Mazzariello e Lucas Bulgarelli Ferreira

bibliografia

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STRATHERN, Marilyn,  No nature, no culture: the Hagen case. In: Carol MacComarck  & Marilyn Strathern (ed), Nature, culture and gender. Cambridge, Cambridge University Press, 1980 (Trad. Bras. Iracema Dulley e Jamille Pinheiro. São Paulo, Cosac Naify, 2014)

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