Melanésia

Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas

Escrito por Margaret Mead (1901-1978), Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), consolidou a antropóloga como autora de sucesso, abrindo caminho para o seu reconhecimento como pioneira nos estudos de relações de gênero. Fruto de trabalho de campo realizado em Papua-Nova Guiné, na companhia do antropólogo Reo Fortune (1903-1979), seu marido na ocasião, o estudo se concentra em três povos da região do rio Sepik: os Arapesh, os Mundugumor e os Tchambuli (Chambri). Mead observou as personalidades atribuídas a homens e mulheres em cada uma dessas sociedades, concluindo que características psicológicas femininas e masculinas (os temperamentos) não são inatas, mas padrões culturais aprendidos e ensinados de uma geração a outra, sustentando, com isso, a ideia de que a cultura molda o comportamento, assim como produz a diferenciação de personalidades entre os sexos, argumento que  irá desenvolver, posteriormente, no livro Male and Female (1949).

Reo Fortune, “Mead conduzindo flautistas

Entre os Arapesh, a antropóloga encontrou uma sociedade em que homens e mulheres mostravam-se gentis, não agressivos, cooperativos e atentos às necessidades alheias. Não eram guerreiros ou vingativos, embora pudessem ocorrer conflitos em virtude de casamentos, quando estes se davam em razão de fuga ou rapto. Além disso, Mead deparou-se com um povo em que homens e mulheres apresentavam temperamentos semelhantes, inclusive no que dizia respeito ao cuidado dos filhos. Este traço é especialmente destacado no livro, pois se nos EUA as crianças eram consideradas uma incumbência das mulheres, aí também os homens delas se ocupavam. Já entre os Mundugumor, a autora se deparou com um povo violento, implacável e agressivo. Os comportamentos, por sua vez, não diferiam muito em razão do sexo: homens e mulheres assumiam atitudes hostis e havia conflitos por todos os lados. Por fim, entre os Tchambuli, as atitudes masculinas e femininas mostravam-se bastante distintas, tendo as mulheres um protagonismo evidente: elas eram dotadas de poder dentro das aldeias; eram as principais fornecedoras de alimentos, também responsáveis pela pesca, por negociar o excedente em troca de outros víveres e pela produção da riqueza (com a venda de mosquiteiros). Os homens, de seu lado, se dedicavam à arte e à estética, e eram emocionalmente frágeis. Tal padrão chama a sua  atenção por ser o inverso do comportamento tradicionalmente atribuído aos sexos na sociedade estadunidense da época: entre os Tchambuli, as mulheres não desempenhavam funções secundárias ou desvalorizadas porque mais restritas à esfera doméstica; ao contrário, eram provedoras e pouco se dedicavam às atividades ornamentais, consideradas femininas nos Estados Unidos e em outros contextos.

Mead também se detém sobre os “inadaptados” em cada um dos povos estudados, aos quais dedica um capítulo inteiro da obra. Os inadaptados seriam aqueles que não se conformariam aos papéis sociais impostos, não atendendo ao temperamento socialmente determinado. Incapazes de se adequarem à personalidade social exigida por sua cultura, apresentavam atitudes “desajustadas”. Entre os Arapesh, correspondiam às pessoas agressivas, eventualmente obrigadas a deixar a aldeia por algum tempo; para os Mundugumor, eram os indivíduos excessivamente gentis e cooperativos; já entre os Tchambuli, eram aqueles que não possuíam afinidades com o comportamento visto como natural para o seu sexo, aproximando-se das atitudes e temperamentos do sexo oposto.

A despeito da importância do estudo para as reflexões posteriores sobre o gênero na antropologia, nos estudos culturais e nas teorias feministas, assim como o seu caráter de crítica cultural - já que os exemplos não ocidentais funcionam como uma ferramenta de interpelação às normas e convenções norte-americanas - o livro recebeu uma série de críticas. Segundo o antropólogo David Lipset, a primeira veio de Reo Fortune, seu ex-marido e companheiro de trabalho de campo, em 1939. De acordo com Fortune, a inclinação para o cuidado maternal, partilhada entre por homens e mulheres Arapesh, seria uma criação hipotética de Mead. E em relação ao comportamento não-agressivo desse povo, continua, embora eles não tivessem guerreado nos dezessete anos anteriores às pesquisas realizadas pela antropóloga (que começaram em 1931), a guerra era uma presença na vida social e o ato de seduzir uma mulher casada podia desencadear sérios conflitos. Crítica, aliás, rebatida por Lipset que reafirma o argumento de Mead:  a despeito da existência de conflitos, os Arapesh não glorificavam a guerra. Outros especialistas, como Deborah Gewertz e Frederick Errington também refutaram as conclusões de Mead sobre a posição das mulheres entre os Tchambuli. Em um primeiro momento, os autores afirmam que, ao contrário do que dizia a antropóloga, os homens dominavam as mulheres; anos depois, voltam atrás e defendem que homens e mulheres Tchambuli estavam em esferas muito diferentes de atuação e por essa razão as mulheres não poderiam, nem almejavam, ter acesso ao poder dos homens. Para Lipset, que revisita todos esses debates, não seria possível entender homens e mulheres Tchambuli em uma escala de poderes, ou seja, um sexo não dominava o outro, nem procurava fazê-lo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/sexo-e-temperamento-em-tr%C3%AAs-sociedades-primitivas>

autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

bibliografia

GEWERTZ, Deborah & ERRINGTON, Frederick, “The remarriage of Yebali: a study of dominance and false consciousness in a non-Western society” In: STRATHERN, M. (dir). Dealing with inequality: analyzing gender relations in Melanesia and beyond, Cambridge, Cambridge University Press, 1987

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret. Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)

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Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas

Margaret Mead

Margaret Mead (1901-1978), antropóloga estadunidense, foi um dos expoentes da chamada escola culturalista norte-americana. Nascida na Pensilvânia, estudou psicologia e posteriormente antropologia na Universidade de Columbia (1923), momento em que o departamento era dirigido por Franz Boas (1858-1942) e Ruth Benedict (1887-1948), ambos engajados no estabelecimento dos pressupostos teórico-metodológicos da disciplina nos Estados Unidos, na cena político-social da época e no combate ao racismo científico. Mead dedicou seus estudos ao desenvolvimento de teorias sobre as relações entre cultura e personalidade, a socialização de crianças, a sexualidade, aos papéis diferenciais de gênero e às conexões entre cultura coletiva e personalidade individual. Uma de suas muitas contribuições aos estudos antropológicos foi demonstrar a influência do aprendizado sociocultural sobre o comportamento de homens e mulheres. Mead casou-se três vezes: primeiro com o arqueólogo Luther Cressman (1897-1994), depois com os antropólogos Reo Fortune (1903-1979) e Gregory Bateson (1904-1980), seus companheiros nos trabalhos de campo que realizou. Com Bateson teve uma filha, Mary Catherine Bateson (1939-), também antropóloga. Viveu com a antropóloga Rhoda Métraux (1914-2003) de 1955 até sua morte, aos 76 anos.

A carreira acadêmica da pesquisadora desenvolveu-se no Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia, onde ingressou em 1940. Paralelamente, atuou como curadora do American Museum of Natural History de New York, a partir de 1926. Lecionou também em diversas universidades nos EUA, como The New School, Fordham University's e University of Rhode Island, tendo se engajado ainda em uma série de organizações e associações, como a American Anthropological Association e American Association for the Advancement of Science. Durante a II Guerra Mundial, dirigiu pesquisas com expatriados sobre culturas europeias, que resultaram em duas publicações: Soviet Attitudes Towards Authority (1951) e Themes in French Culture (1954), este com Rhoda Métraux.

Ken Heyman.

Em um de seus mais conhecidos trabalhos, Coming of age in Samoa:  A Psychological Study of Primitive Youth for Western Civilisation (1928), resultado de pesquisas realizadas em Samoa a partir de 1925, esteve interessada em compreender como indivíduos atravessavam a adolescência, fase da vida comumente entendida como período de crise e rebeldia. Nessa  primeira etnografia, na Ilha de Tau, observou um ambiente bastante livre: a criação das crianças não incluía punições severas, o que representava um contraste com os problemas típicos enfrentados por jovens estadunidenses. A adolescência em Samoa coincidia com um período de alegria e prazer, o que parecia indicar que as formas que a transição entre a infância e a vida adulta assumem depende do contexto cultural. O livro foi publicado em 1928 e se tornou imediatamente um sucesso editorial. Anos mais tarde sofreu severas críticas do antropólogo neozelandês Derek Freeman (1916-2001), que alegou que em seus anos de pesquisas na mesma região não encontrou a liberdade sexual que a antropóloga descreve; pelo contrário, em sua ótica havia diversos distúrbios sexuais disseminados e um culto à virgindade. Para sustentar tamanha discrepância das conclusões, elaborou a tese de que Mead ou teria sido enganada pelas jovens, sem perceber que estas passavam informações jocosamente, ou que ela apenas enxergou o que queria ver de modo a comprovar suas teses. Em 1931, Mead segue para Papua-Nova Guiné, experiência a partir da qual publica Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), outra de suas obras que conhecem notoriedade. Os levantamentos aí realizados com Reo Fortune entre os Arapesh, Mundugumor e Tchambuli indicam que características associadas às diferenças sexuais entre homens e mulheres, frequentemente entendidas como temperamentos masculinos e femininos, não eram propriedades inatas aos sexos, mas reflexos do aprendizado cultural. Com essas formulações - que colocam em xeque a ideia do cuidado doméstico e de uma suposta sensibilidade e fragilidade do sexo feminino como padrão universal - ela abre caminho para os estudos de relações de gênero na antropologia, conferindo à crítica aos estereótipos e às atribuições de papéis sociais importante arcabouço teórico.

Na segunda metade dos anos 1930, Mead realizou trabalhos de campo em Bali, na Indonésia, que estão na origem de diversas produções fílmicas, entre as quais o ensaio fotográfico Balinese character: a photographic analysis (1942), realizado com Gregory Bateson, assim como o documentário Trance and dance in Bali (1951), entre diversos outros curtas-metragens, muitos deles com imagens produzidas nos EUA. Mead e Bateson fizeram ainda longos registros da criação e crescimento da filha Mary Catherine Bateson, que inspiraram o pediatra Benjamin Spock (1903-1998) a escrever sobre o cuidado infantil.

Com o passar dos anos, Mead tornou-se uma comentadora de sua própria cultura, dando palestras e escrevendo para revistas não científicas sobre educação, direitos das mulheres e sexualidade, o que a levou a ficar muito conhecida fora dos círculos acadêmicos especializados. Elaborou também sérias críticas aos testes de inteligência em voga, que visavam provar hierarquias raciais, questionando sua validade e metodologia, e apontando fatores que poderiam influenciar em seus resultados, como a estrutura familiar, o status socioeconômico e a exposição à linguagem. Favorável a uma abertura moral e de costumes com relação à vida tradicional ocidental, Mead e suas formulações foram recuperadas por militantes de movimentos pelos direitos de homossexuais, sobretudo pela ênfase concedida à variabilidade de relações afetivas nas sociedades humanas; não por acaso o seu nome foi incluído entre os verbetes da Encyclopaedia of Gay, Lesbian, Bisexual, Transgender and Queer Culture (2003). Os trabalhos realizados com Bateson, por sua vez, sobretudo Balinese character, são considerados precursores da antropologia da imagem, inspiração para muitas incursões recentes nesse campo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Margareth Mead". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/margaret-mead> 

autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

bibliografia

FREEMAN, Derek, The making and unmaking of an anthropological myth, Harvard University Press and the Australian National University Press, 1983

FREEMAN, Derek, The fateful hoaxing of Margaret Mead, Westview Press, 1999

GEERTZ, Clifford, Margaret Mead (1901—1978): A biographical memoir, National Academy of Sciences, 1989. Disponível em: http://www.nasonline.org/publications/biographical-memoirs/memoir-pdfs/mead-margaret.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret, Coming of age in Samoa: a psychological study of primitive youth for western civilization (1928), Harmondsworth, Penguin Books, 1981

MEAD, Margaret, Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)

RAPP, Linda. “Mead, Margaret (1901-1978)”, glbtq.com: an encyclopaedia of gay, lesbian, bisexual, transgender and queer culture, 2004. Disponível em: http://www.glbtqarchive.com/ssh/mead_m_S.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

SAHLINS, Marshall. “Views of a culture heroine”. Book review desk, The New York Times. 26 de agosto de 1984. Disponível em: https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/98/12/06/specials/bateson-eye.html. Acesso 02 de julho de 2018

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Mead, Margareth

William Halse Rivers

Nascido na cidade de Chatham, região do Kenty, Inglaterra, William Halse Rivers (1864-1922) conclui sua graduação em Medicina, aos 22 anos, obtendo o título de doutor na Universidade de Londres, dois anos depois. Em 1891, trabalha como médico residente no National Hospital for the Paralysed and Epileptic, período em que publica estudos nas áreas de Psicologia e Neurologia. A fim de especializar-se nesses campos, muda-se para a Alemanha, onde irá estudar na Universidade de Jena com o psiquiatra Emil Kraepelin. De volta à Inglaterra, assume o Laboratório de Psicologia na University College London, tornando-se, em 1897, o primeiro professor em Psicologia Fisiológica e Experimental da Universidade de Cambridge. Na primeira década do século XX, Rivers produz uma série de artigos nos campos da antropologia e psicologia experimental. Após uma segunda expedição à Oceania, às Ilhas Salomão (Melanésia), publica o artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica” (1900 e 1910, para a segunda versão revista), no qual apresenta uma ferramenta capaz de coletar, com precisão e rapidez, informações-chave para os estudos de parentesco e da organização social.

Foto por Henry Maull para The Royal Society (1922)

Em 1898, Rivers integrará a expedição ao estreito de Torres, localizado entre a Austrália e a Papua-Nova Guiné, que se tornaria um marco na história da antropologia em geral e na britânica, em particular. Sua experiência com os insulares dessa região da Melanésia, onde conduziu, como psicólogo, testes sobre as percepções visuais e cognitivas dos nativos, foi fundamental para que sua carreira e produção se orientassem na direção da antropologia; é nesse contexto que lança as bases para o desenvolvimento de seu método genealógico. Entre 1901 e 1902, com interesse em temas como o parentesco e a organização social, passa cinco meses no sul da Índia, entre os Toda, cujo resultado vem à luz com a monografia The Toda, publicada em 1906. A experiência de ir a campo para obter seus próprios dados de pesquisa sinaliza o esforço do autor em trabalhar com fontes primárias, algo pouco comum à produção antropológica da época. Nos anos seguintes, Rivers aproximaria-se do difusionismo, o que era considerado, por alguns antropólogos de sua geração, uma adesão à empiria estimulada pelo trabalho de campo.  Em seu primeiro discurso como presidente da seção de Antropologia da British Association for the Advancement of Science, em 1911, realiza duras críticas à atitude especulativa adotada pelos evolucionistas, considerando-a extremamente prejudicial à constituição da nova ciência. Em 1914, publica Kinship and Social Organization, coletânea com três conferências ministradas em 1913 na London School of Economics sobre sua experiência durante o campo realizado na segunda expedição à Oceania. No mesmo ano, publica The History of Melanesian Society, obra em dois volumes, considerada pelo autor a sua mais importante publicação. Enquanto o primeiro livro contém descrições etnográficas dos povos visitados, o segundo abarca uma densa discussão teórica voltada, sobretudo, para uma crítica à perspectiva evolucionista, ressaltando a importância das análises etnológicas frente às especulações “de gabinete”. Durante a I Guerra Mundial, Rivers reaproxima-se da psicologia, ganhando notoriedade pelos tratamentos que realizou entre os soldados britânicos com traumas de guerra. Também se envolve com a esfera política, sendo nomeado candidato ao Parlamento britânico nas eleições de 1922 pelo Labour Party. Mas não chegou a disputar o pleito, já que faleceria meses antes.

Em seu multifacetado trajeto intelectual, W. H. R. Rivers estabeleceu o programa básico da Antropologia Social britânica ao adotar a pesquisa empírica como fonte privilegiada de informação,  influenciando importantes autores da disciplina, como Radcliffe-Brown (1881-1955) e instituindo preceitos fundamentais para estudos posteriores sobre o parentesco e a organização social, especialmente por ter privilegiado a pesquisa empírica e estabelecido o método genealógico. Como lembra Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006) na introdução a um volume dedicado a Rivers, o caráter científico que o antropólogo objetivava conferir à antropologia foi emblematicamente sintetizado por Claude Lévi-Strauss (1908-2009) quando disse, em 1958:  “Em Rivers, a Etnologia encontrou seu Galileu”.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "William Halse Rivers". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/william-halse-rivers>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

KUPER, Adam, “Richard Slobodin. W. H. R. Rivers (Leaders of Modern Anthropology Series)”, The American Historical Review, n.84 (4), Oxford, Oxford University Press, 1979, p.1027-1028

OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.), A Antropologia de Rivers. Tradução Gilda Cardoso de Oliveira e Sônia Bloomfield Ramagem. Campinas, Editora da UNICAMP, 1991

SILLITOE, Paul, “The Role Of Section H At The British Association For The Advancement Of Science In: “The History Of Anthropology”, Durham Anthropology Journal, Volume 13 (2), Durham, Department of Anthropology/Durham University, 2005, p.1-17

SILVA, Márcio Ferreira da, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, 2010, p. 323-336

SLOBODIN, Richard, W. H. R. Rivers, New York, Columbia University Press, 1978

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Rivers

Coral Gardens and Their Magic

Publicada em 1935, Coral gardens, a study of the methods of tilling the soil and of agricultural rites in the Trobriand Islands é a quarta e última monografia produzida por Bronislaw Malinowski (1884-1942) acerca da vida dos nativos das Ilhas Trobriand, no Pacífico Ocidental. Com quase mil páginas de extensão, a obra tem como foco a relação entre magia e práticas agrícolas dos trobriandeses. Embora não tenha tido a notoriedade e difusão de Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), Coral Gardens foi considerada pelo próprio autor como sua obra mais bem-acabada, tanto pela exposição sistemática do método funcionalista quanto por sua inovadora abordagem em relação ao campo da linguística, juízo compartilhado por leituras posteriores da obra, como as dos linguistas Jean Rupert Firth (1890-1960) e Terence Langendoen.

Bronisław Malinowski e trobriandeses, 1918. Wikimedia commons.

O livro é dividido em sete partes, distribuídas em dois volumes. No primeiro, Malinowski esboça aspectos gerais da vida social dos trobriandeses, tomando como base suas obras anteriores e o método funcionalista, exercitado antes, e que se encontra sistematicamente apresentado nos capítulos finais do primeiro tomo. Encontra-se aí descrita a distribuição da população do arquipélago em diversas aldeias e sua especialização econômica, além de sua integração em um sofisticado e abrangente sistema de comércio, o kula. Na segunda parte, a mais extensa do primeiro volume, Malinowski volta seu olhar às práticas agrícolas, à magia e ao regime de posse da terra - sobre os quais se assentam elementos centrais da organização social trobriandesa – além de se deter nos mitos que narram a origem dos clãs e sua conexão com determinadas porções do território, na divisão dos clãs em classes (ranks), nas regras matrimoniais e no papel de liderança ocupado pelo mágico. Em relação às roças, ou jardins cultivados, o autor as descreve como verdadeiras obras de arte produzidas pela tecnologia e pela magia, e não como meros espaços utilitários.

Uma das contribuições mais originais da obra é o esboço de uma teoria etnográfica da linguagem, levada a cabo no segundo volume da obra. O autor defende que os encantamentos mágicos, como toda forma de linguagem, devem ser entendidos em seu contexto como “atos verbais”, tendo por função produzir efeitos práticos. Para Malinowski, o verdadeiro fato linguístico é a fala em seu contexto, entendido em um sentido amplo, envolvendo não apenas as palavras, mas expressões faciais, gestual, atividades corporais, o grupo presente ao ato de fala e o próprio ambiente em que se encontram. Nesse sentido, a obra traz aportes pioneiros ao campo da linguística conhecido como pragmática, o que se evidencia, por exemplo, na sua apropriação por J. R. Firth.

Merecem destaque também as inspirações que fornece ao antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) no ensaio The Magical Power of Words (1968). Reanalisando o material reunido por Malinowski em Coral Gardens à luz da teoria dos atos de fala de John Austin (1911-1960), Tambiah defende que ato e palavra se relacionam de forma indissociável no pensamento mágico. A abordagem pragmática ecoa ainda na análise de Alfred Gell (1945-1997) sobre a eficácia do objeto de arte e seu poder de agência. Coral Gardens foi também objeto de reflexão o historiador Karl Polanyi, para elaboração de sua crítica ao homo economicus, desenvolvida em A grande transformação (2000). Em sua introdução crítica à edição inglesa de 1966, Edmund Leach (1910-1989) aponta que Malinowski é inovador por descrever um modo de vida e não apenas descrições de costumes, modos e artefatos como seus antecessores; critica, entretanto, ser sua análise da sociedade pouco sociológica e concentrada nos indivíduos. Além disso, haveria, segundo Leach, uma contradição inerente ao seu tratamento dos trobriandeses como, ao mesmo tempo, únicos e universais, o que não o impede de reconhecer o “mestre do trabalho de campo antropológico” que foi Malinowski - Coral Gardens uma evidência irrefutável desse fato.

Como citar este verbete:
GUERRERO, Natalia Ribas & BASSI, Flávio. 2016. "Coral Gardens and Their Magic". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/coral-gardens-and-their-magic>

autoria

Natalia Ribas Guerrero e Flávio Bassi

bibliografia

FIRTH, John Rupert, The Tongues of Men and Speech, London, Oxford University Press, 1964

GELL, Alfred, Art and agency, Oxford, Clarendon Press, 1998

LEACH, Edmund, “Introduction” In: Malinowski, B., Coral Gardens and Their Magic, Soil-tilling and agricultural rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1

LANGENDOEN, Terence, London School of Linguistics: A Study of the Linguistic Theories of B. Malinowski and J. R. Firth, Cambridge, MIT Press, 1968 

MALINOWSKI, Bronislaw, Coral Gardens and Their Magic. A Study of the Methods of Tilling the Soil and of Agricultural Rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1 e 2

POLANYI, Karl, The Great Transformation: Origins of Our Time, New York, Farrar & Rinehart, 1944 (Trad. Bras. Fanny Wrobel. Rio de Janeiro, Campus, 1980)

SENFT, Gunter, “Bronislaw Malinowski and Linguistic Pragmatics”, Lodz Papers in Pragmatics v. 3 (2007), p. 79-96

TAMBIAH, Stanley, “The Magical Power of Words”, Man, New Series, v. 3, n. 2 (Jun., 1968), pp. 175-208

YOUNG, Michael W., “Malinowski’s Last Word on the Anthropological Approach to Language”, Pragmatics, v.1, n. 21 (2011), p. 1-22

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Coral Gardens

Naven

Publicada originalmente em 1936, Naven: um esboço dos problemas sugeridos por um retrato compósito, realizado a partir de três perspectivas da cultura de uma tribo da Nova Guiné é uma obra baseada no trabalho de campo que Gregory Bateson (1904-1980) realizou entre os Iatmul (povo das terras baixas do rio Sepik, Nova Guiné), ao longo de 1929 e 1932. Uma das principais contribuições da obra é fazer do comportamento ritual o centro da investigação antropológica.

Gregory Bateson,

A monografia focaliza as atitudes observadas durante o ritual nativo naven, analisando-as a partir de diferentes pontos de vista científicos, parciais mas complementares entre si. A cerimônia que dá título ao livro ocorre para comemorar realizações culturalmente valorizadas de um jovem iatmul. Sua principal figura é o tio materno (wau) que, em clima de bufonaria, “traveste-se” em “repugnantes” (velhas, sujas) roupas femininas. Nesse contexto, procura seu sobrinho (laua) e, ao encontrá-lo, o embaraça com uma “saudação sexual”: esfrega suas nádegas na canela do laua, o qual deve dar objetos de valor para que o wau “fique bom”. Ainda que este “travestismo” se irradie com modos e intensidades variadas entre diversos parentes ligados ao laua, e que o naven não se limite à relação entre laua e wau (o que não passa despercebido por Bateson), é aí que reside o centro e parte mais significativa da cerimônia, seu ponto de partida e foco de sua análise.

As escolhas metodológicas e o modo de exposição dos problemas nesta obra – primeira e única monografia escrita por Bateson – fazem ressoar as múltiplas facetas de seu percurso intelectual. Em Naven, a relação do autor com o estrutural-funcionalismo, por meio do qual ele trava o seu contato inicial com a antropologia, é marcadamente heterodoxa: ainda que lide com questões relativas à integração social no livro – caras à tradição britânica na qual se forma – enfatiza ser insuficiente, do ponto de vista explicativo, tomá-las isoladamente. Nesse sentido, busca em outros campos disciplinares (como a psiquiatria) e tradições antropológicas (como a norte-americana) instrumentais analíticos que permitam observar novos aspectos do fenômeno cultural. Por um lado, através do exame do que denomina eidos iatmul, Bateson explicita modos de pensamento culturalmente padronizados, premissas e operações de identificação relevantes para o “comportamento naven” do wau, inspirando-se no trabalho seminal de Radcliffe-Brown (1881-1955) sobre o irmão da mãe na África do Sul. Por outro lado, observa expressões características da emoção iatmul, de seu ethos, e o valor específico a elas atribuído durante a cerimônia, o que mostra como a análise do naven encontra-se repartida em um ponto de vista sociológico, um eidológico-cognitivo e outro etológico-afetivo. Apesar da separação meticulosa dos planos de análise, Bateson esclarece que o material sobre o qual se baseia o estudo é o mesmo, concluindo, no balanço autocrítico efetuado nos epílogos das edições de 1936 e de 1958, que as perspectivas adotadas são apenas maneiras pelas quais os cientistas organizam a sua descrição, e que, portanto, nem o ethos, o eidos ou a estrutura social têm uma existência independente da explicação científica. Por essa razão, Bateson considera que Naven é principalmente um “estudo sobre a natureza da explicação”, através do qual se deduz a impossibilidade de totalização explicativa do fenômeno trabalhado, já que sempre haverá resíduos e impurezas que escapam a qualquer tentativa de análise.

Se a investigação é construída a partir de planos heterogêneos, há um fenômeno que os atravessa: a cismogênese, que Bateson define como “criação da separação”. Formulada para demonstrar o potencial disjuntivo da relação entre as diferentes ênfases emocionais atribuídas a cada sexo (derivada da análise do ethos), a cismogênese também foi notada na descrição dos padrões de fissão da estrutura social iatmul (perceptíveis pelo prisma sociológico) e nos modos de operação dos dois tipos de dualismo encontrados no pensamento iatmul (que se mostram pelo exame do eidos). A ligação entre as análises afetiva e cognitiva, tornada possível pela persistência da cismogênese, faz com que Bateson proponha uma relação entre estímulos e reações para compreender como ethos e eidos são inculcados no indivíduo. Tal discussão expressa o interesse do autor nos processos de aprendizagem, intimamente ligados às suas reflexões posteriores sobre teoria da comunicação e cibernética.

Naven não foi uma obra recebida com destaque pelo establishment antropológico de sua época; recentemente, contudo, o livro tem fornecido grandes inspirações para a antropologia, lembremos a importância do conceito de cismogênese para a antropologia de Roy Wagner (1938), como mostra o seu A invenção da cultura (1975); a influência da descrição dos ethos sexuais iatmul para as análises do gênero na Melanésia, realizadas por Marilyn Strathern (1941) em O gênero da dádiva (1988) e a relevância do naven para a análise do ritual proposta por Michael Houseman e Carlo Severi, em 1994. Como se vê, uma obra que forneceu potências renovadoras ao pensamento antropológico ao longo das últimas décadas.

Como citar este verbete:
MONTEIRO, Eduardo Santos Gonçalves & BRUSCO, Rodrigo Rossi Mora. 2016. "Naven". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/naven>

autoria

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro e Rodrigo Rossi Mora Brusco

bibliografia

BATESON, Gregory, “Social structure of the Iatmul people of the Sepik River”, Oceania, v. 2, n. 3, Sidney, 1932, p. 245-291

BATESON, Gregory, Naven: a survey of the problems suggested by a composite picture of the culture of a New Guinea tribe drawn from three points of view (1936), Stanford, Stanford University Press, 1958 (Trad. Bras. Magda Lopes. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2008)

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Naven

Ritual - Roy Wagner

O “ritual” é, para Roy Wagner (1938), análogo à “cultura”: ambos constituem um estilo interpretativo, um modo criativo que se utiliza de distinções convencionais para improvisar e produzir a diferença. A diferença entre eles é que o conceito de “cultura” é mobilizado para designar fenômenos mais abrangentes, enquanto o “ritual” é parte da “cultura” e constituiu uma modalidade específica de ação criativa que opera dentro dela como um controle. A especificidade do rito reside, em primeiro lugar, no seu caráter não-cotidiano; trata-se de uma ação que metaforiza distinções sociais tidas como dadas durante a vida regular do grupo. A motivação para essa manipulação deliberada das convenções sociais é a necessidade de controlar uma situação ou evento diferenciante que, tomado como uma força dada, se converte em algo ameaçador e ambíguo para a convenção. Essas situações diferenciantes são frequentemente percebidas como um poder que transcende a ação humana ordinária. Para garantir algum tipo controle social sobre essas forças, mobiliza-se uma distinção entre “cotidiano” e “cerimonial”, de modo a estabelecer um contato direto com elas e metaforizá-las segundo as convenções de que se lançou mão. A especificidade da invenção ritual consistiria no seu caráter de ação coletiva, capaz de mobilizar não apenas um indivíduo  ou conjunto de indivíduos, mas um contingente maior da coletividade social.           

INCT InclusãoUm exemplo empírico de “ritual” pode ser tomado da análise realizada em Habu: The Innovation of Meaning in Daribi Reluigion (1972). O argumento parte da cerimônia Habu que o antropólogo assistiu e descreveu durante o seu trabalho de campo junto aos Daribi, povo da Nova Guiné. O pano de fundo sobre o qual esse ritual inova é chamado pelo autor de “ideologia social” daribi e inclui domínios como a mitologia, o parentesco, os papéis sexuais, os sistemas de trocas e obrigações rituais, os sistemas de nominação etc. Dentre a variedade de metáforas encontradas nos mitos da Papua Nova Guiné, o autor põe especial relevo no mito da maldição de Soul, em que o demiurgo dos Daribi, após ser envergonhado pelas mulheres, lança a maldição da mortalidade sobre a humanidade. Os mitos são pensados como metáforas que atualizam a ideologia dos Daribi, marcada pelos papéis sexuais que opõem e contrastam o masculino e o feminino. Esta divisão é expressa tanto nos mitos, como na divisão do trabalho, na troca de riqueza, na magia e nos rituais a partir das relações de complementaridade ou de substituição que elas engendram. A interação desses dois aspectos da ideologia Daribi requer uma constante mediação feita por meio de metáforas.

A noção de mortalidade se estende, através de metáforas complementares, pela cosmologia, divisão espacial e temporal do mundo daribi, e constituiu um ponto central de sua ideologia. O Habu, por sua vez, está diretamente ligado a um domínio que inova sobre essa ideologia central: a questão da invenção da imortalidade. A maldição de Soul é combatida pela personificação do fantasma (izibidi), que é o ato de transcender a morte e “inventar a imortalidade”. Os Daribis mediam suas relações com os fantasmas por meio de metáforas. O médium ou xamã (sogoyezibidi) “impersonaliza” uma metáfora entre fantasmas e humanos, aliando as capacidades dos vivos e propriedades dos mortos, controlando estes por um nexo de posse. Essa oposição é incorporada pelo fantasma e representa uma inovação sobre a ideologia, onde o médium inova sobre o convencional, uma vez que seu fantasma é uma inovação sobre suas próprias limitações humanas, ultrapassadas pelo poder do fantasma que agora é personificado por ele. A cerimônia Habu seria também um modo de controlar a relação de possessão e uma maneira semelhante de inovar sobre o convencional. Contudo, enquanto as práticas ditas xamânicas o fazem a partir de uma intervenção individual do sogoyezibidi, o Habu consiste fundamentalmente  em uma ação coletiva.

Em A Invenção da Cultura (1975), a palavra “ritual” aparece entre aspas na maioria das vezes em que é empregada pelo autor. Com isso, Wagner deixa marcado que, quando fala em cultura, está mencionando certa tradição ou convenção que a utilizou. A abundância no uso de aspas constitui, assim, uma maneira de Wagner mostrar que seu conceito de “cultura”, ao mesmo tempo que se diferencia da acepção antropológica corrente, necessita dessa convenção para ter sentido. Pode-se compreender, a partir daí a inovação análoga que ele propõe para o tema do “ritual”. A convenção constitui apenas a metade do mundo do significado. A outra dimensão a ser considerada é aquela pertinente à invenção, designada por Wagner por um conjunto de termos diversos: “metáfora”, “improvisação”, “impersonação”, “diferenciação”. Nela, o sentido é alcançado pela extensão dos contextos simbólicos convencionais a novas situações e eventos. Do ponto de vista do autor, estes dois modos de significação estão necessariamente envolvidos em todo ato de simbolização eles são ao mesmo tempo interdependentes e contraditórios entre si. Um agente simbolizador necessariamente mobiliza no ato de criação de significado esses dois modos, tendo, contudo, que concentrar sua atenção em apenas em um deles, que se torna o controle, e passando a perceber o outro como uma motivação ou uma compulsão que transcende e motiva sua ação. Esse ajuste de foco tem como duplo efeito converter um dos modos no domínio do dado, do inato, e tornar o outro modo o reino do construído, próprio para a ação e a responsabilidade humanas.

Como citar este verbete:
DOS SANTOS, Augusto Ventura & PINTO FILHO, Olavo Souza. 2015. "Ritual - Roy Wagner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/ritual-roy-wagner>

autoria

Augusto Ventura dos Santos e Olavo de Souza Pinto Filho

bibliografia

WAGNER, Roy, Habu: The Innovation of Meaning in Daribi Religion, Chicago, The University of Chicago Press, 1972.

WAGNER, Roy, The invention of culture, The University of Chicago Press, 1975 (Trad. Bras. Marcela Coelho de Souza e Alexandre Morales. São Paulo: Cosac Naify, 2010)

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Ritual - Roy Wagner

The Magical Power of Words

A pergunta que norteia o ensaio The Magical Power of Words (1968) do antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) refere-se à potência mágica que as palavras possuem no contexto ritual. O autor elege a linguística como fonte teórica para discutir a relação entre atos e palavras, de modo a problematizar a concepção antropológica clássica que vê o ritual como repetição de palavras, atos não verbais, manipulação de objetos e, ainda, a partir da oposição entre magia e religião. Ao descrever um complexo ritual de exorcismo no Sri Lanka (Ásia do Sul), Tambiah indica que as palavras podem ser proferidas em diferentes idiomas, mostrando-se: coloquiais ou eruditas (acompanhadas de música ou oferendas de alimentos); ditas em voz baixa ou alta, ou em uma variedade de tons, hierarquias e intenções. Na forma de feitiços, elas podem ainda conter alusões abreviadas aos mitos, que são cantados na ordem da progressão da cura, articulando o ritual à cosmologia que ele encarna, e indicando a presença de duas lógicas que atuam articuladamente: uma que corresponde ao panteão e à teologia na relação com os homens, deuses e espíritos, e a outra que diz respeito à comunicação entre o exorcista e o paciente na passagem da doença para a cura. No âmbito específico da discussão da linguagem no ritual, o autor enfatiza as distinções entre os usos das línguas profanas, seculares e sagradas, posto que prefiguram os sentidos de cada aspecto e etapa do ritual, e a importância dos papéis desempenhados pelos seus executores, que atuam como mediadores no contato com o divino, em rituais de cura, iniciação etc.

ritual de cura no Sri Lanka, dança das 8 máscaras Sanniya yakA proposta de Tambiah de reanálise da magia trobriandesa, estudada por Malinowski (1884 -1942) está baseada em algumas premissas, a saber, que o uso da linguagem no ritual não é qualitativamente diferente do seu uso ordinário, e que seu sistema combina palavra e gesto, linguagem e ação. Ele toma como ponto de partida a elaboração de Roman Jakobson (1896-1982) a respeito da afasia (1956), na qual discute os dois mecanismos da linguagem - o metafórico e o metonímico - baseados nos princípios de semelhança e contiguidade: o primeiro permitindo abstrações através de substituições e o segundo, a construção de uma totalidade a partir das partes, procedimentos estes postos em prática pela magia trobriandesa no contexto da ação.

A abordagem do ritual, tal como construída nesse ensaio com o auxílio de narrativas etnográficas dissolve dicotomias recorrentes, como aquelas entre linguagem/ação, mito/rito, ação/representação. O ritual como ato performativo tem um objetivo integrador e coletivo; seus procedimentos combinam ações verbais e não verbais, e a linguagem aí mobilizada tem o poder de invocar imagens e comparações, projetando o futuro e permitindo voltar ao passado. Ao recuperar Malinowski e sua etnografia linguística do ritual, assim também como as formulações de do filósofo inglês John Austin (1911-1960) sobre a dimensão performativa da fala, Tambiah demonstra que no pensamento mágico, magia e prática, mito e rito, ação e palavra constituem-se mutuamente, numa relação indestrinçável.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2015. "The Magical Power of Words". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/magical-power-words>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

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Magical Power of Words, The

Arte - Alfred Gell

O antropólogo britânico Alfred Gell (1945-1997) desenvolve seu conceito de arte como parte de sua proposta de estabelecimento de uma nova antropologia da arte. Responsável por uma rotação de perspectivas nesse domínio, Gell revisa conceitos como obra de arte, artefato, tecnologia da arte, estética, encantamento, magia e estilo, o que resulta em uma complexa teoria sobre a agência do objeto artístico.

No artigo “A tecnologia do encanto e o encanto da tecnologia (1992), o autor considera as diversas artes como partes de um vasto e frequentemente não reconhecido sistema técnico, que ele denomina “tecnologia do encanto”. Nessa perspectiva, objetos de arte seriam fruto de uma atividade técnica de transubstanciação engenhosa de materiais e das ideias a eles associados. Gell reivindica aí o emprego de um “filisteíismo metodológico”, postura de total indiferença do antropólogo no tocante ao valor estético das obras de arte. Para elucidá-la, utiliza como exemplo objetos de arte criados com a intenção de funcionar como “armas”  em uma “guerra psicológica”; é o caso das tábuas que ornam as proas das canoas dos participantes do kula, sistema de trocas realizado pelas populações das ilhas Trobriand. A intenção por trás do uso dessas tábuas é fazer com que os parceiros da troca que estão em outras ilhas, ao observarem as canoas chegando, se deslumbrem a ponto de perderem os sentidos, oferecendo braceletes e colares mais valiosos do que de costume. A eficácia dos objetos de arte como componentes da tecnologia do encanto e o poder de fascinação que exercem são resultantes do encanto da tecnologia empregados em sua construção. Gell prioriza, assim, a análise da eficácia do objeto de arte, seu poder de agência.

Tábua de proa de canoa, Baía Milne, Massim, Papua-Nova Guiné, Museu de Arte de HonoluluNo artigo On Coote's ‘Marvels of everyday vision’” (1995), por sua vez, Gell realiza uma crítica à posição defendida pelo antropólogo britânico Jeremy Coote de que haveria sociedades que, mesmo sem produzir arte, possuiriam um conceito de estética. Coote utiliza como exemplo o conjunto de categorizações de cores, formas e padrões produzidos pelos Dinka do Sudão a partir das manchas e da coloração do gado, e que são projetadas na classificação de tudo aquilo que tange sua visualidade no dia a dia. A objeção de Gell a essas teses, que defendem a existência de uma estética Dinka, se volta ao pressuposto de que obras de arte não devem ser reduzidas a artefatos, podendo também englobar vegetais, seres animados, pinturas corporais e tatuagens, entre outros. A própria forma como os Dinka criam e enfeitam alguns de seus bois, enaltecendo e cultuando suas qualidades e atributos por meio de poemas e canções os convertem, para o autor, em objetos de arte. Para ele, razões estéticas (como a de “beleza”) são indissociáveis de razões práticas (como a de auferir “prestígio”). Em suma, sua crítica à posição de Coote reside em mostrar que não existe uma antropologia da estética que não seja também uma antropologia da arte, ou mais precisamente, uma antropologia dos objetos de arte. Também no ensaio “A rede de Vogel: armadilhas como obras de arte e obras de arte como armadilhas (1996), Gell advoga o abandono da noção de estética pela antropologia da arte – que almeja desfazer distinções correntes entre obras de arte e “meros” artefatos – analisando a presença de uma rede de caça tradicional Zande em uma exposição de arte contemporânea. Se, ao veicularem significados, as obras de arte encarnam intencionalidades complexas, também os instrumentos, ao evocarem os nexos sociais de sua produção e uso, seriam candidatos potenciais à adjetivação de obras de arte.

Essas teses sobre o objeto artístico, desenvolvidas em uma série de artigos e intervenções do autor em debates acadêmicos, desembocarão no seu mais conhecido (e inacabado) livro sobre o tema, Arte e Agência: uma Teoria Antropológica ([1998] 2018). Lançada postumamente, a obra contem a proposta de uma metodologia para a antropologia da arte. Gell inova ao afirmar, na contra-corrente, que a arte seria menos um suporte de comunicação de sentidos simbólicos, que um sistema de ação e de mediação de relações sociais. Ao rejeitar definições sociológico-institucionais, estéticas e semióticas do objeto artístico – agora renomeado como “índice” – o autor propõe uma definição teórica, com ênfase nos seus processos de agência, intenção, causação, resultado e transformação.

O conceito de arte que Gell delineia ao longo de sua obra tornou-se uma referência incontornável para os estudos de antropologia da arte, devido às suas críticas aos limites das abordagens estética (oriunda da filosofia), institucional (da sociologia), interpretativa (da própria antropologia) e das aproximações de cunho mais historicista ou formalista (polarizadas entre os campos da história e da crítica de arte). Em diversos contextos etnográficos – que vão desde as terras altas da Papua-Nova Guiné, passando pela Oceania, Sul da Ásia, Índia e chegando até as terras baixas da Amazônia – as formulações de Alfred Gell permitiram que diversos antropólogos, impactados pelas possibilidades teóricas abertas pelo autor, não mais dissociassem a produção e a circulação de objetos de arte de suas propriedades de agência e de sua relação com tópicos de interesse da Antropologia que vão além do campo de estudo da arte.

Como citar este verbete:
MENEZES, Hélio & HUPSEL, Rafael. 2015. "Arte - Alfred Gell". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/arte-alfred-gell>

autoria

Hélio Menezes e Rafael Hupsel

bibliografia

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