parentesco

Introdução a African systems of kinship and marriage

O grande esforço comparativo em torno das sociedades africanas no qual parece culminar o chamado estrutural-funcionalismo britânico encontra-se resumido, no que diz respeito ao estudo do parentesco, em dois textos clássicos: um é o artigo de síntese e crítica escrito por Meyer Fortes (1906-1983), The structure of unilineal descent groups, de 1953; o outro é esta Introdução de Alfred Reginald Radcliffe-Brown (1881-1955) ao African Systems of Kinship and Marriage, volume editado por ele e por Daryll Forde (1902-1973), e publicado com apoio da UNESCO em 1950. Trata-se, no dizer Lévi-Strauss (1908-2009), de um “verdadeiro ‘tratado”, que serve, a uma só vez, como introdução ao estudo do parentesco em geral, em especial do parentesco africano, e como uma espécie de súmula das proposições teóricas do antropólogo inglês, que só viveria por mais cinco anos. De fato, à exceção da coletânea Estrutura e na sociedade primitiva (1952), esta seria sua última grande publicação.

Nessa Introdução, Radcliffe-Brown retoma algumas questões clássicas que, por exemplo, haviam oposto Lewis H. Morgan (1818-1881) e John F. Mc Lennan (1827-1881), tais como a relação entre terminologia de parentesco e conduta social, e a distinção entre sistemas descritivos e classificatórios. A terminologia classificatória, em particular, aparece aqui como dispositivo conceitual que permite aos agentes lidar com um número elevado de relações – ideia que ele encontra em Henry S. Maine (1822-1888). É notável, além disso, que os mesmos princípios nos quais Radcliffe-Brown havia buscado decompor os chamados sistemas crow-omaha (no artigo de 1941, Introduction to the study of kinship, republicado na coletânea de 1952), sejam aí extraídos dos dados africanos: o princípio da unidade do grupo de siblings, o princípio da unidade do grupo de linhagem e os princípios das relações entre gerações. Assim, tipos distintos de sistema acabam se mostrando passíveis de um mesmo tipo de análise. O mesmo se verifica através da extensa referência feita, usando esses mesmos princípios, a certos momentos do passado ocidental – em especial ao direito romano e ao antigo direito anglo-saxão, analisados em um recorte sincrônico – com o interessante efeito suplementar (dado o contexto inequivocamente colonialista da publicação) de pôr em perspectiva a prática adquirida do Ocidente moderno.

Como se define aí o parentesco? Há, por um lado, uma definição “egocentrada” que, conforme mostra Louis Dumont (1911-1998), parte da circunscrição própria da língua inglesa de kinship à consanguinidade, de modo que kin acaba remetendo à noção de descendência, seja de modo direto (como entre pai e filho) ou indireto (como entre irmãos); por outro lado, há uma definição mais geral, “sociocentrada”, que enuncia o sistema de parentesco como rede de relações sociais e como parte de uma rede maior, ou seja, a estrutura social do grupo, em determinado espaço de tempo. Esta delimitação temporal, enunciada no início do livro de 1952, não exclui a possibilidade de alteração: no mínimo desde sua antiga polêmica contra A.L. Kroeber (1876-1960) nos anos 1930, Radcliffe-Brown busca introduzir tal possibilidade no modelo teórico em termos da oposição entre estabilidade e instabilidade, como fica claro no artigo Kinship terminologies in California (1935).  Daí resulta a posição complexa do casamento. Trata-se, para Radcliffe-Brown, de algo da mesma ordem que o nascimento e a morte, ou seja: mais um caso de ruptura e reorganização (rearrangement) da estrutura social, o que não deixa dúvidas de que é como realidades essencialmente sociológicas que todos esses fenômenos são aí predominantemente tratados. Além disso, o casamento deve ser compreendido como um processo em várias etapas que se desenvolvem no tempo e, particularmente no contexto africano, recobra relevo seu caráter de pacto entre famílias, como parte de uma sequência de prestações. Menciona-se, por isso, o clássico Ensaio sobre a dádiva (1923-4) de Marcel Mauss e fala-se mesmo na reiteração de alianças, sem que se esboce, entretanto, uma teoria dos regimes de troca, como a que Lévi-Strauss acabara de apresentar em As estruturas elementares do parentesco (1949). Correspondentemente, e em curiosa tensão com o restante do trabalho, o que interessa a Radcliffe-Brown na proibição do incesto – cuja universalidade Lévi-Strauss buscava caracterizar e explicar sociologicamente nesse livro – é tão somente a reação emocional individual e de caráter supostamente inato que ela envolve, estando expressamente separada (com pequenas concessões) do problema da regulação do casamento, discordância sublinhada já em 1952 pelo antropólogo holandês J.P.B. Josselin de Jong.

Se a função do casamento, assim como da exogamia, é interpretada por Radcliffe-Brown em termos de integração social, há, nessa “Introdução”, uma passagem na qual é relatado um caso em que um casamento em grau desfavorecido (tendencialmente endogâmico) foi discutido e acordado entre os Nguni da África do Sul, tendo a fissão do grupo como operador lógico da solução (caso semelhante é relatado por Fortes no artigo mencionado acima). O caso é exemplar, pois sua discussão permite retrucar uma série de estereótipos acerca do autor e de seus modelos: não se ignoram opiniões ou conceitos nativos na elaboração teórica; não se supõe a homogeneidade absoluta de um grupo, tampouco sua estabilidade necessária; e o modelo proposto busca dar conta de distinções em níveis diversos, que são circunstancialmente acionadas pelos agentes segundo propósitos práticos específicos. Em uma palavra, pode-se dizer que se trata de uma perspectiva essencialmente dinâmica. É desse modo dinâmico que o tratamento da antropologia social como ciência natural, advogado por Radcliffe-Brown numa orientação de matriz durkheimiana (e apenas aparentemente estática), busca contribuir para a compreensão de um objeto fugidio e complexo, isto é, de sociedades que, como já assinalavam os editores do volume comparativo anterior – Sistemas políticos africanos (1940) – se encontravam em estado intenso de mudança. Se um deles, Evans-Pritchard (1902-1973), recusava a busca de leis sociológicas, tanto ele quanto Radcliffe-Brown e Fortes pareciam concordar em distinguir radicalmente o propósito de antropólogos e administradores, ao mesmo tempo em que indicavam (em tom às vezes crítico, mas geralmente ambíguo) a utilidade potencial do trabalho dos primeiros para os segundos.

 Oxford U. P., 1950, p. 295O destino futuro da perspectiva comum aí esboçada se divide: no interior do campo africanista, ela permanece frutífera, como atesta o volume organizado por Meyer Fortes e Sheila Patterson (1975), que dá certa continuidade ao esforço comparativo, ainda que de modo menos sistemático, alternando os temas da política e do parentesco, tal como em um volume anterior editado por Fortes em 1949, dedicado ao próprio Radcliffe-Brown; de modo mais geral, porém, ela se vê imediatamente confrontada pelo estruturalismo lévi-straussiano que, apesar do reconhecimento que lhe dirige, lhe opõe, já em 1953 (num texto célebre retomado em Antropologia estrutural sob o título de A noção de estrutura em etnologia), uma noção diversa de estrutura social. A clivagem entre os tipos de antropologia defendidos pelos dois autores teria ainda uma longa história, caracterizando, como sugeriu recentemente o americanista Stephen Hugh-Jones (1945-), o próprio desenvolvimento interno da antropologia britânica.

Como citar este verbete:
VIDAL, Erick Nascimento & SIERRA, Eduardo. 2018. "Introdução a African systems of kinship and marriage". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/introdução-african-systems-kinship-and-marriage>

autoria

Erick Nascimento Vidal e Eduardo Sierra

bibliografia

DE JONG, J.P.B. Josselin, “Lévi-Strauss’ theory of kinship and marriage” (1952) In: P.E. Josselin de Jong (org.), Structural anthropology in the Netherlands: a reader, The Hague, Martinus Nijhoff, 1977

DUMONT, Louis, Deux théories d’anthropologie sociale, Paris, Éds. de l’EHESS, 1970

EVANS-PRITCHARD, Edward E., Social anthropology, Londres, Routledge, 1951. (Trad. Port. Ana Maria Bessa. Lisboa, Edições 70, 1999)

EVANS-PRITCHARD, Edward E. & FORTES, Meyer, “Editors’s Note” In: African political systems, Oxford, Oxford University Press, 1940 (Trad. Port. Teresa Brandão. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1981)

FORTES, Meyer, Social structure. Studies presented to A.R. Radcliffe-Brown (1949), New York, Russell & Russell Inc., 1963

FORTES, Meyer, “The structure of unilineal descent groups”, American Anthropologist, vol. 55 (1),  1953, p. 17-41

EVANS-PRITCHARD, Edward E. (ed.) Social structure. Studies presented to A.R. Radcliffe-Brown, Oxford, Clarendon Press, 1949

EVANS-PRITCHARD, Edward E. & Patterson, Sheilla (eds.), Studies in African social anthropology, Londres, Academic Press, 1975

HUGH-JONES, Stephen, “A courtship but not much of a marriage. Lévi-Strauss and British americanist anthrpology”, In: Journal de la Société des Américanistes, vol. 94 (2), 2008, p. 17-27.

LÉVI-STRAUSS, Claude, Anthropologie structurale, Paris, Plon, 1958. (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac Naify, 2008)

RADCLIFFE-BROWN, Alfred R., “Kinship terminologies in California”, In: American Anthropologist, vol. 37 (3), 1935, p. 530-535

RADCLIFFE-BROWN, Alfred R, “Introduction to the study of kinship” (1941) In: Structure and function in primitive society, Londres, Macmillan, 1952. (Trad. Bras. Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro, Vozes, 2013)

RADCLIFFE-BROWN, Alfred R. & FORDE, Daryll (eds.), African systems of kinship and marriage, Oxford, Oxford University Press, 1950 (Trad. Port. Teresa Brandão. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1974)

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Introdução a African systems of kinship and marriage

Casamento por captura - John Ferguson McLennan

A noção de casamento por captura, também conhecida como casamento por rapto, foi sistematizada e conceitualizada pela primeira vez pelo antropólogo escocês John Ferguson McLennan (1827-1881) em seu livro Primitive Marriage (1865). A obra está organizada em torno da ideia de que a humanidade passa por estágios de desenvolvimento cujo ápice seria a civilização europeia; o que não quer dizer que o processo tenha sido uniforme e percorrido por todas as sociedades.

Francesco Primaticcio,

 

No livro, o autor tem como objeto a origem e o significado do rapto de mulheres visando o casamento, largamente difundido pelo mundo. McLennan interpreta a existência dessa forma de matrimônio – e das práticas matrimoniais nas quais a captura é apenas simbolizada, mas não efetivada – como a sobrevivência de formas sociais primitivas, e sobretudo do infanticídio feminino. Em um contexto social caracterizado pela hostilidade entre grupos e pela dificuldade em garantir a segurança e a subsistência, as mulheres eram vistas como menos capazes de contribuir para a sobrevivência grupal, levando à preferência pelo nascimento de bebês do sexo masculino e ao infanticídio de meninas. O resultado seria a escassez de mulheres no interior desses grupos, forçando o estabelecimento de arranjos matrimoniais entre uma mulher e mais de um homem (poliandria) e o ataque a outros grupos para a obtenção de esposas. Do rapto de mulheres resultaria a exogamia: a partir da proibição de casamento no interior da tribo, em virtude da escassez de mulheres, se consolida o costume do casamento fora do grupo. Com o passar do tempo, a prática torna-se uma obrigação; na medida em que os membros de uma tribo compartilham o mesmo sangue, sobre eles incide a regra da exogamia. Para McLennan, a noção moderna de propriedade se relaciona ao casamento por captura: as esposas capturadas seriam consideradas propriedades, estatuto estendido às crianças. Em um estágio posterior, a captura daria lugar à cessão da esposa pelo pai mediante pagamento, fazendo com que a noção de esposa como propriedade não apenas sobrevivesse, mas se consolidasse, assumindo feições cada vez mais modernas.

No processo de evolução social, a substituição do sistema de captura de esposas só se concretizaria com o surgimento da ideia de relacionamento de sangue; a reflexão sobre a consanguinidade e sobre os fatos naturais da reprodução estariam, assim, na base do desenvolvimento da noção de parentesco. A incerteza quanto à paternidade teria como resultado que os laços sanguíneos maternos, por serem evidentes, formassem a base de um sistema de parentesco por meio das mulheres; nesse sistema, as crianças passam a ser afiliadas às mães e não mais aos grupos, como no estágio anterior. Com o tempo esse sistema contribui, segundo o autor, para tornar os grupos exogâmicos heterogêneos, substituindo o sistema de captura de esposas: pela operação conjunta da exogamia e do sistema de parentesco através das mulheres, os grupos passam a contar com pessoas de diferentes linhas de descendência a ponto de ser possível o casamento no seu interior. Em decorrência das práticas exogâmicas, as mães de uma tribo passam a ser consideradas estrangeiras, da mesma forma que seus filhos, neste caso em razão do sistema de parentesco. Com o afrouxamento da prática de infanticídio, o casamento no interior desses grupos tornou-se viável e coerente com a regra de exogamia, uma vez que essas pessoas não possuíam parentesco com o grupo do pai, apenas laços de sangue com suas mães estrangeiras.

A análise de McLennan do casamento por rapto tornou-se paradigmática nas ciências sociais, sobretudo em virtude de estar associada às discussões acerca da exogamia e endogamia, conceitos que passaram a fazer parte do vocabulário antropológico a partir de Primitive Marriage. Em Principles of Sociology, obra em três volumes publicada entre os anos de 1882 e 1896, Herbert Spencer (1820–1903) seguiu a interpretação de McLennan, sugerindo, de modo semelhante, que o rapto de mulheres deu origem à exogamia nas etapas mais arcaicas da evolução social. Nessa mesma linha, John William Lubbock (1834–1913) propôs um esquema evolutivo que vai do casamento no interior do grupo (endogâmico) ao  casamento por captura (exogâmico), no qual as mulheres passam a ser consideradas bens individuais, levando às formas modernas de casamento. Em As estruturas elementares do parentesco (1949), Claude Lévi-Strauss (1908-2009) rechaçou as explicações de matriz mclenniana, argumentando que elas se baseiam em uma sequência histórica tão específica que seria impossível a sua verificação em todas as sociedades. No entanto, delas retira sua intuição fundamental: a exogamia expressa antes o caráter positivo da prescrição (de casamentos fora do grupo), do que o caráter negativo da proibição (de casamentos dentro do grupo), ideia que está na base da sua teoria da aliança matrimonial.

Como citar este verbete:
SILVA, Thiago Timóteo da. 2017. "Casamento por captura - John Ferguson McLennan". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/casamento-por-captura-john-ferguson-mclennan>

autoria

Thiago Timóteo da Silva

bibliografia

LÉVI-STRAUSS, Claude, Les structures élémentaires de la parenté (1949), Paris, Mouton, 1967 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1982)

LUBBOCK, John, The origin of civilization and the primitive condition of man, Londres, Longmans, Green, and Co, 1870

MCLENNAN, John Ferguson, Primitive Marriage, London, MacMillan & Co, 1865

SPENCER, Herbert, The Principles of Sociology, v.1, (1882), Londres, D. Appleton and Company, 1885

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Casamento por captura

O método genealógico na pesquisa antropológica

O artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica”, assinado por William H. R. Rivers (1864-1922), como indica o título, dedica-se à apresentação do método genealógico concebido por Rivers com auxílio de Alfred Cort Haddon (1855-1940), durante a expedição ao estreito de Torres (1898), cujo objetivo é fornecer uma base científica para a nova disciplina, pela sistematização de instrumental próprio para a análise antropológica. Sua primeira versão, “A genealogical method of collecting social and vital statistics”, é exposta à comunidade científica em 1900; após a experiência etnográfica de Rivers entre os Toda na Índia, o texto é republicado no The Genealogical Method of Anthropology Inquiry (1910).

O método consiste na coleta de genealogias reais de determinado povo com base em perguntas específicas feitas aos seus membros. Por meio delas, o pesquisador obteria um diagnóstico da organização social do grupo, possível porque, de acordo com Rivers, as sociedades tendem a conservar oralmente, e por diversas gerações, as suas genealogias. O método genealógico seria, portanto, a solução ideal para etnógrafos que dispõem de pouco tempo de permanência em campo, sem o domínio do idioma local ou auxílio de bons intérpretes. Seu uso mostra-se também eficaz por permitir o acesso, em um curto período, a informações objetivas e precisas acerca da filiação, aliança, residência, status, entre outras.

Em virtude das diferenças entre os sistemas de parentesco existentes, na aplicação do método e na formulação das questões, o antropólogo deveria utilizar um vocabulário limitado a poucas categorias: pai, mãe, filho, filha, esposo e esposa. Após obter os dados necessários nas linhas de descendência masculina e feminina, ao pesquisador caberia dispor as informações de forma gráfica -  grafando os nomes dos homens em letras maiúsculas e sempre à esquerda dos das mulheres, sendo estes redigidos em minúsculas. Outras informações deveriam ser destacadas de modo a que a identificação precisa de cada indivíduo seja possível, tais como: nome, idade, condição social, localidade de origem ou habitação; grupo ou clã, entre outros. A despeito de eventuais erros, Rivers defende a eficiência do método devido à possibilidade de testar a veracidade das informações a partir do entrecruzamento dos dados com base em três genealogias completas. Assim, segundo o autor, seria possível alcançar uma demonstração científica e, simultaneamente, retornar até um século na trajetória da sociedade em questão. Dentre suas aplicações estariam, além da obtenção do sistema de parentesco de um povo, o estudo de relações matrimoniais, já que se revelariam as leis que regem os casamentos, bem como regras de descendência, herança, propriedade, cargos de chefia, entre muitas outras. O método poderia ainda ser utilizado ainda para detalhar processos migratórios, práticas mágicas e religião, bem como para oferecer um amplo banco de dados censitários e estatísticos, revelando padrões. Seu uso na antropologia física foi também referenciado por Rivers.

OLIVEIRA, Roberto C. A Antropologia de Rivers, 1991

Apesar de ser considerado o mais notório defensor do método genealógico, Rivers não foi o primeiro a fazer uso de genealogias em estudos antropológicos; o questionário de parentesco de Lewis Henry Morgan (1818-1881), publicado em Sistemas de Consanguinidade e Afinidade da Família Humana (1871), já apresentava um minucioso roteiro para a coleta de dados de parentesco. Se isso é verdade, a contribuição de Rivers foi criar uma ferramenta ágil, capaz de produzir, com precisão e rapidez, informações chave para os estudos de parentesco, a partir de uma genealogia considerada real, já que o informante seria capaz de fornecer com exatidão as classificações de seus parentes. No entanto, é preciso lembrar que tanto a obtenção das informações quanto a construção da genealogia, com base nos dados recolhidos, seguem os critérios classificatórios do pesquisador e não propriamente os dos informantes. Sua objetividade deriva, portanto, da tradução que o antropólogo realiza dos conceitos nativos.

O método genealógico pode ser apontado como um dos maiores subsídios metodológicos para os estudos de parentesco, considerado durante décadas como instrumento indispensável e mínimo do antropólogo em campo na coleta de informações. Foi retomado pelos estudos africanistas e adotado em diversas pesquisas da etnologia sul-americana, ainda que extensamente criticado por pesquisadores que apontaram as limitações do modelo, como David Schneider (1918-1995) e Mary Bouquet (1955-). No Brasil, o artigo de Rivers conheceu duas traduções: uma primeira, de 1969, a cargo de Roque de Barros Laraia (1932-) e outra de Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006), em 1991.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "O método genealógico na pesquisa antropológica". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/o-método-genealógico-na-pesquisa-antropológica>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

LARAIA, Roque de Barros (org.), Organização Social, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969

RIVERS, William H., “O método genealógico na pesquisa antropológica” In: CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto (Org.), A Antropologia de Rivers, Campinas, Editora da Unicamp, 1991, p. 51-67

SILVA, Márcio Ferreira, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, p. 323-336, 2010

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Método genealógico na pesquisa antropológica, O

William Halse Rivers

Nascido na cidade de Chatham, região do Kenty, Inglaterra, William Halse Rivers (1864-1922) conclui sua graduação em Medicina, aos 22 anos, obtendo o título de doutor na Universidade de Londres, dois anos depois. Em 1891, trabalha como médico residente no National Hospital for the Paralysed and Epileptic, período em que publica estudos nas áreas de Psicologia e Neurologia. A fim de especializar-se nesses campos, muda-se para a Alemanha, onde irá estudar na Universidade de Jena com o psiquiatra Emil Kraepelin. De volta à Inglaterra, assume o Laboratório de Psicologia na University College London, tornando-se, em 1897, o primeiro professor em Psicologia Fisiológica e Experimental da Universidade de Cambridge. Na primeira década do século XX, Rivers produz uma série de artigos nos campos da antropologia e psicologia experimental. Após uma segunda expedição à Oceania, às Ilhas Salomão (Melanésia), publica o artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica” (1900 e 1910, para a segunda versão revista), no qual apresenta uma ferramenta capaz de coletar, com precisão e rapidez, informações-chave para os estudos de parentesco e da organização social.

Foto por Henry Maull para The Royal Society (1922)

Em 1898, Rivers integrará a expedição ao estreito de Torres, localizado entre a Austrália e a Papua-Nova Guiné, que se tornaria um marco na história da antropologia em geral e na britânica, em particular. Sua experiência com os insulares dessa região da Melanésia, onde conduziu, como psicólogo, testes sobre as percepções visuais e cognitivas dos nativos, foi fundamental para que sua carreira e produção se orientassem na direção da antropologia; é nesse contexto que lança as bases para o desenvolvimento de seu método genealógico. Entre 1901 e 1902, com interesse em temas como o parentesco e a organização social, passa cinco meses no sul da Índia, entre os Toda, cujo resultado vem à luz com a monografia The Toda, publicada em 1906. A experiência de ir a campo para obter seus próprios dados de pesquisa sinaliza o esforço do autor em trabalhar com fontes primárias, algo pouco comum à produção antropológica da época. Nos anos seguintes, Rivers aproximaria-se do difusionismo, o que era considerado, por alguns antropólogos de sua geração, uma adesão à empiria estimulada pelo trabalho de campo.  Em seu primeiro discurso como presidente da seção de Antropologia da British Association for the Advancement of Science, em 1911, realiza duras críticas à atitude especulativa adotada pelos evolucionistas, considerando-a extremamente prejudicial à constituição da nova ciência. Em 1914, publica Kinship and Social Organization, coletânea com três conferências ministradas em 1913 na London School of Economics sobre sua experiência durante o campo realizado na segunda expedição à Oceania. No mesmo ano, publica The History of Melanesian Society, obra em dois volumes, considerada pelo autor a sua mais importante publicação. Enquanto o primeiro livro contém descrições etnográficas dos povos visitados, o segundo abarca uma densa discussão teórica voltada, sobretudo, para uma crítica à perspectiva evolucionista, ressaltando a importância das análises etnológicas frente às especulações “de gabinete”. Durante a I Guerra Mundial, Rivers reaproxima-se da psicologia, ganhando notoriedade pelos tratamentos que realizou entre os soldados britânicos com traumas de guerra. Também se envolve com a esfera política, sendo nomeado candidato ao Parlamento britânico nas eleições de 1922 pelo Labour Party. Mas não chegou a disputar o pleito, já que faleceria meses antes.

Em seu multifacetado trajeto intelectual, W. H. R. Rivers estabeleceu o programa básico da Antropologia Social britânica ao adotar a pesquisa empírica como fonte privilegiada de informação,  influenciando importantes autores da disciplina, como Radcliffe-Brown (1881-1955) e instituindo preceitos fundamentais para estudos posteriores sobre o parentesco e a organização social, especialmente por ter privilegiado a pesquisa empírica e estabelecido o método genealógico. Como lembra Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006) na introdução a um volume dedicado a Rivers, o caráter científico que o antropólogo objetivava conferir à antropologia foi emblematicamente sintetizado por Claude Lévi-Strauss (1908-2009) quando disse, em 1958:  “Em Rivers, a Etnologia encontrou seu Galileu”.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "William Halse Rivers". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/william-halse-rivers>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

KUPER, Adam, “Richard Slobodin. W. H. R. Rivers (Leaders of Modern Anthropology Series)”, The American Historical Review, n.84 (4), Oxford, Oxford University Press, 1979, p.1027-1028

OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.), A Antropologia de Rivers. Tradução Gilda Cardoso de Oliveira e Sônia Bloomfield Ramagem. Campinas, Editora da UNICAMP, 1991

SILLITOE, Paul, “The Role Of Section H At The British Association For The Advancement Of Science In: “The History Of Anthropology”, Durham Anthropology Journal, Volume 13 (2), Durham, Department of Anthropology/Durham University, 2005, p.1-17

SILVA, Márcio Ferreira da, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, 2010, p. 323-336

SLOBODIN, Richard, W. H. R. Rivers, New York, Columbia University Press, 1978

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Rivers

Cultures of relatedness

Cultures of Relatedness (2000) é uma coletânea organizada e introduzida pela antropóloga britânica Janet Carsten, composta por oito ensaios assinados por Charles Stafford, Sharon Hutchinson, Helen Lambert, Rita Astuti, Karen Middleton, Barbara Bodenhorn, Jeanette Edwards e Marilyn Strathern (1941). Resultado de uma conferência sobre fronteiras e identidades realizada na Universidade de Edimburgo em 1996, o livro é uma resposta à Critique of the Study of Kinship (1984) em que o antropólogo norte-americano David Schneider (1918-1995) condena o método genealógico que, segundo ele, estaria baseado na suposição ocidental de preeminência da biologia na criação de laços de parentesco, concluindo ser o parentesco um conceito que não existe em outras sociedades, senão nas ocidentais. Com o objetivo de refutar as abordagens biologizantes do parentesco, os ensaios de Cultures of Relatedness buscam referências teóricas e metodológicas nos estudos de gênero e na antropologia feminista - por exemplo, nos trabalhos de Jane Collier e Sylvia Yanagisako, e nos de Judith Butler (1956) -, bem como na obra de Bruno Latour (1947), para defender que o parentesco é também construído.

A proposta de Janet Carsten é incorporar à reflexão a noção de relatedness, termo que dá relevância metodológica às dimensões do cotidiano (comensalidade, troca de nomes, amizade etc.) na produção de laços de parentesco. Os artigos do livro analisam materiais etnográficos de contextos distintos - chineses, Nuer, indianos, Vezo, Karembola, Iñupiat e os habitantes de Alltown, norte da Inglaterra - buscando entender o que significa “estar aparentado” e quais símbolos (além das substâncias biológicas) criam vínculos profundos e duradouros associados à esfera de parentes. A perspectiva defendida no volume, conhecida como o novo parentesco, utilizou-se do pensamento de Schneider para pensar a concepção de parentes em função de outras dimensões, diferentes do elo biológico. O esforço para desnaturalizar o lugar da mulher (mãe/esposa); para contestar as opressões de gênero relacionadas ao caráter natural da procriação e das diferenças fisiológicas; além da tentativa de compreender fenômenos como a adoção transnacional e o casamento homo-afetivo levou esse grupo de pensadoras a problematizar a dicotomia natureza/cultura, enfatizando a permeabilidade de suas fronteiras. Mary Bouquet, autora do capítulo de encerramento do volume, defende que a cisão biológico/social é reflexo da transição da antropologia das coleções de museus, ou de gabinete, para o método genealógico. Segundo ela, os mapas genealógicos forneceram uma análise racional às exposições em museus sobre os povos do mundo, além disso, representaram um tipo de “visão pura” sobre as sociedades e permitiram a separação entre ‘natural’ e ‘cultural’ nos estudos do parentesco. O questionamento dessa cisão (natural-cultural) é a questão chave dos trabalhos reunidos na obra cuja proposta é uma “nova antropologia comparativa” que coteja formas de conhecimento ocidentais e não-ocidentais para mostrar como elas operam afinidades e diferenças entre pessoas nas diversas maneiras de produzir, manter e desfazer “relacionalidades”.

A incorporação da noção de relatedness às discussões sobre o parentesco é considerada fundamental para que os estudos escapem da oposição biológico/social, mas Carsten pondera que pensar as “relacionalidades” afastadas da dimensão biológica, arrisca colocar outro problema: quaisquer relações poderiam ser vistas, no limite, como relações de parentesco. Esta foi justamente a porta de entrada para diversas críticas feitas à ideia de relatedness. Uma corrente que enfatiza o caráter biológico do parentesco, por exemplo Warren Shapiro e Maurice Godelier (1934), a acusou de menosprezar a importância dos aspectos reprodutivos, dando relevância às construções sociais e culturais. A etnologia americanista, especificamente Eduardo Viveiros de Castro (1951) criticou o novo parentesco por considerar que ele carrega o traço eurocêntrico da dicotomia dado/construído, específica do parentesco ocidental, apontando o caráter construído do parentesco para qualquer sociedade. A partir dessas críticas, a ideia de relatedness passou a ser conhecida como parentesco construtivista.

Imagem da família com o casal no meio, Silverdalen, Suécia. Entre 1890 e 1910. Nordiska Museet. Wikimedia Commons

Atento a esses debates, Marshall Sahlins (1930) produziu o conceito de mutuality of being que, assim como a noção de “relacionalidade”, considera os aspectos cotidianos, como comensalidade e convivência, na definição do parentesco. Ele define o parentesco como implicações mútuas construídas por meio de relações sociais. A existência coletiva compartilhada entre as pessoas e que as faz pertencer umas às outras pode ser, nos seus termos, chamada de parentesco. Nesse sentido, ele também amplia o significado do conceito se aproximando do mesmo problema posto pela ideia de relatedness: o risco do vácuo analítico, já que qualquer relação poderia ser definida como parentesco. A despeito dos limites apontados, estudos desenvolvidos pela antropologia brasileira, interessados na noção de família e suas conexões com a política, migração, gênero, ciência e memória, vêm utilizando e desdobrando as reflexões presentes em Cultures of relatedness.

Como citar este verbete:
MURILLO, Aline Lopes. 2016. "Cultures of relatedness". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/cultures-relatedness>

autoria

Aline Lopes Murillo

bibliografia

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Cultures of relatedness

Liminaridade e communitas - Victor Turner

Victor Turner (1920-1983), antropólogo britânico que dedicou boa parte de seus esforços intelectuais ao entendimento das simbologias subjacentes aos rituais, deu contribuição significativa à compreensão das práticas rituais ao refinar a noção de liminaridade e elaborar, a partir dela, o conceito de communitas. O autor concebe a ideia de liminaridade como correspondendo a um momento de margem dos ritos de passagem: fase ritual na qual os sujeitos apresentam-se indeterminados, em uma espécie de processo transitório de “morte” social, para, em seguida, “renascerem” e reintegrarem-se à estrutura social. Liminaridade é, portanto, uma condição transitória na qual os sujeitos encontram-se destituídos de suas posições sociais anteriores, ocupando um entre-lugar indefinido no qual não é possível categorizá-los plenamente. Segundo Turner, a vida social se movimenta a partir de um movimento dialético, envolvendo estrutura social e communitas, estrutura e antiestrutura, alimentado pelas práticas rituais.

Victor Turner, Rito de passagem Ndembu, A Floresta dos Símbolos

O antropólogo iniciou as reflexões sobre o tema em O processo ritual: estrutura e antiestrutura (1969), a partir de inspiração retirada de Os ritos de passagem (1909) de Arnold Van Gennep (1873-1957). Suas contribuições teóricas estão fundamentadas na análise de práticas rituais observadas entre os Ndembu, povo da região da África Central, e em uma ampla revisão da literatura antropológica disponível sobre a temática do ritual. Em sua  obra, Victor Turner concebe a liminaridade como condição social efêmera vivenciada por sujeitos temporariamente situados fora da estrutura social, dando origem ao que ele denomina communitas, isto é: uma forma de antiestrutura constituída pelos vínculos entre indivíduos ou grupos sociais que compartilham uma condição liminar em momentos especificamente ritualizados. Os sujeitos liminares agrupados pela communitas são marcados pela submissão, silêncio e isolamento, considerados como tábula rasa em relação à nova posição social a ser assumida após a conclusão do ritual de passagem. O autor opta pelo termo latim communitas à noção de comunidade, de modo a não conferir circunscrição espacial ao vínculos entre os sujeitos liminares, já que o caráter de antiestrutura da communitas está baseado em relações sociais e não em pertencimentos territoriais.

Turner expande a compreensão dos termos liminaridade e communitas para além dos contextos rituais classicamente analisados na antropologia, destacando que hippies, profetas, artistas, assim como integrantes de movimentos milenaristas e religiosos podem ser também considerados sujeitos liminares, que se agrupam em communitas diversas. Nesses casos, no entanto, a condição liminar parece ser permanente já que tais sujeitos se opõem ou, no mínimo, desafiam a estrutura social como única forma de organização social possível. No caso dos movimentos milenaristas, por sua vez, a condição liminar mostra-se transitória, durável até o momento em que as profecias nas quais o grupo acredita não se concretizam. Independente do contexto ritual, Turner destaca que, além estarem situados em uma condição de indiferenciação social por nome, status e gênero, os integrantes da communitas podem ser também marcados pela suspensão (ainda que efêmera) do direito à propriedade e das obrigações de parentesco.

De modo a fundamentar suas teses, o antropólogo recorre às etnografias de E.E. Evans-Pritchard (1902-1973), entre os Nuer, e de Meyer Fortes (1906-1983), entre os Tallensi, para mostrar que liminaridade e communitas evidenciam o que ele genericamente denomina “o poder dos fracos”. Ele afirma que em sistemas de parentesco patrilineares, nos quais os atributos jurídicos e políticos são transmitidos pela ascendência paterna, as mulheres encontram formas – muitas vezes justificadas pela mitologia e pelas práticas rituais – de marcar a importância da descendência materna na constituição pessoal e mística dos sujeitos. Em sistemas de parentesco matrilineares, onde o status jurídico e político é dado pela ascendência materna, por sua vez, os indivíduos que desenvolvem estratégias liminares para demonstrar sua importância na estrutura social seriam, inversamente, os homens. Esses exemplos permitem assinalar que, diante do confronto com a estrutura social, os sujeitos em condição liminar constituem uma solidariedade proporcionada pelo estabelecimento da communitas para marcar a relevância de sua posição social em contexto político, cultural e jurídico determinado. Turner conclui que toda estrutura social, acompanhada pelos ritos que concedem direitos de acesso a determinadas esferas de poder ou status, coopera para a existência de uma antiestrutura na medida em que produz sujeitos liminares, transitórios ou não, que se agrupam em communitas. Assim, a relação entre estrutura e communitas traduz uma dialética imprescindível à vida social em qualquer contexto.

Posteriormente, os conceitos de liminaridade, communitas e drama social serviram como pontos de partida para que Turner, a partir de seu interesse pelo universo do teatro, problematizasse as interações possíveis entre dramas sociais e dramas estéticos. Seu encontro teórico com Richard Schechner (1934-) originou um novo campo de estudos na disciplina, denominado Antropologia da Performance, que se beneficia das imbricações entre a antropologia e o teatro, e que vem encontrando grande repercussão no Brasil.

Como citar este verbete:
NOLETO, Rafael da Silva & ALVES, Yara de Cássia. 2015. "Liminaridade e communitas - Victor Turner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/liminaridade-e-communitas-victor-turner>

autoria

Rafael da Silva Noleto e Yara de Cássia Alves

bibliografia

DAWSEY, John, MÜLLER, Regina, HIKIJI, Rose Satiko & MONTEIRO, Mariana F.M. (orgs),  Antropologia e Performance: ensaios Napedra,  São Paulo, Terceiro Nome, 2013

SCHECHNER, R., Between Theater and Anthropology, Philadelphia, The University of Pennsylvania Press, 1985

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VAN GENNEP, A., Les rites de passage, Paris, Émile Nourry, 1909 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1978)

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Liminaridade e communitas - Victor Turner

Kinship and marriage among the Nuer

Publicado em 1951, Kinship and Marriage Among the Nuer é o segundo volume da trilogia Nuer, conjunto de monografias escrito pelo antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902- 1973) sobre os Nuer, povo nilótico do Sul do Sudão. Assim como suas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940) e Nuer Religion (1956), este livro é baseado em um total de doze meses de pesquisa de campo realizada sob condições adversas entre 1930 e 1936, e financiada pelo governo anglo-egípcio do Sudão. Os dez anos que separam as datas de publicação do primeiro e do segundo volume devem-se ao agravamento da II Guerra e à convocação do autor para o exército britânico. Evans-Pritchard planejara sua publicação para 1942, entretanto, durante o serviço militar, entrou em contato com beduínos Sanusi, ordem islâmica da região da Cyrenaica, no norte da Líbia, experiência que resultou no livro The Sanusi of Cyrenaica (1949). Este hiato foi preenchido pela publicação de artigos, dentre os quais: “Nuer Bridewealth(1946), “Nuer Marriage Cerimonies” (1948), “Nuer Rules of Exogamy and Incest” (1949) e “Kinship and the local community among the Nuer(1950), que abordam temas retomados com maior ou menor detalhe em Kinship and Marriage Among the Nuer.

O primeiro volume da série, The Nuer, tem por objeto o sistema político nuer e suas relações com o modo de vida deste povo, culminando na célebre descrição da estrutura segmentar nuer. Desprovidos de governo, os Nuer se organizam politicamente por meio do jogo de oposições entre a estrutura tribal e a estrutura de clãs. Os clãs são um sistema de linhagens agnáticas exógamas que traçam sua descendência em relação a um ancestral comum. Idealmente um filho herda a linhagem de seu pai e deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. Denominadas buth pelos Nuer, essas relações de parentesco constituem grupos dotados de unidade cuja amplitude depende de distâncias estruturais. Assim, um nuer será nuer frente a um dinka, mas jikany frente a um nuer de outra tribo. Dotadas de exclusividade territorial, as tribos, unidade política de maior extensão, segmentam-se em seções e subseções de acordo com os segmentos e linhagens dos clãs dominantes em cada território tribal. Neste sistema, a aldeia é definida por Evans-Pritchard como a unidade mínima da política Nuer.

Grupo de mulheres e meninas em uma casa, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum

Em Kinship and Marriage Among the Nuer, o autor mostra como as redes de parentesco internas às comunidades locais, e que se estendem para além delas, estão conectadas com o sistema de linhagens nuer e, por meio desse sistema, com sua estrutura política tribal. Um Nuer vive em uma comunidade por manter laços de parentesco com algum de seus membros, consanguíneos ou por casamento. A co-residência, associada à elasticidade do sistema de parentesco, prolonga esses laços. Afins (parentes por casamento) tendem a ser associados a consanguíneos, de modo que a comunidade compreende uma única genealogia baseada em relações de parentesco cognáticas (isto é, por via paterna e materna), denominadas pelos Nuer mar. Uma aldeia, a unidade mínima da política Nuer, constitui-se assim como um agregado cognático – mar – ao redor de um núcleo agnático – buth,  linhagem principal que associa a aldeia ao sistema político.

A partir de uma etnografia minuciosa das relações de parentesco Nuer, Evans-Pritchard descreve em Kinship and Marriage among the Nuer diversos recursos por meio dos quais relações de tipo mar infletem sobre relações de tipo buth. Formas de adoção, maneiras de traçar o pertencimento à linhagem por via materna, diversas formas de casamento, dentre as quais o levirato (casamento com a mulher do irmão) e o casamento com mortos, entre outros, mostram a centralidade do parentesco cognático na compreensão da estrutura segmentar nuer. Destacam-se as negociações que precedem o casamento e a importância do gado como dote (bridewealth). Nestes e em outros exemplos etnográficos, Evans-Pritchard demonstra o equilíbrio dinâmico entre o parentesco agnático e o parentesco uterino (por via materna) na vida social Nuer. Dimensões cujo caráter de oposição e complementaridade se apresenta nas relações entre um nuer e seus tios materno e paterno, para os quais é, respectivamente, um “filho das mulheres” da linhagem e um “filho da linhagem”. Além de descrever em detalhe temas fundamentais da antropologia do parentesco, como a relação entre proibições do casamento e incesto e o papel do irmão da mãe, Kinship and Marriage among the Nuer complementa e complexifica o modelo da estrutura segmentar Nuer apresentado no primeiro volume da série, sendo uma leitura fundamental para sua compreensão.

 

Como citar este verbete:
Pougy, Henrique. 2015. "Kinship and marriage among the Nuer". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/kinship-and-marriage-among-nuer>

autoria

Henrique Pougy

bibliografia

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Kinship and marriage among the Nuer