performance

Performance - Victor Turner

O conceito de performance em Victor Turner (1920-1983) resulta da convergência entre as pesquisas antropológicas do autor sobre os rituais - considerados capazes de suspender o fluxo da vida cotidiana e de desestabilizar relações predeterminadas pela estrutura social -  e o seu interesse pelo teatro como fonte de conceitos e metáforas para entender a vida social. É buscando transpor o modelo de análise dos rituais em sociedades pré-industriais para sociedades em larga escala que Turner se volta para as performances culturais, que reencenam modelos tradicionais de representação e dão lugar a uma criatividade que desestabiliza esses mesmos modelos. As performances têm, segundo ele, caráter “liminóide”: produzem situações que estão fora (ou entre) posições sociais determinadas, o que destaca sua potencialidade transformadora, seu poder de gerar tensões e reformulações em ordens estabelecidas. A consideração da performance como parte integrante da experiência – outra noção central – está na base das aproximações entre antropologia e teatro, estimuladas pela interlocução com Richard Schechner (1934-), e pelas influências de Erving Goffman (1922 – 1982) e de sua análise do mundo social a partir das imagens dramatúrgicas. É no diálogo com estes autores que o conceito de performance adquire proeminência na obra de Turner.

As primeiras reflexões do autor sobre performance encontram inspiração no modelo dos ritos de passagem de Arnold Van Gennep (1873-1957), com a ajuda do qual Turner destaca de que modo a dimensão ritualística marca etapas e mudanças vividas coletivamente, como por exemplo a passagem da infância para a vida adulta. Todo rito é por ele concebido como “processo ritual”: se inicia pela suspensão de uma ordem estrutural, propõe uma crise dessa ordem e leva a um desfecho, que pode resultar em reagregação ou em cisão social. Tal proposta de análise pode ser encontrada em A floresta de símbolos: aspectos do ritual ndembu (1967), em que o autor aborda a experiência ritual a partir da noção de “liminaridade”, categoria central para a conexão entre as noções de ritual, drama social e performance. O modelo ritual presente na obra de 1967 e na de 1969, O processo ritual: estrutura e anti-estrutura, desdobra-se, posteriormente, no conceito de “drama social” (Dramas, campos e metáforas, 1974), quando o antropólogo atualiza categorias utilizadas em sua etnografia junto aos Ndembu para refletir sobre os dramas ocidentais contemporâneos. Os dramas sociais são definidos, como situações capazes de evidenciar o caráter dinâmico da estrutura social, moldados tanto pela experiência como pelos enquadramentos convencionais. A noção de performance, por sua vez, associa-se à de experiência; inspirando-se em Wilhelm Dilthey (1833-1911) e resgatando o sentido etimológico da palavra (de per, “tentar aventurar-se; correr risco”), Turner mostra como a performance dá forma à experiência, uma vez que esta se constitui por fases que associam emoções mobilizadas no momento presente às memórias de experiências passadas, articulando-as e renovando-as. Esse encadeamento possibilita novas interpretações do mundo social, permitindo ao próprio sujeito e ao grupo assimilar aspectos da realidade e também do desconhecido, o que viabiliza transformações.

Nas sociedades pré-industriais, os rituais de passagem mobilizam todas as escalas do social, enquanto nas ocidentais o teatro, a dança e a música, por exemplo, são performances particulares. E se participar de uma performance é frequentemente associado ao entretenimento, tal participação pode alcançar dimensões de criatividade, reflexividade e suspensão temporária ao fluxo da vida ordinária.  De modo análogo aos rituais de passagem (fenômenos liminares), as artes ocidentais seriam ocorrências “liminóides” que, ainda que não cheguem a abalar a estrutura social, interrompem o curso do cotidiano, propiciando aos sujeitos distanciarem-se de papéis normativos, repensarem a estrutura social ou mesmo refazê-la. Compreendendo a vida social por seu caráter dinâmico, processual e contraditório, Turner aponta as situações de crise e conflito como reveladoras de aspectos fundamentais do mundo social. Nessa acepção, todas as modalidades de performance são entendidas como parte da realidade, revelando ainda o seu inacabamento, seu aspecto processual. A performance como rito mostra-se, assim, como um dos caminhos de análise das tensões da estrutura social e dos elementos anti-estruturais que ela contém; possibilita analisar as experiências “liminóides” e anti-estruturais, convidando a observar como se movimenta a vida em sociedade, evidenciando suas contradições e  transformações estruturais.

Reverberações das formulações de Victor Turner sobre ritual e especificamente sobre performance podem ser encontradas em diversas partes do mundo e em distintas gerações, por exemplo nas reflexões de Richard Bauman (1940-) e Diana Tylor (1950-), nos Estados Unidos; nas de Jean-Marie Pradier (1939-), na França e nas de Paulo Raposo, em Portugal. No Brasil, é possível localizar ecos das inspirações do autor nas pesquisas de Roberto DaMatta (1936-), Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti e Zéca Ligeiro, no Rio de Janeiro; nas de John Dawsey e Regina Müller no interior do Napedra (Núcleo de Antropologia, performance e drama), em São Paulo; nas de Jean Langdon, em Santa Catarina, entre muitos outros. Isso sem esquecer o impacto de Turner fora da antropologia; ao enfocar os pontos de contato entre antropologia e teatro, ele propõe a antropologia da performance como um campo aberto, em processo e em constantes desdobramentos, indicando o alcance de um diálogo em que criação artística e conceitual não se desvinculam da realidade cotidiana.

Como citar este verbete:
BORGES, Laís Gomes. 2019. "Performance - Victor Turner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/performance-victor-turner>

autoria

Laís Gomes Borges

bibliografia

ARNAULT, Renan & ALCANTARA E SILVA, Victor, "Os ritos de passagem", Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2016. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/os-ritos-de-passagem>

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro, Maria, “Drama, ritual e performance”,  Sociologia & Antropologia, 3 (6), 2013, p. 411-440

DAWSEY, John C., “Victor Turner e a antropologia da experiência”, Cadernos de Campo, São Paulo, n.13,  2005, p. 163-176

DAWSEY, John C., “Turner, Benjamin e antropologia da performance: o lugar olhado (e ouvido) das coisas”,  Cadernos de Campo, São Paulo, 7 (2), 2006, p. 17-25

GOFFMAN, Erving. The presentation of self in everyday life, EUA, Anchor Books Edition, 1959 (Trad. Bras. Maria Célia Santos RaposoPetrópolis, Vozes, 2005, 13ª edição)

NOLETO, Rafael da Silva & ALVES, Yara de Cássia. "Liminaridade e communitas - Victor Turner", Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2015. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/liminaridade-e-communitas-victor-turner>

SCHECHNER, Richard,  “O que é performance?”,  Revista de teatro, crítica e estética, Rio de Janeiro, n.12, 2003, p. 25-50

SCHECHNER, Richard, “From ritual to theater and back: the efficacy entertainment brain In: Performance Theory, London, Routledge, 1988

TURNER, Victor W. The ritual process: structure and anti-structure, Chicago, Aldine Publishing Co., 1969. (Trad. Bras. Nancy Campi de Castro. Petrópolis, Vozes, 2013)

TURNER. Victor W. The anthropology of ferformance, New York, PAJ Publications, 1988

TURNER, Victor W., Dramas, fields and metaphors: symbolic action in human society, Ithaca, Cornell University Press, 1975

TURNER, Victor, The forest of symbols: aspects of ndembu ritual, Ithaca/Londres, Cornell University Press, 1967 (Trad. Bras. Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto, Editora da Universidade Federal Fluminense, 2005)

inicial do verbete
título do índice alfabético
Performance - Victor Turner

Victor Turner

Victor Whitter Turner (1920-1983) é um antropólogo britânico cujas investigações sobre os ritos em geral e sobre a eficácia dos símbolos nos processos rituais e sociais, em particular, se tornaram referências fundamentais não apenas para a antropologia, mas para as ciências sociais e humanas em geral. Suas contribuições para a teoria antropológica ligam-se, entre outras, às noções de liminaridade e communitas, assim como às ideia de drama social e performance. Sua trajetória acadêmica esteve marcada de perto pela chamada Escola de Manchester, na qual se destaca o nome de Max Gluckman (1911-1975), seu orientador e influência marcante em parte de sua obra.

Victor Turner,

Nascido em Glasgow, Escócia, Turner graduou-se no University College of London (1949), onde foi premiado com a bolsa de estudos Robert Thompson. Iniciou o bacharelado em literatura inglesa no University College, Londres (1938-1941), deixando os estudos em função da II Guerra Mundial. Retornou à universidade para se formar em antropologia social (1949), realizando seus estudos pós-graduados durante a década de 1950 em Manchester, quando é convidado por Gluckman a desenvolver sua etnografia junto aos Ndembu, população bantu da Zâmbia (antiga Rodésia do Norte), África Central; o trabalho de campo é realizado entre 1951 e 1954, sob os auspícios do Rhodes-Livingstone Institute. Em 1957, publica Schism and Continuity in an African Society: A Study of Ndembu Village Life, resultado de seu PHD, obtido em 1955. Nos anos 1960, muda-se para os Estados Unidos, atuando como professor na Universidade de Stanford (1961), depois em Cornell (1964), em seguida, em Chicago (1968). No ano de 1977, transfere-se para a Universidade da Virgínia onde permanece até o fim da vida.

As pesquisas realizadas entre os Ndembu, primeiro sobre organização social e dramas sociais (livro de 1957), em seguida sobre os processos rituais e as categorias do pensamento simbólico resultaram em diversas obras, entre as quais: Ndembu divination: its symbolism and techiques (1967), A floresta de símbolos: aspectos do ritual Ndembu  (1968) e The drums of affliction. A study of religious processes among the Ndembu of Zambia (1968). Nos célebres O processo ritual. Estrutura e anti-estrutura (1969) e Dramas, campos e metáforas. A ação simbólica na sociedade humana (1974), ele projeta uma antropologia comparada do ritual, desvendando os mecanismos da eficácia simbólica. Além disso, no livro de 1969, desenvolve dois conceitos imprescindíveis de sua análise: liminaridade e communitas, ambos baseados na noção de rito de passagem tal como cunhada pelo antropólogo francês Arnold Van Gennep (1873-1957).

Os rituais, na concepção turneriana, referem-se a situações produzidas para que a coletividade possa distanciar-se de si mesma e ver-se em perspectiva, tendo função fundamental para a resolução de conflitos e a restauração da vida social. Deste modo, eles seriam lócus privilegiados para a observação de dimensões processuais e conflitivas da estrutura, entendida como conjunto de posições e situações sociais estáveis e regulares. Os símbolos, por sua vez, são definidos como articuladores de percepções e classificações, dotados de dimensão sensorial e ideacional, capazes de impelir e organizar a ação e a experiência humanas. As principais formulações de Turner a respeito da importância do simbolismo ritual e dos processos sociais foram motivadas por sua aproximação com a poesia, com a literatura clássica e com o drama teatral, terrenos com os quais tivera contato em seu período de formação; Edith Turner (1921-2016), atriz e mãe de Victor Turner, é considerada uma das principais responsáveis pelo interesse do antropólogo no teatro. Nas pesquisas etnográficas na África Central, nota-se a presença dessas marcas, como por exemplo no conceito de drama social, forjado para a compreensão de tensões entre princípios contraditórios da vida social. A aproximação do campo das artes se intensifica, na década de 1980 a partir de um diálogo direto com o diretor de teatro e teórico Richard Schechner (1934-), bem como em função da influência de Erving Goffman (1922-1982) e de seu modelo teatral tomado como guia para o estudo do mundo social. Nessa fase de maior contato com as artes dramáticas, observa-se uma multiplicidade de referências em sua obra, como as peregrinações cristãs no México e Irlanda, os gêneros literários e performativos japoneses e o carnaval no Rio de Janeiro, todos eles estilos de performance em sociedades de larga escala, passíveis de compreensão por meio da análise processual.

A produção de Victor Turner repercute em diferentes domínios: nos estudos antropológicos, religiosos, teológicos, literários e folclóricos. O autor teve também papel decisivo na constituição do campo dos performance studies nos Estados Unidos e no Brasil. Na literatura antropológica brasileira especificamente, o diálogo com a obra de Victor Turner dá-se desde a década de 1970, com os estudos de  Roberto DaMatta (1936-) sobre ritual, por exemplo, em Carnaval, malandros e outros heróis (1978), desdobrando-se, entre outros, nos trabalhos de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti e John Dawsey, e em várias instituições brasileiras, que possuem núcleos e centros dedicados aos estudos da performance.

Como citar este verbete:
BORGES, Laís Gomes. 2019. "Victor Turner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/victor-turner>

autoria

Laís Gomes Borges

bibliografia

CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro, “Drama, ritual e performance”, Sociologia & Antropologia, 3 (6), 2013, p. 411-440

DAWSEY, John, “Victor Turner e a antropologia da experiência”, Cadernos de Campo, n.13, 2005, p. 163-176

DAWSEY, John Cowart, “Turner, Benjamin e antropologia da performance: o lugar olhado (e ouvido) das coisas”, Cadernos de Campo, São Paulo, 7 (2), 2006, p. 17-25

GOFFMAN, Erving. The presentation of self in everyday life, EUA, Anchor Books Edition, 1959 (Trad. Bras. Maria Célia Santos RaposoPetrópolis, Vozes, 2005, 13ª edição)

SCHECHNER, Richard, “O que é performance?”,  Revista de teatro, crítica e estética, n.12. Tradução de R. L. Almeida, 2003, p. 25-50

SCHECHNER, Richard, “From ritual to theater and back: the efficacy-entertainment braid” In: Performance Theory, London, Routledge, 1988

TURNER, Victor, The forest of symbols: aspects of ndembu ritual, Ithaca/Londres, Cornell University Press, 1967 (Trad. Bras. Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto, Editora da Universidade Federal Fluminense, 2005)

TURNER, Victor, The ritual process: structure and anti-structure, Chicago, Aldine Publishing Co., 1969 (Trad. Bras. Nancy Campi de Castro. Petrópolis, Vozes, 2013)

TURNER, Victor, The anthropology of performance, New York, PAJ Publications, 1987

TURNER, Victor. Dramas, fields and metaphors: symbolic action in human Society, Ithaca, Cornell University Press, 1975 (Trad. Bras. Fabiano Moraes. Editora da Universidade Federal Fluminense, 2008)

TYLOR, Diana & Steuernagel, Marcos,  What is performance? Que son los estudios de performance? O que são os estudos da performance?, Duke University Press, 2015, http://scalar.usc.edu/nehvectors/wips/index

VAN GENNEP, A.,  Les rites de passage, Paris, Émile Nourry, 1909 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1978)

inicial do verbete
título do índice alfabético
Turner, Victor

Stanley Tambiah

Nascido no Ceilão (atual Sri Lanka) de família tâmil, o antropólogo Stanley Jeyaraja Tambiah (1929-2014) iniciou sua trajetória acadêmica nas áreas de sociologia e economia. Fluente em cingalês, inglês e tâmil, graduou-se na Universidade do Ceilão (1951) e obteve o doutorado em sociologia na Universidade de Cornell (1954), ambas no Sri Lanka. Foi antropólogo da UNESCO na Tailândia (1960-1963) e integrou os quadros acadêmicos da Universidade de Cambridge como lecturer do King’s College (1963-1972). Em seguida (1973-1976) teve uma breve passagem como docente na Universidade de Chicago, acabando por se fixar permanentemente na Universidade de Harvard (1976-). Ainda que sociólogo de formação, Tambiah manteve contato estreito e permanente com a antropologia, sendo sua tese de doutorado (cujos argumentos vêm a público em artigo de 1957), um esforço de síntese entre as duas áreas. A transição mais efetiva para a antropologia deu-se durante uma pesquisa de campo sobre organização social e parentesco no Sri Lanka, onde percebeu as limitações do survey como metodologia de coleta de dados e as possibilidades que a etnografia oferecia para revelar os nexos e sentidos das inter-relações sociais.

A trajetória dos temas de pesquisa do autor foi traçada pelas primeiras etnografias que realizou no Sri Lanka e na Tailândia. Ao tomar contato com a vida rural desses países, coletou amplo material sobre aspectos da organização social, parentesco, economia agrária, posse de terra e rituais. É nesse contexto que passa a dedicar-se aos estudos de religião, concentrando suas pesquisas nos monastérios das aldeias. Suas preocupações não estavam centradas apenas nos rituais, na magia e na religião, mas também nas relações entre os monges e as populações locais, assim como nos conflitos étnicos e políticos; após a independência do Sri Lanka, em 1948, o país viveu uma onda de revivalismo cingalês, que reivindicava uma identidade budista e nacionalista em detrimento da minoria tâmil. A guerra civil desencadeada pela questão tâmil-cingalesa tornou-se uma preocupação teórica e política central para Tambiah, que buscou entender o budismo nas aldeias enquanto uma religião popular. Desde então, procurou pensar a religião em seus aspectos políticos e rituais, especialmente quando ligados a ordens políticas mais amplas, como a nação.

No começo de sua temporada em Cambridge (1963), Tambiah toma contato com as ideias estruturalistas propagadas pelo antropólogo britânico Edmund Leach (1910-1989), através do qual conhece o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Essa influência o inspirará a escrever sobre o tema das classificações, como no trabalho Animals are good to think and good to prohibit (1969). O antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902-1973) e o linguista John Langshaw Austin (1911-1960) são outras referências fundamentais para as reflexões de Tambiah sobre linguagem e ritual no texto Form and Meaning of Magical Acts (1985).

Um de seus mais célebres estudos é o ensaio The Magical Power of Words (1968), fruto de uma comunicação proferida na London School of Economics, durante um evento que debateu o legado teórico do antropólogo britânico Bronislaw Malinowski (1884-1942) para a antropologia. Neste ensaio, ele desenvolve uma reflexão crítica sobre magia e ritual, duas noções consagradas na antropologia, a partir dos conceitos de magia simpática e por contágio, ambas propostas pelo antropólogo britânico James Frazer (1854-1941), e desenvolvidas por Roman Jakobson (1896-1982) no ensaio Two Aspects of Language and Two Types of Aphasic Disturbance (1956).

Neste ensaio emblemático, o autor articula o material etnográfico a uma perspectiva pragmática sobre a linguagem a partir das reflexões do filósofo John Austin e da leitura crítica de textos e autores clássicos da antropologia. Seu objetivo é mostrar a eficácia da linguagem na ação ritual, mostrando que ela não difere da linguagem usada no cotidiano, exceto pela maneira dramatizada e intensificada com que é mobilizada. Dessa maneira, o ritual revelaria – em sua expressão intensificada – o que é usual em outras situações sociais. Ao mesmo tempo, o autor entende que ritual e cosmologia se conectam através desses atos performativos, atualizando a distinção entre forma e conteúdo, ação e pensamento, ou entre langue e parole, nos termos de Ferdinand de Saussure (1857-1913). O modo como o autor elaborou suas reflexões sobre a eficácia simbólica do ritual iluminou diversos campos de pesquisa antropológico, como os de ritos, rituais e teatro, tendo um impacto notável na Antropologia da Performance em geral e no Brasil, em particular.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2016. "Stanley Tambiah". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/stanley-tambiah>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

TAMBIAH, Stanley J., “Continuidade, integração e horizontes em expansão”, Entrevista à Mariza Peirano. Tradução Kátia Maria Pereira de Almeida. Mana, 3 (2), 1997, p. 199-219

TAMBIAH, Stanley J. & RYAN, Bruce, “Secularization of family values in Ceylon”, American Sociological Review, vol. 22, n. 3, 1957, p. 292-299

TAMBIAH, Stanley J., “The structure of kinship and its relationship to land possession and residence in Pata Dumbara, Central Ceylon”, Journal of the Royal Anthropological Institute, vol. 88, n.1, 1958, p. 21-44.
TAMBIAH, Stanley J. & SARKAR, N., K., Colombo, Ceylon University Press, 1957.
TAMBIAH, Stanley J., “Poliandry in Ceylon” In: Von Furer Haimendorf (org.), Caste and kin in Nepal, India and Ceylon, New York, Asia Publishing House, 1966.
TAMBIAH, Stanley J.,“Agricultural extension and obstacles to improve agriculture in Gal Oya peasant colonization scheme”, Proceedings of the Second International Conference of Economic History, Aix-en Provence, 1962.
TAMBIAH, Stanley J., Leveling Crowds. Ethnonationalist conflicts and collective violence in South Asia, Berkeley, University of California Press, 1996.
TAMBIAH, Stanley J., Buddhism and the spirit cults in northeast Thailand, Cambridge, Cambridge University Press, 1970.
TAMBIAH, Stanley J., World Conqueror and World Renouncer. A Study of Religion and Polity in Thailand Against a Historical Background, Cambridge, Cambridge University Press, 1976.
TAMBIAH, Stanley J., “The galactic polity: the structure of traditional kingdoms in Southeast Asia” In: S. Freed (dir.), Anthropology and the climate of opinion, New York, Annals of the New York academy of sciences, vol. 293, 1977 (In: Culture, thought and social action, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1985).
TAMBIAH, Stanley J., The buddhist saints of the forest and the cult of amulets. A study in charisma, hagiography, sectarianism and millenial Buddhism, Cambridge, Cambridge University Press, 1984.
TAMBIAH, Stanley J., “Animals Are Good to Think and Good to Prohibit”, Ethnology, 8(4), 1969, p. 423-459.
TAMBIAH, Stanley J., Magic, science, religion and the scope of rationality (The Lewis Henry Morgan Lectures 1984), Cambridge, Cambridge University Press, 1990.
TAMBIAH, Stanley J., Culture, thought and social Action. An anthropological perspective, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1985.
TAMBIAH, Stanley J., Sri Lanka: ethnic fratricide and the dismantling of democracy, Chicago, The University of Chicago Press, 1986.
TAMBIAH, Stanley J., Buddhism betrayed? Religion, politics and violence in Sri Lanka, Chicago, University of Chicago Press, 1992.
JAKOBSON, Roman. “Two Aspects of Language and Two Types of Aphasic Disturbance” In: R. Jakobson e M. Halle, Fundamentals of Language, The Hague, Mouton, 1956.
PEIRANO, Mariza (org), O dito e o feito: ensaios de antropologia dos rituais, Rio de Janeiro,  Relume-Dumará/  Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ, 2002.

inicial do verbete
título do índice alfabético
Tambiah, Stanley

A representação do Eu na vida cotidiana

A Representação do Eu na vida cotidiana (1959) é o primeiro e um dos mais conhecidos livros do sociólogo canadense Erving Goffman (1922-1982). Nele, o autor propõe uma abordagem microssociológica para interpretar a vida social a partir de uma análise das interações face a face, lançando mão de vocabulário e perspectiva provenientes do teatro. O livro se ampara no material de sua tese de doutorado, fruto de pesquisa etnográfica junto a uma comunidade agrícola nas Ilhas Shetland, e em uma miríade de outros exemplos extraídos da vida cotidiana.

Nos sete capítulos que compõem a obra, o autor observa pequenos detalhes das interações humanas. A vida social é compreendida como um palco em que se encenam papéis sociais diversos, de modo que o indivíduo não é o mesmo em todas as circunstâncias: se ele for um policial e estiver em período de trabalho, por exemplo, utilizará um vocabulário específico, diferente daquele empregado quando está em sua casa e cumpre os papéis de pai e marido, ou quando encontra amigos para uma partida de futebol. Goffman parte do pressuposto de que uma interação, ou seja, a influência recíproca dos indivíduos em contato, é estabelecida de acordo com uma definição prévia de hierarquias, papéis e expectativas envolvidas em cada encontro. Uma vez negociado e compreendido o que está em jogo em uma dada interação, o indivíduo passa a gerir a apresentação do seu Eu (Self) em relação às impressões anteriormente estabelecidas, com vistas a alcançar objetivos formulados previamente, de maneira consciente ou não. Desse modo, cada interação social se estabelece de acordo com os atores (reunidos ou não em equipes), com a plateia, e com as expectativas estabelecidas entre eles.

O vocabulário do teatro serve à compreensão da capacidade expressiva que permite ao indivíduo passar uma determinada impressão. Tal expressividade envolve duas espécies diferentes de recursos significativos: aqueles que o ator “transmite” e aqueles que ele “emite”. Os primeiros são os símbolos verbais utilizados para veicular a informação; os segundos, caros ao argumento do livro, dizem respeito a aspectos corporais, não verbais e contextuais, propositais ou não, envolvidos na interação. Muito além do que é dito por um chefe de Estado, por exemplo, espera-se dele certa atitude corporal e um modo de se apresentar em público condizentes com a posição que ele ocupa. A não observação dessa etiqueta pode causar embaraços. Assim, a representação ou performance elaborada previamente nos bastidores e executada por meio da mobilização dos diversos equipamentos expressivos corre riscos caso a cooperação entre o ator e seus observadores seja perturbada por impressões emitidas sem intenção prévia, podendo gerar assimetrias, constrangimentos ou mal-entendidos. Por esse motivo, os pressupostos precisam ser negociados tanto antes quanto no curso da interação. O indivíduo emprega estratégias para a manutenção de uma impressão aceitável para si e para o observador em uma dada situação, como quando um professor assume uma postura firme no primeiro dia de aula para denotar autoridade que, a depender da situação, pode ser negociada posteriormente.

Ilya Repin, 'Um café parisiense', 1875. Óleo sobre tela, 20.6 x 191.8 cm, col. particular.

Goffman denomina “fachada” o equipamento expressivo de tipo padronizado e fixo mobilizado pelo ator antes e ao longo da interação. A fachada compreende o cenário que serve de palco ao desenrolar da ação, e a “fachada pessoal”, que envolve a aparência, cuja observação revela o status social e o tipo de atividade a que o ator se dedica em um determinado momento, e a maneira, que são estímulos e comportamentos como humildade, agressividade, submissão ou arrogância, que informam sobre os papeis cumpridos em cada situação. É preciso que exista uma coerência entre as duas características da fachada pessoal para que a comunicação seja bem sucedida, de forma que, enfatizando certos aspectos em detrimento de outros, o indivíduo transmita consciente ou inconscientemente a impressão desejada.

Este conjunto de preocupações faz com que Goffman seja frequentemente associado ao interacionismo simbólico - corrente à qual se associam os nomes de Herbert Blumer (1900-1987) e George Herbert Mead (1863-1931) –em virtude de sua formação na Escola de Chicago e de sua ligação com a obra de Georg Simmel (1858-1918). Mas em A Representação do Eu na vida cotidiana, ainda que atento às interações cotidianas, o autor aponta para possibilidades de análise em nível macroestrutural, fato que, segundo alguns de seus estudiosos, o distanciaria de uma filiação interacionista estrita. Para além de classificações, a abordagem do autor faz com que ele seja lido por antropólogos, psicólogos, teóricos da comunicação e da dramaturgia.

Como citar este verbete:
MACIEL, Diogo Barbosa & BERBEL, Gustavo dos Santos. 2015. "A representação do Eu na vida cotidiana". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/representação-do-eu-na-vida-cotidiana>

autoria

Diogo Barbosa Maciel e Gustavo dos Santos Berbel

bibliografia

BERGER, Bennett M., “Prefácio da edição brasileira” In: E. Goffman, E. Os quadros da experiência social: Uma perspectiva de análise, Tradução de Gentil A. Titton. Petrópolis, Vozes, 2012

CASTEL, R. COSNIER, J. & JOSEPH, I. (ed), Le parler frais d’Erving Goffman, Colloque de Cerisy,  Paris, Les Éditions de Minuit, 1969

FRÓIS, C.O., “A Reinvenção do Eu Através do discurso: narrativa, estigma e anonimato nas famílias anônimas”, Mana, Rio de Janeiro, Museu Nacional, vol.13, n. 1, 2007, p. 63-84

GASTALDO, E.,  Erving Goffman, desbravador do cotidiano,  Porto Alegre, Tomo editora, 2004

GOFFMAN, E., The presentation of self in everyday life, EUA, Anchor Books Edition, 1959 (Trad. Bras. Maria Célia Santos Raposo. Petrópolis, Vozes, 2005, 13ª Edição)

GOFFMAN, E., Asylums: Essays on the Social Situation of Mental Patients and Other Inmates, Nova York, Anchor Books edition, 1969 (Trad. Bras. Dante Moreira Leite. São Paulo, Perspectiva, 1974)

GOFFMAN, E.,  Frame Analysis: An Essay on the Organization of Experience (Trad. Bras. Gentil A. Titton. Petrópolis, Vozes, 2012)

GOFFMAN, E., Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity, London, Penguin, 1963 (Trad. Bras. Márcia B. de M. Leite Nunes. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1983)

MARTINS, C. B. C. et alli, “Dossiê Goffman”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. v. 23 n. 68, São Paulo, ANPOCS, 2008

inicial do verbete
título do índice alfabético
Representação do Eu na vida cotidiana, A

The Magical Power of Words

A pergunta que norteia o ensaio The Magical Power of Words (1968) do antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) refere-se à potência mágica que as palavras possuem no contexto ritual. O autor elege a linguística como fonte teórica para discutir a relação entre atos e palavras, de modo a problematizar a concepção antropológica clássica que vê o ritual como repetição de palavras, atos não verbais, manipulação de objetos e, ainda, a partir da oposição entre magia e religião. Ao descrever um complexo ritual de exorcismo no Sri Lanka (Ásia do Sul), Tambiah indica que as palavras podem ser proferidas em diferentes idiomas, mostrando-se: coloquiais ou eruditas (acompanhadas de música ou oferendas de alimentos); ditas em voz baixa ou alta, ou em uma variedade de tons, hierarquias e intenções. Na forma de feitiços, elas podem ainda conter alusões abreviadas aos mitos, que são cantados na ordem da progressão da cura, articulando o ritual à cosmologia que ele encarna, e indicando a presença de duas lógicas que atuam articuladamente: uma que corresponde ao panteão e à teologia na relação com os homens, deuses e espíritos, e a outra que diz respeito à comunicação entre o exorcista e o paciente na passagem da doença para a cura. No âmbito específico da discussão da linguagem no ritual, o autor enfatiza as distinções entre os usos das línguas profanas, seculares e sagradas, posto que prefiguram os sentidos de cada aspecto e etapa do ritual, e a importância dos papéis desempenhados pelos seus executores, que atuam como mediadores no contato com o divino, em rituais de cura, iniciação etc.

ritual de cura no Sri Lanka, dança das 8 máscaras Sanniya yakA proposta de Tambiah de reanálise da magia trobriandesa, estudada por Malinowski (1884 -1942) está baseada em algumas premissas, a saber, que o uso da linguagem no ritual não é qualitativamente diferente do seu uso ordinário, e que seu sistema combina palavra e gesto, linguagem e ação. Ele toma como ponto de partida a elaboração de Roman Jakobson (1896-1982) a respeito da afasia (1956), na qual discute os dois mecanismos da linguagem - o metafórico e o metonímico - baseados nos princípios de semelhança e contiguidade: o primeiro permitindo abstrações através de substituições e o segundo, a construção de uma totalidade a partir das partes, procedimentos estes postos em prática pela magia trobriandesa no contexto da ação.

A abordagem do ritual, tal como construída nesse ensaio com o auxílio de narrativas etnográficas dissolve dicotomias recorrentes, como aquelas entre linguagem/ação, mito/rito, ação/representação. O ritual como ato performativo tem um objetivo integrador e coletivo; seus procedimentos combinam ações verbais e não verbais, e a linguagem aí mobilizada tem o poder de invocar imagens e comparações, projetando o futuro e permitindo voltar ao passado. Ao recuperar Malinowski e sua etnografia linguística do ritual, assim também como as formulações de do filósofo inglês John Austin (1911-1960) sobre a dimensão performativa da fala, Tambiah demonstra que no pensamento mágico, magia e prática, mito e rito, ação e palavra constituem-se mutuamente, numa relação indestrinçável.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2015. "The Magical Power of Words". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/magical-power-words>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

JAKOBSON, R., "Two aspects of language and two types of aphasic disturbance" In: R. Jakobson,  e M. Halle, Fundamentals of language, The Hague, Mouton, 1956.

PEIRANO, Mariza (org), O dito e o feito: ensaios de antropologia dos rituais, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ, 2002.

TAMBIAH, S., “The magical power of words” (Malinowski Memorial Lecture, 1978), Man vol. 3, n. 2, 1968, p. 175-208.

TAMBIAH, S., “Animals are good to think and good to prohibit”. Ethnology, vol. 8, n. 4, 1969, p. 423-459.

TAMBIAH, S., “Form and Meaning of Magical Acts” In: Cultura, Thought and Social Action, Cambridge, Mass, Harvard University Press, 1985.

inicial do verbete
título do índice alfabético
Magical Power of Words, The

Liminaridade e communitas - Victor Turner

Victor Turner (1920-1983), antropólogo britânico que dedicou boa parte de seus esforços intelectuais ao entendimento das simbologias subjacentes aos rituais, deu contribuição significativa à compreensão das práticas rituais ao refinar a noção de liminaridade e elaborar, a partir dela, o conceito de communitas. O autor concebe a ideia de liminaridade como correspondendo a um momento de margem dos ritos de passagem: fase ritual na qual os sujeitos apresentam-se indeterminados, em uma espécie de processo transitório de “morte” social, para, em seguida, “renascerem” e reintegrarem-se à estrutura social. Liminaridade é, portanto, uma condição transitória na qual os sujeitos encontram-se destituídos de suas posições sociais anteriores, ocupando um entre-lugar indefinido no qual não é possível categorizá-los plenamente. Segundo Turner, a vida social se movimenta a partir de um movimento dialético, envolvendo estrutura social e communitas, estrutura e antiestrutura, alimentado pelas práticas rituais.

Victor Turner, Rito de passagem Ndembu, A Floresta dos Símbolos

O antropólogo iniciou as reflexões sobre o tema em O processo ritual: estrutura e antiestrutura (1969), a partir de inspiração retirada de Os ritos de passagem (1909) de Arnold Van Gennep (1873-1957). Suas contribuições teóricas estão fundamentadas na análise de práticas rituais observadas entre os Ndembu, povo da região da África Central, e em uma ampla revisão da literatura antropológica disponível sobre a temática do ritual. Em sua  obra, Victor Turner concebe a liminaridade como condição social efêmera vivenciada por sujeitos temporariamente situados fora da estrutura social, dando origem ao que ele denomina communitas, isto é: uma forma de antiestrutura constituída pelos vínculos entre indivíduos ou grupos sociais que compartilham uma condição liminar em momentos especificamente ritualizados. Os sujeitos liminares agrupados pela communitas são marcados pela submissão, silêncio e isolamento, considerados como tábula rasa em relação à nova posição social a ser assumida após a conclusão do ritual de passagem. O autor opta pelo termo latim communitas à noção de comunidade, de modo a não conferir circunscrição espacial ao vínculos entre os sujeitos liminares, já que o caráter de antiestrutura da communitas está baseado em relações sociais e não em pertencimentos territoriais.

Turner expande a compreensão dos termos liminaridade e communitas para além dos contextos rituais classicamente analisados na antropologia, destacando que hippies, profetas, artistas, assim como integrantes de movimentos milenaristas e religiosos podem ser também considerados sujeitos liminares, que se agrupam em communitas diversas. Nesses casos, no entanto, a condição liminar parece ser permanente já que tais sujeitos se opõem ou, no mínimo, desafiam a estrutura social como única forma de organização social possível. No caso dos movimentos milenaristas, por sua vez, a condição liminar mostra-se transitória, durável até o momento em que as profecias nas quais o grupo acredita não se concretizam. Independente do contexto ritual, Turner destaca que, além estarem situados em uma condição de indiferenciação social por nome, status e gênero, os integrantes da communitas podem ser também marcados pela suspensão (ainda que efêmera) do direito à propriedade e das obrigações de parentesco.

De modo a fundamentar suas teses, o antropólogo recorre às etnografias de E.E. Evans-Pritchard (1902-1973), entre os Nuer, e de Meyer Fortes (1906-1983), entre os Tallensi, para mostrar que liminaridade e communitas evidenciam o que ele genericamente denomina “o poder dos fracos”. Ele afirma que em sistemas de parentesco patrilineares, nos quais os atributos jurídicos e políticos são transmitidos pela ascendência paterna, as mulheres encontram formas – muitas vezes justificadas pela mitologia e pelas práticas rituais – de marcar a importância da descendência materna na constituição pessoal e mística dos sujeitos. Em sistemas de parentesco matrilineares, onde o status jurídico e político é dado pela ascendência materna, por sua vez, os indivíduos que desenvolvem estratégias liminares para demonstrar sua importância na estrutura social seriam, inversamente, os homens. Esses exemplos permitem assinalar que, diante do confronto com a estrutura social, os sujeitos em condição liminar constituem uma solidariedade proporcionada pelo estabelecimento da communitas para marcar a relevância de sua posição social em contexto político, cultural e jurídico determinado. Turner conclui que toda estrutura social, acompanhada pelos ritos que concedem direitos de acesso a determinadas esferas de poder ou status, coopera para a existência de uma antiestrutura na medida em que produz sujeitos liminares, transitórios ou não, que se agrupam em communitas. Assim, a relação entre estrutura e communitas traduz uma dialética imprescindível à vida social em qualquer contexto.

Posteriormente, os conceitos de liminaridade, communitas e drama social serviram como pontos de partida para que Turner, a partir de seu interesse pelo universo do teatro, problematizasse as interações possíveis entre dramas sociais e dramas estéticos. Seu encontro teórico com Richard Schechner (1934-) originou um novo campo de estudos na disciplina, denominado Antropologia da Performance, que se beneficia das imbricações entre a antropologia e o teatro, e que vem encontrando grande repercussão no Brasil.

Como citar este verbete:
NOLETO, Rafael da Silva & ALVES, Yara de Cássia. 2015. "Liminaridade e communitas - Victor Turner". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/liminaridade-e-communitas-victor-turner>

autoria

Rafael da Silva Noleto e Yara de Cássia Alves

bibliografia

DAWSEY, John, MÜLLER, Regina, HIKIJI, Rose Satiko & MONTEIRO, Mariana F.M. (orgs),  Antropologia e Performance: ensaios Napedra,  São Paulo, Terceiro Nome, 2013

SCHECHNER, R., Between Theater and Anthropology, Philadelphia, The University of Pennsylvania Press, 1985

TURNER, V., The Ritual Process: Structure and Anti-Structure, Chicago: Aldine Publishing Co., 1969. (Trad. Bras. Nancy Campi de Castro. Petropolis, Vozes, 2013)

TURNER, V., Dramas, Fields and Metaphors: Symbolic Action in Human Society, Ithaca, Cornell University Press, 1975

TURNER, V., From ritual to Theatre, New York, PAJ Publications, 1982

TURNER, V., The Anthropology of performance, New York, PAJ Publications, 1987

VAN GENNEP, A., Les rites de passage, Paris, Émile Nourry, 1909 (Trad. Bras. Mariano Ferreira. Petrópolis, Vozes, 1978)

inicial do verbete
título do índice alfabético
Liminaridade e communitas - Victor Turner