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Ruy Coelho

Ruy Galvão de Andrada Coelho (1920-1990) foi antropólogo, crítico cultural e professor de sociologia na Universidade de São Paulo, tendo sido o único de sua geração a realizar trabalho de campo fora do Brasil. Entre setembro de 1947 e julho de 1948, sob a orientação de Melville Herskovits (1895-1963), estudou os garífunas (etnônimo pelo qual se designam hoje os caraíbas negros) de Trujillo, Honduras, pesquisa que resultou na tese de doutorado, The Black Carib of Honduras: a Study in Acculturation (1955). Embora lembrado em função de sua atuação na revista Clima (1941-1944), que lançou nomes importantes da crítica paulista, como Antonio Candido (1918-2017), Gilda de Melo e Souza (1919-2005), Décio de Almeida Prado (1917-2000) e Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), Ruy Coelho é autor de diversos trabalhos antropológicos, concebidos de acordo com os chamados estudos de aculturação e de cultura e personalidade, em evidência na academia norte-americana dos anos 1940.

Durante e imediatamente após sua formação universitária, na Faculdade de Direito e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, Coelho atuou como crítico de literatura e cinema e professor, antes de seguir, em 1945, para os Estados Unidos, para realização de doutorado na Northwestern University, em Illinois, sob a orientação de Herskovits, proeminente no estabelecimento dos estudos afro-americanos. Em 1946, inscreve-se no Rorschach Institute of New York, dirigido pelo psicólogo alemão Bruno Klopfer (1900-1971), participando de pesquisa de campo coordenada pelo antropólogo Alfred Irving Hallowell (1892-1974) entre os Ojibwa, do Lac Du Flambeau, Wisconsin. A equipe se valeu de técnicas e métodos da etnografia vigentes, e sobretudo da aplicação de testes de Rorschach e desenhos livres, para apurar informações sobre a repercussão, no plano individual, das mudanças vivenciadas pelo grupo. Em 1947, passa a viver em Trujillo entre os caraíbas negros, originários da ilha de São Vicente no Caribe, que chegam à costa norte de Honduras, em abril de 1797, após serem deportados por tropas marítimas do governo inglês. A tese de Coelho descreve os principais aspectos da organização social e familiar, além do universo cosmológico da sociedade garífuna, com o objetivo de descrever a unidade cultural resultante da síntese de elementos provenientes de tradições ameríndias, africanas e europeias, em meio às circunstâncias de ataques e violências com as quais o grupo se defrontou ao longo de sua história. O trabalho se situa na convergência entre os estudos de aculturação, alinhando-se ao programa de pesquisas de Herskovits, e aos estudos de cultura e personalidade, com ênfase no impacto sócio-psicológico de situações de mudança, sob inspiração de Hallowell.

Ruy Coelho, autoria desconhecida, Trujillo, Honduras, 1947-1948

Após a finalização da tese, Ruy Coelho se associa à Universidade de Porto Rico como professor (1949), sendo contratado, onze meses depois, pelo Departamento de Ciências Sociais da Unesco. Aí, sob o comando de Alfred Métraux (1902-1963), foi corresponsável pela organização do ciclo de pesquisas sobre relações raciais no Brasil (1951-1952). Em 1952, regressa definitivamente ao Brasil, nomeado professor-assistente da cadeira de sociologia II da USP. Nos anos seguintes, embora não dê continuidade às suas investigações sobre os caraíbas negros, publicaria mais três artigos resultantes do material reunido em campo: “Le concept de l’âme chez les Caraïbes noirs” (1952); “As festas dos Caraíbas Negros” (1952); e “Personalidade e papéis sociais dos xamãs entre os Caraíbas Negros” (1961). Traduz também para o português a tese de doutorado, “Os Karaíb negros de Honduras” (1964). Passa a se dedicar, a partir de então, à teoria sociológica (Indivíduo e sociedade na teoria de Auguste Comte, 1963) e à revisão crítica do conceito de estrutura social e sua expressão no plano da dinâmica psicológica – Estrutura social e dinâmica psicológica (1969) – preocupação que desembocaria em seus últimos escritos sobre “Planos de cognição e processos culturais” (1989). Nesses estudos, Coelho retoma a formação intelectual francesa adquirida na juventude, relida à luz dos postulados teórico-conceituais dos estudos de cultura e personalidade. Após detenção com sua esposa Lúcia Maria Salvia Coelho, sob a suspeita de atividades subversivas, em 1971, Coelho exila-se com a família em Aix-en-Provence, sul da França, onde é recrutado pelo Departamento de estudos luso-brasileiros da Université de Provence, entre 1974 e 1977. Regressa ao Brasil em 1977, retomando suas atividades no curso de ciências sociais da USP e assumindo a direção da FFLCH em 1982. Foi professor convidado da Universidade de Coimbra, em 1984, contribuindo para a criação da licenciatura em antropologia no Departamento de Ciências da Vida e para o aprofundamento do debate sobre a epistemologia nas ciências sociais.

O estudo pioneiro de Coelho sobre os garifunas segue citado e influente em Honduras, desde sua tradução na década de 1980, Los negros caribes de Honduras (1981). Em que pese a superação da moldura culturalista na qual a pesquisa foi realizada, a descrição das principais instituições sociais e ideias religiosas dessa população em período pouco documentado de sua história acabaram por converter o estudo em referência bibliográfica incontornável. De igual modo, a acuidade compreensiva dos temas focalizados, reputados como decisivos pelos sujeitos estudados, fascinam os leitores hondurenhos, especialmente garífunas, até os dias atuais. Embora a obra antropológica de Coelho seja pouco lida no Brasil, o crescente entusiasmo de parte dos antropólogos por questões ligadas à cognição e à percepção pode, talvez, estimular o interesse por sua contribuição ao debate sobre as relações entre antropologia, psicologia e psicanálise.

Como citar este verbete:
RAMASSOTE, Rodrigo. “Ruy Coelho”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2019. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/autor/ruy-coelho>

ISSN: 2676-038X (online)

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