concept
Mana - Marcel Mauss e Henri Hubert

Mana é uma noção encontrada entre povos da Oceania, mais precisamente entre os falantes das línguas melanésias e polinésias. Foi empregada por autores como o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) e o antropólogo britânico Robert R. Marett (1866-1943), em estudos sobre o fenômeno religioso e sua evolução, mas ganharia centralidade nas reflexões do antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) e do arqueólogo e sociólogo francês Henri Hubert (1872-1927) no ensaio Esboço de uma teoria geral da magia, publicado originalmente em L’Année Sociologique (1902-1903), no qual os autores refutam teses anteriormente produzidas sobre o tema da magia, como as de James Frazer (1854-1941), na busca por uma formulação geral sobre o tema. Nele, os autores se dedicam à noção – e às suas variações – atentos às formulações nativas de seus significados; afirmam ser mana uma categoria do pensamento coletivo que designa “força espiritual”, “poder espiritual” ou “potencialidade mágica”, responsável pela “crença” nos ritos mágicos e, fundamentalmente, por sua eficácia.

O termo foi observado e registrado pela primeira vez no século XIX pelo missionário e etnógrafo Robert Henry Codrington (1830-1922) em The Melanesians, their anthropology and folklore (1890). Codrington localiza-o ao se debruçar sobre as formas religiosas dos melanésios, entendendo-o como poder ou força vital que não se fixa, sendo transmitido e produzindo efeitos materiais e simbólicos sobre o mundo ao redor. Trata-se, assim, de uma força que circula e estabelece relações entre diferentes seres e coisas, incluindo espíritos da natureza e de antepassados. Se mana traduz um poder impessoal, ele pode ser adquirido e usado em benefício de alguém, estabelecendo, aumentando ou transmitindo honra, prestígio e riqueza ao seu portador, sendo assim também associado à magia e a sua eficácia.

Codrington, desenho nativo de um pescador atingido por uma flecha de um peixe-fantasma, The Melanesians, their anthropology and folklore, 1891, p. 197

Ao contrário de seus predecessores, como Frazer, Mauss e Hubert defendem ser a magia um fato social específico, a merecer definição precisa em função de exemplos variados, e não apenas uma sobrevivência ou fase anterior à religião e à ciência. Assim, ao buscarem formas elementares da magia no ensaio em questão, comparam materiais etnológicos provindos das sociedades arcaicas – principalmente povos melanésios e americanos – e registros escritos (textos sagrados ou de tradição), do hinduísmo (védicos), da Grécia Antiga, da Idade Média, de povos semitas, entre outros. A partir da análise desses materiais, Mauss e Hubert compreendem a magia como um “objeto de crença a priori” (pois ela antecede a experiência ou prescinde dela) e “fato de tradição”, quer dizer: é transmitida e depende de consentimento, sendo sua eficácia afirmada pela sociedade. Essa “crença” particular, que define a magia, é atribuída ao mana, encontrado com pequenas variações em diferentes povos e sob diversas designações: como orenda entre os Iroqueses, manitu entre os Algonquinos no México e América Central, brahman no panteísmo hindu, entre outros exemplos que permitem deduzir a persistência fragmentária da noção.

Ian Hogbin, "Mana", Oceania, 1936, prancha I. Fotografia. Esquerda: Enfeitiçando folhas durante um ritual mágico em Guadalcanal. Direita: Magia de beleza em Wogeo, o feitiço é soprado no apito.

O sentido melanésio de mana – que designa ideias como a “força do rito”, a “força do mágico” o “poder de feiticeiro”, também a “qualidade mágica de uma coisa”, o “ser mágico”, o “estar encantado” etc. – mostra que estamos diante de uma noção composta por uma “série de ideias instáveis que se confundem umas nas outras”, sendo assim abstrata e geral, e ao mesmo tempo dotada de concretude. Ela pode indicar uma qualidade (ou adjetivo), quando diz respeito a algo que a coisa ou a pessoa possui; pode ser substância (ou substantivo), referindo-se à essência mana, que existe de forma independente e impessoal; e indicar ainda uma atividade (ou verbo), quando exprime força. Neste caso, é vista como ação, representada materialmente – é possível sentir e ouvir o mana na natureza, na chuva, na fumaça etc. Fundamento da magia, mana, segundo os autores, rege as representações mágicas e mobiliza os ritos, ligando os seres neles envolvidos (os mágicos, os espíritos, os objetos, os fenômenos naturais). Como força mágica, mana se acrescenta às coisas, somando-se às qualidades nelas pré-existentes. Para melhor explicar a noção (estranha ao pensamento europeu), os autores utilizam vários exemplos (como o de flechas encantadas na Melanésia), nos quais mana é descrito como força espiritual, eficácia pura e verdadeira das coisas, plantas, animais, substâncias, ritos e mágicos. Sem se confundir com aquilo em que se situa ou atua, mana sinaliza uma esfera superposta à realidade. Deste modo, segundo Mauss e Hubert, mana é a expressão das forças coletivas e a magia, por ser o produto dessas forças, é encarada como sendo do domínio do coletivo e do social.

Mais de vinte anos depois, a noção reaparece no Ensaio sobre a dádiva (1923-1924), quando Marcel Mauss, dedicado a examinar os sistemas de prestações totais em sociedades “arcaicas” na Polinésia, Melanésia, noroeste americano, na Índia e em Roma subsidiariamente, a fim de compreender a natureza das transações humanas e seus rastros na sociedade moderna, se detém sobre as dádivas, trocas e o espírito das coisas dadas. Ainda que a noção não seja central no ensaio, que se volta ao conceito maori de hau – espírito que anima e acompanha tudo aquilo que é doado –, mana se faz aí presente, no sistema de prestações totais, como autoridade, força e poder mágico que um doador conserva sobre as coisas oferecidas como dádivas e que permanece, na forma de riqueza e prestígio. Por conservarem o poder do doador, as dádivas obrigam sua devolução na forma de outro objeto equivalente, evitando assim os perigos envolvidos no ato de aceitar e conservar o mana e o hau de outrem. O mana e o hau são, assim, compreendidos como virtude da coisa dada que obriga sua retribuição nos sistemas de prestações totais, sendo o mana uma força que é acumulada e pode ser perdida em caso de não retribuição dos presentes, e o hau o poder espiritual da coisa dada, referente ao doador, que circula com a troca de objetos, podendo voltar ao seu dono.

As reflexões de Mauss e Hubert sobre a noção de mana tiveram repercussões diversas. A leitura realizada da obra de Mauss pelo antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908-2009) na “Introdução à obra de Marcel Mauss” (1950) aproxima as noções de mana e hau, por considerar que elas se assemelham; ambas são “significantes flutuantes”, símbolos vazios de sentido próprio e que podem ser atribuídos à diversas coisas, nesse caso utilizados para expressar a obrigatoriedade da troca e a reciprocidade como fundamento da vida social. A interpretação de Lévi-Strauss influenciou o modo como a noção de mana foi utilizada posteriormente, como indica a crítica feita a Mauss pelo antropólogo Raymond Firth (1901-2002), para quem o uso de mana, no Ensaio sobre a dádiva, se distanciava do uso nativo. Pesquisando entre os Tikopia, na Polinésia, Firth notou que o uso de mana (ou manu) não se referia a uma força universal inerente às coisas e nem a uma abstração física, relacionando-se mais à agência humana e à eficácia dessa agência sobre o mundo. Outros casos são o do biólogo Dominique Temple (1940-) e da filósofa Mireille Chabal (1946-), que ao retomarem a ideia de mana trabalhada por Mauss também no ensaio de 1923-1924, endossam o papel central que o antropólogo havia atribuído a ela em sua teoria da reciprocidade, pois mana é a matriz dessa relação de troca; para os autores, mana e hau seriam sinônimos, sendo o hau um tipo específico de mana e um termo particular aos Maori.

Trabalhos contemporâneos revisitam a noção e suas variantes, como indica a obra organizada pelo antropólogo australiano Matt Tomlinson e pelo antropólogo havaiano Tay. P. Kāwika Tengan, New mana: transformations of a classic concept in Pacific languages and cultures (2016). Nela, diversos autores e autoras dialogam com a noção de mana tal como discutida por Mauss e Hubert, se dedicando a renovar os estudos sobre essa categoria que, segundo eles, perdeu espaço na discussão antropológica das últimas décadas. Esses autores estão interessados em demonstrar que a noção é ainda utilizada na Oceania com sentidos de autoridade, poder ou força, como indicaram Mauss e Hubert, mas em novos contextos como, por exemplo, os de diáspora, onde o mana tem o papel de reforçar o pertencimento étnico daqueles que se afastam de seus territórios nativos, ou como forma de fortalecer movimentos políticos locais por meio da recuperação de um poder ancestral. Produções brasileiras também se dedicam ao conceito, como indica o artigo de Jean Langdon (1944-), que, ao deslocar a observação etnográfica para a América do Sul, mostra forte relação entre xamanismo e mana (sob o nome de rau) entre os Siona na Colômbia.

Como citar este verbete:
SILVA, Milena de Oliveira. “Mana - Marcel Mauss e Henri Hubert”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/conceito/mana-mauss-hubert

ISSN: 2676-038X (online)

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M
date of publication
20/07/2026
authors

Milena de Oliveira Silva

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