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Por que cantam os Kĩsêdjê?

Foi a partir de material levantado ao longo de uma dezena de viagens de campo com sua esposa e antropóloga, Judith Seeger, entre 1971 e 1982, que Anthony Seeger (1945-) publicou Por que cantam os Kĩsêdjê? Uma antropologia musical de um povo amazônico (1987). Reconhecida tanto por sua concisão expressiva quanto por sua relevância ao campo da etnomusicologia (ou seja, da musicologia comparada), a obra dá seguimento à tese de doutorado que o antropólogo norte-americano realizou na Universidade de Chicago, em 1974, e que foi publicada com o título Nature and Society in Central Brazil (1981). Enquanto a tese trata das estruturas, da cosmologia e da organização social dos Kĩsêdjê, no livro de 1987 o autor focaliza o processo do canto em relação à gênese, à transformação e à permanência dessas categorias. A obra reflete o lento processo de amadurecimento do autor, aluno de Victor Turner (1920-1983), no que diz respeito à questão musical e sonora, cuja importância para os povos das terras baixas da América do Sul era até então pouco explorada.

Anthony Seeger, Why Suyá Sing. A Musical Anthropology of an Amazonian People. University of Illinois Press.

Os Kĩsêdjê – autodenominação hoje preferida ao nome Suyá, usado pelo autor na publicação original em inglês – são um povo indígena pertencente à família linguística Jê, que vive na parte sudeste do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, aonde chegaram entre 1850 e 1860. As ideias formuladas no livro sobre os cantos desse povo foram elaboradas a partir de três realizações de um mesmo ritual de iniciação e nomeação, conhecido como Cerimônia do Rato, registradas em 1963, 1972 e 1976 por Judith e Anthony Seeger (a de 1972 foi a única inteiramente gravada). Esse período cerimonial constituiu um observatório privilegiado para a investigação dos valores atribuídos ao cantar, as expectativas que ele traz, e a sua centralidade na vida dos Kĩsêdjê. Atento à preparação gradual da cerimônia durante quatorze dias, o autor mapeia atores, lugares e momentos dos cantos – nas conversações dos homens; durante a caça e a partilha de alimentos na floresta; quando da colheita do milho na roça e do ensino de novos cantos aos jovens – até que atinjam o ápice no último dia, quando os cantos duram cerca de quinze horas. À medida que a euforia coletiva se apodera de atores cada vez mais numerosos durante a cerimônia (da qual o próprio autor participa), torna-se viável delinear não apenas a estrutura interna da cerimônia, mas também suas articulações com outros complexos rituais, o que permite evidenciar a plasticidade e a criatividade nela contida.

No primeiro capítulo, Seeger abre o livro focalizando cinco dias da cerimônia (24, 25, 26, 29 e 30 de janeiro) de modo a acompanhar o desdobramento dos acontecimentos, enquanto no sexto narra detalhadamente o último dia, 6 de fevereiro. No segundo capítulo, empenha-se em articular o canto a outras formas verbais, muitas delas presentes na cerimônia, relacionando as modalidades de cantos (ngére) à fala (kapérni), à instrução/ensinamento (sarén) e à invocação (sangére). Ao aproximar as abordagens linguística e musicológica, deslocando a relevância atribuída a alguns argumentos (como a separação fonética/semântica na recitação dos mitos), o autor destaca o continuum existente entre essas diferentes formas verbais em torno de um conjunto limitado de parâmetros (textos, fraseado, relações de altura e autoridade textual), colocando em xeque uma designação estrita de 'musical'. Articulando o segundo ao terceiro capítulo, investiga a origem de subcategorias como os cantos cerimoniais, os cantos individuais de aclamação (shout songs), os cantos em uníssono e os de cura – delimitadas em relação a contextos específicos – e os processos por meio dos quais eles são introduzidos nas cerimônias. Mostra assim como a inclusão desses cantos no ritual não só restabelecem vínculos no seio do grupo (entre um homem e suas irmãs, sua esposa e seus afins, mas também com grupos estrangeiros e o mundo animal) como deixa ver o que o autor define como liminaridade: isto é, a incorporação do poder e dos recursos materiais de cantos alheios ao grupo, o que contribui para a clarificação do estatuto destes últimos como alteridade.

O quarto capítulo dedica atenção específica aos lugares e aos momentos da performance musical. A própria organização dos cantos simultâneos e seus efeitos desnorteadores para um ouvinte externo explicam-se, em grande parte, em relação à trama crono-espacial que eles produzem; os cantos aparecem como veículos de conhecimentos e de compreensão moral: são eles que estruturam o espaço, delimitam o público e o privado, e definem as polaridades significativas da sociedade através das relações dicotômicas (silêncio/ruído, agudo/grave, rápido/lento). A música não se encaixa em uma matriz social e cultural preexistente, mas participa da construção e da interpretação da própria sociedade. No quinto capítulo Seeger prossegue a reflexão analisando a estrutura sonora através do problema posto pela afinação ascendente de alguns cantos. A partir de uma reflexão sobre o tratamento das gravações e a pertinência da transcrição musical, o capítulo coloca no centro da discussão suas ferramentas e o processo pelo qual os conhecimentos do etnólogo se constituem. O que inicialmente parecia ser um problema técnico permite sublinhar os valores que os Kĩsêdjê atribuem a uma afinação mais baixa em relação a um passado valorizado (no qual os homens eram mais altos e vigorosos, o povo inteiro cantava mais e portava-se melhor); e longe de ser um substituto, a transcrição permite renovar a discussão com os interlocutores da pesquisa e questionar as escolhas subjacentes à própria cultura musical do autor.

Os dois últimos capítulos recapitulam as análises anteriores antes pela consideração do último dia da Cerimônia do Rato, abordando as dimensões relativas às performances musicais e ao ritual, e contribuindo, assim, para fornecer uma resposta à pergunta feita pelo autor no título da obra. Cantar aparece como uma atividade pilar da produção e reprodução social dos Kĩsêdjê: não apenas reafirma as relações humanas, temporais e espaciais, mas também restabelece a harmonia do mundo e contribui para torná-lo habitável. O canto permite aos indivíduos dar voz a seus afetos e conectar suas experiências às estruturas da sociedade, ao mesmo tempo que torna visível o que os liga ao mundo social – a exemplo dos vínculos entre natureza e cultura, homens e animais.

Still do documentário "Amtô - A Festa do Rato", 2010, 34m. Direção: Whinti Suya, Kokoyamaratxi Suya, Yaiku Suya, Kamikia T. Kisedje, Kambrinti Suya. Realização: Associação Indígena Kisêdjê, Vídeo nas Aldeias. Todos os direitos reservados.

A importância e repercussões das ideias de Seeger no cenário da antropologia brasileira devem-se a sua atuação docente no Museu Nacional do Rio de Janeiro (UFRJ) a partir de 1975, e as suas publicações em português, entre as quais encontra-se o artigo clássico "A construção da pessoa nas sociedades indígenas brasileiras", publicado em 1979, escrito com Roberto DaMatta (1936-) e Eduardo Viveiros de Castro (1951-). De modo específico, Por que cantam os Kĩsêdjê?, além de constituir uma das primeiras pesquisas etnomusicológicas alentadas no país, ecoa nos trabalhos ulteriores de Rafael José de Menezes Bastos (1945-) com os Kamaiurá no Xingu, e nos de Kilza Setti (1932-) com as comunidades caiçaras no litoral norte do estado de São Paulo. Situando-se além do campo estrito da etnomusicologia tal como definida por Alan P. Merriam (1923-1980), a abordagem holística de Seeger contribui para ampliar o escopo e perspectivas do estudo da música, pensando-a em suas relações com os demais processos sociais. Seu trabalho insere-se explicitamente nas reflexões em torno dos saberes e das relações mediadas pelos sons e pela audição, como demonstra a inclusão de sua etnografia na apresentação do campo da antropologia dos sentidos feita por Tim Ingold (2000). Ecos contemporâneos da obra de Seeger podem ser aferidos pelos diálogos que ela estabelece com a acustemologia de Steven Feld (1949-) e sua pesquisa com os Kaluli da Nova Guiné. Ambas as abordagens desenvolvidas no final da década de 1980 superam os limites do conceito estrito de 'música' para englobar o tecido sonoro em sua totalidade, com especial atenção às relações estabelecidas com os não-humanos.

Como citar este verbete:
PRUVOST, Thomiel. “Por que cantam os Kĩsêdjê?”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/obra/por-que-cantam-os-kisedje

ISSN: 2676-038X (online)

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