M

Margaret Mead

Margaret Mead (1901-1978), antropóloga estadunidense, foi um dos expoentes da chamada escola culturalista norte-americana. Nascida na Pensilvânia, estudou psicologia e posteriormente antropologia na Universidade de Columbia (1923), momento em que o departamento era dirigido por Franz Boas (1858-1942) e Ruth Benedict (1887-1948), ambos engajados no estabelecimento dos pressupostos teórico-metodológicos da disciplina nos Estados Unidos, na cena político-social da época e no combate ao racismo científico. Mead dedicou seus estudos ao desenvolvimento de teorias sobre as relações entre cultura e personalidade, a socialização de crianças, a sexualidade, aos papéis diferenciais de gênero e às conexões entre cultura coletiva e personalidade individual. Uma de suas muitas contribuições aos estudos antropológicos foi demonstrar a influência do aprendizado sociocultural sobre o comportamento de homens e mulheres. Mead casou-se três vezes: primeiro com o arqueólogo Luther Cressman (1897-1994), depois com os antropólogos Reo Fortune (1903-1979) e Gregory Bateson (1904-1980), seus companheiros nos trabalhos de campo que realizou. Com Bateson teve uma filha, Mary Catherine Bateson (1939-), também antropóloga. Viveu com a antropóloga Rhoda Métraux (1914-2003) de 1955 até sua morte, aos 76 anos.

A carreira acadêmica da pesquisadora desenvolveu-se no Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia, onde ingressou em 1940. Paralelamente, atuou como curadora do American Museum of Natural History de New York, a partir de 1926. Lecionou também em diversas universidades nos EUA, como The New School, Fordham University's e University of Rhode Island, tendo se engajado ainda em uma série de organizações e associações, como a American Anthropological Association e American Association for the Advancement of Science. Durante a II Guerra Mundial, dirigiu pesquisas com expatriados sobre culturas europeias, que resultaram em duas publicações: Soviet Attitudes Towards Authority (1951) e Themes in French Culture (1954), este com Rhoda Métraux.

Ken Heyman.

Em um de seus mais conhecidos trabalhos, Coming of age in Samoa:  A Psychological Study of Primitive Youth for Western Civilisation (1928), resultado de pesquisas realizadas em Samoa a partir de 1925, esteve interessada em compreender como indivíduos atravessavam a adolescência, fase da vida comumente entendida como período de crise e rebeldia. Nessa  primeira etnografia, na Ilha de Tau, observou um ambiente bastante livre: a criação das crianças não incluía punições severas, o que representava um contraste com os problemas típicos enfrentados por jovens estadunidenses. A adolescência em Samoa coincidia com um período de alegria e prazer, o que parecia indicar que as formas que a transição entre a infância e a vida adulta assumem depende do contexto cultural. O livro foi publicado em 1928 e se tornou imediatamente um sucesso editorial. Anos mais tarde sofreu severas críticas do antropólogo neozelandês Derek Freeman (1916-2001), que alegou que em seus anos de pesquisas na mesma região não encontrou a liberdade sexual que a antropóloga descreve; pelo contrário, em sua ótica havia diversos distúrbios sexuais disseminados e um culto à virgindade. Para sustentar tamanha discrepância das conclusões, elaborou a tese de que Mead ou teria sido enganada pelas jovens, sem perceber que estas passavam informações jocosamente, ou que ela apenas enxergou o que queria ver de modo a comprovar suas teses. Em 1931, Mead segue para Papua-Nova Guiné, experiência a partir da qual publica Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), outra de suas obras que conhecem notoriedade. Os levantamentos aí realizados com Reo Fortune entre os Arapesh, Mundugumor e Tchambuli indicam que características associadas às diferenças sexuais entre homens e mulheres, frequentemente entendidas como temperamentos masculinos e femininos, não eram propriedades inatas aos sexos, mas reflexos do aprendizado cultural. Com essas formulações - que colocam em xeque a ideia do cuidado doméstico e de uma suposta sensibilidade e fragilidade do sexo feminino como padrão universal - ela abre caminho para os estudos de relações de gênero na antropologia, conferindo à crítica aos estereótipos e às atribuições de papéis sociais importante arcabouço teórico.

Na segunda metade dos anos 1930, Mead realizou trabalhos de campo em Bali, na Indonésia, que estão na origem de diversas produções fílmicas, entre as quais o ensaio fotográfico Balinese character: a photographic analysis (1942), realizado com Gregory Bateson, assim como o documentário Trance and dance in Bali (1951), entre diversos outros curtas-metragens, muitos deles com imagens produzidas nos EUA. Mead e Bateson fizeram ainda longos registros da criação e crescimento da filha Mary Catherine Bateson, que inspiraram o pediatra Benjamin Spock (1903-1998) a escrever sobre o cuidado infantil.

Com o passar dos anos, Mead tornou-se uma comentadora de sua própria cultura, dando palestras e escrevendo para revistas não científicas sobre educação, direitos das mulheres e sexualidade, o que a levou a ficar muito conhecida fora dos círculos acadêmicos especializados. Elaborou também sérias críticas aos testes de inteligência em voga, que visavam provar hierarquias raciais, questionando sua validade e metodologia, e apontando fatores que poderiam influenciar em seus resultados, como a estrutura familiar, o status socioeconômico e a exposição à linguagem. Favorável a uma abertura moral e de costumes com relação à vida tradicional ocidental, Mead e suas formulações foram recuperadas por militantes de movimentos pelos direitos de homossexuais, sobretudo pela ênfase concedida à variabilidade de relações afetivas nas sociedades humanas; não por acaso o seu nome foi incluído entre os verbetes da Encyclopaedia of Gay, Lesbian, Bisexual, Transgender and Queer Culture (2003). Os trabalhos realizados com Bateson, por sua vez, sobretudo Balinese character, são considerados precursores da antropologia da imagem, inspiração para muitas incursões recentes nesse campo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Margareth Mead". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/margaret-mead> 

autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

bibliografia

FREEMAN, Derek, The making and unmaking of an anthropological myth, Harvard University Press and the Australian National University Press, 1983

FREEMAN, Derek, The fateful hoaxing of Margaret Mead, Westview Press, 1999

GEERTZ, Clifford, Margaret Mead (1901—1978): A biographical memoir, National Academy of Sciences, 1989. Disponível em: http://www.nasonline.org/publications/biographical-memoirs/memoir-pdfs/mead-margaret.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret, Coming of age in Samoa: a psychological study of primitive youth for western civilization (1928), Harmondsworth, Penguin Books, 1981

MEAD, Margaret, Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)

RAPP, Linda. “Mead, Margaret (1901-1978)”, glbtq.com: an encyclopaedia of gay, lesbian, bisexual, transgender and queer culture, 2004. Disponível em: http://www.glbtqarchive.com/ssh/mead_m_S.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

SAHLINS, Marshall. “Views of a culture heroine”. Book review desk, The New York Times. 26 de agosto de 1984. Disponível em: https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/98/12/06/specials/bateson-eye.html. Acesso 02 de julho de 2018

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Mead, Margareth

O método genealógico na pesquisa antropológica

O artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica”, assinado por William H. R. Rivers (1864-1922), como indica o título, dedica-se à apresentação do método genealógico concebido por Rivers com auxílio de Alfred Cort Haddon (1855-1940), durante a expedição ao estreito de Torres (1898), cujo objetivo é fornecer uma base científica para a nova disciplina, pela sistematização de instrumental próprio para a análise antropológica. Sua primeira versão, “A genealogical method of collecting social and vital statistics”, é exposta à comunidade científica em 1900; após a experiência etnográfica de Rivers entre os Toda na Índia, o texto é republicado no The Genealogical Method of Anthropology Inquiry (1910).

O método consiste na coleta de genealogias reais de determinado povo com base em perguntas específicas feitas aos seus membros. Por meio delas, o pesquisador obteria um diagnóstico da organização social do grupo, possível porque, de acordo com Rivers, as sociedades tendem a conservar oralmente, e por diversas gerações, as suas genealogias. O método genealógico seria, portanto, a solução ideal para etnógrafos que dispõem de pouco tempo de permanência em campo, sem o domínio do idioma local ou auxílio de bons intérpretes. Seu uso mostra-se também eficaz por permitir o acesso, em um curto período, a informações objetivas e precisas acerca da filiação, aliança, residência, status, entre outras.

Em virtude das diferenças entre os sistemas de parentesco existentes, na aplicação do método e na formulação das questões, o antropólogo deveria utilizar um vocabulário limitado a poucas categorias: pai, mãe, filho, filha, esposo e esposa. Após obter os dados necessários nas linhas de descendência masculina e feminina, ao pesquisador caberia dispor as informações de forma gráfica -  grafando os nomes dos homens em letras maiúsculas e sempre à esquerda dos das mulheres, sendo estes redigidos em minúsculas. Outras informações deveriam ser destacadas de modo a que a identificação precisa de cada indivíduo seja possível, tais como: nome, idade, condição social, localidade de origem ou habitação; grupo ou clã, entre outros. A despeito de eventuais erros, Rivers defende a eficiência do método devido à possibilidade de testar a veracidade das informações a partir do entrecruzamento dos dados com base em três genealogias completas. Assim, segundo o autor, seria possível alcançar uma demonstração científica e, simultaneamente, retornar até um século na trajetória da sociedade em questão. Dentre suas aplicações estariam, além da obtenção do sistema de parentesco de um povo, o estudo de relações matrimoniais, já que se revelariam as leis que regem os casamentos, bem como regras de descendência, herança, propriedade, cargos de chefia, entre muitas outras. O método poderia ainda ser utilizado ainda para detalhar processos migratórios, práticas mágicas e religião, bem como para oferecer um amplo banco de dados censitários e estatísticos, revelando padrões. Seu uso na antropologia física foi também referenciado por Rivers.

OLIVEIRA, Roberto C. A Antropologia de Rivers, 1991

Apesar de ser considerado o mais notório defensor do método genealógico, Rivers não foi o primeiro a fazer uso de genealogias em estudos antropológicos; o questionário de parentesco de Lewis Henry Morgan (1818-1881), publicado em Sistemas de Consanguinidade e Afinidade da Família Humana (1871), já apresentava um minucioso roteiro para a coleta de dados de parentesco. Se isso é verdade, a contribuição de Rivers foi criar uma ferramenta ágil, capaz de produzir, com precisão e rapidez, informações chave para os estudos de parentesco, a partir de uma genealogia considerada real, já que o informante seria capaz de fornecer com exatidão as classificações de seus parentes. No entanto, é preciso lembrar que tanto a obtenção das informações quanto a construção da genealogia, com base nos dados recolhidos, seguem os critérios classificatórios do pesquisador e não propriamente os dos informantes. Sua objetividade deriva, portanto, da tradução que o antropólogo realiza dos conceitos nativos.

O método genealógico pode ser apontado como um dos maiores subsídios metodológicos para os estudos de parentesco, considerado durante décadas como instrumento indispensável e mínimo do antropólogo em campo na coleta de informações. Foi retomado pelos estudos africanistas e adotado em diversas pesquisas da etnologia sul-americana, ainda que extensamente criticado por pesquisadores que apontaram as limitações do modelo, como David Schneider (1918-1995) e Mary Bouquet (1955-). No Brasil, o artigo de Rivers conheceu duas traduções: uma primeira, de 1969, a cargo de Roque de Barros Laraia (1932-) e outra de Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006), em 1991.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "O método genealógico na pesquisa antropológica". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/o-método-genealógico-na-pesquisa-antropológica>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

LARAIA, Roque de Barros (org.), Organização Social, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969

RIVERS, William H., “O método genealógico na pesquisa antropológica” In: CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto (Org.), A Antropologia de Rivers, Campinas, Editora da Unicamp, 1991, p. 51-67

SILVA, Márcio Ferreira, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, p. 323-336, 2010

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Método genealógico na pesquisa antropológica, O

Método - Marcel Mauss

Definir um método de trabalho maussiano é tarefa no mínimo arriscada, já que em seus artigos e ensaios Marcel Mauss (1872-1950) não se preocupou em estabelecer sínteses metodológicas. Suas observações sobre o método encontram-se espalhadas em diversas análises: sobre a dádiva, a prece, a magia, os sentimentos, o corpo, a nação, a civilização etc., além de presentes em notas de aula e em comunicações orais. Tal constatação não impede a localização de características marcantes do método maussiano, fundamentalmente: o caráter partilhado do trabalho sociológico e a defesa de que este deveria se basear em fatos sociais concretos.

O primeiro traço do método do antropólogo francês refere-se ao trabalho coletivo como prerrogativa para desenvolver o método comparativo; a única maneira de alcançar resultados analíticos sólidos, segundo ele, seria lançar mão do cotejo sistemático dos diversos trabalhos disponíveis, de modo que a comparação entre uma grande quantidade de fatos observáveis em diversas sociedades (tarefa “impossível para um homem só”, segundo ele) tenha lugar. O próprio progresso da disciplina, nos seus termos, seria fruto do trabalho conjunto de diferentes especialistas. A segunda marca desse método, por sua vez, pode ser observada na provocativa asserção contida em seu Manuel d’ethnographie (1926): “como positivista, creio somente nos fatos”, diz ele. Tal afirmativa encontra eco em sua recusa em propor modelos analíticos ou teorias que tendam ao plano abstrato; as teorias devem ancorar-se nos fatos e os modelos, resultantes do exercício comparativo. Além disso, só é possível obter vasto material empírico com a colaboração de diversas especialidades; no interior destas, a função do etnologia seria o registro, a análise profunda e a comparação exaustiva dos fatos, com a ajuda, se necessário, de conhecimentos estatísticos. O etnógrafo deve ter a preocupação em ser exato; ter o sentido dos fatos e das suas inter-relações, de suas proporções e, consequentemente, de suas articulações. O dado determina o plano de estudo assim como os métodos mais apropriados para compreendê-lo. Finalmente, o exame minucioso dos aspectos vida social não se esgota em sua observação no momento presente, exigindo a análise histórica dos fatos colocados em comparação, entendidos como fenômenos históricos. Esta exigência de análise, longe de produzir uma tipologia, resulta na dedicação maussiana em analisar o desenvolvimento histórico de certos fatos ou ideias.

É em seu Manuel d’ethnographie (1926) que Mauss elabora uma divisão metodológica para a análise dos fenômenos sociais, qual seja: 1. Morfologia Social: demografia, geografia humana, tecnomorfologia. 2. Fisiologia: técnicas, estética, economia, direito, religião, ciências. 3. Fenômenos Gerais: língua, fenômenos nacionais, fenômenos internacionais, etologia coletiva. Mais do que romper com a observação empírica, externa e objetiva dos fatos sociais, tal como proposta por Émile Durkheim (1858-1917), Marcel Mauss aprofundou-a, no sentido de entender os fenômenos sociais em si mesmos, comparando aquilo que pode ser comparado e partindo, sempre, dos fatos concretos.

Por suas contribuições teóricas e metodológicas, assim como pela originalidade de suas formulações, Mauss foi apontado como o precursor do estruturalismo, em função das relações que estabelece entre linguística e etnologia; do funcionalismo, por sua crítica ao evolucionismo e por sua preocupação em entender os fenômenos sociais a partir dos fatos concretos; e da fenomenologia, por conferir importância ao caráter subjetivo e as emoções, alçando-os a temas de estudo.

Como citar este verbete:
FILHO, Olavo Souza & CIRNE, Michelle. 2016. "Método - Marcel Mauss". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/método-marcel-mauss>

autoria

Olavo Souza Filho e Michelle Cirne

bibliografia

DUBAR, Claude,  « La méthode de Marcel Mauss », Revue Française de Sociologie, n. 10-4, 1969, p. 515-521

MAUSS, Marcel, Manuel d’ethnographie (cours donnés à l’Institut d’Ethnologie de l’Université de Paris, réunis par M. Leiris & D. Paulme), Paris, Payot, 1947 (Trad. Port., Lisboa,  Editorial Pórtico, 1972)

MAUSS, Marcel, “An intellectual self-portrait” In: Philippe Besnard (ed), The Sociological Domain: The Durkheimians and the Founding of French Sociology Cambridge, Cambridge University Press, 1983

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Método - Marcel Mauss

Museu Paulista

Sediado em um edifício que foi erguido às margens do Ipiranga para celebrar a independência do Brasil, o Museu Paulista (MP), popularmente conhecido como Museu do Ipiranga, é o primeiro museu público fundado no estado de São Paulo e o maior monumento erguido em São Paulo durante o Império. Construído pelo engenheiro e arquiteto Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844-1915), o Monumento do Ipiranga foi inaugurado em 1893, já durante a República. Dois anos depois, o museu seria instalado no interior do edifício-monumento.

Monumento do Ipiranga, Luiz Carlos Peixoto, 1893. Wikimedia Commons.

Seu acervo inicial foi composto pela tela Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo (1843-1905), e por uma antiga coleção particular, o chamado Museu Sertório. As autoridades republicanas decidem, entretanto, dedicá-lo principalmente à aquisição de coleções de história natural da América do Sul, não por acaso o médico e naturalista alemão Hermann von Ihering (1850-1930) é escolhido como primeiro diretor do MP, permanecendo no cargo entre 1895 e 1916. Embora durante os 21 anos da gestão de von Ihering a instituição tenha desempenhado, sobretudo, a função de museu de história natural, nela também são aceitas doações de pinturas históricas, tais como a obra Fundação de São Vicente (1900), de Benedito Calixto (1853-1927), adquirida pelo governo do estado. Além disso, muitas obras de arte são também adquiridas para que se formasse no MP uma galeria artística, voltada à pintura. Em 1917, Afonso Taunay (1876-1958), atuante membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), é designado pelo governo paulista para a direção da casa e recebe a missão de transformá-la também em um museu voltado à história do Brasil e, mais especificamente, à história de São Paulo, visando às comemorações do Centenário da Independência.

Engenheiro, proveniente de uma família de artistas e interessado nos estudos históricos, Taunay, ao longo dos 29 anos de sua gestão, organiza a seção histórica do museu de modo a conduzir os visitantes por um percurso expositivo que propõe uma narrativa sobre a emergência da nação brasileira como uma história protagonizada pelos paulistas. Neste percurso, os visitantes são recebidos no saguão de entrada pelas figuras dos bandeirantes Fernão Dias e Raposo Tavares, esculpidos em mármore por Luigi Brizzolara (1868-1937). Esses dois monumentais bandeirantes e as telas alusivas ao início da capitania de São Vicente, concluídas já na década de 1930, constituem o início de um trajeto visual que se prolonga pela escadaria, no qual são aludidos a formação econômica e territorial do Brasil por meio de esculturas de bandeirantes e pinturas dos “ciclos históricos”, e se encerra no primeiro andar, no chamado salão nobre, onde os visitantes se veem diante da cena histórica do grito de D. Pedro I representada em Independência ou Morte. Para aumentar o espaço destinado à exposição dessa narrativa histórica, é criado em 1921 o Museu Republicano em Itu, uma extensão do Museu Paulista no interior do estado. Anos depois, ainda durante a gestão de Taunay, em 1939, é projetado o atual Museu de Zoologia (MZ) da Universidade de São Paulo (USP), para onde é transferida parte do acervo de zoologia.

Taunay é também o responsável pela criação de uma seção de etnografia, antes inexistente no museu. Já em 1946, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), ao suceder a Taunay na diretoria da instituição, cria uma seção de etnologia, chefiada pelo etnólogo alemão Herbert Baldus (1899-1970), acentuando assim a atuação do MP como um importante centro de pesquisas e divulgação da antropologia no Brasil. Além de montar exposições sobre as culturas indígenas sul-americanas e conduzir explorações etnográficas por diversas regiões brasileiras, a direção do MP se destaca pela produção e veiculação de um grande número de textos antropológicos escritos por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Em 1989, a quase totalidade desse acervo etnológico é transferida para o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

Uma série de desmembramentos marca, portanto, a trajetória do Museu Paulista desde 1905, com a transferência de muitas pinturas do seu acervo – como A Partida da Monção (1897), de Almeida Júnior (1850-1899) – para compor a coleção inicial da Pinacoteca do Estado. Essa trajetória, não foi, entretanto, linear. A tela Fundação de São Paulo, de Oscar Pereira da Silva (1867-1939), comprada para a Pinacoteca, foi transferida para o MP em 1929, ocasião em que A Partida da Monção foi recuperada por Taunay para integrar uma sala, no próprio MP, dedicada às monções, tomadas como o último ciclo bandeirante. A incorporação plena do Museu Paulista à USP ocorre em 1963, durante a gestão de Mário Neme (1912-1973), embora o decreto federal que criou a USP já tivesse estabelecido, em 1934, a incorporação do museu como instituição complementar, para ampliar o escopo da ação e do ensino universitários. Muitos professores da USP irão se suceder na direção do MP; um deles é Ulpiano Bezerra de Meneses (1936), responsável pela formulação do Plano Diretor de 1990, que define a área institucional do museu, após esses desmembramentos, como um museu exclusivamente de história, voltado à problematização da cultura material como documento para a interpretação do passado.

O Museu Paulista possui hoje mais de 125 mil itens, constituídos por iconografia, mobiliário, objetos e documentação textual do século XVII até meados do século XX. Seu acervo tem sido ampliado continuamente, principalmente no que se refere a São Paulo do período de 1850 a 1950. Embora seja um dos museus mais visitados da cidade, ele está fechado para reforma desde 2013, visando seu restauro e a ampliação de sua área para garantir a acessibilidade. A previsão é que seja reaberto apenas em 2022, não à toa durante as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil.

Como citar este verbete:
SILVA, Adriana de Oliveira & WALDMAN, Thaís Chang. 2016. "Museu Paulista". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/instituições/museu-paulista>

autoria

Adriana de Oliveira Silva e Thaís Chang Waldman

bibliografia

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SCHWARCZ, Lilia, O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil, 1870-1930, São Paulo, Cia das Letras, 1993

TAUNAY, Afonso, Guia da secção histórica do Museu Paulista, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado, 1937

WITTER, José Sebastião; BARBUY, Heloisa (org.). Um monumento no Ipiranga: história de um edifício centenário e sua recuperação. São Paulo: FIESP/CIESP/SESI/SENAI/IRS, 1997

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Museu Paulista

Marcel Mauss

Marcel Mauss nasceu em Épinal (França), a 10 de maio de 1872, onde concluiu seus primeiros estudos. Sob orientação de Émile Durkheim (1858-1917), seu tio, segue para a Universidade de Bordeaux (1887), licenciando-se em filosofia e trabalhando como professor de 1895 a 1900. Durante esse período, fez estágios em universidades da Holanda e Inglaterra, dedicando-se ao estudo da história das religiões e do pensamento hindu. Na École Pratique des Hautes Études, de Paris, assumiria o lugar de León Marillier na cátedra de “história das religiões dos povos não-civilizados”, como docente e diretor de pesquisas (1902). O pensamento enciclopédico, erudito e moderno já estaria presente em sua aula inaugural, O ofício do etnólogo, método sociológico (1902), na qual defende um método eminentemente sociológico para a análise dos fenômenos sociais. Deste período data a sua tese de doutorado, nunca concluída, A Prece (1909).

O trabalho coletivo acompanhou Mauss desde o início da vida acadêmica: sua carreira foi marcada por obras escritas conjuntamente com Émile Durkheim, Henri Hubert (1872-1927), Robert Hertz (1881-1915), Paul Fauconnet, Henri Beuchat, entre outros membros do l’Année Sociologique, sobretudo no período anterior à I Guerra Mundial; por exemplo, a parceria com Henri Hubert no Ensaio sobre a natureza e função do sacrifício (1899), no Esboço de uma teoria geral da magia (1904) e na Introdução à análise de alguns fenômenos religiosos (1908); com Facounnet em Sociologia (1901); com Durkheim, em Algumas formas primitivas de classificação: contribuição ao estudo das representações coletivas (1903) e no Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós: um estudo de morfologia social (1906), com Henri Beuchat.

Nos primeiros anos do l’Année Sociologique, revista fundada por Durkheim em 1898, Mauss apresenta intensa produção escrita em consonância com o empenho dos demais membros da publicação em divulgar e desenvolver os estudos sociológicos, formando aquela que ficou conhecida como Escola Francesa de Sociologia que, em linhas gerais, se opunha à percepção filosófica, histórica e psicológica dos fenômenos sociais. Além de colaborar ativamente com a revista, dedicou-se à orientação de alunos e às aulas na École Pratique des Hautes Études, em Paris. No entre-guerras, atribuiria a redução drástica de sua produção ao trabalho coletivo à atividade docente, responsável pela formação de importantes nomes da antropologia francesa, tais como: Maurice Griaule (1898-1956), Maurice Leenhardt (1878-1954), André Leroi-Gourhan (1911-1986), Michel Leiris (1901-1990), Alfred Métraux (1902-1963), entre muitos outros. 

Após a I Guerra Mundial, na qual Mauss participou como oficial-intérprete, a Escola Sociológica Francesa sofreria um duro golpe: a morte de grande parte dos membros do Année Sociologique. Este fato levou Mauss a assumir a direção da revista, a concluir e publicar os trabalhos dos membros falecidos, e a divulgar e desenvolver o método sociológico na França. No primeiro volume de retomada da revista sob sua direção, encontra-se a publicação daquela que é considerada sua obra de maior importância, o Ensaio sobre a dádiva (1923-4). Além de publicações organizadas por seus alunos, como é o caso do Manual de Etnografia (1947), datam desse período, trabalhos que marcarão a antropologia posterior em função de suas sugestões teórico-metodológicas e de sua originalidade analítica: La Sociologie en France depuis 1914 (1933), Fragmento de um plano de sociologia geral descritiva: classificação e método de observação dos fenômenos gerais da vida social nas sociedades de tipos arcaicos (1934), As técnicas do corpo (1934), Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a de ‘eu’ (1938).

Apesar de procurar separar militância política e vida acadêmica, Mauss imprimiria em seus escritos conclusões de ordem moral e política, o que pode ser observado no Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós: um estudo de morfologia social (1906) e mesmo no Ensaio sobre a dádiva (1923-24). Sua produção política, ancorada na defesa de um socialismo democrático, educativo e moral, intensifica-se a partir de 1900, quando passa a escrever em diversos jornais e revistas socialistas, entre os quais L’Humanité, do qual é co-fundador em 1904. Entre os seus mais importantes escritos políticos estão: A Nação (1920), publicado em 1954, após sua morte; Apreciação Sociológica do Bolchevismo (1924) e Socialismo e Bolchevismo (1925).

Como citar este verbete:
ANDRADE, Fabiana de; OLIVEIRA JÚNIOR, Jorge Gonçalves & CIRNE, Michelle. 2016. "Marcel Mauss". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/marcel-mauss>

autoria

Fabiana de Andrade, Jorge Gonçalves de Oliveira Júnior e Michelle Cirne

bibliografia

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FOURNIER, Marcel, “L’élection de Marcel Mauss au Collège de France”, Genèses, nº 22, 1996, p. 160-165.

FOURNIER, Marcel, “Marcel Mauss ou a dádiva de si”, Tradução Cíntia Ávila de Carvalho. Revista Brasileira de Ciências Sociais, ANPOCS, no. 21, p. 104-112.

LANNA, Marcos, “Nota sobre Marcel Mauss e o Ensaio sobre a dádiva”, Revista de Sociologia Política, Curitiba, nº 14, junho de 2000, p. 173-194.

LÉVI-STRAUSS, Claude, “Introduction à l’oeuvre de Marcel Mauss” In: Marcel Mauss, Sociologie et anthropologie, Paris, Les Presses universitaires de France, 1950 (Trad. Bras. Paulo Neves, São Paulo, Cosac Naify, 2003).

LÉVY-BRUHL, Henri, “in memoriam: Marcel Mauss”, Année Sociologique, 3 série, v.2, Paris, PUF, 1951, p. 4.

MAUSS, Marcel,  “L’œuvre de Marcel Mauss par lui-même”, Revue française de sociologie, 1979 [1930], p. 214-218.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso de,  “Introdução a uma leitura de Marcel Mauss” In: Marcel Mauss, São Paulo, Ática, 1979 [Coleção Grandes Cientistas Sociais].

OLIVEIRA, Roberto Cardoso de, Sobre o Pensamento Antropológico, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, Brasília-CNPq, 1988.

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Mauss, Marcel

Moeda - Marcel Mauss

O termo moeda foi usado pelo antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) de forma menos restrita do que fora empregado antes por Bronislaw Malinowski (1884-1942) e F. Simiand (1873-1935). Para Malinowski, a designação indica não apenas objetos visando a troca, mas aqueles que permitem aferir valor. Para Mauss, por sua vez, o valor econômico só tem lugar com a “moeda propriamente dita”, quando as riquezas são condensadas e os signos de riqueza “impessoalizados”, isto é, separados das pessoas morais, sejam elas coletivas ou individuais. Nos escritos sobre o tema, Mauss propõe estender a noção de moeda - que pode assumir a forma de objetos variados - para além da nossa, a única, segundo ele, a preencher os critérios de uma definição estrita do termo.

O cerne de seus argumentos recai sobre algumas teses básicas. Em primeiro lugar, diz ele, todas as sociedades possuem coisas que servem como meio de troca e pagamento, cuja função é a de moeda; possuem poder de compra público e oficial, calculado em números. Quanto ao poder de compra, defende, a moeda não é fato material ou físico, mas fato social, cujo valor corresponde à sua capacidade de adquirir bens e à confiança nela depositada. Em relação ao cálculo do poder de compra, ele não é necessariamente estável, como no caso da nossa moeda. O valor das outras moedas, que não é somente econômico, mas também mágico, aumenta com as trocas: quanto mais tais objetos circulam, mais valor adquirem.

Nos ensaios que escreveu sobre o tema, Les origines de la notion de monnaie (1914), Débats sur les fonctions de la monnaie (1934) e em nota no Ensaio sobre a dádiva (1923-24), Mauss apresenta três fases pelas quais passou a noção de moeda, até chegar à que hoje conhecemos. A forma mais elementar decorre da percepção de que há coisas mágicas e preciosas que não se deterioram com o uso, e que adquirem poder de compra. A segunda fase corresponde ao momento no qual esses instrumentos de compra passam a servir como meio de contagem e circulação de riquezas. Este seria o estágio no qual se encontram as sociedades da Polinésia, da Melanésia e do Noroeste americano, cujos sistemas de troca o autor analisa no Ensaio sobre a dádiva. Nas duas primeiras fases, o valor econômico da moeda não se separa de seu valor mágico, de talismã; a posse desses objetos confere ao seu detentor poder de comando e prestígio, que se converte em poder de compra. Além disso, tais coisas preciosas são percebidas como separadas de outros objetos de uso; a moeda é valor de uso permanente e transmissível, que atua como objeto nas transações sem se deteriorar, podendo ser o veículo para a obtenção de outros valores.

Cinto iroquês wampun - Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade da Pensilvânia

De modo a desenvolver sua reflexão, o autor se apoia em casos etnográficos retirados das ilhas Trobriand, nas quais as moedas chamam-se vaygu’a, dividindo-se em mwali (braceletes usados em ocasiões cerimoniais) e soulava (colares usados ritualmente pelas mulheres); da Samoa e Nova Zelândia (onde a moeda chama-se taonga e consiste em esteiras herdadas pelas jovens por ocasião do casamento, e também nos talismãs que passam a integrar a família por meio das mulheres); da Nova Guiné e em Papua (o tau-tau); das ilhas Bank (o rongo) e de Fiji (tambua, peças feitas de dentes de cachalote). Entre os iroqueses, na América do Norte, têm-se os wampun. No noroeste americano, por sua vez, os objetos que servem de meio de troca (dentre os quais os cobres brasonados e as conchas de abalone) são denominados logwa, termo que significa talismã e que, como os vaygu’a trobriandeses, são veículos de mana, o que leva à inseparabilidade dos valores mágico e econômico. Outros casos etnográficos explorados dizem respeito a algumas sociedades africanas e asiáticas, em que objetos de usos, como placas de cobre e ferro, servem como moeda; ou o gado, em certas sociedades da África; o ainda sal, na África saariana. Em todos esses exemplos, aquele que troca e a coisa trocada não se encontram jamais completamente separados. É com o afastamento das coisas e dos grupos humanos, e com a noção de preço, que Mauss localiza a terceira fase de desenvolvimento da moeda, que corresponde à nossa, situando tal passagem possivelmente entre povos semitas e certamente entre os antigos gregos e romanos, com a separação entre a venda e a dádiva.

As considerações de Mauss sobre o dinheiro foram pouco retomadas pela literatura antropológica posterior, mesmo por autores que ressaltam a importância de seu trabalho para a antropologia econômica, como David Graeber (1961), Toward An Anthropological Theory of Value (2001). As propostas de Karl Polanyi (1886-1964) e de Paul Bohannan (1920-2007), The Impact of Money on an African Subsistence Economy (1959) sobre o dinheiro influenciaram as discussões posteriores sobre o tema na disciplina, mesmo em trabalhos que buscam superá-las, como indica ensaio bibliográfico recente de Bill Maurer sobre a antropologia do dinheiro The Anthropology of Money (2006).

Como citar este verbete:
DE PAULA, Camila Galan. 2016. "Moeda - Marcel Mauss". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/conceito/moeda-marcel-mauss>

autoria

Camila Galan de Paula

bibliografia

BOHANNAN, Paul, “The Impact of Money on an African Subsistence Economy”, The Journal of Economic History, vol. 19, n. 4, 1959, p.491-503

GRAEBER, David, Toward an anthropological theory of value: the false coin of our own dream, New York, Palgrave, 2001

MAURER, Bill, “The Anthropology of Money”, Annual Review of Anthropology, vol. 35, n.1, 2006, p. 15-36

MAUSS, Marcel, “Les origines de la notion de monnaie” [1914] e “Débats sur les fonctions de la monnaie” [1934] In: Marcel Mauss, Œuvres (II): Représentations collectives et diversité des civilisations, Paris, Editions de Minuit, 1968-1969

MAUSS, Marcel, “Essai sur le don. Forme et raison de l’échange dans les sociétés archaïques”, Année Sociologique, 2a série [1923-24] (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac & Naify, 2003)

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Moeda

Manifesto ciborgue

O Manifesto ciborgue -­ ciência, tecnologia e feminismo­ socialista no final do século XX (1985) é um ensaio escrito pela bióloga e filósofa norte-americana Donna J. Haraway (1944). Com título que alude ao Manifesto Comunista (1848) de Karl Marx e Friedrich Engels, o Manifesto Ciborgue integra um conjunto de posicionamentos públicos do feminismo socialista estadunidense acerca dos rumos dos movimentos sociais de esquerda desse país na década de 1980. Trata-se de uma obra central para a compreensão da crítica feminista da ciência proposta pela autora, que reverbera em suas obras posteriores, entre as quais Primate Visions: gender, race, and nature in the world of modern science (1990); Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature (1991); The Companion Species Manifesto: Dogs, People, and Significant Otherness (2003) e When Species Meet (2008).

Em diálogos com o feminismo norte-americano, em especial com o feminismo negro e latino, com a economia, com obras literárias e com a biologia – área na qual a autora é formada, Haraway produz um texto polêmico ao propor uma postura feminista apta a refletir sobre a influência da ciência e da tecnologia do final do século XX sobre as relações sociais. Para a autora, tanto os feminismos socialistas e marxistas quanto os feminismos radicais conceberam a categoria mulher a partir do que seria considerado comum a todas elas, por meio da “política da identidade”. Haraway sugere uma ruptura com tal política para dar lugar a uma coalizão capaz de considerar as diferenças e as afinidades entre mulheres, denominada por ela “política de afinidades”. O ciborgue, criatura formada por fusões entre máquina e organismo, mistura de realidade social e ficção, não constituindo um corpo sólido com componentes definidos, seria uma metáfora dessa nova política em um mundo marcado de forma crescente pelo binômio ciência e tecnologia, no qual as fronteiras entre humano e animal, organismo e máquina, e entre físico e  não-físico mostram-se fluidas.

Essa confusão de fronteiras é necessária para que a autora repense as questões de gênero, de sexualidade, raça e tecnociência, uma vez que a passagem das tradicionais dominações hierárquicas para um sistema de dominação baseado na informática global coloca em cena novas formas de poder e, com elas, novas configurações e significados de sujeitos. Haraway mostra como o desenvolvimento científico e tecnológico está presente no mundo do trabalho, na alimentação, na produção do conhecimento e nas mais diversas dimensões da vida. Nesse novo enquadramento histórico, seriam desfeitos pela tecnologia alguns pressupostos científicos e políticos que por muito tempo nortearam o pensamento ocidental e serviram à dominação das mulheres, das “pessoas de cor” (“people of color, no original) dos trabalhadores e animais; por exemplo, os dualismos mente/corpo, natureza/cultura, macho/fêmea e organismo/máquina. Essas dicotomias anteriormente rígidas seriam então desmanchadas, dando espaço a conceitos maleáveis e passíveis de reconstruções, produzindo alternativas às tradicionais concepções de corpos e modos de vida a partir da apreensão da tecnologia no cotidiano.  Esse processo de remodelamento de corpos e de relações mostra como os corpos são construídos e podem ser desmontados, colocando à prova sua suposta naturalidade e revelando suas possibilidades políticas. Daí a necessidade das mulheres apreenderem e se apropriarem da linguagem da tecnociência, tendo como inspiração a figura do ciborgue, de modo a contestar esses dualismos clássicos e alterar as relações de classe, raça e gênero, em uma tentativa de superação das dominações e da construção de um mundo a favor das diversidades.

Ao analisar as relações dicotômicas entre natureza e tecnologia, e o lugar da mulher no interior desse cenário, a política ciborgue proposta no manifesto de Haraway pretende ampliar o conceito de biopolítica de Michel Foucault (1926-1984) pela elucidação das complexas conexões entre cibernética e corpos e por meio da visibilidade conferida a inúmeros arranjos possíveis de subjetividade e de organismos. Tal contribuição torna o Manifesto Ciborgue fundamental para o pensamento pós-feminista, ao lado das obras de Judith Butler (1990), Teresa de Laurentis (1997), Judith Halberstam (1998), Audre Lorde (1984) Gloria Andalzua (1987) e Marie-Hélène Bourcier (2001). O ciborgue de Haraway contribuiu também para a problematização contemporânea das questões de gênero e sexualidade propostas pelo movimento queer, reverberando naquela que seria uma das obras mais emblemáticas acerca do tema, o Manifesto Contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual (2000) de Paul Beatriz Preciado (1970). Desde a concepção de ciborgue cunhada por Haraway em seu Manifesto, a preocupação política com a ciência e tecnologia é reconfigurada ao longo de sua obra, alimentando diálogos constantes com os debates da Antropologia da Ciência que mobilizam, por exemplo, Bruno Latour (1947) e Marilyn Strathern (1941).

Como citar este verbete:
FONTGALAND, Arthur & CORTEZ, Renata. 2015. "Manifesto ciborgue". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/manifesto-ciborgue>

autoria

Arthur Fontgaland e Renata Cortez

bibliografia

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MORAGA, Cherríe & ANZALDÚA, Gloria (orgs), This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color, Watertown, Persephone, 1981

PRECIADO, Paul Beatriz,  Manifeste Contra-sexuel. Paris, Ballard, 2000 (Trad. Bras. Maria Paula Gurgel Ribeiro. São Paulo, n-1 Edições, 2014)

SANDOVAL, Chela, Yours in struggle: women respond to racism, a report on the National Women’s Studies Association, Oakland, CA, Center for Third World Organizing, [s. d.]

SANDOVAL, Chela,  “New Sciences: Cyborg Feminism and the Methodology of the Oppressed” In: Chris Hables Gray (ed.),The Cyborg Handbook, New York, Routledge, 1995

STRATHERN, Marilyn, Reproducing the future: Essays on anthropology, kinship and the new reproductive technologies, Manchester, Manchester University Press, 1992

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Manifesto Ciborgue

The Magical Power of Words

A pergunta que norteia o ensaio The Magical Power of Words (1968) do antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) refere-se à potência mágica que as palavras possuem no contexto ritual. O autor elege a linguística como fonte teórica para discutir a relação entre atos e palavras, de modo a problematizar a concepção antropológica clássica que vê o ritual como repetição de palavras, atos não verbais, manipulação de objetos e, ainda, a partir da oposição entre magia e religião. Ao descrever um complexo ritual de exorcismo no Sri Lanka (Ásia do Sul), Tambiah indica que as palavras podem ser proferidas em diferentes idiomas, mostrando-se: coloquiais ou eruditas (acompanhadas de música ou oferendas de alimentos); ditas em voz baixa ou alta, ou em uma variedade de tons, hierarquias e intenções. Na forma de feitiços, elas podem ainda conter alusões abreviadas aos mitos, que são cantados na ordem da progressão da cura, articulando o ritual à cosmologia que ele encarna, e indicando a presença de duas lógicas que atuam articuladamente: uma que corresponde ao panteão e à teologia na relação com os homens, deuses e espíritos, e a outra que diz respeito à comunicação entre o exorcista e o paciente na passagem da doença para a cura. No âmbito específico da discussão da linguagem no ritual, o autor enfatiza as distinções entre os usos das línguas profanas, seculares e sagradas, posto que prefiguram os sentidos de cada aspecto e etapa do ritual, e a importância dos papéis desempenhados pelos seus executores, que atuam como mediadores no contato com o divino, em rituais de cura, iniciação etc.

ritual de cura no Sri Lanka, dança das 8 máscaras Sanniya yakA proposta de Tambiah de reanálise da magia trobriandesa, estudada por Malinowski (1884 -1942) está baseada em algumas premissas, a saber, que o uso da linguagem no ritual não é qualitativamente diferente do seu uso ordinário, e que seu sistema combina palavra e gesto, linguagem e ação. Ele toma como ponto de partida a elaboração de Roman Jakobson (1896-1982) a respeito da afasia (1956), na qual discute os dois mecanismos da linguagem - o metafórico e o metonímico - baseados nos princípios de semelhança e contiguidade: o primeiro permitindo abstrações através de substituições e o segundo, a construção de uma totalidade a partir das partes, procedimentos estes postos em prática pela magia trobriandesa no contexto da ação.

A abordagem do ritual, tal como construída nesse ensaio com o auxílio de narrativas etnográficas dissolve dicotomias recorrentes, como aquelas entre linguagem/ação, mito/rito, ação/representação. O ritual como ato performativo tem um objetivo integrador e coletivo; seus procedimentos combinam ações verbais e não verbais, e a linguagem aí mobilizada tem o poder de invocar imagens e comparações, projetando o futuro e permitindo voltar ao passado. Ao recuperar Malinowski e sua etnografia linguística do ritual, assim também como as formulações de do filósofo inglês John Austin (1911-1960) sobre a dimensão performativa da fala, Tambiah demonstra que no pensamento mágico, magia e prática, mito e rito, ação e palavra constituem-se mutuamente, numa relação indestrinçável.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2015. "The Magical Power of Words". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/magical-power-words>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

JAKOBSON, R., "Two aspects of language and two types of aphasic disturbance" In: R. Jakobson,  e M. Halle, Fundamentals of language, The Hague, Mouton, 1956.

PEIRANO, Mariza (org), O dito e o feito: ensaios de antropologia dos rituais, Rio de Janeiro, Relume-Dumará, Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ, 2002.

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Magical Power of Words, The

Manual de etnografia

O Manual de etnografia (1947) é um compêndio que reúne anotações de alguns alunos do curso de “Instruções de Etnografia Descritiva” ministrado pelo antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) entre 1926 e 1940 no Instituto de Etnologia da Universidade de Paris, instituição fundada pelo próprio Mauss e por Lucien Lévy-Bruhl (1857-1937), em 1925. O curso, frequentado por público diverso, forma a primeira geração de etnólogos franceses em campo, entre os quais: Maurice Leenhardt (1878-1954), André Schaeffner (1895-1980), Marcel Griaule (1898-1956), Michel Leiris (1901-1990), Alfred Métraux (1902-1963), Denise Paulme (1909-1998), André Leroi-Gourhan (1911-1986) e Louis Dumont (1911-1998).

O livro é um condensado de orientações que sugerem questões e caminhos de investigação acerca das sociedades estudadas, adquirindo feições inconclusas, características de outras obras do autor, entre as quais Esboço de uma Teoria Geral da Magia (1902-03), Morfologia Social: Ensaio sobre as Variações Sazonais das Sociedades Esquimós (1904-05) e Ensaio sobre a Dádiva (1925). Marcel Mauss, como sabido, nunca escreveu um livro completo; todos os seus ensaios estão marcados por um movimento de incompletude, passível de ser observado nas aulas sintetizadas no Manual de Etnografia. Mais do que fornecer respostas, o manual, que tem a forma de “amálgama de pormenores” nos seus termos, permite ver a forma de seu pensamento, que ignora os planos convencionais e insiste ser a curiosidade insaciável do etnógrafo de campo a alma do trabalho antropológico.

A opção dos autores que compilaram as aulas do antropólogo francês no Manual foi retomar na íntegra as falas do mestre, sem modificações ou adaptações a formulações posteriores. A intenção é mostrar o estado e a forma do conhecimento nos anos em que os cursos foram ministrados; as aulas respondem a questões práticas, instruindo a observar e classificar os fenômenos sociais. O professor ensina aos alunos que a teoria não existe por si mesma e que só a análise permite transformar dados em fatos; para tanto, faz-se necessário a reunião da maior quantidade possível de elementos, materiais e imateriais, de modo que a compreensão de uma determinada sociedade seja possível. A leitura do volume assinala a distância entre a erudição e a ambição enciclopédica da ciência antropológica concebida por Mauss e o conhecimento especializado nos dias atuais; é o próprio autor quem ressalta: a etnografia exige que o profissional seja, ao mesmo tempo, cartógrafo, estatístico, historiador e romancista.

O Manual de etnografia é dividido em nove partes: observações preliminares, métodos de observação, morfologia social, tecnologia, estética, fenômenos econômicos, fenômenos jurídicos, fenômenos morais e fenômenos religiosos. Apesar de cada uma das partes se debruçar sobre pontos aparentemente distintos da vida social, os capítulos se comunicam, sublinhando as relações existentes entre os diferentes aspectos tratados. Uma sociedade não se explica por apenas um de seus aspectos, defende Mauss, mas pelo conjunto e articulação de suas partes. O fim da investigação etnográfica é encontrar a totalidade concreta, reveladora da coerência interna de cada sociedade, o que o leva a recusar as separações entre os fenômenos estudados. Nos cursos, ele chama a atenção ainda para a sobre-determinação dos eventos, que não se explicam por uma única causa, o que evidencia a presença em suas aulas do conceito de fato social total. Essa perspectiva destaca serem os fatos sociais multifacetados, possuindo, ao mesmo tempo, dimensões econômicas, sociais, morais, estéticas, políticas, religiosas etc.

A atualidade das instruções de Marcel Mauss podem ser aferidas por diferentes razões, por exemplo quando ele sugere que o nativo seja tomado como autor e não como mero informante, ou quando lembra que as sociedades consideradas mais simples podem ser as mais complicadas, o que o leva a equiparar a complexidade do pensamento indígena ao ocidental. Mas no centro das lições e contribuições do Manual encontra-se a defesa de que a etnografia deve sempre partir de uma atenção detida aos fatos, ao “melanésio de tal ou qual ilha”, como ele dirá depois no Ensaio sobre a dádiva. Além dos ensinamentos teórico-metodológicos fornecidos, o volume mostra uma cartografia do pensamento do autor, mais um dos seus interesses.

autoria

Bruno Ribeiro da Silva Pereira, Gustavo dos Santos Berbel e Mariana Luiza Fiocco Machini

bibliografia

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MAUSS, Marcel,  Manuel d’ethnographie. Cours donnés à l’Institut d’Ethnologie de l’Université de Paris, réunis par M. Leiris & D. Paulme, Paris, Payot, 1947 (Trad. Port. Lisboa, Editorial Pórtico, 1972)

MAUSS, Marcel, L’ethnographie en France (1907), Revue européenne des sciences sociales, 49-1, 2011 (http://ress.revues.org/912)

JOLLY, Éric, «Marcel Griaule, ethnologue : La construction d'une discipline (1925-1956) », Journal des africanistes,  vol. 71 n. 1, 2001  (dossier Les empreintes du renard pâle, sous la direction de Marc-Henri Piault et Joëlle Hauzeur, p.149-190 - www.persee.fr/doc/jafr_0399-0346_2001_num_71_1_1256)

LÉVI-STRAUSS, Claude, « Introduction à l’œuvre de Marcel Mauss » In: Marcel Mauss, Sociologie et anthropologie, Paris, Les Presses universitaires de France, quatrième édition, 1968 (Trad. Bras. Paulo Neves. São Paulo, Cosac Naify, 2003)

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