Abas primárias

autor

Marcel Mauss nasceu em Épinal (França), a 10 de maio de 1872, onde concluiu seus primeiros estudos. Sob orientação de Émile Durkheim (1858-1917), seu tio, segue para a Universidade de Bordeaux (1887), licenciando-se em filosofia e trabalhando como professor de 1895 a 1900. Durante esse período, fez estágios em universidades da Holanda e Inglaterra, dedicando-se ao estudo da história das religiões e do pensamento hindu. Na École Pratique des Hautes Études, de Paris, assumiria o lugar de León Marillier na cátedra de “história das religiões dos povos não-civilizados”, como docente e diretor de pesquisas (1902). O pensamento enciclopédico, erudito e moderno já estaria presente em sua aula inaugural, O ofício do etnólogo, método sociológico (1902), na qual defende um método eminentemente sociológico para a análise dos fenômenos sociais. Deste período data a sua tese de doutorado, nunca concluída, A Prece (1909).

O trabalho coletivo acompanhou Mauss desde o início da vida acadêmica: sua carreira foi marcada por obras escritas conjuntamente com Émile Durkheim, Henri Hubert (1872-1927), Robert Hertz (1881-1915), Paul Fauconnet, Henri Beuchat, entre outros membros do l’Année Sociologique, sobretudo no período anterior à I Guerra Mundial; por exemplo, a parceria com Henri Hubert no Ensaio sobre a natureza e função do sacrifício (1899), no Esboço de uma teoria geral da magia (1904) e na Introdução à análise de alguns fenômenos religiosos (1908); com Facounnet em Sociologia (1901); com Durkheim, em Algumas formas primitivas de classificação: contribuição ao estudo das representações coletivas (1903) e no Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós: um estudo de morfologia social (1906), com Henri Beuchat.

Nos primeiros anos do l’Année Sociologique, revista fundada por Durkheim em 1898, Mauss apresenta intensa produção escrita em consonância com o empenho dos demais membros da publicação em divulgar e desenvolver os estudos sociológicos, formando aquela que ficou conhecida como Escola Francesa de Sociologia que, em linhas gerais, se opunha à percepção filosófica, histórica e psicológica dos fenômenos sociais. Além de colaborar ativamente com a revista, dedicou-se à orientação de alunos e às aulas na École Pratique des Hautes Études, em Paris. No entre-guerras, atribuiria a redução drástica de sua produção ao trabalho coletivo à atividade docente, responsável pela formação de importantes nomes da antropologia francesa, tais como: Maurice Griaule (1898-1956), Maurice Leenhardt (1878-1954), André Leroi-Gourhan (1911-1986), Michel Leiris (1901-1990), Alfred Métraux (1902-1963), entre muitos outros. 

Após a I Guerra Mundial, na qual Mauss participou como oficial-intérprete, a Escola Sociológica Francesa sofreria um duro golpe: a morte de grande parte dos membros do Année Sociologique. Este fato levou Mauss a assumir a direção da revista, a concluir e publicar os trabalhos dos membros falecidos, e a divulgar e desenvolver o método sociológico na França. No primeiro volume de retomada da revista sob sua direção, encontra-se a publicação daquela que é considerada sua obra de maior importância, o Ensaio sobre a dádiva (1923-4). Além de publicações organizadas por seus alunos, como é o caso do Manual de Etnografia (1947), datam desse período, trabalhos que marcarão a antropologia posterior em função de suas sugestões teórico-metodológicas e de sua originalidade analítica: La Sociologie en France depuis 1914 (1933), Fragmento de um plano de sociologia geral descritiva: classificação e método de observação dos fenômenos gerais da vida social nas sociedades de tipos arcaicos (1934), As técnicas do corpo (1934), Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a de ‘eu’ (1938).

Apesar de procurar separar militância política e vida acadêmica, Mauss imprimiria em seus escritos conclusões de ordem moral e política, o que pode ser observado no Ensaio sobre as variações sazonais das sociedades esquimós: um estudo de morfologia social (1906) e mesmo no Ensaio sobre a dádiva (1923-24). Sua produção política, ancorada na defesa de um socialismo democrático, educativo e moral, intensifica-se a partir de 1900, quando passa a escrever em diversos jornais e revistas socialistas, entre os quais L’Humanité, do qual é co-fundador em 1904. Entre os seus mais importantes escritos políticos estão: A Nação (1920), publicado em 1954, após sua morte; Apreciação Sociológica do Bolchevismo (1924) e Socialismo e Bolchevismo (1925).

Marcel Mauss

M
data de publicação
02/05/2016
autoria

Fabiana de Andrade, Jorge Gonçalves de Oliveira Júnior e Michelle Cirne

palavras chave
França
bibliografia

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