África

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society

Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society (1986), referência no seio da antropologia das formas expressivas e das emoções, é o primeiro livro publicado pela antropóloga norte americana Lila Abu-Lughod (1952-). A obra trata dos elos complexos entre organização sócio-política, sistema moral e expressão dos sentimentos entre os Awlad 'Ali, população beduína do Egito Ocidental, junto à qual ela realizou seu trabalho de campo no início da década de 1980. Em uma interpelação crítica a abordagens limitadas à homogeneidade do discurso oficial da cultura sobre ela mesma e aos modelos individualistas de tratamento das emoções, a autora constrói seu argumento em torno do contraste entre dois modos discursivos coexistentes entre os beduínos: o da vida ordinária, pautado pela honra e por uma linguagem “agressiva”, e um discurso poético que, enunciado em contextos privados, ressalta vulnerabilidade e afeição. Considerada um exemplo de análise discursiva inspirada em Michel Foucault (1926-1984), a atenção da obra de Abu-Lughod à intimidade da vida doméstica das mulheres em suas conexões com a moralidade e a organização sócio-política beduína é crucial para a elucidação da complementaridade desses discursos na lógica do sistema moral dos Awlad 'Ali e dos modos culturalmente construídos de expressar e sentir as experiências pessoais.

A relação entre as duas seções do livro está baseada nessa contraposição. Na primeira, a autora apresenta distintas facetas da ideologia oficial beduína que refletem a divergência entre o ideal igualitário da estrutura patrilinear e as hierarquias social e de gênero. De um lado, um rígido código de honra no qual a capacidade de alguns homens de “encorporar” os valores supremos do autocontrole, autonomia pessoal e política torna-se a medida para sua posição hierárquica; sendo dependentes econômica, física e socialmente, os homens jovens e, sobretudo, as mulheres estão impedidos de realizar tal ideal. De outro lado, a modéstia sexual, expressão da deferência voluntária na relação com os hierarquicamente superiores, é o modo pelo qual as mulheres expressam respeito pelo sistema hierárquico e, ao fazê-lo, valorizam-se moralmente no interior deste (a obediência deliberada ao sistema moral aparece como virtude feminina). Abu-Lughod descreve, assim, modos ideológicos por meio dos quais os Awlad 'Ali conciliam ideais igualitários e hierárquicos, demonstrando a relação dialética entre honra e modéstia, caminhos distintos que convergem para a valorização moral de famílias e pessoas.

A segunda parte da obra desdobra o contraste entre o discurso público, marcado por uma linguagem agressiva e altiva, e os ghinnawas, pequenas canções poéticas que remetem à intimidade pessoal e expressam sentimentos negados pelo sistema moral público por sua conotação de fraqueza e dependência: dor, melancolia, tristeza, amor romântico. Tal oposição emerge em distintos momentos da vida social, sobretudo nas crises de perda pessoal, como a morte e o divórcio, ou nas relações amorosas, que suscitam reações diferentes no mundo público e privado. Ao constituir meio de expressão culturalmente sancionado para sentimentos que ameaçam os valores do próprio sistema moral oficial, a poesia fornece uma imagem contrapontística ao sistema moral beduíno: o aspecto subversivo da fórmula poética tradicional é valorizado na medida em que se integra ao próprio código da honra e autonomia beduína, e da escolha virtuosa pela deferência. Trata-se, portanto, de duas linguagens disponíveis para expressar e sentir as experiências pessoais, cuja articulação reflete contradições profundas entre princípios hierárquicos e igualitários do sistema sócio-político. Nesse sentido, Veiled Sentiments abre-se na direção de debates em torno dos limites do caráter subversivo da arte e dos modos de expressão e construção cultural dos sentimentos.

Capa da nova edição do livro, comemorativa do 30o aniversário de lançamento

As resenhas a respeito do livro ­- entre as quais, uma bastante elogiosa de Clifford Geertz (1926-2006) - indicam sua recepção positiva da obra na academia norte-americana e evidenciam a multiplicidade de campos e questões que o atravessam, por exemplo, o trabalho reflexivo sobre o campo, necessário para a explicitação do vínculo entre a posição social do etnógrafo e a construção de relações específicas e situadas de conhecimento, algo vislumbrado no capítulo inicial do livro e desdobrado em sua segunda obra, Writing Women’s World (1993). Veiled Sentiments insere-se, dessa forma, ao lado de trabalhos como os de Donna Haraway (1988), Edward Said (1935-2003), George Marcus (1943) e James Clifford (1945) em uma ampla discussão acerca das relações entre política e escrita etnográfica, sobre o caráter situado do conhecimento e suas implicações éticas e epistemológicas.

Como citar este verbete:
MONTEIRO, Eduardo Santos Gonçalves. 2018. "Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/obra/veiled-sentiments-honor-and-poetry-bedouin-society>

autoria

Eduardo Santos Gonçalves Monteiro

bibliografia

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Abu-Lughod, Lila, Writing Against Culture In: Fox, Richard (ed.), Recapturing Anthropology, Santa Fe, School of American Research Press, 1991

Abu-Lughod, Lila, Writing Women’s Worlds: Bedouin Stories, Berkeley e Los Angeles, University of California Press, 1993

Clifford, James & Marcus, George (ed.), Writing Culture: The Poetics and Politics of Ethnography, Berkeley & Los Angeles, University of California Press, 1986

Geertz, Clifford, “Review: Veiled Sentiments: Honor and Poetry in a Bedouin Society by Lila Abu-Lughod”, American Ethnologist: Journal of American Ethnological Society, Volume 14, Issue 3, 1987, p. 567-568

Haraway, Donna, “Situated Knowledges: The Science Question in Feminism and the Privilege of Partial Perspective”, Feminist Studies 14,1988, p. 575-99

Overing, Joanna & Rapport, Nigel, Social and Anthropology: The Key Concepts, London e New York, Routledge, 2000

Said, Edward, Orientalism New York: Random House, 1978 (Trad. Bras. Tomás Rosa Bueno, São Paulo, Companhia das Letras, 1990)

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Veiled Sentiments

Michel Leiris

Michel Leiris (1901-1990) é, a um só tempo, etnólogo, etnógrafo, poeta, memorialista e crítico de arte. Esta posição liminar franqueia-lhe o trânsito incessante pelas fronteiras epistemológicas entre esses domínios, que se retroalimentam; basta lembrar que seus sucessivos escritos autobiográficos orientam-se pela preparação de fichas segundo critérios similares aos que empregou nas pesquisas etnográficas.

Seu interesse pela antropologia foi suscitado por seus contatos com as vanguardas artística e literária de Paris dos anos 1920, fascinadas pelo primitivismo, e confirmado quando do trabalho na revista Documents, dirigida por Georges Bataille (1897-1962), momento em que conhece Marcel Griaule (1898-1956), que o convida a integrar a Missão etnográfica e linguística Dacar-Djibuti (1931-1933). Ao longo da viagem de dois anos pela África, Leiris desempenha a função de secretário-arquivista, realiza pesquisas de sociologia religiosa e dedica-se à redação de A África fantasma, diário publicado em 1934 que é recebido com reservas pelo meio antropológico em função do tom autobiográfico e subjetivo, que comprometia o estatuto científico da obra, segundo as convenções da época. O caráter pouco ortodoxo do diário reaparece, de outro modo, na tese em etnolinguística sobre o sigi so (língua iniciática da sociedade secreta masculina entre os dogons, habitantes do Sudão francês, atual Mali), rejeitada por seu orientador, o orientalista Louis Massignon (1883-1962), que exige a reformulação do trabalho, considerado inadequado às normas científicas do período. Mesmo depois de aprovada, rendendo a Leiris um diploma da seção de ciências religiosas da École Pratique des Hautes Études (1938), ela seria publicada apenas dez anos depois - La Langue secrète des Dogon de Sanga (1948). Tanto a tese como o estudo sobre os ritos de possessão dos gênios zâr em Gondar, na Etiópia (La Possession et ses aspects théâtraux chez les Éthiopiens de Gondar, 1958) são produtos de pesquisas realizadas durante a missão Dacar-Djibuti. Apesar de Leiris ter viajado outras vezes, sobretudo à África e às Antilhas, e de ter realizado pesquisas pontuais, com destaque para o estudo do vodu haitiano em parceria com Alfred Métraux (1902-1963), ele não faria outras pesquisas de campo de fôlego, o que não quer dizer que não tenha produzido reflexões antropológicas importantes, como o ensaio L’Ethnographe devant le colonialisme (1950), comprometidas com a denúncia pública do colonialismo e do racismo. A carreira antropológica do autor tem lugar no departamento de África negra do Musée d’Ethnographie du Trocadéro, onde permanece até a aposentadoria. Em 1967, Leiris e Jacqueline Delange, sua colega no museu, lançam um livro dedicado ao aspecto estético das artes negras, Afrique noire: la création plastique (1967), mais um indício das relações entre arte e antropologia em sua produção e percurso. A importância por ele atribuída à história da antropologia leva à fundação da revista Gradhiva (1986), com o antropólogo Jean Jamin, a quem legou a administração póstuma de seus escritos.

Michel Leiris em seu escritório no Museu do Homem. Charles Mallison, 1984, Wikipedia. Creative Commons.

Se o “segundo ofício” de Leiris era a antropologia, como ele declarava, o primeiro era a literatura, que remonta à metade dos anos 1920, quando ele dá os primeiros passos na poesia, integrando o movimento surrealista, entre 1924 e 1929. Ainda que não tenha abandonado a poesia, dedica-se especialmente à elaboração de uma obra autobiográfica A idade viril (1939), que conhecerá desdobramentos nos quatro volumes de La règle du jeu, publicados entre 1948 e 1976. Ao longo da vida, Leiris participa de diversos projetos: a revista Documents (1929-1930); o Collège de Sociologie (1937-1939), a revista Les Temps modernes, fundada por Jean-Paul Sartre, em 1945. Sua carreira literária é impensável sem as artes, alimentando-se do diálogo com a pintura, com a escultura, com a tauromaquia e com a ópera. Dedica-se à crítica de arte, comentando as obras de André Masson, Pablo Picasso, Joan Miró, Alberto Giacometti, Wifredo Lam  e Francis Bacon, entre outros.

Na antropologia brasileira Michel Leiris é conhecido, sobretudo, como o autor de A África fantasma, traduzido em 2007. O interesse do livro refere-se à discussão sobre o lugar da subjetividade na produção do conhecimento antropológico, e ao debate sobre a relação entre a antropologia, a literatura e as artes em geral. Trabalhos acadêmicos recentes vêm contribuindo para as releituras do autor no país (como os de Fernanda Arêas Peixoto, Júlia Goyatá, Luís Felipe Sobral e Maria Victoria de Zorzi); a edição no Brasil do livro de Fernando G. Brumana sobre a missão Dacar-Dijibouti é mais um indício do interesse recente pelo autor e pela antropologia francesa do entre-guerras. Isso sem esquecer outros de seus escritos, como O espelho da tauromaquia (1938), também disponível em português, expressão cabal dos movimentos do autor por diferentes áreas.

Como citar este verbete:
SOBRAL, Luís Felipe. 2016. "Michel Leiris". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/michel-leiris>

 

autoria

Luís Felipe Sobral

bibliografia

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Brumana, Fernando Giobellina, O sonho dogon. Nas origens da etnologia francesa, São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 2011

Clifford, James, “Tell About Your Trip: Michel Leiris” In: The Predicament of Culture. Twentieth-Century Ethnography, Literature, and Art, Cambridge, Harvard University Press, 1988

Goyatá, Júlia Vilaça, Georges Bataille e Michel Leiris: a experiência do sagrado, São Paulo, Humanitas / Fapesp, 2016

Hollier, Denis, ed., Le Collège de Sociologie. 1937-1939, Paris, Gallimard, 1995

Jamin, Jean, “Le cercueil de Queequeg. Mission Dakar-Djibouti, mai 1931-février 1933”, Les Carnets de Bérose, nº 2, 2014 (disponível online em berose.fr).

La Beaumelle, Agnès de, Bernadac, Marie-Laure & Hollier, Denis (orgs.), Leiris & Co., Paris, Gallimard / Centre Pompidou-Metz, 2015

Leiris, Michel, L’Afrique fantôme, Paris, Gallimard, 1934 (Trad. Bras. André Pinto Pacheco, São Paulo, Cosac Naify, 2007)

Leiris, Michel, Miroir de la tauromachie, s. l. , Paris, g. l. m. [Guy Lévis Mano], 1938 (Trad. Br. Samuel Titan Jr., São Paulo, Cosac & Naify, 2001)

Leiris, Michel, L’Âge d’homme, précédé de De la littérature considérée comme une tauromachie, Paris, Gallimard, 1946 (Trad. Bras. Paulo Neves, São Paulo, Cosac & Naify, 2003)

Leiris, Michel, La Langue secrète des Dogon de Sanga (Soudan français), Paris, Institut d’ethnologie, 1948

Leiris, Michel, “L’Ethnographe devant le colonialisme”, Les Temps modernes, 6º ano, nº 58, agosto de 1950, p. 357-374

Leiris, Michel, La Possession et ses aspects théâtraux chez les Éthiopiens de Gondar, Paris, Plon, 1958

Leiris, Michel, Cinq études d’ethnologie, s. l., Paris, Gonthier / Denoël, 1969

Leiris, Michel, C’est-à-dire. Entretien avec Sally Price et Jean Jamin, suivi de Titres et Travaux, Paris, Éditions Jean-Michel Place, 1992

Leiris, Michel, Journal. 1922-1989, Paris, Gallimard, 1992

Leiris, Michel, Miroir de l’Afrique, Paris, Gallimard, 1996

Leiris, Michel, La Règle du jeu, Paris, Gallimard, 2003

Leiris, Michel, Écrits sur l’art, Paris, cnrs Éditions, 2011

Leiris, Michel & Delange, Jacqueline, Afrique noire: la création plastique, Paris, Gallimard, 1967

Motta, Antonio, “A África fantasma de Michel Leiris”. In: Miriam Pillar Grossi, Antonio Motta & Julie Antoinette Cavignac (orgs.), Antropologia francesa no século xx, Recife, Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, 2006

Peixoto, Fernanda Arêas, “O nativo e o narrativo. Os trópicos de Lévi-Strauss e a África de Michel Leiris” In: Miriam Pillar Grossi, Antonio Motta & Julie Antoinette Cavignac (orgs.), Antropologia francesa no século xx, Recife, Fundação Joaquim Nabuco / Editora Massangana, 2006

Peixoto, Fernanda Arêas, “A viagem como vocação. Antropologia e literatura na obra de Michel Leiris” In: Michel Leiris, A África fantasma, São Paulo, Cosac Naify, 2007

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Leiris, Michel

Jean Rouch

Jean Rouch (1917-2004), matemático e engenheiro de formação, atuou entre a antropologia e o cinema, campos, para ele, inseparáveis. Sua obra e pensamento encontram repercussão nos dois domínios, sendo que sua extensa produção de filmes etnográficos - mais de 120 filmes, a maioria produzida na África ocidental -  se sobrepõe, do ponto de vista dos rebatimentos posteriores, aos seus escritos.

Seu primeiro contato com a África data de 1941, quando esteve no Níger como engenheiro, interessando-se pela etnografia e pelo uso da imagem. De volta à França inicia um doutorado em antropologia sob a orientação de Marcel Griaule (1898-1956), que culmina com as teses “Contribution à l’histoire des Songhay” (tese complementar, 1953) e “La religion et la magie Songhay”, (tese principal, 1960).  Ligado ao CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique) em 1947, realiza pesquisas sistemáticas sobre os Songhay, importante grupo étnico do Mali e do Níger, produzindo imagens que se converteriam em seu primeiro filme Au pays des mages noirs (1947), com a colaboração do parceiro Damouré Zika (1923-2009). Paralelamente à pesquisas etnográficas, atua no campo cinematográfico, criando, em 1952, o Comité du Film Ethnographique, no Musée de l’Homme, em Paris, ao lado de Henri Langlois (1914-1977), Enrico Fulchignoni (1913-1988), Marcel Griaule (1898-1956), André Leroi-Gourhan (1911-1986) e Claude Lévi-Strauss (1908-2009). Sem abandonar as pesquisas africanistas, dedica-se à questão da imigração e da colonização na região da Costa do Ouro (atual Gana) e, em 1957, volta-se para a Costa do Marfim, interessado em problemas como migrações e profetismo. Entre as décadas de 1960 e 1970, diversifica suas investigações, escrevendo artigos e realizando filmes a respeito de temas como religião, possessão e ritual; caça e pesca; arqueologia; etnomusicologia e dança. Produziu ainda reflexões sobre narrativas rituais e tradições orais; mitologia; ritos funerários e conhecimentos medicinais, sem esquecer as  técnicas de gravação e cinematográficas, que praticou e sobre as quais pensou.

Still do video No campo da produção fílmica, inspirado por Dziga Vertov (1896-1954) utiliza o recurso do cinema-direto de modo próprio, preferindo considerá-lo um cinema-verdade, recusando tratar a matéria fílmica como simples objeto. Sua proposta é explicitar a relação entre o cineasta e as pessoas filmadas (sujeitos da mise-en-scène), defendendo que o etnólogo-cineasta seja por elas afetado, em uma experiência que denominou cine-transe. Os seus filmes deixam ver o compromisso com o contexto e com as condições do ambiente; a fluência cotidiana da fala, dos gestos e do comportamento, além da relação estabelecida, através do olhar e da escuta, entre os corpos que filmam e aqueles que são filmados. Tais balizas levam à proposição de uma linguagem cinematográfica na qual o roteiro prévio deixa de ser determinante, o que irá ecoar nos cineastas da chamada nouvelle vague francesa, dos anos 1960. Ao seu modo de filmar relacional e pouco roteirizado - refletido e aprimorado ao longo de sua vida, em função da crítica pós-montagem, da formação da equipe técnica, da atuação partilhada com as personagens e da composição dos argumentos e roteiros - soma-se um processo de produção de caráter marcadamente dialógico. Influenciado por Robert Flaherty (1884-1951), especialmente por Nanook of the North (1922), Rouch decide compartilhar as imagens filmadas com seus interlocutores, experimentando novas formas de colaboração. Em Bataille sur le grand fleuve (1951), por exemplo, assume o papel de um etnólogo-cineasta-narrador; os nativos filmados, por sua vez, opinam a respeito das filmagens já editadas e de seus resultados. Inspirado pelas possibilidades de ampliação desses diálogos, o autor desenvolve a proposta de uma antropologia compartilhada, amparada na transformação radical das relações entre antropólogo e nativos, filmadores e filmados, que as equipes formadas em conjunto com os africanos-interlocutores (tanto para a escolha dos temas quanto para a realização das imagens) evidenciam. Não tardou para que Rouch encontrasse como parceiros os nigerenses Damouré Zika (1923-2009), Lam Ibrahima Dia e Tallou Mouzourane. Juntos, realizam Jaguar (1954-67), Moi, un Noir (1957-58), Petit à Petit 1968-70) e Cocorico! Monsieur Poulet (1974), submetendo a experiência cinematográfica e etnográfica a um processo criativo, frequentemente designado por etnoficção. Tais experimentos permitem afirmar que a obra de Jean Rouch não é apenas um conjunto de olhares sobre diversos grupos africanos, incluindo também olhares africanos sobre si mesmos, uns sobre os outros e sobre a sociedade ocidental.

No contexto dos movimentos de maio de 1968, com a colaboração Enrico Fulchignoni (1913-1988), então diretor da Cinemateca Francesa, Claudine de France e Colette Piault, Rouch cria, no Departamento de Ciências Sociais, o que viria a ser o curso de cinema etnográfico e documentário da Universidade Paris X – Nanterre, hoje Paris Ouest. Essa formação, que se torna modelar, tem como objetivo central oferecer ao etnógrafo o recurso do cinema como método de pesquisa e reflexão antropológica. Em 1977, Rouch é convidado a organizar, com Jacques d’Arthuys (1894-1943), uma oficina de cinema para alunos do Instituto Nacional de Cinema de Moçambique, no interior da qual realizam o curta-metragem Makwayela (1977). A partir dessa experiência são criados os Ateliers Varan (1981), com a finalidade de formar cineastas em países sem uma produção cinematográfica consolidada, levando os recursos a grupos étnicos e sociais com pouco acesso a técnicas e meios de produção do cinema. São incontáveis os prêmios e títulos recebidos por Rouch, isso sem esquecer os desdobramentos de sua extensa obra cinematográfica que termina por infletir nas formas de fazer etnografia, sinal da conexão íntima entre cinema e antropologia, em todo o seu percurso.

Como citar este verbete:
ESTRELA DA COSTA, Ana Carolina. 2016. "Jean Rouch". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/jean-rouch>

autoria

Ana Carolina Estrela da Costa

bibliografia

ARAÚJO, Juliana & MARIE, Michel (org), Varan: Um mundo visível, Belo Horizonte, Associação cultural Balafon, 2016

GONÇALVES, Marco Antônio, O real imaginado: etnografia, cinema e surrealismo em Jean Rouch, Rio de Janeiro, Topbooks, 2008

HENLEY, Paul, The Adventure of the Real: Jean Rouch and The Craft of Ethnographic Cinema, Chicago & London, The Universty of Chicago Press, 2010

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SILVA, Mateus Araújo (org), Jean Rouch. Retrospectivas e colóquios no Brasil, Catálogo da mostra e retrospectiva de filmes de Jean Rouch, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Brasília, 2009

STOLLER, Paul, The cinematic griot. The ethnography of Jean Rouch, Chicago & London, The University of Chicago Press, 1992

SZTUTMAN, Renato, "Imagens perigosas: a possessão e a gênese do cinema de Jean Rouch",  Cadernos de Campo , USP, São Paulo, v. 13, 2005, p. 115-124

SZTUTMAN, Renato, "A utopia reversa de Jean Rouch: de 'Os mestres loucos' a 'Pouco a pouco'",  Devires (UFMG), v. 6, 2009, p. 108-125

SZTUTMAN, Renato, "Imagens-transe: perigo e possessão na gênese do cinema de Jean Rouch" In: Barbosa, Andréa; Cunha, Edgar T. da; Hikiji, Rose S. G.. (Org.), Imagem-conhecimento: antropologia, cinema e outros diálogos, Campinas, Papirus, 2009

http://www.comite-film-ethno.net/jean-rouch/bibliographie.html

Filmografia Principal do Autor

1947: Au pays des mages noirs

1951: Bataille sur le grand fleuve

1954-67: Jaguar

1955: Les Maitres Fous

1958: Moi, un noir

1959: La pyramide humaine

1960: Chronique d’un été

1965: La chasse au lion à l’arc

1966: Batteries Dogon,

1968-70: Petit-à-petit

1972: Horendi

1974: Cocorico, Monsieur Poulet!

1993: Madame l’eau

1998: Le premier matin du monde

2002: Le rêve plus fort que la mort

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Rouch, Jean

Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande

Já em sua primeira publicação em 1937, o livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande ganhou lugar de destaque na obra do antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973). Fruto de vinte meses de trabalho de campo, realizado entre 1926 e 1929, junto a este povo do sul do Sudão, a monografia é vasta em contribuições tanto teóricas quanto etnográficas, resultantes de um envolvimento intenso com as ideias azande. A bruxaria, questão central do livro, longe de ser um tema concebido antes da ida a campo, se impôs como objeto de estudo por conta de sua presença constante entre os nativos e pela importância atribuída a ela, notada desde os primeiros contatos do antropólogo com a sociedade.

Nos treze capítulos e quatro apêndices que compõem a versão mais sintética do livro, lançada em 1976, Evans-Pritchard descreve a crença zande na bruxaria como um meio de explicar os infortúnios. Em uma abordagem próxima daquela posteriormente empreendida em Nuer Religion (1956), em que a noção de kwoth é o ponto de partida para interpretar a filosofia religiosa dos Nuer, o autor mostra como a bruxaria faz parte de um sistema de pensamento racional e coerente - que envolve os oráculos, a magia, a feitiçaria, os adivinhos e as drogas etc. - capaz de dar sentido não apenas a eventos físicos e objetivos, como faz a racionalidade científica ocidental, mas também aos acasos e a acontecimentos imprevisíveis. Cada parte desse sistema é utilizada para explicar e validar a outra, e as eventuais lacunas deixadas pelo fracasso de algum rito ou por inconsistências das respostas dos oráculos, por exemplo, são explicadas por uma variedade de noções místicas que são – e, segundo o autor, só poderiam ser – expressas no próprio idioma da crença. 

Contra-feiticeiro Azande, século XIX, foto de Richard Buchta, acervo do Pitt Rivers Museum (Wikimedia Commons)
Os Azande entendem a bruxaria como condição hereditária e biológica, que é disparada por um ato psíquico, por vezes involuntário, incitado por ciúme, inveja, ódio ou cobiça, e que desencadeia uma série de infortúnios a quem ela se destina. Evans-Pritchard conta que viu a luz característica da bruxaria atravessar a floresta e se instalar na residência de um homem que – não por acaso, segundo a lógica zande – faleceu pouco tempo depois. Uma vez que tais infortúnios vão das situações mais comezinhas até a morte, recorre-se cotidianamente a diversos tipos de oráculos, que tanto revelam a identidade do bruxo (o que também pode ser feito pelos adivinhos) quanto sanam dúvidas sobre assuntos impossíveis de serem revelados por inferência lógico-experimental. Principal inimiga da bruxaria, a magia combate os males por ela causados, curando doenças, controlando a agricultura e a caça, além de ser responsável  pela vingança contra os bruxos e feiticeiros identificados pelos oráculos. A magia é realizada de maneira consciente, pois depende da manipulação deliberada de drogas específicas para cada finalidade e da realização de encantamentos, o que nitidamente a diferencia da bruxaria. Distingue-se ainda a “boa magia”, aquela socialmente autorizada, da feitiçaria, maligna, imoral e antissocial, destinada a fazer mal deliberadamente a outrem, seja a seus negócios ou ao corpo do sujeito. Os ritos mágicos são raros e secretos e, embora sejam mais comuns entre os homens mais velhos, todo zande, diz o autor, é até certo ponto um mágico, já que tem contato com magia e com drogas em algum momento de sua vida.

Nesta obra, Evans-Pritchard dialoga com as principais teorias então correntes sobre a razão humana. Ao identificar a racionalidade que subjaz à bruxaria zande, a monografia avança em relação à teoria da mentalidade primitiva de Lucien Lévy-Brühl (1857-1939) e à noção de representações coletivas de Émile Durkheim (1858-1917), que lhe serviram de ponto de partida. A obra suscitou também uma pluralidade de linhas de descendência e abriu caminhos para o posterior desenvolvimento de subáreas no interior da filosofia, da psicologia, dos estudos da religião e da sociologia do conhecimento; serviu ainda de inspiração para os estudos de micropolítica, na medida em que mostra a dimensão sociológica, os conflitos e as relações de poder produzidos pelas acusações de bruxaria e feitiçaria, e para os estudos da transformação social em contextos coloniais e pós-coloniais, ao apontar alguns dos efeitos da administração anglo-egípcia na organização social e nas crenças dos Azande. A preocupação do autor em nuançar, e mesmo em colocar em questão, as diferenças entre os chamados povos tradicionais e os ocidentais-modernos, entre “nós” e “eles”, tem sido observada por autores das safras mais recentes da antropologia, que localizam neste estudo os germens do que veio a ser chamado posteriormente de antropologia simétrica.

Como citar este verbete:
MACIEL, Diogo Barbosa & CORTEZ, Renata Harumi. 2016. "Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/bruxaria-oráculos-e-magia-entre-os-azande>

autoria

Diogo Barbosa Maciel e Renata Harumi Cortez

bibliografia

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Bruxaria

The Sanusi of Cyrenaica

Permanecendo ainda desconhecida para grande parte dos leitores do antropólogo britânico Edward Evans Evans-Pritchard (1902-1973), The Sanusi of Cyrenaica (1949) é um estudo histórico sobre o desenvolvimento político da fraternidade islâmica conhecida como Ordem Sanusiya na região da Cirenaica, na costa da Líbia. No período em que o autor viveu no Egito, lecionando na Universidade do Cairo (1932-1934), quando veio a conhecer alguns exilados Sanusi, Evans-Pritchard teve a oportunidade de viajar por diversas regiões do norte da África, adquirindo conhecimento sobre a história e a cultura beduínas, além de domínio da língua árabe. Durante a II Guerra Mundial, como oficial político da Terceira Administração Militar Britânica da Cirenaica, o autor passou dois anos (1942-1943) entre os beduínos nômades, percorrendo a cavalo mais de três mil quilômetros da inóspita região. Segundo o seu relato, o serviço militar o impediu de conduzir uma pesquisa sociológica sistemática entre os beduínos, mas permitiu a leitura da literatura que forma a base do estudo à luz de sua própria experiência.

Nesta obra, Evans-Pritchard narra a história do surgimento e desenvolvimento dos Sanusyia como uma ordem de origem sufi, enumerando as principais características que a distinguem de outras ordens islâmicas semelhantes. Descrevendo a região da Cirenaica e o modo de vida dos beduínos da região, o autor coloca em contexto os principais motivos da expansão e difusão dos Sanusi entre eles. A experiência do antropólogo entre os povos do deserto certamente influenciou a descrição detalhada que ele faz da ecologia cultural, da organização política em segmentos tribais, da vida religiosa, das relações de parentesco e da identidade étnica dos beduínos da região. Tais informações são fundamentais para a apresentação dos fatos históricos que se sucederam no período posterior à chegada e ao desenvolvimento dos Sanusi entre os beduínos, assim como das razões pelo qual esta Ordem tornou-se a principal voz política deste povo.

Sanusi marchando para enfrentar os Britânicos (c. 1915), Biblioteca do Congresso (EUA)A análise histórica realizada percorre a administração colonial turca, do final do Império Otomano, e sua política de quase nenhuma interferência nos assuntos relativos aos Sanusi, criando condições para o fortalecimento da Ordem e para sua transição de uma simples organização religiosa para uma organização política e econômica, que gradualmente adquire as feições de um proto-Estado. O autor realiza uma descrição minuciosa da resistência empreendida pelos Sanusi, em apoio ao governo turco frente à invasão italiana na Cyrenaica, a ascensão da Ordem na conjuntura política internacional da I Guerra Mundial e dos processos de negociação de um acordo de paz entre lideranças Sanusi e os governos italiano e britânico. Relata os pormenores da II Guerra entre os Sanusi e o governo fascista italiano em ascensão, apresentando detalhadamente toda a tática de guerrilha no deserto empreendida pelos beduínos; apesar dos esforços, a guerra culminou na derrota dos Sanusi frente ao exército italiano. Evans-Pritchard encerra o volume com uma forte crítica à política colonialista posteriormente conduzida pelo governo fascista da Itália no território da Cirenaica; justifica a indignação expressa contra o colonialismo italiano na região deixando claro não ser este diferente dos colonialismos levados a cabo por outras potências europeias.

The Sanusi of Cyrenaica possui grande relevância metodológica, delineando as bases de uma nova antropologia histórica. Seminal, a obra antecipa diversas discussões de método levantadas posteriormente pelo autor nos artigos em “Social Anthropology: Past and Present” e “Anthropology and History” (ambos de 1962), em que discute a articulação, na prática antropológica, entre pesquisa documental e pesquisa de campo, além de pensar a contribuição da teoria antropológica à pesquisa histórica.

Como citar este verbete:
RIBEIRO, Fábio & HUPSEL, Rafael. 2015. "The Sanusi of Cyrenaica". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/sanusi-cyrenaica>

autoria

Fábio Ribeiro e Rafael Hupsel

bibliografia

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Sanusi of Cyrenaica,  Oxford, Clarendon Press, 1949.

EVANS-PRITCHARD, E. E., “Social Anthropology: Past and Present” In: Essays in Social Anthropology, Londres, Faber and Faber, 1962.

EVANS-PRITCHARD, E. E., "Anthropology and History" in: Essays in Social Anthropology, Londres, Faber and Faber, 1962.

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Sanusi of Cyrenaica, The

Nuer Religion

Nuer Religion (1956) faz parte da trilogia escrita pelo antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973) sobre os Nuer, povo que vivia, na época do trabalho de campo do autor, entre 1930 e 1936, às margens do rio Nilo, ao sul da então colônia britânica do Sudão. As incursões do antropólogo às terras nuer resultaram nas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940), Kinship and marriage among the Nuer (1951) e Nuer religion (1956), monografias consideradas clássicas que refletem acerca da política, da ecologia, do parentesco e da filosofia religiosa nuer. Nesta última obra, o antropólogo lança mão de noções ocidentais, como Deus e pecado, para desconstruí-las, delineando novas categorias a partir de termos e concepções dos próprios Nuer. Evans-Pritchard adota, assim, uma nova perspectiva sobre a religião, propondo uma maneira renovada de fazer e pensar o trabalho de campo e a própria Antropologia.

A ordenação do livro segue o traço fundamental do pensamento religioso nuer que é, segundo o autor, “eminentemente dualista”, realizando-se a partir de uma série de oposições, como céu/terra, alto/baixo e Deus/humanos. O antropólogo parte da noção mais importante da filosofia religiosa nuer, kwoth (espírito), em direção às demais noções que dela derivam, kuth nhial (espíritos de cima) e kuth piny (espíritos de baixo), para então analisar as relações entre religião e ordem social, símbolos e ritos religiosos nuer, em especial o sacrifício, bem como algumas de suas personagens. O capítulo que encerra o volume reúne reflexões teóricas mais amplas acerca da religião nuer, em uma perspectiva comparativa em relação a outros sistemas de pensamento religioso africanos e às proposições escritas por antropólogos que o precederam no estudo das religiões ditas primitivas.

A noção de kwoth é a peça central para o entendimento da filosofia religiosa nuer, descrita por Evans-Pritchard como a relação entre humanos e kwoth, que pode ser entendido como o espírito criador do mundo e da sociedade e, ao mesmo tempo, como um conjunto de diversas manifestações, que podem assumir diferentes significados de acordo com cada contexto:  são modos de “Deus”, e não sua própria essência, que é só Espírito. Tal concepção revela a dualidade material-imaterial presente na filosofia religiosa nuer e a escolha nativa em manter a separação entre as categorias espirituais e as coisas materiais. Kwoth é, então, uma noção que se desenvolve em uma dimensão estrutural, relacionando-se aos processos de fusão e fissão característicos dos sistemas políticos e de parentesco nuer: da mesma forma que os Nuer se reconhecem como uma nação e se dividem em tribos, aldeias, unidades domésticas e indivíduos, kwoth é, ao mesmo tempo, um em sua natureza e múltiplo em suas diferentes representações sociais, estabelecendo relações com cada seção da estrutura segmentar nuer. As refrações de kwoth podem se relacionar a uma variedade de grupos sociais e se manifestar de distintos modos e em diferentes graus, sem que ele deixe de ser considerado o guardião de todos os grupos. Assim, mostra o autor, a noção nuer de kwoth pode ser considerada, como a teoria nuer dos acontecimentos.

Sacerdote de pele de leopardo, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum.

Evans-Pritchard descreve e interpreta a religião nuer como um sistema de ideias essencialmente interior, embora externalizado por meio de ações (resguardos e orações), e envolva personagens (os sacerdotes, kuaar e os profetas, gwan kwoth), cuja aparição e importância, recente entre os Nuer, se relaciona às políticas colonialistas inglesas da época. A própria noção de “pecado” (thec) é vista como consequência de faltas cometidas pelos humanos, sem contudo afetar a qualidade moral dos indivíduos; ela se refere apenas à condição espiritual, isto é, à relação pessoal com o Espírito. O bem e o mal, nesse sentido, ganham contornos muito diferentes dos que possuem no interior da moralidade cristã ocidental. Aos olhos do antropólogo, seria inapropriado pensar a religião nuer como um espelhamento da sociedade,  reduzindo-a a seus ritos, argumento que está na origem das críticas que empreende a Émile Durkheim (1858-1917) e a Marcel Mauss (1872-1950). Do mesmo modo, o pesquisador britânico tece duras críticas ao conceito de “índole pré-lógica” desenvolvido por Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), demonstrando que a lógica nuer não confunde relações ideais com as consideradas reais, e que construções nuer como “um pepino é um boi” não são da ordem da identidade, mas da analogia. É interessante notar que a mesma questão é enfrentada também em seu estudo Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

A obra de Evans-Pritchard convida a considerar a religião nuer como um modo de pensar a relação do homem consigo mesmo e deste com os espíritos-forças, além permitir pensar a natureza polimorfa e polissêmica do Espírito. Sua análise, em diálogo com a filosofia nuer, impõe a revisão da dimensão social dos conceitos de ordem religiosa, assim como a dimensão espiritual da estrutura social.

Como citar este verbete:
ARANHA, Aline; FREIRE, Gabriela & MENEZES, Hélio. 2015. "Nuer Religion". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/nuer-religion>

autoria

Aline Aranha, Gabriela Freire e Hélio Menezes

bibliografia

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EVANS-PRITCHARD, E. E., Kinship and marriage among the Nuer. Oxford, Claredon Press, 1951.

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The Nuer Conception of Spirit in Its Relation to the Social Order”, American Anthropologist, n.s., Vol. 55, No. 2, 1951, p. 112-121

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EVANS-PRITCHARD, E. E.,  “A problem of Nuer religion”, Sociologus 4, 1954, p. 23-41

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The meaning of sacrifice among the Nuer” in The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland v. 84, 1954, p. 21-33

EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer religion. Oxford, Oxford University Press, 1956

EVANS-PRITCHARD, E. E., Theories of primitive religion. Oxford: Oxford University Press, 1965

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Nuer Religion

Kinship and marriage among the Nuer

Publicado em 1951, Kinship and Marriage Among the Nuer é o segundo volume da trilogia Nuer, conjunto de monografias escrito pelo antropólogo britânico Edward E. Evans-Pritchard (1902- 1973) sobre os Nuer, povo nilótico do Sul do Sudão. Assim como suas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940) e Nuer Religion (1956), este livro é baseado em um total de doze meses de pesquisa de campo realizada sob condições adversas entre 1930 e 1936, e financiada pelo governo anglo-egípcio do Sudão. Os dez anos que separam as datas de publicação do primeiro e do segundo volume devem-se ao agravamento da II Guerra e à convocação do autor para o exército britânico. Evans-Pritchard planejara sua publicação para 1942, entretanto, durante o serviço militar, entrou em contato com beduínos Sanusi, ordem islâmica da região da Cyrenaica, no norte da Líbia, experiência que resultou no livro The Sanusi of Cyrenaica (1949). Este hiato foi preenchido pela publicação de artigos, dentre os quais: “Nuer Bridewealth(1946), “Nuer Marriage Cerimonies” (1948), “Nuer Rules of Exogamy and Incest” (1949) e “Kinship and the local community among the Nuer(1950), que abordam temas retomados com maior ou menor detalhe em Kinship and Marriage Among the Nuer.

O primeiro volume da série, The Nuer, tem por objeto o sistema político nuer e suas relações com o modo de vida deste povo, culminando na célebre descrição da estrutura segmentar nuer. Desprovidos de governo, os Nuer se organizam politicamente por meio do jogo de oposições entre a estrutura tribal e a estrutura de clãs. Os clãs são um sistema de linhagens agnáticas exógamas que traçam sua descendência em relação a um ancestral comum. Idealmente um filho herda a linhagem de seu pai e deve casar-se com uma mulher de outra linhagem. Denominadas buth pelos Nuer, essas relações de parentesco constituem grupos dotados de unidade cuja amplitude depende de distâncias estruturais. Assim, um nuer será nuer frente a um dinka, mas jikany frente a um nuer de outra tribo. Dotadas de exclusividade territorial, as tribos, unidade política de maior extensão, segmentam-se em seções e subseções de acordo com os segmentos e linhagens dos clãs dominantes em cada território tribal. Neste sistema, a aldeia é definida por Evans-Pritchard como a unidade mínima da política Nuer.

Grupo de mulheres e meninas em uma casa, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum

Em Kinship and Marriage Among the Nuer, o autor mostra como as redes de parentesco internas às comunidades locais, e que se estendem para além delas, estão conectadas com o sistema de linhagens nuer e, por meio desse sistema, com sua estrutura política tribal. Um Nuer vive em uma comunidade por manter laços de parentesco com algum de seus membros, consanguíneos ou por casamento. A co-residência, associada à elasticidade do sistema de parentesco, prolonga esses laços. Afins (parentes por casamento) tendem a ser associados a consanguíneos, de modo que a comunidade compreende uma única genealogia baseada em relações de parentesco cognáticas (isto é, por via paterna e materna), denominadas pelos Nuer mar. Uma aldeia, a unidade mínima da política Nuer, constitui-se assim como um agregado cognático – mar – ao redor de um núcleo agnático – buth,  linhagem principal que associa a aldeia ao sistema político.

A partir de uma etnografia minuciosa das relações de parentesco Nuer, Evans-Pritchard descreve em Kinship and Marriage among the Nuer diversos recursos por meio dos quais relações de tipo mar infletem sobre relações de tipo buth. Formas de adoção, maneiras de traçar o pertencimento à linhagem por via materna, diversas formas de casamento, dentre as quais o levirato (casamento com a mulher do irmão) e o casamento com mortos, entre outros, mostram a centralidade do parentesco cognático na compreensão da estrutura segmentar nuer. Destacam-se as negociações que precedem o casamento e a importância do gado como dote (bridewealth). Nestes e em outros exemplos etnográficos, Evans-Pritchard demonstra o equilíbrio dinâmico entre o parentesco agnático e o parentesco uterino (por via materna) na vida social Nuer. Dimensões cujo caráter de oposição e complementaridade se apresenta nas relações entre um nuer e seus tios materno e paterno, para os quais é, respectivamente, um “filho das mulheres” da linhagem e um “filho da linhagem”. Além de descrever em detalhe temas fundamentais da antropologia do parentesco, como a relação entre proibições do casamento e incesto e o papel do irmão da mãe, Kinship and Marriage among the Nuer complementa e complexifica o modelo da estrutura segmentar Nuer apresentado no primeiro volume da série, sendo uma leitura fundamental para sua compreensão.

 

Como citar este verbete:
Pougy, Henrique. 2015. "Kinship and marriage among the Nuer". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/kinship-and-marriage-among-nuer>

autoria

Henrique Pougy

bibliografia

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EVANS-PRITCHARD, E. E., Kinship and Marriage among the Nuer. Oxford, Clarendon Press, 1951

EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer Religion. Oxford, Clarendon Press, 1956

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Kinship and marriage among the Nuer

Edward Evan Evans-Pritchard

Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973), antropólogo britânico cujo trabalho revelou-se determinante para o desenvolvimento da antropologia social no século XX, inicia sua graduação em História Moderna no Exeter College, na universidade de Oxford (1921), período em que conhece Robert Ranulph Marett (1866-1943), um dos fundadores da Oxford Anthropology Society e seu interlocutor ao longo da década de 1920. Por incentivo de Marret passa a frequentar os seminários de antropologia na London School of Economics, tendo entre os professores Bronislaw Malinowski (1884-1942) e Gabriel Seligman (1873-1940). Este último fora um pioneiro no trabalho de campo junto a povos do Sudão, onde pesquisa desde 1909, e orientador da tese de doutoramento de Evans-Pritchard defendida em 1927 sobre os Azande, fruto de sua primeira incursão a campo, e publicada posteriormente com o título Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

Em 1930, o antropólogo inicia pesquisas junto aos Nuer, população nilota da região sul do Sudão. Entre os anos de 1932 e 1934, atua como professor da Universidade do Cairo, onde ministra seminários sobre a questão religiosa entre os povos estudados. Em 1935, transfere-se para o Instituto de Antropologia Social da Universidade de Oxford, fundado por Radcliffe-Brown (1881-1955), onde segue trabalhando e escrevendo sobre sua experiência junto aos Nuer. Em 1940 publica Os Nuer e também African Political Systems, este em parceria com Meyer Fortes (1906-1983). Durante a II Guerra Mundial, atua como consultor da administração militar do governo britânico, tendo servido na Etiópia, Líbia, Sudão e Síria. Em 1945, torna-se professor em Cambridge e no ano seguinte sucede Radcliffe-Brown na cadeira de antropologia de Oxford. Em 1950, é professor na Universidade de Chicago e em 1957 da Universidade de Stanford, onde permanece até sua aposentadoria, em 1970. Em 1971, é condecorado com o título de Cavaleiro (Sir) pela Coroa Britânica, falecendo dois anos depois.

Edward E. Evans-Pritchard

Evans-Pritchard é um dos mais renomados especialistas nas populações sudanesas do sul da região do Nilo Branco, ocupando lugar decisivo na história do africanismo e da antropologia política. Realizou etnografia em diferentes sociedades, defendendo ser o trabalho de campo um dos pilares do saber antropológico. Concebe o ofício do antropólogo como uma tarefa de tradução de valores culturais, necessariamente comparativa, negando assim a possibilidade de existência de uma teoria antropológica per si, independente ou anterior à pesquisa empírica. Segundo ele, o conhecimento antropológico deriva de um diálogo comparativo complexo que deve ir além da relação entre pesquisador e nativo, levando em conta a teoria acumulada da disciplina a partir de experiências etnográficas diversas. Em seu trabalho como antropólogo destacam-se, além das reflexões sobre a estrutura política e a lógica segmentar nuer, o estudo do que ele denomina sistemas de pensamento dos povos pesquisados.

Do ponto de vista das discussões metodológicas que lança, além de defender a importância do uso de uma perspectiva histórica na antropologia, Evans-Pritchard destaca a importância da habilidade literária do antropólogo ao narrar a experiência etnográfica. A antropologia, para ele, é uma disciplina humanista, mais próxima das artes do que das ciências, uma vez que o impacto da vivência de campo gera uma experiência singular no pesquisador que não é absorvida apenas intelectualmente, mas que passa pelos sentidos e pela subjetividade. As contribuições deixadas por seus trabalhos ecoam em diferentes campos científicos para além da antropologia e das ciências sociais (como a história, a psicologia, os estudos da religião e a filosofia), tendo sido também fundamentais para os estudos sobre transformações sociais em contextos coloniais e pós-coloniais.

Como citar este verbete:
MAZZARIELLO, Carolina Cordeiro; FERREIRA, Lucas Bulgarelli & STUMPF, Lúcia Klück. 2015. "Edward Evan Evans-Pritchard". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/edward-evan-evans-pritchard>

autoria

Carolina Cordeiro Mazzariello, Lucas Bulgarelli Ferreira e Lúcia Klück Stumpf

bibliografia

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inicial do verbete
título do índice alfabético
Evans-Pritchard