linguagem

Coral Gardens and Their Magic

Publicada em 1935, Coral gardens, a study of the methods of tilling the soil and of agricultural rites in the Trobriand Islands é a quarta e última monografia produzida por Bronislaw Malinowski (1884-1942) acerca da vida dos nativos das Ilhas Trobriand, no Pacífico Ocidental. Com quase mil páginas de extensão, a obra tem como foco a relação entre magia e práticas agrícolas dos trobriandeses. Embora não tenha tido a notoriedade e difusão de Argonautas do Pacífico Ocidental (1922), Coral Gardens foi considerada pelo próprio autor como sua obra mais bem-acabada, tanto pela exposição sistemática do método funcionalista quanto por sua inovadora abordagem em relação ao campo da linguística, juízo compartilhado por leituras posteriores da obra, como as dos linguistas Jean Rupert Firth (1890-1960) e Terence Langendoen.

Bronisław Malinowski e trobriandeses, 1918. Wikimedia commons.

O livro é dividido em sete partes, distribuídas em dois volumes. No primeiro, Malinowski esboça aspectos gerais da vida social dos trobriandeses, tomando como base suas obras anteriores e o método funcionalista, exercitado antes, e que se encontra sistematicamente apresentado nos capítulos finais do primeiro tomo. Encontra-se aí descrita a distribuição da população do arquipélago em diversas aldeias e sua especialização econômica, além de sua integração em um sofisticado e abrangente sistema de comércio, o kula. Na segunda parte, a mais extensa do primeiro volume, Malinowski volta seu olhar às práticas agrícolas, à magia e ao regime de posse da terra - sobre os quais se assentam elementos centrais da organização social trobriandesa – além de se deter nos mitos que narram a origem dos clãs e sua conexão com determinadas porções do território, na divisão dos clãs em classes (ranks), nas regras matrimoniais e no papel de liderança ocupado pelo mágico. Em relação às roças, ou jardins cultivados, o autor as descreve como verdadeiras obras de arte produzidas pela tecnologia e pela magia, e não como meros espaços utilitários.

Uma das contribuições mais originais da obra é o esboço de uma teoria etnográfica da linguagem, levada a cabo no segundo volume da obra. O autor defende que os encantamentos mágicos, como toda forma de linguagem, devem ser entendidos em seu contexto como “atos verbais”, tendo por função produzir efeitos práticos. Para Malinowski, o verdadeiro fato linguístico é a fala em seu contexto, entendido em um sentido amplo, envolvendo não apenas as palavras, mas expressões faciais, gestual, atividades corporais, o grupo presente ao ato de fala e o próprio ambiente em que se encontram. Nesse sentido, a obra traz aportes pioneiros ao campo da linguística conhecido como pragmática, o que se evidencia, por exemplo, na sua apropriação por J. R. Firth.

Merecem destaque também as inspirações que fornece ao antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) no ensaio The Magical Power of Words (1968). Reanalisando o material reunido por Malinowski em Coral Gardens à luz da teoria dos atos de fala de John Austin (1911-1960), Tambiah defende que ato e palavra se relacionam de forma indissociável no pensamento mágico. A abordagem pragmática ecoa ainda na análise de Alfred Gell (1945-1997) sobre a eficácia do objeto de arte e seu poder de agência. Coral Gardens foi também objeto de reflexão o historiador Karl Polanyi, para elaboração de sua crítica ao homo economicus, desenvolvida em A grande transformação (2000). Em sua introdução crítica à edição inglesa de 1966, Edmund Leach (1910-1989) aponta que Malinowski é inovador por descrever um modo de vida e não apenas descrições de costumes, modos e artefatos como seus antecessores; critica, entretanto, ser sua análise da sociedade pouco sociológica e concentrada nos indivíduos. Além disso, haveria, segundo Leach, uma contradição inerente ao seu tratamento dos trobriandeses como, ao mesmo tempo, únicos e universais, o que não o impede de reconhecer o “mestre do trabalho de campo antropológico” que foi Malinowski - Coral Gardens uma evidência irrefutável desse fato.

Como citar este verbete:
GUERRERO, Natalia Ribas & BASSI, Flávio. 2016. "Coral Gardens and Their Magic". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/coral-gardens-and-their-magic>

autoria

Natalia Ribas Guerrero e Flávio Bassi

bibliografia

FIRTH, John Rupert, The Tongues of Men and Speech, London, Oxford University Press, 1964

GELL, Alfred, Art and agency, Oxford, Clarendon Press, 1998

LEACH, Edmund, “Introduction” In: Malinowski, B., Coral Gardens and Their Magic, Soil-tilling and agricultural rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1

LANGENDOEN, Terence, London School of Linguistics: A Study of the Linguistic Theories of B. Malinowski and J. R. Firth, Cambridge, MIT Press, 1968 

MALINOWSKI, Bronislaw, Coral Gardens and Their Magic. A Study of the Methods of Tilling the Soil and of Agricultural Rites in the Trobriand Islands (1935), London, George Allen & Unwin Ltd., 1966, v. 1 e 2

POLANYI, Karl, The Great Transformation: Origins of Our Time, New York, Farrar & Rinehart, 1944 (Trad. Bras. Fanny Wrobel. Rio de Janeiro, Campus, 1980)

SENFT, Gunter, “Bronislaw Malinowski and Linguistic Pragmatics”, Lodz Papers in Pragmatics v. 3 (2007), p. 79-96

TAMBIAH, Stanley, “The Magical Power of Words”, Man, New Series, v. 3, n. 2 (Jun., 1968), pp. 175-208

YOUNG, Michael W., “Malinowski’s Last Word on the Anthropological Approach to Language”, Pragmatics, v.1, n. 21 (2011), p. 1-22

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Coral Gardens

A Invenção do Cotidiano

O livro A Invenção do Cotidiano (1980) do historiador e antropólogo francês Michel de Certeau (1924-1986) desdobra-se em dois tomos: Artes de fazer (volume 1) e Habitar, cozinhar (volume 2), este escrito com Luce Giard, historiadora das ciências e da religião, e Pierre Mayol, aluno de Certeau. A obra é fruto de um trabalho coletivo realizado entre 1974 e 1977, a partir de uma encomenda do Ministério da Cultura francês interessado em questões de cultura e de sociedade, e sobre as quais Certeau trabalhara em obras precedentes, por exemplo em La culture au pluriel (1974). À proposição feita, Certeau e equipe respondem pela análise das práticas culturais cotidianas, tema a partir do qual desenvolvem uma abordagem do consumo cultural, pensado como dimensão criadora e inventiva.

Debord, Guy. THE NAKED CITY - Illustration de l'hypothèse des plaques tournantes en psychogeographique, 1957.No primeiro e mais difundido volume da obra, em função de pesquisa empírica detida, o autor esboça uma reflexão sobre as práticas ordinárias, aproximando-as dos “modos de fazer” das pessoas comuns, atento às diversas maneiras pelas quais fazem uso de regras e convenções impostas por uma ordem social e economicamente dominante. Para isto, escolhe para análise campos corriqueiros de ação: o espaço, a língua, a crença, entre outros. Trata, por exemplo, do caminhar pela cidade como um modo de “praticar o espaço” e apropriar-se do traçado urbano, não previsto pelos planos urbanísticos; examina também relatos de milagres entre os lavradores de Pernambuco que, ao mesmo tempo, que partem de preceitos do catolicismo tradicional, produzem “modos de crer” diversos; ou, ainda, do ato corriqueiro de ler, considerado como uma forma de apropriação do texto pelo leitor, que o realiza segundo seus códigos próprios de percepção e interesses. O segundo volume da obra, por sua vez, visa “traçar as interligações de uma cotidianidade concreta” por meio de vasto material etnográfico, estatístico, cartográfico e de entrevistas, reunido por Pierre Mayol que investiga as práticas do habitar no então bairro operário de Croix-Rousse em Lyon, e por Luce Giard, que se detém sobre as práticas de cozinhar.

A Invenção do cotidiano ancora-se em ideias e procedimentos provenientes de diversos campos de conhecimento: história, teologia, educação, psicanálise, filosofia, antropologia e linguística. Michel de Certeau aponta como suas principais inspirações a psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939); a filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e John Langshaw Austin (1911-1960); a antropologia de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e a filosofia de Immanuel Kant (1724-1804). Ao mesmo tempo, estabelece interlocuções fundamentais com Michel Foucault (1926-1984) e Pierre Bourdieu (1930-2002), a partir das quais delimita o campo das práticas; e com Marcel Detienne (1935) e Jean-Pierre Vernant (1914-2007) com quem dialoga para definir sua noção de tática. Duas obras de Foucault e Bourdieu são especialmente importantes nesses diálogos: Vigiar e Punir (1975), na qual Foucault relata a emergência de um novo tipo de controle sobre os sujeitos e seus corpos, sintetizada pelo modelo do panóptico e Esboço de uma teoria da prática (1972), na qual Bourdieu analisa instituições das sociedades kabila do norte da Argélia. Problematizando o olhar centrado exclusivamente nos procedimentos de controle (Foucault) e na ideia de determinação do habitus (Bourdieu), Certeau coloca o seu foco, não na imposição de padrões de comportamento, mas nos diferentes modos pelos quais as práticas cotidianas podem subverter imposições e controles diversos. A distinção entre “estratégia” e “tática” é central para o desenvolvimento da noção de prática cotidiana do autor, mais próxima do segundo termo. A ideia de tática inspira-se na análise que Detienne e Vernant realizam sobre a noção grega antiga de métis, forma astuciosa ou ardilosa de inteligência; trata-se formas de saber e conhecimentos práticos, que dependem de uma ocasião, ou momento oportuno (kairós) para serem colocados em ação.

A amplitude de inspirações teóricas em A Invenção do Cotidiano e os alcances da abordagem original da vida social e da cultura que apresenta fizeram da obra uma referência para estudos nas áreas de História, Antropologia, Educação, Literatura, Estudos Urbanos e Culturais, entre outros.

Como citar este verbete:
PEREIRA, Bruno Ribeiro da Silva & MACHINI, Mariana Luiza Fiocco. 2016. "A Invenção do Cotidiano". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/invenção-do-cotidiano>

autoria

Bruno Ribeiro da Silva Pereira e Mariana Luiza Fiocco Machini

bibliografia

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CERTEAU, Michel de, La culture au pluriel, Paris, Union Générale d’Éditions, 1974 (Tradução de Enid Abreu Dobránszky. São Paulo, Papirus, 1995).

CERTEAU, Michel de, L’invention du quotidien: 1. Arts de faire, 1980, Paris, Gallimard, 1980 (Trad. Bras. Ephrain F. Alves. Petrópolis, Vozes, 2014).

CERTEAU, Michel de, GIARD, Luce & MAYOL, Pierre, L’invention du quotidien : 2. Habiter, cuisiner, Paris, Gallimard, 1980 (Trad. Bras. Ephrain F. Alves e Lúcia Endlich Orth. Petrópolis, Vozes, 2014).

CERTEAU, Michel de, Histoire et psychanalyse entre science et fiction, Paris, Gallimard, 1987 (Trad. Bras. Guilherme J. de Freitas Teixeira. Belo Horizonte, Autêntica Editora, 2011).

CERTEAU, Michel de,  “La révolution fondatrice, ou le risque d’exister”, Études, julho de 1968. Online em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k441829m/f81.image.r=jesus.langFR. Consultado em 20 de julho de 2015.

CERTEAU, Michel de, “Pour une nouvelle culture: le pouvoir de parler”, Études, outubro de 1968. Online em : http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k441831x.image.r=jesus.f57.pagination.langFR. Consultado em 20 de julho de 2015.

BOURDIEU, Pierre, Esquisse d’une théorie de la pratique. Précédé de Trois études d’ethnologie kabyle, Genève, Librarie Droz, 1972 (Trad. Port. Oeiras, Celta Editora, 2002).

CHARTIER, Anne-Marie & HÉBRARD, Jean,  L’Invention du quotidien, une lecture, des usages, 1988 (Trad. Bras. Mariza Romero. Projeto História. Revista do programa de estudos pós-graduados de história, São Paulo, v. 17, 1998, p. 29-44).

DETIENNE, Marcel & VERNANT, Jean Pierre, La métis des Grecs. Les ruses de l’intelligence, Paris, Flammarion, 1974 (Trad. Bras. Filomena Hirata, São Paulo, Odysseus, 2008).

FOUCAULT, Michel, Surveiller et punir: Nassaince de la prision, Paris, Gallimard, 1975 (Trad. Bras. Raquel Ramalhete. Petrópolis, Vozes, 2000).

LÉVI-STRAUSS, Claude, La pensée sauvage, Paris, Plon, 1962 (Trad. Bras. Tânia Pellegrini. Campinas,  Papirus, 1989).

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Invenção, Cotidiano

Linguagem e Ritual - Pierre Bourdieu

As considerações do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) sobre as relações entre linguagem e ritual, presentes no conjunto de artigos que compõem a obra A economia das trocas linguísticas. O que falar quer dizer (1982), derivam inicialmente de uma crítica às ideias do filósofo e linguista britânico J. L. Austin (1911-1960). Segundo Austin, a força ilocutória do discurso, sua capacidade de promover ações, encontra origem nas próprias palavras, entendidas como objetos autônomos, ideias que, em linguística, ficaram conhecidas como a “teoria dos atos da fala”. Para Bourdieu, haveria um equívoco nas formulações dos linguistas cuja origem epistemológica remonta à divisão que F. Saussure (1857-1913) realizou entre a ciência da língua (linguística interna) e a ciência dos usos sociais da língua (linguística externa). Bourdieu rejeita ainda o argumento de que as palavras fazem “coisas” – tal como indicava o próprio título da obra mais influente de Austin “How to Do Things with Words” (1962), pois a eficácia da linguagem verbal, sobretudo em termos rituais, não deve ser entendida de forma autônoma, independente das condições sociais de sua produção. Em qualquer tipo de linguagem, segundo ele, devem ser consideradas as condições institucionais de produção e recepção dos discursos. Para o sociólogo, a ação mágica estende à natureza a ação verbal que, sob certas condições, afeta os homens; nesse sentido interessam-lhe sobretudo os atos do que denomina “magia social”. Tais atos não podem ser realizados por qualquer agente; a maneira e a matéria do discurso proferido (pelo agente autorizado a realizá-lo) dependem da posição social do interlocutor, que comanda o acesso ao que ele chama de “palavra legítima”. Assim, a linguagem ritual está circunscrita a um conjunto de condições interdependentes que compõem o ritual social. A magia dos ritos é dirigida pelo sistema das relações sociais constitutivas do próprio ritual e não pelos discursos e conteúdos de consciência.

Jeu de PaumeTomando a linguagem ritual em sentido amplo, não apenas em seu aspecto verbal, Bourdieu realiza considerações críticas à teoria dos ritos de passagem formulada por Van Gennep (1873-1957) e ampliada por Victor Turner (1920-1983), sugerindo uma mudança na abordagem relativa a esses rituais, da passagem à “separação, o que o leva a propor os “ritos de instituição”. Segundo ele, a descrição dos detalhes simbólicos dos rituais tende a mascarar o efeito essencial do rito: a separação entre iniciados e não-iniciados. Tal mudança de foco e de designação seria capaz de ampliar o poder de generalização e explicação dos rituais sociais, pois os ritos de instituição, além de confirmarem diferenças inscritas na natureza – como os ritos de circuncisão que marcam e confirmam, mais do que a diferença entre homens e meninos, a distinção entre homens e mulheres – seriam capazes de inscrever e naturalizar diferenças presentes no contínuo do tecido social, como fazem os concursos, premiações e investiduras. Bourdieu retoma aí a importância da “linguagem autorizada” de um sistema social constituído por agentes, instituições e palavras adequadas, que servem de base para a validade e reconhecimento do ritual de instituição. Este ritual produz distinções que delimitam as diferentes classes, o que termina por imprimir no iniciado uma segunda natureza, um habitus, com a ajuda de liturgias específicas.

A teoria dos ritos de instituição pode ser entendida como tributária da teoria bourdiana da distinção social. Em A distinção (1979) o autor explica o funcionamento de “estratégias de condescendência: o privilégio que elementos das camadas sociais mais altas possuem, graças à sua consagração nos diversos ritos de instituição, de transgredirem os limites estabelecidos, aproximando-se do comportamento ou da linguagem das camadas inferiores. Este é, por exemplo, o ato do intelectual que usa a linguagem informal em espaços de formalidade, ou do aristocrata que bate nas costas do cavalariço. Em atos como estes, produz-se um adicional: o de tomar liberdades com o próprio privilégio sem que a posição ou distinção, do intelectual ou do  aristocrata, seja colocada em dúvida.

Como citar este verbete:
ASSÊNSIO, Cibele Barbalho & OLIVEIRA JÚNIOR, Jorge Gonçalves. 2015. "Linguagem e Ritual - Pierre Bourdieu". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/linguagem-e-ritual-pierre-bourdieu>

autoria

Cibele Barbalho Assênsio e Jorge Gonçalves de Oliveira Júnior

bibliografia

BOURDIEU, Pierre, La Distinction. Critique sociale du jugement, Paris, Les éditions de Minuit, 1979 (Trad. Bras. Daniela Kern, Daniela e Guilherme J. de F. Teixeira. Porto Alegre, Editora Zouk, 2007).

BOURDIEU, Pierre, Ce que parler veut dire: l'économie des échanges linguistiques, Arthème Fayard, 1982 (Trad. Bras. Sérgio Miceli.  São Paulo, EDUSP, 1996).

BOURDIEU, Pierre, Esquisse d'une théorie de la pratique précédé de Trois études d'ethnologie kabyle, Genève, Droz, 1972 (Trad. Portuguesa, Oeiras, Celta Editora, 2002).

BOURDIEU, Pierre, Le pouvoir symbolique, Paris, Éditions de Minuit, 1989 (Trad. Bras. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1992).

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Linguagem e Ritual - Pierre Bourdieu

The Magical Power of Words

A pergunta que norteia o ensaio The Magical Power of Words (1968) do antropólogo Stanley Tambiah (1929-2014) refere-se à potência mágica que as palavras possuem no contexto ritual. O autor elege a linguística como fonte teórica para discutir a relação entre atos e palavras, de modo a problematizar a concepção antropológica clássica que vê o ritual como repetição de palavras, atos não verbais, manipulação de objetos e, ainda, a partir da oposição entre magia e religião. Ao descrever um complexo ritual de exorcismo no Sri Lanka (Ásia do Sul), Tambiah indica que as palavras podem ser proferidas em diferentes idiomas, mostrando-se: coloquiais ou eruditas (acompanhadas de música ou oferendas de alimentos); ditas em voz baixa ou alta, ou em uma variedade de tons, hierarquias e intenções. Na forma de feitiços, elas podem ainda conter alusões abreviadas aos mitos, que são cantados na ordem da progressão da cura, articulando o ritual à cosmologia que ele encarna, e indicando a presença de duas lógicas que atuam articuladamente: uma que corresponde ao panteão e à teologia na relação com os homens, deuses e espíritos, e a outra que diz respeito à comunicação entre o exorcista e o paciente na passagem da doença para a cura. No âmbito específico da discussão da linguagem no ritual, o autor enfatiza as distinções entre os usos das línguas profanas, seculares e sagradas, posto que prefiguram os sentidos de cada aspecto e etapa do ritual, e a importância dos papéis desempenhados pelos seus executores, que atuam como mediadores no contato com o divino, em rituais de cura, iniciação etc.

ritual de cura no Sri Lanka, dança das 8 máscaras Sanniya yakA proposta de Tambiah de reanálise da magia trobriandesa, estudada por Malinowski (1884 -1942) está baseada em algumas premissas, a saber, que o uso da linguagem no ritual não é qualitativamente diferente do seu uso ordinário, e que seu sistema combina palavra e gesto, linguagem e ação. Ele toma como ponto de partida a elaboração de Roman Jakobson (1896-1982) a respeito da afasia (1956), na qual discute os dois mecanismos da linguagem - o metafórico e o metonímico - baseados nos princípios de semelhança e contiguidade: o primeiro permitindo abstrações através de substituições e o segundo, a construção de uma totalidade a partir das partes, procedimentos estes postos em prática pela magia trobriandesa no contexto da ação.

A abordagem do ritual, tal como construída nesse ensaio com o auxílio de narrativas etnográficas dissolve dicotomias recorrentes, como aquelas entre linguagem/ação, mito/rito, ação/representação. O ritual como ato performativo tem um objetivo integrador e coletivo; seus procedimentos combinam ações verbais e não verbais, e a linguagem aí mobilizada tem o poder de invocar imagens e comparações, projetando o futuro e permitindo voltar ao passado. Ao recuperar Malinowski e sua etnografia linguística do ritual, assim também como as formulações de do filósofo inglês John Austin (1911-1960) sobre a dimensão performativa da fala, Tambiah demonstra que no pensamento mágico, magia e prática, mito e rito, ação e palavra constituem-se mutuamente, numa relação indestrinçável.

Como citar este verbete:
MANFRINATO, Helena de Morais. 2015. "The Magical Power of Words". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/magical-power-words>

autoria

Helena de Morais Manfrinato

bibliografia

JAKOBSON, R., "Two aspects of language and two types of aphasic disturbance" In: R. Jakobson,  e M. Halle, Fundamentals of language, The Hague, Mouton, 1956.

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TAMBIAH, S., “Animals are good to think and good to prohibit”. Ethnology, vol. 8, n. 4, 1969, p. 423-459.

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Magical Power of Words, The