obra
Jamais fomos modernos

Considerado um texto fundacional no campo dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade (STS), com impactos importantes na antropologia, na sociologia e na filosofia, Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica (1991), de Bruno Latour (1947-2022), surge em um contexto intelectual marcado pelas chamadas “guerras da ciência” (science wars). Trata-se de uma disputa sobre o estatuto do conhecimento científico, polarizada entre um realismo que entende a ciência como a descoberta de fatos prontos e um relativismo que insiste no caráter socialmente construído de tais fatos. Latour busca contornar essa alternativa dicotômica ao propor, com este ensaio, uma terceira posição, o “relacionalismo”. Essa orientação toma as relações e mediações como objeto de análise, compreendendo que é a partir delas que os seres adquirem figuração. Para o autor, portanto, é preciso pensar a produção de conhecimento pelo prisma das relações experimentais, uma vez que a prática científica é posta em curso mediante pactos, provas e composições entre humanos e não humanos.

Latour engaja-se com os desenvolvimentos da etnologia do começo dos anos 1980, sobretudo com os trabalhos de Philippe Descola (1949-). O que está em jogo no diálogo que estabelece com o antropólogo francês é o modo como ele reivindica certos elementos da disciplina para consolidar seu postulado de uma “antropologia simétrica”, contrapondo-se, no mesmo ato, a uma “antropologia clássica” que estabeleceria uma assimetria entre nós, “modernos”, que teríamos natureza, e os “outros”, que teriam culturas e cosmologias, isto é, representações sobre esta natureza. A etnografia de Descola é mobilizada por Latour para mostrar que, quando se debruça sobre coletivos não ocidentais, a antropologia é capaz de integrar, numa descrição única e abrangente, o que o pensamento moderno separa: natureza e sociedade, humanos e não humanos; procedendo dessa forma, ela capta as sociedades no “tecido inteiriço” de suas naturezas-culturas. Mas o problema, segundo Latour, é que esse mesmo olhar não é aplicado quando se trata de analisar a “nós mesmos”. Daí o objetivo da obra de formular um programa de “antropologia dos modernos”, em que o mesmo ferramental etnográfico empregado no estudo dos “outros” passe a ser aplicado aos modernos, de modo a dispensar tratamento simétrico a humanos e não humanos.

O livro representa o ponto culminante de uma agenda de pesquisa iniciada ao final dos anos 1970 com Vida de laboratório (1979) e Ciência em ação (1987), ao longo da qual Latour desenvolve uma abordagem etnográfica do fazer científico. Seus argumentos lastreiam-se, assim, em observações sobre como fatos científicos são coletivamente feitos por meio de redes de humanos e não humanos, isto é, de conexões entre agentes heterogêneos, como, por exemplo, a rede que associa pesquisadores, técnicas, substâncias químicas, equipamentos laboratoriais e artigos científicos que, conjuntamente, sustentam a produção e estabilização de um fato. No conjunto da obra latouriana, Jamais fomos modernos marca a passagem desses estudos empíricos para um diagnóstico crítico da modernidade.

O ensaio é estruturado em cinco capítulos ao longo dos quais o autor lança mão de exposições teóricas e estudos de caso. Nesse percurso, é particularmente importante o trabalho de história social da ciência de Steven Shapin (1943-) e Simon Schaffer (1955-) sobre a controvérsia entre Robert Boyle (1627-1691) e Thomas Hobbes (1588-1679) a respeito da bomba de ar e dos diferentes modos de produção e de validação do conhecimento defendidos por cada um. É a partir dela que Latour localiza, no século XVII, a emergência simultânea do poder social e do poder natural enquanto esferas separadas, cada qual com seu âmbito próprio. Tem-se aí o “acordo constitucional” que fixa a clivagem entre a ciência como domínio da natureza e a política como domínio do humano, da qual deriva a partição do real entre natureza e cultura que está na base do que ele designa como “Constituição moderna”.

Joseph Wright of Derby, An Experiment on a Bird in the Air Pump, 1768. Óleo sobre tela, 183 x 244 cm. National Gallery, Londres

A tese central é que o pensamento moderno se fundamenta em dois conjuntos distintos, mas intimamente relacionados, de práticas. De um lado, a “purificação”, que gera a ideia de uma distinção cristalina entre natureza (não humana, por definição) e cultura (humana, por essência), estabelecendo duas zonas ontológicas separadas; de outro, a “tradução”, que promove associações entre elementos heterogêneos, gerando híbridos de natureza e cultura. Ainda que soem contraditórias, essas práticas são inseparáveis, pois a purificação confere legitimidade e, consequentemente, velocidade e escala ao trabalho de tradução ou hibridização. Este é, segundo Latour, o paradoxo dos modernos, do qual eles extraem sua energia de ação: purifica-se como garantia para misturar sem tabus.

A modernidade seria a produção desses mistos e, ao mesmo tempo, a reiteração da diferença essencial entre o humano e o não humano. É por isso que, a despeito de nossa arquitetura epistemológica dualista, “jamais fomos modernos”: na prática, nunca destacamos plenamente natureza e sociedade, mas, ao contrário, fizemos proliferar híbridos que desafiam essas separações, embora o discurso oficial insista em mantê-los invisíveis. A metáfora da “Constituição” nomeia justamente esse arranjo tácito que separa e, ao mesmo tempo, permite misturar, garantindo que, ao final, o real pareça sempre ou natural ou social. O mundo mobilizado por essa múltipla valência da ação dos modernos permaneceu relativamente estável até que essa máquina de purificação passasse a produzir exceções em demasia: quase-sujeitos e quase-objetos que não se encaixam no repertório crítico modernista. Problemas como a crise climática, objeto das conferências reunidas em Diante de Gaia (2015), evidenciam essa saturação e nos obrigam a reconsiderar as composições entre humanos e não humanos em suas consequências socioecológicas.

A ideia de “parlamento das coisas” apresentada por Latour no último capítulo do livro é um chamado a estender a democracia aos não humanos, o que implica desenvolver dispositivos de representação capazes de contemplar esses mistos que já constituem nosso mundo comum. Trata-se da defesa de um reconhecimento não moderno, calcado nas misturas, nos processos e nas consequências da hibridização, de modo a livrar o tempo dos modernos da temporalidade unilinear do progresso, que escalona os povos. Esse reconhecimento, por sua vez, fornece os fundamentos de uma nova comensurabilidade entre “nós” e os “outros”, não ocidentais, pois, estendendo a mirada antropológica simétrica aos modernos, o que Latour demonstra é que, assim como todos os outros coletivos, estamos nós também inseridos na mesma matriz antropológica da experimentação, isto é, somos todos compositores de mundo.

Entre as mais diversas apropriações e releituras, a recepção do livro mostra que, por um lado, ele forneceu às ciências sociais um arcabouço conceitual potente para analisar coletivos heterogêneos sem reduzi-los ao natural ou ao social; por outro, foi por vezes criticado por privilegiar a descrição de associações e mediadores em detrimento de assimetrias estruturais de poder e conflitos que não se deixam compreender pela gramática da teoria ator-rede, que ele apresenta sistematicamente em Reagregando o social (2005). No Brasil, a circulação da obra de Latour em geral e deste livro em particular contribuiu para a consolidação de um campo de antropologia das ciências, com trabalhos como a tese de Stelio Marras (1970-) sobre laboratórios de biologia e genética, as pesquisas de Guilherme Sá sobre a formação de coletivos humanos e animais na primatologia, e a tese de Felipe Süssekind (1973-), que seguiu as redes sociotécnicas que perfazem as iniciativas de conservação da onça pintada no Pantanal. A obra encontrou reverberações também na etnologia, especialmente no diálogo com Eduardo Viveiros de Castro (1951-) a respeito do “grande divisor” natureza/cultura e da chama virada ontológica, que abriu caminho para levar a sério enunciados extra-modernos não como metáforas ou representações sobre uma realidade única, mas como expressões de realidades múltiplas, comparáveis não mais enquanto culturas, mas sim modos diversos de fazer mundos.

Como citar este verbete:
ALVES, Caio de Oliveira Lima. “Jamais fomos modernos”. In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia, 2026. Disponível em: https://ea.fflch.usp.br/obra/jamais-fomos-modernos

ISSN: 2676-038X (online)

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data de publicação
24/01/2026
autoria

Caio de Oliveira Lima Alves

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