Abas primárias

conceito

Há fenômenos sociais que cruzam fronteiras políticas, não estando restritos à circunscrição de tribos, povos, nações, cidades ou Estados, indica o antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950) em artigo escrito em coautoria com Émile Durkheim (1858-1917), “Nota sobre a Noção de Civilização” (1913), e em estudo aprofundado de sua própria autoria, “As Civilizações – Elementos e Formas” (1929). Nesses textos, Mauss defende a transversalidade de tais tipos de fenômenos, que pode ser aferida com a ajuda de diversos exemplos. As coleções arqueológicas dos museus etnográficos e históricos propõem classificações científicas, ainda que hipotéticas, de ferramentas e objetos de arte, representando-as em mapas de dispersão e propondo genealogias para as técnicas. Mas esta dispersão pode ser observada não só no que concerne à cultura material; a filologia demonstra que o conjunto dos povos falantes de línguas indo-europeias partilham vocábulos e formas verbais, e um mesmo substrato de instituições elementares. As diversas nações iroquesas, por sua vez, compartilham as bases de um sistema religioso comum, e em todos os povos polinésios pode ser encontrada organização política semelhante. Tais fenômenos não são isolados, argumenta Mauss; ainda que existam de maneira independente, articulam-se em um sistema solidário, sendo localizáveis no tempo e no espaço.

A esses fatos, “que têm sua unidade” e sua “maneira própria de ser”, Mauss dá o nome de “civilização”, termo que engloba fenômenos dispersos em diferentes grupos sociais (os “fenômenos de civilização”), mas característicos o suficiente para remeterem à ideia de famílias de sociedades. Entre as sociedades que partilham um substrato mínimo, material ou cultural, há, segundo ele, um intercâmbio constante de elementos culturais passíveis de troca, que circunscrevem um sistema social mais amplo. Mas, a despeito das trocas, há um ponto no qual os fenômenos chocam-se diante da recusa deste ou daquele empréstimo, o que termina por definir uma fronteira civilizacional.

O modo como a noção de civilização é formulada expressa uma regra do método maussiano, que propõe que todo o conceito faça referência a um substrato específico, isto é, a um grupo humano ocupando uma porção determinada do espaço, em tempo determinado, o que leva a criticar os usos ordinários do termo, alimentados pelo romantismo alemão e por autores como Auguste Comte (1798-1857), que lidariam com uma ideia abstrata de civilização, entendida como categoria do espírito humano. Assim considerada, a noção acaba, segundo Mauss, por exprimir carga ideológica e por se associar à dominação política, abstraindo as individualidades nacionais. Ao visarem “a marcha geral da humanidade”, tais formulações deixam de lado o objeto próprio da pesquisa social: os organismos sociais e a expressão coletiva das personalidades que os povos constituíram no decurso da história. Nesses termos, compete ao sociólogo tratar de descrever as civilizações, classificando-as em gênero e espécie, e analisando-as de modo a explicar os elementos que as compõem. “Se não há uma civilização humana”, pondera o autor, “houve e há sempre civilizações diversas, que dominam e envolvem a vida coletiva de cada povo”; é com essa diversidade, mais do que com uma abstração política, que a sociologia como ciência deve estar comprometida.

Civilização - Marcel Mauss

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data de publicação
08/12/2015
autoria

Bruno Martins Morais

palavras chave
cultura, grupo social, França
bibliografia

MAUSS, Marcel & DURKEIM, Émile, “Note sur la notion de civilisation”, Année Sociologique n. 12, 1913, p. 46- 50 In: M. Mauss, Oeuvres 2, Paris, Les Éditions de Minuit, 1969 (Trad. Bras. Luiz João Gaio e J. Guinsburg.  São Paulo, Perspectiva, 1999 e Mauro Guilherme Pinheiro Khoury, Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, 6 (17), 2007, p. 594-599 http://www.cchla.ufpb.br/rbse/DurkheimMaussTrad.pdf)

MAUSS, Marcel,  “Civilisation. Le mot et l’idée” In: MAUSS, M. Oeuvres 2, Paris,  Les Éditions de Minuit, 1969 (Trad. Bras. Luiz João Gaio e J. Guinsburg. São Paulo, Perspectiva, 1999)