etnografia

Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas

Escrito por Margaret Mead (1901-1978), Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), consolidou a antropóloga como autora de sucesso, abrindo caminho para o seu reconhecimento como pioneira nos estudos de relações de gênero. Fruto de trabalho de campo realizado em Papua-Nova Guiné, na companhia do antropólogo Reo Fortune (1903-1979), seu marido na ocasião, o estudo se concentra em três povos da região do rio Sepik: os Arapesh, os Mundugumor e os Tchambuli (Chambri). Mead observou as personalidades atribuídas a homens e mulheres em cada uma dessas sociedades, concluindo que características psicológicas femininas e masculinas (os temperamentos) não são inatas, mas padrões culturais aprendidos e ensinados de uma geração a outra, sustentando, com isso, a ideia de que a cultura molda o comportamento, assim como produz a diferenciação de personalidades entre os sexos, argumento que  irá desenvolver, posteriormente, no livro Male and Female (1949).

Reo Fortune, “Mead conduzindo flautistas

Entre os Arapesh, a antropóloga encontrou uma sociedade em que homens e mulheres mostravam-se gentis, não agressivos, cooperativos e atentos às necessidades alheias. Não eram guerreiros ou vingativos, embora pudessem ocorrer conflitos em virtude de casamentos, quando estes se davam em razão de fuga ou rapto. Além disso, Mead deparou-se com um povo em que homens e mulheres apresentavam temperamentos semelhantes, inclusive no que dizia respeito ao cuidado dos filhos. Este traço é especialmente destacado no livro, pois se nos EUA as crianças eram consideradas uma incumbência das mulheres, aí também os homens delas se ocupavam. Já entre os Mundugumor, a autora se deparou com um povo violento, implacável e agressivo. Os comportamentos, por sua vez, não diferiam muito em razão do sexo: homens e mulheres assumiam atitudes hostis e havia conflitos por todos os lados. Por fim, entre os Tchambuli, as atitudes masculinas e femininas mostravam-se bastante distintas, tendo as mulheres um protagonismo evidente: elas eram dotadas de poder dentro das aldeias; eram as principais fornecedoras de alimentos, também responsáveis pela pesca, por negociar o excedente em troca de outros víveres e pela produção da riqueza (com a venda de mosquiteiros). Os homens, de seu lado, se dedicavam à arte e à estética, e eram emocionalmente frágeis. Tal padrão chama a sua  atenção por ser o inverso do comportamento tradicionalmente atribuído aos sexos na sociedade estadunidense da época: entre os Tchambuli, as mulheres não desempenhavam funções secundárias ou desvalorizadas porque mais restritas à esfera doméstica; ao contrário, eram provedoras e pouco se dedicavam às atividades ornamentais, consideradas femininas nos Estados Unidos e em outros contextos.

Mead também se detém sobre os “inadaptados” em cada um dos povos estudados, aos quais dedica um capítulo inteiro da obra. Os inadaptados seriam aqueles que não se conformariam aos papéis sociais impostos, não atendendo ao temperamento socialmente determinado. Incapazes de se adequarem à personalidade social exigida por sua cultura, apresentavam atitudes “desajustadas”. Entre os Arapesh, correspondiam às pessoas agressivas, eventualmente obrigadas a deixar a aldeia por algum tempo; para os Mundugumor, eram os indivíduos excessivamente gentis e cooperativos; já entre os Tchambuli, eram aqueles que não possuíam afinidades com o comportamento visto como natural para o seu sexo, aproximando-se das atitudes e temperamentos do sexo oposto.

A despeito da importância do estudo para as reflexões posteriores sobre o gênero na antropologia, nos estudos culturais e nas teorias feministas, assim como o seu caráter de crítica cultural - já que os exemplos não ocidentais funcionam como uma ferramenta de interpelação às normas e convenções norte-americanas - o livro recebeu uma série de críticas. Segundo o antropólogo David Lipset, a primeira veio de Reo Fortune, seu ex-marido e companheiro de trabalho de campo, em 1939. De acordo com Fortune, a inclinação para o cuidado maternal, partilhada entre por homens e mulheres Arapesh, seria uma criação hipotética de Mead. E em relação ao comportamento não-agressivo desse povo, continua, embora eles não tivessem guerreado nos dezessete anos anteriores às pesquisas realizadas pela antropóloga (que começaram em 1931), a guerra era uma presença na vida social e o ato de seduzir uma mulher casada podia desencadear sérios conflitos. Crítica, aliás, rebatida por Lipset que reafirma o argumento de Mead:  a despeito da existência de conflitos, os Arapesh não glorificavam a guerra. Outros especialistas, como Deborah Gewertz e Frederick Errington também refutaram as conclusões de Mead sobre a posição das mulheres entre os Tchambuli. Em um primeiro momento, os autores afirmam que, ao contrário do que dizia a antropóloga, os homens dominavam as mulheres; anos depois, voltam atrás e defendem que homens e mulheres Tchambuli estavam em esferas muito diferentes de atuação e por essa razão as mulheres não poderiam, nem almejavam, ter acesso ao poder dos homens. Para Lipset, que revisita todos esses debates, não seria possível entender homens e mulheres Tchambuli em uma escala de poderes, ou seja, um sexo não dominava o outro, nem procurava fazê-lo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/sexo-e-temperamento-em-tr%C3%AAs-sociedades-primitivas>

autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

bibliografia

GEWERTZ, Deborah & ERRINGTON, Frederick, “The remarriage of Yebali: a study of dominance and false consciousness in a non-Western society” In: STRATHERN, M. (dir). Dealing with inequality: analyzing gender relations in Melanesia and beyond, Cambridge, Cambridge University Press, 1987

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret. Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)

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Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas

Margaret Mead

Margaret Mead (1901-1978), antropóloga estadunidense, foi um dos expoentes da chamada escola culturalista norte-americana. Nascida na Pensilvânia, estudou psicologia e posteriormente antropologia na Universidade de Columbia (1923), momento em que o departamento era dirigido por Franz Boas (1858-1942) e Ruth Benedict (1887-1948), ambos engajados no estabelecimento dos pressupostos teórico-metodológicos da disciplina nos Estados Unidos, na cena político-social da época e no combate ao racismo científico. Mead dedicou seus estudos ao desenvolvimento de teorias sobre as relações entre cultura e personalidade, a socialização de crianças, a sexualidade, aos papéis diferenciais de gênero e às conexões entre cultura coletiva e personalidade individual. Uma de suas muitas contribuições aos estudos antropológicos foi demonstrar a influência do aprendizado sociocultural sobre o comportamento de homens e mulheres. Mead casou-se três vezes: primeiro com o arqueólogo Luther Cressman (1897-1994), depois com os antropólogos Reo Fortune (1903-1979) e Gregory Bateson (1904-1980), seus companheiros nos trabalhos de campo que realizou. Com Bateson teve uma filha, Mary Catherine Bateson (1939-), também antropóloga. Viveu com a antropóloga Rhoda Métraux (1914-2003) de 1955 até sua morte, aos 76 anos.

A carreira acadêmica da pesquisadora desenvolveu-se no Departamento de Antropologia da Universidade de Columbia, onde ingressou em 1940. Paralelamente, atuou como curadora do American Museum of Natural History de New York, a partir de 1926. Lecionou também em diversas universidades nos EUA, como The New School, Fordham University's e University of Rhode Island, tendo se engajado ainda em uma série de organizações e associações, como a American Anthropological Association e American Association for the Advancement of Science. Durante a II Guerra Mundial, dirigiu pesquisas com expatriados sobre culturas europeias, que resultaram em duas publicações: Soviet Attitudes Towards Authority (1951) e Themes in French Culture (1954), este com Rhoda Métraux.

Ken Heyman.

Em um de seus mais conhecidos trabalhos, Coming of age in Samoa:  A Psychological Study of Primitive Youth for Western Civilisation (1928), resultado de pesquisas realizadas em Samoa a partir de 1925, esteve interessada em compreender como indivíduos atravessavam a adolescência, fase da vida comumente entendida como período de crise e rebeldia. Nessa  primeira etnografia, na Ilha de Tau, observou um ambiente bastante livre: a criação das crianças não incluía punições severas, o que representava um contraste com os problemas típicos enfrentados por jovens estadunidenses. A adolescência em Samoa coincidia com um período de alegria e prazer, o que parecia indicar que as formas que a transição entre a infância e a vida adulta assumem depende do contexto cultural. O livro foi publicado em 1928 e se tornou imediatamente um sucesso editorial. Anos mais tarde sofreu severas críticas do antropólogo neozelandês Derek Freeman (1916-2001), que alegou que em seus anos de pesquisas na mesma região não encontrou a liberdade sexual que a antropóloga descreve; pelo contrário, em sua ótica havia diversos distúrbios sexuais disseminados e um culto à virgindade. Para sustentar tamanha discrepância das conclusões, elaborou a tese de que Mead ou teria sido enganada pelas jovens, sem perceber que estas passavam informações jocosamente, ou que ela apenas enxergou o que queria ver de modo a comprovar suas teses. Em 1931, Mead segue para Papua-Nova Guiné, experiência a partir da qual publica Sexo e Temperamento em Três Sociedades Primitivas (1935), outra de suas obras que conhecem notoriedade. Os levantamentos aí realizados com Reo Fortune entre os Arapesh, Mundugumor e Tchambuli indicam que características associadas às diferenças sexuais entre homens e mulheres, frequentemente entendidas como temperamentos masculinos e femininos, não eram propriedades inatas aos sexos, mas reflexos do aprendizado cultural. Com essas formulações - que colocam em xeque a ideia do cuidado doméstico e de uma suposta sensibilidade e fragilidade do sexo feminino como padrão universal - ela abre caminho para os estudos de relações de gênero na antropologia, conferindo à crítica aos estereótipos e às atribuições de papéis sociais importante arcabouço teórico.

Na segunda metade dos anos 1930, Mead realizou trabalhos de campo em Bali, na Indonésia, que estão na origem de diversas produções fílmicas, entre as quais o ensaio fotográfico Balinese character: a photographic analysis (1942), realizado com Gregory Bateson, assim como o documentário Trance and dance in Bali (1951), entre diversos outros curtas-metragens, muitos deles com imagens produzidas nos EUA. Mead e Bateson fizeram ainda longos registros da criação e crescimento da filha Mary Catherine Bateson, que inspiraram o pediatra Benjamin Spock (1903-1998) a escrever sobre o cuidado infantil.

Com o passar dos anos, Mead tornou-se uma comentadora de sua própria cultura, dando palestras e escrevendo para revistas não científicas sobre educação, direitos das mulheres e sexualidade, o que a levou a ficar muito conhecida fora dos círculos acadêmicos especializados. Elaborou também sérias críticas aos testes de inteligência em voga, que visavam provar hierarquias raciais, questionando sua validade e metodologia, e apontando fatores que poderiam influenciar em seus resultados, como a estrutura familiar, o status socioeconômico e a exposição à linguagem. Favorável a uma abertura moral e de costumes com relação à vida tradicional ocidental, Mead e suas formulações foram recuperadas por militantes de movimentos pelos direitos de homossexuais, sobretudo pela ênfase concedida à variabilidade de relações afetivas nas sociedades humanas; não por acaso o seu nome foi incluído entre os verbetes da Encyclopaedia of Gay, Lesbian, Bisexual, Transgender and Queer Culture (2003). Os trabalhos realizados com Bateson, por sua vez, sobretudo Balinese character, são considerados precursores da antropologia da imagem, inspiração para muitas incursões recentes nesse campo.

Como citar este verbete:
FELIPPE, Mariana Boujikian & OLIVEIRA-MACEDO, Shisleni de. 2018. "Margareth Mead". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/margaret-mead> 

autoria

Mariana Boujikian Felippe e Shisleni de Oliveira-Macedo

bibliografia

FREEMAN, Derek, The making and unmaking of an anthropological myth, Harvard University Press and the Australian National University Press, 1983

FREEMAN, Derek, The fateful hoaxing of Margaret Mead, Westview Press, 1999

GEERTZ, Clifford, Margaret Mead (1901—1978): A biographical memoir, National Academy of Sciences, 1989. Disponível em: http://www.nasonline.org/publications/biographical-memoirs/memoir-pdfs/mead-margaret.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

LIPSET, David, “Rereading Sex and temperament: Margaret Mead’s Sepik triptych and its ethnographic critics”, Anthropological Quaterly, 76, 4, 2003, p. 693-713

MEAD, Margaret, Coming of age in Samoa: a psychological study of primitive youth for western civilization (1928), Harmondsworth, Penguin Books, 1981

MEAD, Margaret, Sex and temperament in three primitive societies, New York, William Morrow and c. 1935 (Trad. Bras. Rosa R. Krausz. São Paulo,  Perspectiva, 2000)

RAPP, Linda. “Mead, Margaret (1901-1978)”, glbtq.com: an encyclopaedia of gay, lesbian, bisexual, transgender and queer culture, 2004. Disponível em: http://www.glbtqarchive.com/ssh/mead_m_S.pdf. Acesso 02 de julho de 2018

SAHLINS, Marshall. “Views of a culture heroine”. Book review desk, The New York Times. 26 de agosto de 1984. Disponível em: https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/98/12/06/specials/bateson-eye.html. Acesso 02 de julho de 2018

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Mead, Margareth

Instituto de Etnologia

O Instituto de Etnologia da Universidade de Paris foi fundado em 1° de agosto de 1925 por Marcel Mauss (1872 -1950), Lucien Lévi-Bruhl (1857-1937) e Paul Rivet (1876 -1958) como o primeiro centro universitário francês no interior de uma universidade pública voltado exclusivamente ao ensino e à pesquisa etnológica. Na história das ciências sociais francesas, ele correspondeu à mudança institucional e epistemológica ocorrida na antropologia desde a virada do século XIX para o XX em países como a Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, com a legitimação acadêmica da disciplina e a consolidação de métodos modernos de investigação empírica por meio da etnografia profissional de campo. Sua proposta inovadora atraiu pessoas de formações distintas, entre etnólogos, filósofos e escritores, indicando um amplo impacto na vida cultural e intelectual francesa. No seu interior formou-se um conjunto de etnógrafos que produziu trabalhos de campo inéditos na África, Ásia e Américas, dentre os quais: Marcel Griaule (1898-1956), Georges-Henri Rivière (1897-1985), Alfred Métraux (1902-1963), Michel Leiris (1901-1990), Denis Paulme (1909-1998) e André Leroi-Gourhan (1911-1986).

A criação do Instituto se deu pela fusão da escola francesa de sociologia organizada em torno de Émile Durkheim (1858-1917) - representada por Mauss e Lévi-Bruhl - com a antropologia física conduzida por Paul Rivet no Museu de História Natural, atendendo à necessidade de profissionalização da pesquisa de campo nos estudos antropológicos franceses, atrasados pelo menos vinte anos em relação a outros centros profissionais de pesquisa em antropologia, tais como os de Oxford, criado por E. B. Tylor (1832 -1917) em 1896, e da Columbia, instituído em 1899 por Franz Boas (1858-1942). Sua organização foi beneficiada pela vitória do chamado cartel de gauche nas eleições legislativas de 1924 que abriu espaço para que o socialista Rivet exercesse influência junto ao Ministério das Colônias, responsável pelo financiamento do Instituto até essa atribuição ser transmitida ao Ministério da Educação, em 1938. Dessa maneira, o Instituto iniciou suas atividades em janeiro de 1926, com o objetivo de coordenar, organizar e desenvolver estudos etnológicos, em particular aqueles relacionados ao império colonial francês, treinando pesquisadores para esses estudos e para publicação dos seus trabalhos. Assim, foram oferecidos cursos como os de etnologia descritiva, ministrado por Marcel Mauss; de linguística descritiva, por Marcel Cohen (1884 -1974); linguística e etnografia da África, por Maurice Delafosse (1870-1926). Para a divulgação das pesquisas feitas na instituição foi criada, nesse mesmo ano, a série de publicações Travaux et Memoires de l’Institut d’Ethnologie, responsável pelo lançamento de ao menos quarenta e um trabalhos entre 1926 e 1940, dentre os quais, os resultantes da célebre Missão Dacar-Djibouti, dirigida por Marcel Griaule (1898 – 1956), e realizada entre 1931 e 1933.

Membros da missão Dakar-Djibouti no museu do Trocadéro, Paris, 1931. Foto por Charles Mallison.A escolha de Rivet para ocupar a cadeira de antropologia do Musée d’Histoire Naturelle, em 1928, fortaleceu o Instituto de Etnologia, permitindo que seus estudantes passassem a trabalhar na organização das coleções do Musée d’ethnographie du Trocadéro. Dessas atividades, conduzidas por Rivet e Rivière, surgiram as primeiras iniciativas que culminariam na criação do Musée de l’Homme, em 1938. Com a eclosão da 2a Guerra Mundial e a ocupação da França pelos nazistas, em 1940, alguns acadêmicos do Instituto, como Rivet e Métraux, partem para o exílio; Marcel Mauss, de seu lado, é proibido de lecionar em decorrência da perseguição aos judeus, não retornando mais ao ofício. Nessas condições, Marcel Griaule assume a direção da instituição, no interior da qual foi formada uma das primeiras células da resistência ao regime de Vichy.

Ao longo dos anos de 1950 e 1960, novos centros de formação passaram a fornecer certificados em antropologia em solo francês. A seção de Economia e Ciências Sociais (1947), criada na École Pratique des Hautes Études com subsídios da Fundação Rockfeller passou a oferecer formação na área, seguida pela criação de novas cadeiras de antropologia em outras regiões da França. Dessa forma, o Instituto de Etnologia, então sob a direção de Leroi-Gourhan e Claude Lévi-Strauss (1908-2009), foi perdendo hegemonia tanto na formação de alunos quanto nas publicações na área. Esse processo se intensificaria após os movimentos político- estudantis de maio de 1968 na França, sucedido por ampla reforma universitária. O novo modelo previa unidades independentes de pesquisa e ensino, de modo que o Instituto foi reduzido a um centro de publicações. Em 1973, um decreto extinguiria o Instituto de Etnologia, anexando suas atividades ao Musée d’Histoire Naturellee.

No Brasil, a produção do Instituto reverberou na atuação de Dina Dreyfus (1911-1999) - então Dina-Lévi-Strauss, esposa de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e aluna de Marcel Mauss - ao lado de Mário de Andrade (1893-1945) na Sociedade de Etnografia e Folclore (1936), criada no interior do Departamento de Cultura da municipalidade de São Paulo, então sob a direção do poeta modernista.

Como citar este verbete:
GODOY, Diogo & JOHARI, Terra. 2018. "Instituto de Etnologia". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/instituições/instituto-de-etnologia>

autoria

Diogo Godoy e Terra Johari

bibliografia

ARP/IE/26/ “Projet de création à l’Université de Paris d’un Institut d’Ethnographie,” Conseil de l’Université de Paris, 24 Nov. 1924; “Institut d’Ethnographie: Projet de Statut,” [n.a., n.d.]; M. Le Ministre de l’Instruction Publique à M. le Recteur de l’Académie de Paris, 19 Dec. 1924 In: CONKLIN, Alice, In the Museum of Man: Race, Anthropology and Empire in France, 1850 – 1950, Ithaca, Cornell University Press, 2013

BLANCKAERT, Claude (éd), Le musée de l’homme. Histoire d’un musée laboratoire, Paris, Muséum National d’histoire naturelle, Éditions Artlys, 2015

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CONKLIN, Alice, In the Museum of Man: Race, Anthropology and Empire in France, 1850 – 1950, Ithaca, Cornell University Press, 2013

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KARADY, Victor, “Durkheim et les débuts de l'ethnologie universitaire”, Actes de la recherche en sciences sociales, Vol. 74, septembre 1988, p. 23-32

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MONOD, Alan, Le réseau du Musée de l’Homme. Une résistance pionnière, 1940-1942, Paris, Riveneuve éditions, 2015

PAULME, Denise, “Préface à la troisième édition”, In: Marcel Mauss, Manuel d’ethnographie (1947), Paris, Payot, 1989

PEIXOTO, Fernanda Arêas, “Lévi-Strauss no Brasil: a formação do etnólogo”, Mana, vol. 4, n. 1, Rio de Janeiro, 1998, p. 79-107

VALENTINI, Luísa, Um laboratório de Antropologia: o encontro entre Mário de Andrade, Dina Dreyfus e Claude Lévi-Strauss (1935-1938), São Paulo, Alameda/ FAPESP, 2013

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Instituto de Etnologia

O método genealógico na pesquisa antropológica

O artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica”, assinado por William H. R. Rivers (1864-1922), como indica o título, dedica-se à apresentação do método genealógico concebido por Rivers com auxílio de Alfred Cort Haddon (1855-1940), durante a expedição ao estreito de Torres (1898), cujo objetivo é fornecer uma base científica para a nova disciplina, pela sistematização de instrumental próprio para a análise antropológica. Sua primeira versão, “A genealogical method of collecting social and vital statistics”, é exposta à comunidade científica em 1900; após a experiência etnográfica de Rivers entre os Toda na Índia, o texto é republicado no The Genealogical Method of Anthropology Inquiry (1910).

O método consiste na coleta de genealogias reais de determinado povo com base em perguntas específicas feitas aos seus membros. Por meio delas, o pesquisador obteria um diagnóstico da organização social do grupo, possível porque, de acordo com Rivers, as sociedades tendem a conservar oralmente, e por diversas gerações, as suas genealogias. O método genealógico seria, portanto, a solução ideal para etnógrafos que dispõem de pouco tempo de permanência em campo, sem o domínio do idioma local ou auxílio de bons intérpretes. Seu uso mostra-se também eficaz por permitir o acesso, em um curto período, a informações objetivas e precisas acerca da filiação, aliança, residência, status, entre outras.

Em virtude das diferenças entre os sistemas de parentesco existentes, na aplicação do método e na formulação das questões, o antropólogo deveria utilizar um vocabulário limitado a poucas categorias: pai, mãe, filho, filha, esposo e esposa. Após obter os dados necessários nas linhas de descendência masculina e feminina, ao pesquisador caberia dispor as informações de forma gráfica -  grafando os nomes dos homens em letras maiúsculas e sempre à esquerda dos das mulheres, sendo estes redigidos em minúsculas. Outras informações deveriam ser destacadas de modo a que a identificação precisa de cada indivíduo seja possível, tais como: nome, idade, condição social, localidade de origem ou habitação; grupo ou clã, entre outros. A despeito de eventuais erros, Rivers defende a eficiência do método devido à possibilidade de testar a veracidade das informações a partir do entrecruzamento dos dados com base em três genealogias completas. Assim, segundo o autor, seria possível alcançar uma demonstração científica e, simultaneamente, retornar até um século na trajetória da sociedade em questão. Dentre suas aplicações estariam, além da obtenção do sistema de parentesco de um povo, o estudo de relações matrimoniais, já que se revelariam as leis que regem os casamentos, bem como regras de descendência, herança, propriedade, cargos de chefia, entre muitas outras. O método poderia ainda ser utilizado ainda para detalhar processos migratórios, práticas mágicas e religião, bem como para oferecer um amplo banco de dados censitários e estatísticos, revelando padrões. Seu uso na antropologia física foi também referenciado por Rivers.

OLIVEIRA, Roberto C. A Antropologia de Rivers, 1991

Apesar de ser considerado o mais notório defensor do método genealógico, Rivers não foi o primeiro a fazer uso de genealogias em estudos antropológicos; o questionário de parentesco de Lewis Henry Morgan (1818-1881), publicado em Sistemas de Consanguinidade e Afinidade da Família Humana (1871), já apresentava um minucioso roteiro para a coleta de dados de parentesco. Se isso é verdade, a contribuição de Rivers foi criar uma ferramenta ágil, capaz de produzir, com precisão e rapidez, informações chave para os estudos de parentesco, a partir de uma genealogia considerada real, já que o informante seria capaz de fornecer com exatidão as classificações de seus parentes. No entanto, é preciso lembrar que tanto a obtenção das informações quanto a construção da genealogia, com base nos dados recolhidos, seguem os critérios classificatórios do pesquisador e não propriamente os dos informantes. Sua objetividade deriva, portanto, da tradução que o antropólogo realiza dos conceitos nativos.

O método genealógico pode ser apontado como um dos maiores subsídios metodológicos para os estudos de parentesco, considerado durante décadas como instrumento indispensável e mínimo do antropólogo em campo na coleta de informações. Foi retomado pelos estudos africanistas e adotado em diversas pesquisas da etnologia sul-americana, ainda que extensamente criticado por pesquisadores que apontaram as limitações do modelo, como David Schneider (1918-1995) e Mary Bouquet (1955-). No Brasil, o artigo de Rivers conheceu duas traduções: uma primeira, de 1969, a cargo de Roque de Barros Laraia (1932-) e outra de Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006), em 1991.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "O método genealógico na pesquisa antropológica". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/o-método-genealógico-na-pesquisa-antropológica>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

LARAIA, Roque de Barros (org.), Organização Social, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1969

RIVERS, William H., “O método genealógico na pesquisa antropológica” In: CARDOSO DE OLIVEIRA, Roberto (Org.), A Antropologia de Rivers, Campinas, Editora da Unicamp, 1991, p. 51-67

SILVA, Márcio Ferreira, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, p. 323-336, 2010

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Método genealógico na pesquisa antropológica, O

William Halse Rivers

Nascido na cidade de Chatham, região do Kenty, Inglaterra, William Halse Rivers (1864-1922) conclui sua graduação em Medicina, aos 22 anos, obtendo o título de doutor na Universidade de Londres, dois anos depois. Em 1891, trabalha como médico residente no National Hospital for the Paralysed and Epileptic, período em que publica estudos nas áreas de Psicologia e Neurologia. A fim de especializar-se nesses campos, muda-se para a Alemanha, onde irá estudar na Universidade de Jena com o psiquiatra Emil Kraepelin. De volta à Inglaterra, assume o Laboratório de Psicologia na University College London, tornando-se, em 1897, o primeiro professor em Psicologia Fisiológica e Experimental da Universidade de Cambridge. Na primeira década do século XX, Rivers produz uma série de artigos nos campos da antropologia e psicologia experimental. Após uma segunda expedição à Oceania, às Ilhas Salomão (Melanésia), publica o artigo “O método genealógico na pesquisa antropológica” (1900 e 1910, para a segunda versão revista), no qual apresenta uma ferramenta capaz de coletar, com precisão e rapidez, informações-chave para os estudos de parentesco e da organização social.

Foto por Henry Maull para The Royal Society (1922)

Em 1898, Rivers integrará a expedição ao estreito de Torres, localizado entre a Austrália e a Papua-Nova Guiné, que se tornaria um marco na história da antropologia em geral e na britânica, em particular. Sua experiência com os insulares dessa região da Melanésia, onde conduziu, como psicólogo, testes sobre as percepções visuais e cognitivas dos nativos, foi fundamental para que sua carreira e produção se orientassem na direção da antropologia; é nesse contexto que lança as bases para o desenvolvimento de seu método genealógico. Entre 1901 e 1902, com interesse em temas como o parentesco e a organização social, passa cinco meses no sul da Índia, entre os Toda, cujo resultado vem à luz com a monografia The Toda, publicada em 1906. A experiência de ir a campo para obter seus próprios dados de pesquisa sinaliza o esforço do autor em trabalhar com fontes primárias, algo pouco comum à produção antropológica da época. Nos anos seguintes, Rivers aproximaria-se do difusionismo, o que era considerado, por alguns antropólogos de sua geração, uma adesão à empiria estimulada pelo trabalho de campo.  Em seu primeiro discurso como presidente da seção de Antropologia da British Association for the Advancement of Science, em 1911, realiza duras críticas à atitude especulativa adotada pelos evolucionistas, considerando-a extremamente prejudicial à constituição da nova ciência. Em 1914, publica Kinship and Social Organization, coletânea com três conferências ministradas em 1913 na London School of Economics sobre sua experiência durante o campo realizado na segunda expedição à Oceania. No mesmo ano, publica The History of Melanesian Society, obra em dois volumes, considerada pelo autor a sua mais importante publicação. Enquanto o primeiro livro contém descrições etnográficas dos povos visitados, o segundo abarca uma densa discussão teórica voltada, sobretudo, para uma crítica à perspectiva evolucionista, ressaltando a importância das análises etnológicas frente às especulações “de gabinete”. Durante a I Guerra Mundial, Rivers reaproxima-se da psicologia, ganhando notoriedade pelos tratamentos que realizou entre os soldados britânicos com traumas de guerra. Também se envolve com a esfera política, sendo nomeado candidato ao Parlamento britânico nas eleições de 1922 pelo Labour Party. Mas não chegou a disputar o pleito, já que faleceria meses antes.

Em seu multifacetado trajeto intelectual, W. H. R. Rivers estabeleceu o programa básico da Antropologia Social britânica ao adotar a pesquisa empírica como fonte privilegiada de informação,  influenciando importantes autores da disciplina, como Radcliffe-Brown (1881-1955) e instituindo preceitos fundamentais para estudos posteriores sobre o parentesco e a organização social, especialmente por ter privilegiado a pesquisa empírica e estabelecido o método genealógico. Como lembra Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006) na introdução a um volume dedicado a Rivers, o caráter científico que o antropólogo objetivava conferir à antropologia foi emblematicamente sintetizado por Claude Lévi-Strauss (1908-2009) quando disse, em 1958:  “Em Rivers, a Etnologia encontrou seu Galileu”.

Como citar este verbete:
MANDELLI, Mariana Carolina; SOARES, Michel de Paula & FAVERO, Raphael Piva Favalli. 2017. "William Halse Rivers". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/william-halse-rivers>

autoria

Mariana Carolina Mandelli, Michel de Paula Soares e Raphael Piva Favalli Favero

bibliografia

KUPER, Adam, “Richard Slobodin. W. H. R. Rivers (Leaders of Modern Anthropology Series)”, The American Historical Review, n.84 (4), Oxford, Oxford University Press, 1979, p.1027-1028

OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.), A Antropologia de Rivers. Tradução Gilda Cardoso de Oliveira e Sônia Bloomfield Ramagem. Campinas, Editora da UNICAMP, 1991

SILLITOE, Paul, “The Role Of Section H At The British Association For The Advancement Of Science In: “The History Of Anthropology”, Durham Anthropology Journal, Volume 13 (2), Durham, Department of Anthropology/Durham University, 2005, p.1-17

SILVA, Márcio Ferreira da, “1871: o ano que não terminou”, Cadernos de Campo, n. 19, São Paulo, PPGAS/USP, 2010, p. 323-336

SLOBODIN, Richard, W. H. R. Rivers, New York, Columbia University Press, 1978

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Rivers

Estar Vivo

Estar vivo - Ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição (2011) é uma coletânea de ensaios do antropólogo britânico Tim Ingold (1948-) escritos e ministrados ao longo da primeira década do século XXI. O volume dá continuidade e atualiza um processo teórico iniciado em Lines: a brief history (2007), subsidiando formulações posteriores, reunidas em Making: Anthropology, Archeology, Art and Architecture (2013). As ideias do livro, segundo ele, orbitam em torno das três palavras-chave que o intitulam: movimento, conhecimento e descrição. Estas não são meras sequências de operações, mas compostos paralelos de um só processo, o do curso da vida. Uma simples caminhada, ele sugere, mobiliza as três operações ao mesmo tempo, o que requer observação para além dos grandes esquemas filosóficos sobre o “estar no mundo”. Aí reside o principal argumento do autor: o ser que está em movimento, conhecendo e descrevendo, está atento, e estar atento é estar vivo para (e no) mundo.

Nos dezenove capítulos distribuídos em cinco partes, Ingold argumenta que a epistemologia antropológica deve se inclinar aos fluxos e percursos da vida. Por isso, renuncia a adjetivações (social, estrutural, ecológica, simbólica ou cultural) comumente associadas ao vocabulário da disciplina. Para ele, se o objetivo dos antropólogos é ler o mundo, as fontes textuais que os informam devem estar abertas às inspirações e dizeres contidos, literalmente, no chão que se pisa; no curso dos rios e movimentos das marés; na habitação das casas e no convívio entre animais humanos e não-humanos. O autor busca superar fronteiras disciplinares, conduzindo diálogos com a arte, a arquitetura e os estudos da cultura material, pois acredita que esses domínios partilham da capacidade de observar, descrever e propor. À antropologia não caberia apenas o papel de relatar a vida social tal como ela se apresenta, mas sobretudo um engajamento no mundo e uma educação perceptiva, aberta às infinitas possibilidades dos organismos de nele estarem e existirem.

Amparado sobretudo pela psicologia ecológica de James Gibson (1979), Ingold defende que colocar o foco nas atividades dos materiais - sem encerrá-las no interior de um objeto, reduzindo-as a matéria inerte - significa admitir que a vida está nas coisas, e não que as coisas estão na vida. Este aprisionamento das coisas em objetos teria originado o que ele denomina de “problemas da agência” nos estudos da cultura material, como observados em autores como Alfred Gell (1998) que, supondo a inatividade dos materiais, necessita de algo exterior a eles, como a ideia de agência, capaz de animá-los. Na teoria ingoldiana, os materiais que compõem o mundo não existem como objetos do mundo material, mas “ocorrem”, pois as propriedades dos materiais consideradas constituintes de um ambiente não podem ser identificadas como essenciais e fixas nas coisas, ao contrário, são sempre processuais e relacionais. Por isso, para o autor, todos os organismos, das pedras às pessoas, são “colmeias de atividades” que pulsam com o fluxo de materiais, cujas propriedades são estórias condensadas que os mantêm vivos, se misturando e se modificando.

Ingold acredita que a “lógica da inversão” operada no pensamento ocidental depositou uma membrana entre os seres e o ambiente, apartando-os e impedindo o trânsito de informações entre eles; como se os primeiros fossem anteriores às relações e o segundo estivesse preordenado. Contrário a esta visão, ele acredita que os seres e o ambiente se constituem mutuamente em um contínuo nascimento, cujas formas geradas são trilhas de movimento ou crescimento. Neste raciocínio, cada trilha equivale a uma relação; mas não se trata de uma relação entre um organismo aqui e o ambiente lá, mas de uma trilha ao longo da qual a vida é vivida. Para ele, uma trilha é um fio que se adensa em um tecido de trilhas compreendendo a textura do mundo da vida, tal como uma “malha”, termo que ele toma de empréstimo à filosofia de Henri Lefebvre (1901-1991). A constituição relacional dos organismos se daria nessa textura, não como um campo de pontos interconectados imaginado pela Teoria Ator-Rede de Bruno Latour (1947-), mas sim por linhas entrelaçadas. Se o pensamento em rede cria para si o problema da distinção entre os seres e suas relações, operando na “lógica da inversão”, tratar as relações como trilhas, para Ingold, é afirmar que os seres são as suas próprias relações.

Parte da cosmologia ingoldiana, resgatada e ampliada em Estar vivo, tem revigorado a chamada antropologia fenomenológica, que mobiliza, por exemplo, as etnografias organizadas em coletânea por Carlos Steil & Isabel Carvalho (2012). Ao lado de autores como Donna Haraway (1944-), Philippe Descola (1949-) e Eduardo Viveiros de Castro (1951-), Ingold, e suas ideias, vêm incidindo no debate antropológico sobre humanos e não-humanos, contribuindo, além disso, para os diálogos acerca do uso de desenho em trabalhos etnográficos que ressoam, por exemplo, nas pesquisas reunidas no dossiê Antropologia e Desenho (2016).

Como citar este verbete:
FONTGALAND, Arthur. 2017. "Estar Vivo". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/estar-vivo>

autoria

Arthur Fontgaland

bibliografia

DESCOLA, Philippe, L’Écologie des Autres: l’anthropologie et la question de la nature, Paris, Éditions Quae, 2011

Dossiê Antropologia e desenho, Revista Cadernos de Arte e Antropologia, v.5, n.2, p. 6- 142, 2016. Disponível em: http://cadernosaa.revues.org/1152

GELL, Alfred, Art and Agency: An Anthropological Theory, Oxford, Clarendon, 1998

GIBSON, James, The Ecological Approach to Visual Perception, Boston, MA, Houghton Mifflin, 1979

HARAWAY, Donna, The Companion Species Manifesto: Dogs, People, and Significant Otherness, Chicago, Prickly Paradigm Press, 2003

INGOLD, Tim, The Perception of the Environment: Essays on Livelihood, dwelling and skill. London, Routledge, 2000

INGOLD, Tim, Being Alive: essays on movement, knowledge and description, London, Routledge, 2011 (Trad. Bras. Fabio Creder. Petrópolis, Vozes, 2015)

INGOLD, Tim, Making: Anthropology, Archeology, Art and Architecture, Londres/Nova York, Routledge, 2013

LATOUR, Bruno, Nous n'avons jamais été modernes. Essai d'anthropologie symétrique, Paris, La Découverte, 1991. (Trad. Bras. Carlos Irineu da Costa, Editora 34, 1994)

LEFEBVRE, Henri, La production de l’espace, Paris, Éditions Anthropos, 1974

 

STEIL, Carlos Aberto & CARVALHO, Isabel Cristina de Moura (orgs), Cultura, percepção e ambiente: diálogos com Tim Ingold, São Paulo, Terceiro Nome, 2012

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metáphysiques cannibales, Paris, PUF, 2009 (Trad. Bras. Oiara Bonilla. Cosac Naify/ N-1 edições, 2015)

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Estar Vivo. Ensaios sobre Movimento, Conhecimento e Descrição

Método - Marcel Mauss

Definir um método de trabalho maussiano é tarefa no mínimo arriscada, já que em seus artigos e ensaios Marcel Mauss (1872-1950) não se preocupou em estabelecer sínteses metodológicas. Suas observações sobre o método encontram-se espalhadas em diversas análises: sobre a dádiva, a prece, a magia, os sentimentos, o corpo, a nação, a civilização etc., além de presentes em notas de aula e em comunicações orais. Tal constatação não impede a localização de características marcantes do método maussiano, fundamentalmente: o caráter partilhado do trabalho sociológico e a defesa de que este deveria se basear em fatos sociais concretos.

O primeiro traço do método do antropólogo francês refere-se ao trabalho coletivo como prerrogativa para desenvolver o método comparativo; a única maneira de alcançar resultados analíticos sólidos, segundo ele, seria lançar mão do cotejo sistemático dos diversos trabalhos disponíveis, de modo que a comparação entre uma grande quantidade de fatos observáveis em diversas sociedades (tarefa “impossível para um homem só”, segundo ele) tenha lugar. O próprio progresso da disciplina, nos seus termos, seria fruto do trabalho conjunto de diferentes especialistas. A segunda marca desse método, por sua vez, pode ser observada na provocativa asserção contida em seu Manuel d’ethnographie (1926): “como positivista, creio somente nos fatos”, diz ele. Tal afirmativa encontra eco em sua recusa em propor modelos analíticos ou teorias que tendam ao plano abstrato; as teorias devem ancorar-se nos fatos e os modelos, resultantes do exercício comparativo. Além disso, só é possível obter vasto material empírico com a colaboração de diversas especialidades; no interior destas, a função do etnologia seria o registro, a análise profunda e a comparação exaustiva dos fatos, com a ajuda, se necessário, de conhecimentos estatísticos. O etnógrafo deve ter a preocupação em ser exato; ter o sentido dos fatos e das suas inter-relações, de suas proporções e, consequentemente, de suas articulações. O dado determina o plano de estudo assim como os métodos mais apropriados para compreendê-lo. Finalmente, o exame minucioso dos aspectos vida social não se esgota em sua observação no momento presente, exigindo a análise histórica dos fatos colocados em comparação, entendidos como fenômenos históricos. Esta exigência de análise, longe de produzir uma tipologia, resulta na dedicação maussiana em analisar o desenvolvimento histórico de certos fatos ou ideias.

É em seu Manuel d’ethnographie (1926) que Mauss elabora uma divisão metodológica para a análise dos fenômenos sociais, qual seja: 1. Morfologia Social: demografia, geografia humana, tecnomorfologia. 2. Fisiologia: técnicas, estética, economia, direito, religião, ciências. 3. Fenômenos Gerais: língua, fenômenos nacionais, fenômenos internacionais, etologia coletiva. Mais do que romper com a observação empírica, externa e objetiva dos fatos sociais, tal como proposta por Émile Durkheim (1858-1917), Marcel Mauss aprofundou-a, no sentido de entender os fenômenos sociais em si mesmos, comparando aquilo que pode ser comparado e partindo, sempre, dos fatos concretos.

Por suas contribuições teóricas e metodológicas, assim como pela originalidade de suas formulações, Mauss foi apontado como o precursor do estruturalismo, em função das relações que estabelece entre linguística e etnologia; do funcionalismo, por sua crítica ao evolucionismo e por sua preocupação em entender os fenômenos sociais a partir dos fatos concretos; e da fenomenologia, por conferir importância ao caráter subjetivo e as emoções, alçando-os a temas de estudo.

Como citar este verbete:
FILHO, Olavo Souza & CIRNE, Michelle. 2016. "Método - Marcel Mauss". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: <http://ea.fflch.usp.br/conceito/método-marcel-mauss&gt;

autoria

Olavo Souza Filho e Michelle Cirne

bibliografia

DUBAR, Claude,  « La méthode de Marcel Mauss », Revue Française de Sociologie, n. 10-4, 1969, p. 515-521

MAUSS, Marcel, Manuel d’ethnographie (cours donnés à l’Institut d’Ethnologie de l’Université de Paris, réunis par M. Leiris & D. Paulme), Paris, Payot, 1947 (Trad. Port., Lisboa,  Editorial Pórtico, 1972)

MAUSS, Marcel, “An intellectual self-portrait” In: Philippe Besnard (ed), The Sociological Domain: The Durkheimians and the Founding of French Sociology Cambridge, Cambridge University Press, 1983

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Método - Marcel Mauss

Irving Goldman

Irving Goldman nasceu em 2 de setembro de 1911, no Brooklin, em Nova York, filho de Golda e Louis Goldman, imigrantes russos, e faleceu em 7 de abril de 2002, aos 90 anos de idade. Após concluir sua graduação no Brooklin College, em 1933, ingressou na Columbia University, instituição onde foi aluno de Franz Boas (1858-1942). Seu primeiro trabalho antropológico foi realizado com os índios Modoc, na Califórnia, em 1934. Para seu trabalho final de graduação na Columbia, estudou os Ulkatcho Carrier da Columbia Britânica (entre 1935-36), no noroeste dos Estados Unidos, pesquisa publicada na coletânea Acculturation in Seven American Indians Tribes (1940). Obteve seu Ph.D. em antropologia no ano de 1941, com a tese sobre os Cubeo do rio Cuduiari, na região do Vaupés colombiano, onde esteve entre 1939 e 1940. O trabalho de campo de dez meses entre os Cubeo é apresentado preliminarmente no artigo “Tribes of the Uaupés-Caquetá region”, publicado no Handbook of South American Indians (1948), dedicado aos povos habitantes da região do Uaupés-Caquetá de modo geral. Nesse artigo, Goldman apresenta parte dos dados coletados no seu trabalho, que depois viriam a ser publicados de modo mais detalhado e sistemático como The Cubeo (1963), monografia que inaugura os estudos etnológicos com trabalho de campo prolongado no noroeste da Amazônia.  
Após a pesquisa junto aos Cubeo, Goldman retorna aos EUA e assume o cargo de professor no Brooklin College entre 1940 e 1942, tendo, em seguida, se transferido para Washington, onde trabalharia como consultor no Bureau of Latin American Research. Torna-se professor no Sarah Lawrence College em 1947, onde permanece até 1980, ano em que se aposenta. Neste período, realiza diversas pesquisas antropológicas e publicações, entre as quais: Chamula, sobre esse povo da região de Chiapas, no México, em 1955, e The First Man (1955), escrito com sua então esposa Hannah Goldman, no qual o casal apresenta, de uma perspectiva paleo-antropológica, uma história do desenvolvimento do ser humano, do homem pré-histórico às primeiras civilizações no Oriente, África e América. Além desses trabalhos, inicia na década de 1960 estudos bibliográficos sobre as sociedades da Polinésia, resultando na monografia Ancient Polynesian Society (1970). Na sequência, dedica-se ao estudo dos índios Kwakiutl da Columbia Britânica, no noroeste dos EUA, debruçando-se sobre o tema do potlach, no qual revisita o material de Franz Boas (1858-1942), pesquisa que resulta na publicação da monografia The Mouth of Heaven: An Introduction to Kwakiutl Religious Thought (1975). Nos anos 1968-70, depois em 1979, Goldman retorna aos Cubeo, quando permanece, dessa vez, junto ao clã Hehénewa, e trabalha em novo livro sobre temas do universo religioso e metafísico dessa população (livro esse que permanece inconcluso e somente seria publicado postumamente por seu amigo Peter Wilson, em 2004). Entre 1980 e 1987, Goldman ensina na New School of Social Research, na cidade de Nova York.

Irving Goldman, c. 1969, Dep. of Anthropology, Smithsonian Institution
Os anos de Goldman na Columbia University foram marcados pela antropologia de Franz Boas. Segundo Peter Wilson, na introdução à monografia de Goldman sobre os Hehénewa (2004), os trabalhos de Goldman mostram a operacionalização de muitas ideias de Boas sobre antropologia, em particular sobre métodos em geral e sobre a etnografia, em particular. O legado de Boas é notável, sobretudo na primeira monografia sobre os Cubeo, marcada por forte preocupação com a história cultural, tal como ensinava Boas, e pelo propósito de buscar um padrão de cultura, noção elaborada por Ruth Benedict (1887-1948) a partir de seu entendimento das ideias de Boas sobre cultura.

Goldman logrou conjugar a preocupação boasiana com o trabalho de campo e os estudos bibliográficos, sem estabelecer hierarquias entre os dois tipos de empreendimentos. Além disso, dedicou-se ao estudo de povos e regiões diversas, como os Modoc da Califórnia, os Ulkatcho Carrier da Colúmbia Britânica, os Cubeo do noroeste amazônico, as sociedades da Polinésia e os Kwakiutl da Colúmbia Britânica. Apesar da diversidade etnográfica e regional que caracteriza sua obra, Goldman afirma a persistência de um mesmo tema ao longo da maior parte dessas investigações: trata-se da noção de aristocracia, do sistema de ranks e das noções correlatas de poder e hierarquia, tal como se apresentam nas várias regiões etnográficas que esse antropólogo investigou ao longo da vida.

Como citar este verbete:
PEDROSO, Diego Rosa. 2016. "Irving Goldman". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/autor/irving-goldman>

autoria

Diego Rosa Pedroso

bibliografia

CRAUDERUEFF, Mary, Register to the Papers of Irving Goldman, National Anthropological Archives, Smithsonian Institution, 2008


GOLDMAN, Irving, "The Alkatcho Carrier of British Columbia" In: Ralph LINTON  (org), Acculturation in seven american indian tribes, New York, D. Appleton-Century Co., 1940


GOLDMAN, Irving, "Tribes of the Uaupés-Caquetá region" In: J. H., STEWARD,  (org), Handbook of South American Indians, Washington, Smithsonian Institution, vol. III, 1948


GOLDMAN, Irving, The Cubeo: Indians of the Northwest Amazon, Urbana, The University of Illinois Press, 1963


GOLDMAN, Irving, Ancient Polynesian Society, Chicago and London, University of Chicago Press, 1970


GOLDMAN, Irving, The Mouth of Heaven: An Introduction to Kwakiutl Religious Thought, New York, John Wiley and Sons Inc., 1975

GOLDMAN, Irving, Cubeo Hehenewa Religious Thought: Metaphysics of a Northwestern Amazonian People, New York, Columbia University Press, 2004 


JACKSON, Jean, “Irving Goldman (1911-2002): A Brief Remembrance”, Tipití: Journal of the Society for the Anthropology of lowland South America, vol. 1 (1), 2003, p. 155-159

SCHILDKROUT, Enid & GOLDMAN, Irving, “A Conversation with Irving Goldman”, American Ethnologist, 16: 3, 1989, p. 551-563

 

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Goldman, Irving

Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande

Já em sua primeira publicação em 1937, o livro Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande ganhou lugar de destaque na obra do antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973). Fruto de vinte meses de trabalho de campo, realizado entre 1926 e 1929, junto a este povo do sul do Sudão, a monografia é vasta em contribuições tanto teóricas quanto etnográficas, resultantes de um envolvimento intenso com as ideias azande. A bruxaria, questão central do livro, longe de ser um tema concebido antes da ida a campo, se impôs como objeto de estudo por conta de sua presença constante entre os nativos e pela importância atribuída a ela, notada desde os primeiros contatos do antropólogo com a sociedade.

Nos treze capítulos e quatro apêndices que compõem a versão mais sintética do livro, lançada em 1976, Evans-Pritchard descreve a crença zande na bruxaria como um meio de explicar os infortúnios. Em uma abordagem próxima daquela posteriormente empreendida em Nuer Religion (1956), em que a noção de kwoth é o ponto de partida para interpretar a filosofia religiosa dos Nuer, o autor mostra como a bruxaria faz parte de um sistema de pensamento racional e coerente - que envolve os oráculos, a magia, a feitiçaria, os adivinhos e as drogas etc. - capaz de dar sentido não apenas a eventos físicos e objetivos, como faz a racionalidade científica ocidental, mas também aos acasos e a acontecimentos imprevisíveis. Cada parte desse sistema é utilizada para explicar e validar a outra, e as eventuais lacunas deixadas pelo fracasso de algum rito ou por inconsistências das respostas dos oráculos, por exemplo, são explicadas por uma variedade de noções místicas que são – e, segundo o autor, só poderiam ser – expressas no próprio idioma da crença. 

Contra-feiticeiro Azande, século XIX, foto de Richard Buchta, acervo do Pitt Rivers Museum (Wikimedia Commons)
Os Azande entendem a bruxaria como condição hereditária e biológica, que é disparada por um ato psíquico, por vezes involuntário, incitado por ciúme, inveja, ódio ou cobiça, e que desencadeia uma série de infortúnios a quem ela se destina. Evans-Pritchard conta que viu a luz característica da bruxaria atravessar a floresta e se instalar na residência de um homem que – não por acaso, segundo a lógica zande – faleceu pouco tempo depois. Uma vez que tais infortúnios vão das situações mais comezinhas até a morte, recorre-se cotidianamente a diversos tipos de oráculos, que tanto revelam a identidade do bruxo (o que também pode ser feito pelos adivinhos) quanto sanam dúvidas sobre assuntos impossíveis de serem revelados por inferência lógico-experimental. Principal inimiga da bruxaria, a magia combate os males por ela causados, curando doenças, controlando a agricultura e a caça, além de ser responsável  pela vingança contra os bruxos e feiticeiros identificados pelos oráculos. A magia é realizada de maneira consciente, pois depende da manipulação deliberada de drogas específicas para cada finalidade e da realização de encantamentos, o que nitidamente a diferencia da bruxaria. Distingue-se ainda a “boa magia”, aquela socialmente autorizada, da feitiçaria, maligna, imoral e antissocial, destinada a fazer mal deliberadamente a outrem, seja a seus negócios ou ao corpo do sujeito. Os ritos mágicos são raros e secretos e, embora sejam mais comuns entre os homens mais velhos, todo zande, diz o autor, é até certo ponto um mágico, já que tem contato com magia e com drogas em algum momento de sua vida.

Nesta obra, Evans-Pritchard dialoga com as principais teorias então correntes sobre a razão humana. Ao identificar a racionalidade que subjaz à bruxaria zande, a monografia avança em relação à teoria da mentalidade primitiva de Lucien Lévy-Brühl (1857-1939) e à noção de representações coletivas de Émile Durkheim (1858-1917), que lhe serviram de ponto de partida. A obra suscitou também uma pluralidade de linhas de descendência e abriu caminhos para o posterior desenvolvimento de subáreas no interior da filosofia, da psicologia, dos estudos da religião e da sociologia do conhecimento; serviu ainda de inspiração para os estudos de micropolítica, na medida em que mostra a dimensão sociológica, os conflitos e as relações de poder produzidos pelas acusações de bruxaria e feitiçaria, e para os estudos da transformação social em contextos coloniais e pós-coloniais, ao apontar alguns dos efeitos da administração anglo-egípcia na organização social e nas crenças dos Azande. A preocupação do autor em nuançar, e mesmo em colocar em questão, as diferenças entre os chamados povos tradicionais e os ocidentais-modernos, entre “nós” e “eles”, tem sido observada por autores das safras mais recentes da antropologia, que localizam neste estudo os germens do que veio a ser chamado posteriormente de antropologia simétrica.

Como citar este verbete:
MACIEL, Diogo Barbosa & CORTEZ, Renata Harumi. 2016. "Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/bruxaria-oráculos-e-magia-entre-os-azande>

autoria

Diogo Barbosa Maciel e Renata Harumi Cortez

bibliografia

BURTON, John W., “The ghost of Malinowski in the southern Sudan: Evans-Pritchard and ethnographic fieldwork”, Proceedings of the American Philosophical Society, v. 127, n. 4, 1983, p. 278-289


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EVANS-PRITCHARD, E. E., “The Dance”, Africa: Journal of the International African Institute, v.1, n. 4, 1928, p. 446-462.


EVANS-PRITCHARD, E.E., “Witchcraft”, Africa: Journal of the International African Institute, v.1, n. 4, Oct-Dec, 1929, p. 417-422


EVANS-PRITCHARD, E.E.,Witchcraft, Oracles and Magic among the Azande.  Oxford, Clarendon Press, 1937 (Trad. Bras. Eduardo Viveiros de Castro, Rio de Janeiro, Zahar editores, 2005)


EVANS-PRITCHARD, E.E., Nuer religion, Oxford, Clarendon Press, 1956


EVANS-PRITCHARD, E.E., “Sanza: a characteristic feature of Zande language and thought” In: Essays in social anthropology, London, Faber and Faber, 1962


EVANS-PRITCHARD, E.E., The Azande: history and political institutions, Oxford, Clarendon Press, 1971


GIUMBELLI, Emerson, “Os Azande e nós: experimento de antropologia simétrica”,  Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 12, n. 26, 2006, p. 261-297


JAMES, Wendy, “The anthropologist as reluctant imperialist” In: Talal Asad, Anthropology and the colonial encounter, London, Ithaca Press, 1973, p. 41-69


ROSA, Frederico Delgado, “O fantasma de Evans-Pritchard: diálogos da antropologia com a sua história”, Lisboa, Etnográfica, v.15, n. 2, 2011, p. 337-360


TRIPLETT, Timm, “Azande Logic versus Western Logic?”, The British Journal for the Philosophy of Science, v. 39, n. 3, 1988, p. 361-366

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Bruxaria

Nuer Religion

Nuer Religion (1956) faz parte da trilogia escrita pelo antropólogo britânico Edward Evan Evans-Pritchard (1902-1973) sobre os Nuer, povo que vivia, na época do trabalho de campo do autor, entre 1930 e 1936, às margens do rio Nilo, ao sul da então colônia britânica do Sudão. As incursões do antropólogo às terras nuer resultaram nas obras Os Nuer: uma descrição do modo de subsistência e das instituições políticas de um povo nilota (1940), Kinship and marriage among the Nuer (1951) e Nuer religion (1956), monografias consideradas clássicas que refletem acerca da política, da ecologia, do parentesco e da filosofia religiosa nuer. Nesta última obra, o antropólogo lança mão de noções ocidentais, como Deus e pecado, para desconstruí-las, delineando novas categorias a partir de termos e concepções dos próprios Nuer. Evans-Pritchard adota, assim, uma nova perspectiva sobre a religião, propondo uma maneira renovada de fazer e pensar o trabalho de campo e a própria Antropologia.

A ordenação do livro segue o traço fundamental do pensamento religioso nuer que é, segundo o autor, “eminentemente dualista”, realizando-se a partir de uma série de oposições, como céu/terra, alto/baixo e Deus/humanos. O antropólogo parte da noção mais importante da filosofia religiosa nuer, kwoth (espírito), em direção às demais noções que dela derivam, kuth nhial (espíritos de cima) e kuth piny (espíritos de baixo), para então analisar as relações entre religião e ordem social, símbolos e ritos religiosos nuer, em especial o sacrifício, bem como algumas de suas personagens. O capítulo que encerra o volume reúne reflexões teóricas mais amplas acerca da religião nuer, em uma perspectiva comparativa em relação a outros sistemas de pensamento religioso africanos e às proposições escritas por antropólogos que o precederam no estudo das religiões ditas primitivas.

A noção de kwoth é a peça central para o entendimento da filosofia religiosa nuer, descrita por Evans-Pritchard como a relação entre humanos e kwoth, que pode ser entendido como o espírito criador do mundo e da sociedade e, ao mesmo tempo, como um conjunto de diversas manifestações, que podem assumir diferentes significados de acordo com cada contexto:  são modos de “Deus”, e não sua própria essência, que é só Espírito. Tal concepção revela a dualidade material-imaterial presente na filosofia religiosa nuer e a escolha nativa em manter a separação entre as categorias espirituais e as coisas materiais. Kwoth é, então, uma noção que se desenvolve em uma dimensão estrutural, relacionando-se aos processos de fusão e fissão característicos dos sistemas políticos e de parentesco nuer: da mesma forma que os Nuer se reconhecem como uma nação e se dividem em tribos, aldeias, unidades domésticas e indivíduos, kwoth é, ao mesmo tempo, um em sua natureza e múltiplo em suas diferentes representações sociais, estabelecendo relações com cada seção da estrutura segmentar nuer. As refrações de kwoth podem se relacionar a uma variedade de grupos sociais e se manifestar de distintos modos e em diferentes graus, sem que ele deixe de ser considerado o guardião de todos os grupos. Assim, mostra o autor, a noção nuer de kwoth pode ser considerada, como a teoria nuer dos acontecimentos.

Sacerdote de pele de leopardo, Coleção E. E. Evans-Pritchard, Pitt Rivers Museum.

Evans-Pritchard descreve e interpreta a religião nuer como um sistema de ideias essencialmente interior, embora externalizado por meio de ações (resguardos e orações), e envolva personagens (os sacerdotes, kuaar e os profetas, gwan kwoth), cuja aparição e importância, recente entre os Nuer, se relaciona às políticas colonialistas inglesas da época. A própria noção de “pecado” (thec) é vista como consequência de faltas cometidas pelos humanos, sem contudo afetar a qualidade moral dos indivíduos; ela se refere apenas à condição espiritual, isto é, à relação pessoal com o Espírito. O bem e o mal, nesse sentido, ganham contornos muito diferentes dos que possuem no interior da moralidade cristã ocidental. Aos olhos do antropólogo, seria inapropriado pensar a religião nuer como um espelhamento da sociedade,  reduzindo-a a seus ritos, argumento que está na origem das críticas que empreende a Émile Durkheim (1858-1917) e a Marcel Mauss (1872-1950). Do mesmo modo, o pesquisador britânico tece duras críticas ao conceito de “índole pré-lógica” desenvolvido por Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), demonstrando que a lógica nuer não confunde relações ideais com as consideradas reais, e que construções nuer como “um pepino é um boi” não são da ordem da identidade, mas da analogia. É interessante notar que a mesma questão é enfrentada também em seu estudo Bruxaria, oráculos e magia entre os Azande (1937).

A obra de Evans-Pritchard convida a considerar a religião nuer como um modo de pensar a relação do homem consigo mesmo e deste com os espíritos-forças, além permitir pensar a natureza polimorfa e polissêmica do Espírito. Sua análise, em diálogo com a filosofia nuer, impõe a revisão da dimensão social dos conceitos de ordem religiosa, assim como a dimensão espiritual da estrutura social.

Como citar este verbete:
ARANHA, Aline; FREIRE, Gabriela & MENEZES, Hélio. 2015. "Nuer Religion". In: Enciclopédia de Antropologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, Departamento de Antropologia. Disponível em: http://ea.fflch.usp.br/obra/nuer-religion>

autoria

Aline Aranha, Gabriela Freire e Hélio Menezes

bibliografia

EVANS-PRITCHARD, E. E., Oracles, witchcraft and magic among the Azande. Oxford, Claredon Press, 1937 (Trad. Bras. Eduardo Viveiros de Castro. Rio de Janeiro, Zahar editores, 2005, 2a ed.)

EVANS-PRITCHARD, E. E., The Nuer: a description of the modes of livelihood and political institutions among the Nuer. Oxford, Claredon Press, 1940 (Trad. Bras. Ana M. Goldberger Coelho. São Paulo, Editora Perspectiva, 1978)

EVANS-PRITCHARD, E. E., Kinship and marriage among the Nuer. Oxford, Claredon Press, 1951.

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The Nuer Conception of Spirit in Its Relation to the Social Order”, American Anthropologist, n.s., Vol. 55, No. 2, 1951, p. 112-121

EVANS-PRITCHARD, E. E. , “Some features of Nuer religion”, The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland v. 81, 1951, p. 1-13

EVANS-PRITCHARD, E. E.,  “A problem of Nuer religion”, Sociologus 4, 1954, p. 23-41

EVANS-PRITCHARD, E. E., “The meaning of sacrifice among the Nuer” in The Journal of the Royal Anthropological Institute of Great Britain and Ireland v. 84, 1954, p. 21-33

EVANS-PRITCHARD, E. E., Nuer religion. Oxford, Oxford University Press, 1956

EVANS-PRITCHARD, E. E., Theories of primitive religion. Oxford: Oxford University Press, 1965

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