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Sediado em um edifício que foi erguido às margens do Ipiranga para celebrar a independência do Brasil, o Museu Paulista (MP), popularmente conhecido como Museu do Ipiranga, é o primeiro museu público fundado no estado de São Paulo e o maior monumento erguido em São Paulo durante o Império. Construído pelo engenheiro e arquiteto Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844-1915), o Monumento do Ipiranga foi inaugurado em 1893, já durante a República. Dois anos depois, o museu seria instalado no interior do edifício-monumento.

Monumento do Ipiranga, Luiz Carlos Peixoto, 1893. Wikimedia Commons.

Seu acervo inicial foi composto pela tela Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo (1843-1905), e por uma antiga coleção particular, o chamado Museu Sertório. As autoridades republicanas decidem, entretanto, dedicá-lo principalmente à aquisição de coleções de história natural da América do Sul, não por acaso o médico e naturalista alemão Hermann von Ihering (1850-1930) é escolhido como primeiro diretor do MP, permanecendo no cargo entre 1895 e 1916. Embora durante os 21 anos da gestão de von Ihering a instituição tenha desempenhado, sobretudo, a função de museu de história natural, nela também são aceitas doações de pinturas históricas, tais como a obra Fundação de São Vicente (1900), de Benedito Calixto (1853-1927), adquirida pelo governo do estado. Além disso, muitas obras de arte são também adquiridas para que se formasse no MP uma galeria artística, voltada à pintura. Em 1917, Afonso Taunay (1876-1958), atuante membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (IHGSP), é designado pelo governo paulista para a direção da casa e recebe a missão de transformá-la também em um museu voltado à história do Brasil e, mais especificamente, à história de São Paulo, visando às comemorações do Centenário da Independência.

Engenheiro, proveniente de uma família de artistas e interessado nos estudos históricos, Taunay, ao longo dos 29 anos de sua gestão, organiza a seção histórica do museu de modo a conduzir os visitantes por um percurso expositivo que propõe uma narrativa sobre a emergência da nação brasileira como uma história protagonizada pelos paulistas. Neste percurso, os visitantes são recebidos no saguão de entrada pelas figuras dos bandeirantes Fernão Dias e Raposo Tavares, esculpidos em mármore por Luigi Brizzolara (1868-1937). Esses dois monumentais bandeirantes e as telas alusivas ao início da capitania de São Vicente, concluídas já na década de 1930, constituem o início de um trajeto visual que se prolonga pela escadaria, no qual são aludidos a formação econômica e territorial do Brasil por meio de esculturas de bandeirantes e pinturas dos “ciclos históricos”, e se encerra no primeiro andar, no chamado salão nobre, onde os visitantes se veem diante da cena histórica do grito de D. Pedro I representada em Independência ou Morte. Para aumentar o espaço destinado à exposição dessa narrativa histórica, é criado em 1921 o Museu Republicano em Itu, uma extensão do Museu Paulista no interior do estado. Anos depois, ainda durante a gestão de Taunay, em 1939, é projetado o atual Museu de Zoologia (MZ) da Universidade de São Paulo (USP), para onde é transferida parte do acervo de zoologia.

Taunay é também o responsável pela criação de uma seção de etnografia, antes inexistente no museu. Já em 1946, o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), ao suceder a Taunay na diretoria da instituição, cria uma seção de etnologia, chefiada pelo etnólogo alemão Herbert Baldus (1899-1970), acentuando assim a atuação do MP como um importante centro de pesquisas e divulgação da antropologia no Brasil. Além de montar exposições sobre as culturas indígenas sul-americanas e conduzir explorações etnográficas por diversas regiões brasileiras, a direção do MP se destaca pela produção e veiculação de um grande número de textos antropológicos escritos por pesquisadores brasileiros e estrangeiros. Em 1989, a quase totalidade desse acervo etnológico é transferida para o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

Uma série de desmembramentos marca, portanto, a trajetória do Museu Paulista desde 1905, com a transferência de muitas pinturas do seu acervo – como A Partida da Monção (1897), de Almeida Júnior (1850-1899) – para compor a coleção inicial da Pinacoteca do Estado. Essa trajetória, não foi, entretanto, linear. A tela Fundação de São Paulo, de Oscar Pereira da Silva (1867-1939), comprada para a Pinacoteca, foi transferida para o MP em 1929, ocasião em que A Partida da Monção foi recuperada por Taunay para integrar uma sala, no próprio MP, dedicada às monções, tomadas como o último ciclo bandeirante. A incorporação plena do Museu Paulista à USP ocorre em 1963, durante a gestão de Mário Neme (1912-1973), embora o decreto federal que criou a USP já tivesse estabelecido, em 1934, a incorporação do museu como instituição complementar, para ampliar o escopo da ação e do ensino universitários. Muitos professores da USP irão se suceder na direção do MP; um deles é Ulpiano Bezerra de Meneses (1936), responsável pela formulação do Plano Diretor de 1990, que define a área institucional do museu, após esses desmembramentos, como um museu exclusivamente de história, voltado à problematização da cultura material como documento para a interpretação do passado.

O Museu Paulista possui hoje mais de 125 mil itens, constituídos por iconografia, mobiliário, objetos e documentação textual do século XVII até meados do século XX. Seu acervo tem sido ampliado continuamente, principalmente no que se refere a São Paulo do período de 1850 a 1950. Embora seja um dos museus mais visitados da cidade, ele está fechado para reforma desde 2013, visando seu restauro e a ampliação de sua área para garantir a acessibilidade. A previsão é que seja reaberto apenas em 2022, não à toa durante as comemorações do bicentenário da Independência do Brasil.

Museu Paulista

M
data de publicação
12/12/2016
autoria

Adriana de Oliveira Silva e Thaís Chang Waldman

palavras chave
Brasil, museu
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